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Capítulo XLVI (46) – Calamidade

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Capítulo XLVI (46) – Calamidade

Calamidade.

O nome daquele tipo de criatura me deixava enjoado.

Não era a primeira vez que eu via uma dessas criaturas. Já havia lutado contra algumas delas em tempos passados. Criaturas capazes de destruir uma cidade e, se não forem paradas a tempo, uma nação inteira.

Contudo naquele momento, eu não estava nem um pouco pronto ou preparado para lutar contra uma dessas.

— O que vamos fazer? — Lefkó estava impaciente, eu sentia no seu tom de voz.

— Matá-la…

Coloquei a mão no meu rosto; eu estava exausto, provavelmente não aguentaria a pressão mental de ativar uma nova carta em um espaço tão curto de tempo.

Eu tinha alguma outra opção? Tinha que matar a calamidade aqui e agora.

Não podia deixar essa criatura livre em Daolong, sabe-se lá o que ela poderia fazer. Talvez, se eu tivesse o acesso remoto ao registro da Biblioteca dos Sábios, eu poderia ter alguma informação sobre o nome da calamidade e seus pontos fracos. Isso era praticamente impossível. A biblioteca estava a anos-luz de distância, e demoraria pelo menos uma semana até que eu recebesse alguma resposta.

— Thomas… — Lefkó moveu o pescoço e me encarou. — Como você quer matar uma coisa dessas sem uma “letra que esmaga o mundo”?

Eu tentava pensar em uma boa solução, uma boa carta a ser utilizada contra a criatura. E o tempo passava, e a calamidade crescia cada vez mais de tamanho.

— Thomas! — gritou Lefkó, quase no meu ouvido.

Olhei para cima.

A calamidade estava imóvel no ar; todos os seus milhares de olhos estavam fixos em mim.

Em mim?

Não, era pior.

Seus olhos estavam focados em Mei.

— Thomas! — repetiu Lefkó uma terceira vez.

— O que você quer? — Girei os olhos e suspirei irritado.

— Faça alguma coisa.

— Já disse, vamos mata-lá.

— Alguma coisa realista.

— Eu não sei! — gritei para ela. — Pelo amor do Primeiro Messias. Estou pensando ainda.

— Pense mais rápido.

A criatura moveu-se, levitava com graça acima de nós, e quase que encobria o céu, a luz das luas mal chegava até nós.

— Estou sem o baralho, o que você quer? Sem um artefato, ou uma “Letra que esmaga o mundo”, não tenho como lutar contra uma calamidade.

Eu senti algo nas minhas costas, algo rápido como uma flecha.

Não me virei para encarar, sabia que se olhasse, seria atacado no mesmo instante.

— Quem é você, jovem? — A voz masculina grave ecoou por detrás de mim.

— Ninguém — respondi, com um sorriso irônico, embora ele não pudesse ver.

Ele deu uma pequena gargalhada, e sua postura ameaçadora se esvaiu. Virei-me para encará-lo.

Era um senhor de meia-idade, cuja longa barba grisalha balançava com a brisa marítima. O cabelo negro com mechas prateadas estava preso com um belo ornamento de jade. Ele levitava acima das ondas, apoiado em uma longa espada voadora, maior que um homem. Suas túnicas amarelas exibiam pura graciosidade, e ao redor de sua cintura, havia uma cabaça nova, quase brilhante de tão polida.

— Não sinto Qi em você — murmurou ele, ao alisar a barba e se aproximar um pouco do barco. — O que faz aqui, mortal?

— Também não sei, só quero ir embora.

Outra gargalhada.

— E a garota? É sua noiva? Sua irmã?

A atenção dele se voltou para Mei, ainda desacordada. O Qi dela vibrava para fora do corpo, e ela tremia um tanto.

— O que aconteceu com ela? — perguntou ele, uma preocupação sincera em sua voz.

— Não sei.

Eu não mentia para ele; era definitivamente verdade. Naquele momento, eu não tinha a mínima ideia do motivo pelo qual Mei havia desmaiado. Talvez fosse pelo choque de perder seus parentes. Ou pelo cansaço da luta.

— Senhor, não percamos tempo com mortais. — Um jovem se aproximou e posicionou sua espada voadora ao lado do senhor. — A besta espiritual deve ser contida imediatamente.

Tinha uma aparência quase infantil, olhos amarelos grandes, um corpo baixo e cabelos castanhos curtos. Mesmo assim, seu tom de voz e sua postura transmitiam autoridade.

— Deixe-me divertir um pouco. — O senhor sorriu para o garoto.

Três outros cultivadores apareceram logo atrás. Todos em suas espadas voadoras. Seus rostos eram sérios e focados.

— Quem é você, mortal? — questionou-me o jovem, ao olhar diretamente para a minha alma.

— Ninguém — respondi firme.

— Que animal é esse que levas consigo? — Apontou para Lefkó.

— Apenas uma cobra de estimação.

Lefkó apertou um pouco meu pescoço; obviamente não havia gostado da minha resposta.

— E quem é a garota?

— Ninguém — repeti para ele. Eu não tinha nenhuma boa desculpa ou explicação em mente naquele momento.

— Então você não se importa se eu der fim ao sofrimento dela. — Ele apontou a ponta do dedo para Mei, e foi o suficiente para emitir uma pura intenção de matá-la.

— Não muito, mas lhe asseguro que lhe farei se arrepender disso. — Cocei o nariz, indiferente à ameaça dele.

O senhor começou a gargalhar.

— Um belo mortal temos aqui!

— Lidamos com eles depois. — O jovem deu de costas e levitou em sua espada, e os demais cultivadores em encontro da calamidade.

— Não vá muito longe — disse o Senhor, ainda sorrindo, antes de se posicionar à frente do grupo.

Eles se afastaram de nós, e eu não pude deixar de soltar um suspiro aliviado.

— Quem eram eles? — indaguei para Lefkó.

— Provavelmente cultivadores além do Mar do Dragão, talvez do Reino Celestial.

A resposta me deixou mais apreensivo.

— Eles são bem fortes, estão nas últimas camadas do quinto reino. As raízes espirituais deles são bem definidas.

— Acha que pode matá-los?

Sentei-me, e os observei se tornarem pontos distantes ao longe.

— Como? — Ela ficou pensativa por um momento. — Sim, Thomas, acho que você consegue vencê-los com o baralho imperial sem problemas.

— Eu não estou em condições de lutar agora. Quero saber se você consegue.

— Eu? — Eu sabia que apesar de não ter músculos para sorrir, havia uma enorme felicidade em suas palavras.

— Assim que eles derrotarem a calamidade. Mate todos eles, todos, não deixe testemunhas, não quero ter nenhum problemas com mais fofocas. Você está livre para fazer o que quiser.

— Como quiser Thomas…

Cocei a cabeça, um tanto frustrado. Tudo havia saído do controle.

O aparecimento da calamidade me deixava tantas dúvidas. Daolong também era o lar de calamidades? Isso era algo que eu definitivamente não previa, e mudava completamente o panorama da minha missão.

Cansado, com o corpo dolorido e a mente lenta, pesada pela exaustão e pelo sono, deitei-me no banco do bote. Mei dormia tranquilamente, tão quieta e serena que parecia estar completamente alheia ao caos ao nosso redor.

— Volto logo… — murmurou Lefkó, enquanto seu corpo começava a se remodelar em uma bela mulher.

— De preferência inteira.

Deitei-me novamente e fechei os olhos. Em seguida, transportei minha consciência para o corpo de Lefkó.

Era uma sensação estranha.

Estar dentro de outro corpo, observar o mundo através de outros olhos e sentir tudo aquilo que ela sentia, o vento sobre a pele, o cheiro do mar, o movimento das ondas, e, ainda assim, não poder fazer absolutamente nada. Eu apenas existia ali, como um espectador.

Lefkó flutuou acima das ondas e estendeu uma das mãos em direção ao mar. A água começou a se erguer, e formou uma esfera líquida ao redor do bote.A massa de água envolveu completamente a embarcação, e a ocultou sob a superfície. Dentro daquela bolha, nós estaríamos protegidos, cercados por uma bolsa de ar. Eu e Mei estávamos desacordados, escondidos nas profundezas, enquanto Lefkó partia para enfrentar os cultivadores no momento ideal.

A noite ainda estava longe de acabar.