Capítulo XLVII (47) – Eles São
Capítulo XLVII (47) – Eles São
Os cultivadores atacavam a calamidade de todos os lados.
Suas espadas voadoras cortavam os céus, enquanto a nuvem de cogumelo começava a se dispersar. À frente do grupo, o senhor de meia-idade mantinha os olhos fixos na criatura. Com movimentos rápidos das mãos, indicava aos companheiros suas posições e a estratégia de ataque.
Então, com um último aceno, a formação se desfez.
O senhor permaneceu de frente para a calamidade, sem se intimidar com seus milhares de olhos ou dentes. Os três cultivadores avançaram pelos céus e se posicionaram acima da criatura, enquanto o jovem desceu rapidamente, em busca de uma brecha por baixo.
Eles cercaram a calamidade e se prepararam para o ataque conjunto.
Foi como se os céus se abrissem.
Os três homens, acima da calamidade, moveram as mãos em perfeita sincronia, e seus corpos se transformaram na mais pura das luzes. Três espadas amareladas, quase transparentes, surgiram a partir deles. Eram gigantescas, com três metros de altura.
Realizaram um movimento de estocada no ar, e as espadas seguiram seus comandos. Desceram em alta velocidade até atingirem a calamidade. Penetraram por entre as escamas e se firmaram, incapazes de alcançar a carne profunda.
Um urro ensurdecedor ecoou pelos céus, acompanhado por um gemido de dor.
O jovem cultivador começou seu ataque. Golpeou com a palma da mão, a força do ataque se espalhou e deixou marca de uma mão gigantesca impressa na pele da criatura.
Então, as três espadas conseguiram penetrar ainda mais fundo e atingiram o cerne da calamidade. Sangue azul-marinho caiu no mar, com a força de uma torrente.
Houve um segundo rugido, muito mais alto que o primeiro.
A calamidade contorceu seu corpo sinuoso e começou a girá-lo, cada vez mais rápido. As espadas se desprenderam de suas escamas, e foram arremessadas para longe antes de se desfazerem no ar em uma explosão de luz prateada.
A criatura serpenteava descontroladamente pelos céus, enrolava o próprio corpo sobre si mesma. Movia-se de maneira tão imprevisível que parecia não deixar nenhuma brecha para os cultivadores atacarem.
Abriu a enorme mandíbula em direção aos céus.
Centenas de fileiras de dentes surgiram umas atrás das outras, cada um grande o suficiente para engolir um homem inteiro. Sua boca era tão colossal que poderia devorar um palácio. Todos os seus olhos se voltaram para o senhor de meia-idade. Ele permanecia diante da criatura, com uma calma extraordinária, apenas alisava sua barba grisalha com grande indiferença.
A calamidade avançou.
Seu corpo gigantesco rasgou os céus em direção ao cultivador, com uma ferocidade capaz de fazer tremer o próprio mar.
O senhor não se moveu.
Em um único movimento, a calamidade o engoliu.
Suas mandíbulas se fecharam ao redor dele. Os menores de seus dentes eram maiores que o próprio homem.
Um silêncio momentâneo.
Até que veio um rugido bestial profundo.
O maior de todos. Tão alto que obrigou todos a taparem os ouvidos. Até mesmo Lefkó, que estava bem distante do centro da batalha, foi obrigada a fazer o mesmo.
O sangue da criatura começou a chover sobre o mar.
Um enorme buraco se abriu no meio de sua testa. O senhor saiu inteiro. Como se tivesse perdido a força, a cabeça da calamidade tombou no mar, acompanhada pelo restante de seu corpo.
Ele segurava, em uma das mãos, uma pequena pérola negra. O objeto parecia puxar a luz ao seu redor, e criava uma estranha sombra sobre a mão do senhor.
O restante do grupo se aproximou dele. Todos estavam extremamente sérios; ele era o único que sorria.
Durou pouco.
A água do mar começou a borbulhar, como uma chaleira fervente. As ondas cessaram. Uma incômoda sensação de morte tomou o ar.
O senhor agarrou a pérola negra, que tentava puxá-lo para baixo. Tentou segurá-la, todavia, seu corpo continuava sendo arrastado, sobre sua espada, para dentro do oceano.
Sem escolha, deixou o tesouro seguir seu caminho.
A pérola tocou a água do mar.
Houve escuridão.
Ninguém conseguia enxergar nada.
Era como se toda a luz tivesse sido extinta.
Repentinamente, uma bola de fogo iluminou os céus, seguida por um enorme feixe de luz concentrado diretamente sobre os cinco homens.
A calamidade ressurgiu das profundezas do mar, totalmente recuperada do ferimento. Seus centenas de olhos emitiram uma rajada concentrada sobre eles.
Tentaram cobrir seus corpos com escudos de Qi. De nada serviu, além de prolongar o sofrimento. A temperatura era tão alta que seus corpos entraram em combustão.
O ataque durou pouco mais de dez segundos, até finalmente cessar. A calamidade voltou a se erguer nos céus, ainda maior.
— Isso foi… — murmurou Lefkó, impressionada com aquela demonstração de poder.
Uma sensação incômoda surgiu em seu pescoço.
Ela segurou o golpe antes que a atingisse.
— Quem é você? — indagou o velho senhor, ao aparecer atrás dela.
Para nossa surpresa, ele estava intacto. Não havia nenhum ferimento ou qualquer evidência da batalha em seu corpo.
— Por que isso lhe interessa? — Lefkó afastou o punho do senhor e recuou um pouco, para ganhar uma pequena distância. Ela flutuava logo acima da linha da água, como se caminhasse sobre as ondas.
— Sun Wen Mò! — bradejou o jovem, enquanto apagava as chamas que consumiam a manga esquerda de suas vestes. — Mate a besta espiritual!
— Dián, temos preocupações maiores. — Ele fixou os olhos em Lefkó e girou as mãos, e fez sua espada voadora se erguer ainda mais.
— Aquilo vai destruir Tianhang.
Uma sombra se projetou sobre a noite. A calamidade voava acima da cabeça deles.
— Só precisamos de um segundo ataque — suspirou. Deu as costas e ignorou Lefkó.
— Temos que chamar reforços, ela matou…
— Eu vi o que aconteceu, Píng Hàn Dián! — Sua voz saiu grave como um trovão. — Não repita.
Ele bufou, irritado, e voltou os olhos para Lefkó.
— Eu lido com você depois.
— Se você diz… — Ela sorriu para ele, debochada.
Os dois cultivadores subiram aos céus em suas espadas, e se aproximaram da calamidade.
Sun Wen Mò avançava à frente, e Píng Hàn Dián permanecia alguns metros atrás
A calamidade os observava. Alguns de seus olhos se viraram para baixo, enquanto os outros estavam focados em outras coisas.
A criatura havia crescido quase o dobro desde que emergira da ilha destruída dos Hua Yuling. Seu corpo serpentino se estendia por centenas de metros, metros? Não, quilômetros. Aquilo era imenso. Ela enrolava-se entre as nuvens. As escamas negras refletiam os poucos raios de luz das luas, enquanto as linhas azuladas entre elas pulsavam cada vez mais rápido.
Píng Hàn Dián ergueu sua mão. Seus dedos estavam azuis, muito azuis, quase roxos. Tocou as escamas da calamidade, que congelaram instantaneamente. O gelo começou a se expandir e travá-la no ar.
Sun Wen Mó deu a segunda parte do golpe. Seus punhos em chamas quebraram o gelo, e romperam a carapaça dura. O choque térmico do fogo com o gelo abriu uma ferida. O sangue não escorreu, tamanha a temperatura do golpe de Sun Wen Mó, o ferimento cauterizou-se no ato.
A calamidade reagiu, girou seu corpo com incrível agilidade para uma monstruosidade daquele tamanho.
Sua boca torceu para tentar abocanhá-los.
Ou pelo menos foi isso que eles pensaram.
Ficaram imóveis, assim como da primeira vez. Estavam dispostos a ser engolidos pela criatura para tentar destruí-la por dentro.
Um erro fatal.
A calamidade não abriu a boca como antes. Apenas entreabriu as mandíbulas, o suficiente para que uma névoa alaranjada se espalhasse pelo céu e cobrisse tudo ao nosso redor.
Éramos incapazes de enxergar qualquer coisa lá em cima. O céu brilhava com trovões e relâmpagos, e a névoa parecia explodir ao contato com a eletricidade.
Até que algo despencou das alturas.
Um corpo.
Era Píng Hàn Dián.
Seu corpo estava grotescamente inchado. Os olhos haviam desaparecido, como se tivessem sido arrancados das órbitas, e a metade inferior de seu corpo estava completamente carbonizada.
Ele caiu no mar.
O impacto despedaçou seu corpo, espalhou sangue e fragmentos pela superfície da água.
Um grito agudo ecoou no céu.
A Calamidade começou a descer lentamente, enquanto a névoa alaranjada se dissipava ao seu redor.
A silhueta de Sun Wen Mó saiu dos céus; o senhor segurava a pérola negra em uma das mãos. Seu corpo estava coberto por dezenas de buracos, e uma gosma acinzentada escorria das feridas, cobria sua pele e suas vestes.
Ele sorriu uma última vez.
Então, sua forma explodiu em mil pedaços, todos envoltos pela gosma negra.
A Calamidade havia derrotado os cinco cultivadores em apenas alguns minutos de batalha e, no alto da noite, parecia ainda mais majestosa e grandiosa.
— Eles são… — Lefkó girou a cabeça, estalou os dedos e preparou-se para lutar. — Orgulhosos demais…
Um sorriso surgiu em seus lábios. A emoção do desafio ardia em seu coração.