LNCrawler

Capítulo XLVIII (48) – Eu Sou

Cobras, Cartas e Cultivo — illusia.com.br · All chapters

Capítulo XLVIII (48) – Eu Sou

— Dezesseis Caminhos para o Paraíso — murmurou Lefkó, ao sentir a vibração do poder em seu corpo.

No exato instante em que sua pele negra foi recoberta por um brilho dourado, todos os olhos da calamidade se voltaram contra ela.

— Primeiro Caminho.

Seu sussurro baixo era semelhante a uma invocação ancestral. Fechou as pálpebras, concentrou-se em sentir a pulsação fluir. Levitou um pouco acima do mar, e olhou para a criatura acima dela.

A criatura a encarou de volta, e girou seu corpo na direção de Lefkó.

Um suspiro longo e contido, um golpe lento no ar, tão lento que parecia fazer o tempo desacelerar. Estendeu o braço por completo, e…

A própria realidade fragmentou-se. Uma pequena fenda abriu-se diante de sua mão, como uma rachadura no próprio ar. Não havia luz do outro lado, somente escuridão, profunda e silenciosa. A ponta afiada de uma espada prateada pendeu para fora. Lefkó segurou a parte posterior da abertura e puxou a arma para fora, como se a retirasse de uma bainha invisível.

Era uma lâmina de uma mão e meia, longa e pesada, com dois gumes tão afiados que poderiam cortar o ar. O metal reluzia como prata, havia ornamentos na guarda e inscrições em runas antigas, semelhantes a hieróglifos, que brilhavam conforme Lefkó respirava.

Balançou a lâmina com a mão esquerda, como se testasse seu peso e firmeza. Sorriu, permaneceu de frente para a calamidade, e aguardou que esta se aproximasse.

A espessa névoa alaranjada escorreu da boca do monstro e se espalhou sobre o oceano. O ar tornou-se pesado e corrosivo. Mesmo à distância, o gás fazia os olhos arderem e embaralhava os sentidos, distorcia as formas e os sons ao redor. Lefkó estendeu a mão direita livre para baixo. Uma coluna de água ergueu-se das ondas e subiu por seu braço, envolveu seu corpo como uma segunda pele. A água girou ao redor dela, em uma camada que bloqueava o gás.

Lefkó mantinha a respiração calma, compassada, os olhos fixos na criatura, sem perder o foco.

— Sétimo Caminho — proferiu, enquanto sua espada era consumida por uma brasa ardente.

O gás altamente inflamável se transformou em uma bola de fogo.

A explosão fez a cabeça da criatura pender para o lado. Por um instante, seus milhares de olhos perderam a sincronia.

Ela fechou a boca assim que voltou a si, e iniciou um segundo ataque.

Subiu ainda mais aos céus e mergulhou em direção a Lefkó. Seus olhos brilharam em um azul incandescente e dispararam uma rajada concentrada.

Lefkó estendeu a mão e sentiu o calor romper, aos poucos, a barreira protetora de água. Ergueu a palma e absorveu a rajada. Os dedos começaram a atrofiar, ficar roxos. Antes que sua mão se tornasse pó, ela a girou e rebateu o feixe.

A parte superior da cabeça da calamidade foi atravessada pelo feixe. Um dos grandes olhos, localizado no centro da testa, foi partido ao meio, deixando escorrer um líquido preto e viscoso.

Não houve rugido de dor. A criatura apenas preparou um terceiro ataque, ainda mais potente.

A calamidade permaneceu imóvel nos céus. Apenas observava Lefkó, lá embaixo.

Seu corpo começou a se regenerar, como uma costura realizada em velocidade instantânea.

Com um balançar de cabeça frustrado, Lefkó esticou os dedos, e os retornou à condição normal. Prendeu a respiração, tensionou as pernas, fechou os olhos.

Aguardou por um momento, até estar preparada. E se lançou em alta velocidade contra o monstro, disposta a tentar separar a cabeça da criatura do restante do corpo.

Houve escuridão.

Ninguém poderia enxergar nem um palmo à sua frente. Era uma escuridão densa, como se toda a luz das luas e do gigante gasoso no céu se tornasse vazia como o próprio espaço.

A escuridão não durou muito; quando a luz voltou, a Calamidade havia desaparecido.

Uma criatura gigantesca como aquela não poderia simplesmente ter evaporado em pleno ar. Contudo, não havia nenhum rastro, nenhuma prova sequer de sua existência.

Lefkó tinha certeza de que ela ainda estava ali, embora seus olhos não conseguissem encontrá-la.

O ataque veio por trás.

Quase sem tempo para reagir, Lefkó ergueu a espada e aparou os gigantescos dentes da calamidade. A força do impacto a empurrou para trás no ar. Ela tensionou todos os músculos do corpo, ao usar toda a sua força para manter as mandíbulas afastadas e impedir que fosse engolida.

A calamidade havia se camuflado no ambiente. Seus dentes ainda refletiam alguns dos poucos raios de luz que atravessavam a noite, fora isso, era impossível determinar por meios convencionais sua posição, ou sequer a extensão de seu corpo.

Num último esforço, Lefkó saltou em pleno ar por cima da cabeça da criatura. No mesmo movimento, girou o corpo e desferiu um corte horizontal.

A lâmina estava a metros do corpo da calamidade. O golpe projetou-se para além da espada, atravessando o próprio ar como uma lâmina invisível. Uma série de olhos menores atingidos pelo ataque se desfizeram em um líquido viscoso que começou a escorrer pela cabeça da calamidade.

Lefkó sorriu. Era exatamente o que esperava.

A ferida não se fechou, continuou aberta. A carne se contorcia ao redor do corte, tentava se reconstruir em uma tentativa falha. A calamidade tentou recriar seus olhos, mas estes se desfaziam como se o corte permanecesse.

Jogou a espada para frente, que se fixou dentro do maior olho do centro da testa do monstro.

— Nono Caminho — disse ao estalar os dedos.

Um relâmpago veio dos céus, caiu diretamente sobre a espada e se espalhou sobre a pele da criatura.

Espada Cinzenta.

Esse era o nome da arma que Lefkó empunhava.

Era um artefato, o tipo de objeto mais adequado para matar uma calamidade, com exceção das letras que esmagam o mundo.

A descarga explodiu o maior dos olhos da criatura e destruiu dezenas dos menores ao redor. Antes que a calamidade pudesse reagir, Lefkó avançou num piscar de olhos, agarrou o cabo da espada e a arrancou do corpo do monstro.

Foi um erro.

Embora severamente danificado, o grande olho ainda estava vivo.

E ainda conseguia disparar.

Uma rajada de luz explodiu de sua superfície.

Lefkó mal teve tempo de perceber o ataque. Seu corpo foi lançado violentamente para o alto, subindo com tamanha força que atravessou as nuvens em poucos instantes.

Abaixo dela, a Calamidade aguardava de boca aberta, as enormes mandíbulas escancaradas, pronta para devorá-la assim que alcançasse o oceano.

Lefkó observou a criatura se aproximar.

— Quinto Caminho — murmurou.

Naquele instante, ela já sabia que havia vencido.

Uma corrente de vento soprou às suas costas, acelerando ainda mais sua queda. Seu corpo ganhou velocidade até ultrapassar o limite da própria queda livre.

A calamidade abriu ainda mais as mandíbulas.

Lefkó continuou descendo, sem demonstrar qualquer resistência.

Então, no momento exato, a criatura fechou a boca e a engoliu.

No próximo segundo, os olhos da calamidade começaram a brilhar em um tom cinza escuro.

A carne foi partida de dentro para fora. Um corte vertical que atravessou todo o corpo, e o fatiou ao meio.

— Você nunca teve chances. — Lefkó saiu intacta. Com a pérola negra na sua mão direita. — Eu sou… — murmurou, ao fincar a pérola na ponta da espada e a observar se desfazer em pó. — uma Lorde.

Uma Lorde, não uma lady, ou uma dama. Uma Lorde. O título para aqueles capazes de empunhar artefatos.

Isso é, o que eu sou no final, um Lorde.