LNCrawler

Capítulo XLIX (49) – Consequências

Cobras, Cartas e Cultivo — illusia.com.br · All chapters

Capítulo XLIX (49) – Consequências

Algumas horas haviam se passado desde que saímos da ilha dos Hua Yuling.

Conseguimos embarcar nos últimos minutos, antes que o nosso navio partisse para Shuǐ Tiān Mén. Era um navio de junco grande, com mais de cem metros de comprimento e quarenta de largura. Tinha nove longos mastros. Era tão grande que seu tamanho rivalizava facilmente com os navios de vapor da minha terra natal.

Conforme nos aproximávamos do nosso destino, a tempestade ficava cada vez pior. Fechei o casaco, enquanto a brisa úmida e gelada cortava o meu peito, e desci as escadas para a parte interna do navio.

Havia mais de uma centena de passageiros, dos mais variados tipos. Cultivadores de terras distantes, monges, diplomatas e espadachins solitários. Alguns viajavam sozinhos. Outros estavam acompanhados por discípulos, criados ou pequenos grupos de seguidores. Pela primeira vez, eu não chamava tanta atenção assim. Ninguém perguntou de onde eu era. Seus rostos eram sérios. Alguns conversavam em voz baixa. Outros permaneciam sentados e observavam a chuva através das janelas. Havia ainda aqueles que simplesmente fechavam os olhos e tentavam meditar ou dormir, apesar do balanço constante do navio.

Atravessei o salão principal, anterior aos corredores que levavam às cabines privativas.

Com exceção de um pequeno grupo que bebia alegremente em uma das mesas, o restante dos passageiros permanecia em silêncio, preso em seu próprio mundo.

Lefkó estava enrolada em meu pescoço, em sua forma de serpente branca. Desde a luta contra a Calamidade, ela havia ficado mais quieta.

Nossa cabine era pequena, mas confortável. Havia duas camas, uma pequena mesa próxima à janela e alguns armários de madeira. Uma lamparina balançava no teto conforme o navio avançava pelas ondas.

Eu havia deixado Mei ali, deitada em uma das camas. Ela ainda estava inconsciente quando saímos da ilha. Depois de tudo o que havia acontecido, eu esperava que permanecesse dormindo por algumas horas.

Abri a porta da cabine com um suspiro.

E me assustei.

Wen Qishu Mei não estava mais lá.

— Onde nós estamos? — questionou-me uma voz familiar. Com a espada sobre meu pescoço.

— Não faça isso — respondi, um tanto aliviado, ao olhar para o lado.

Revirei os olhos, afastei a lâmina com a parte de trás da mão e fechei a porta.

— Como você está? — Sentei na cadeira e olhei diretamente para ela.

— Responda à minha pergunta! — Mei tentou apontar a espada para mim, porém foi vencida pelo cansaço, e ela sentou na cama dela. — Por favor.

Derrubou a espada no chão, colocou a mão no rosto e tentou engolir o choro.

— Estamos indo para o Mar do Dragão. — Levantei-me e sentei-me ao lado dela.

— É verdade? — Começou a soluçar. — Ele está morto? É verdade? Foi tudo um sonho, não foi?

— Sinto muito — respondi, sem saber como reagir exatamente àquela situação.

Ela se agarrou a mim, em um abraço que quase me sufocou.

Paralisei.

Não sabia o que fazer. Sentia o rosto de Mei contra o meu peito. Seu corpo tremia. O som de seus soluços era abafado pelo meu casaco.

— Eles… — As palavras engasgavam em sua garganta. O choro vinha acompanhado de uma estranha raiva. — Eles destruíram tudo… Como puderam…? E a culpa é minha… Toda minha…

— Não se culpe. A culpa não é sua. Não coloque o fardo dos outros sobre você! — Segurei seu queixo e a fiz olhar diretamente nos meus olhos.

— Eu devia ter aceitado a proposta de Hua Yuling Renyan. — Ela tentava conter as lágrimas, mas elas continuavam a escorrer em maior quantidade. — Fui uma tola! Todos estariam vivos agora…

Aquilo definitivamente não fazia o meu estilo: consolar alguém em um estado de luto tão profundo.

Fiquei em silêncio, com as mãos nos cabelos soltos de Mei, enquanto ela soluçava.

— Para onde estamos indo? — Ela parou de chorar por um momento.

— Mar do Dragão. Imaginei que você gostaria de vir comigo — respondi, com um sorriso abatido.

— Você… Você… — balbuciou, ao me apertar ainda mais forte.

— Vou te ajudar a procurar sua mãe.

Não estava nos meus planos. Contudo, por que não? Eu não podia deixar Wen Qishu Mei sozinha, não depois de tudo o que havia acontecido. De alguma forma, eu sentia uma espécie de dever para com ela.

Lefkó virou-se para mim, surpresa com a minha afirmação para Mei.

— Minha mãe… — Mei levantou a cabeça e me encarou. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. — Você realmente vai me ajudar?

Afirmei com a cabeça e afaguei seu cabelo.

— Você não precisa…

Ela soluçou mais uma vez.

— Como você está se sentindo? — perguntei, ao tentar desviar o tom emotivo da conversa.

Ela ficou em silêncio. Não chorava, nem respondia.

Por alguns segundos, tudo o que se ouvia era o som da chuva e das ondas contra o casco do navio.

— Eu não sei.

Sua voz saiu baixa, quase um murmúrio.

— Eu podia ter salvado ele, se eu fosse… se eu fosse mais rápida, mais forte! Se eu tivesse matado Liuxian antes! — Bateu o punho na cama, levantou-se e fixou o olhar no horizonte tempestuoso.

— Não fique pensando nisso — falei, um pouco mais irritado do que deveria.

— Não ficar pensando nisso? — repetiu ela, quase colocando o dedo indicador no meu rosto.

Prendeu a respiração, fechou os olhos marejados e deitou-se na cama.

— Desculpe. Sei que não é sua obrigação. — Limpou as lágrimas. — Obrigada, sinceramente. Obrigada, Thomas… Obrigada por ficar comigo.

— Descanse. Temos uma longa jornada ainda pela frente.

— Vou tentar… — respondeu ela com um meio sorriso, quase chorando novamente.

Caminhei até a porta e saí da cabine. Eu sabia que precisava dar um pouco de espaço para ela.

Assim que pus o pé para fora e fechei a porta, fiquei imóvel, diante das dezenas de olhos que me encaravam. Vários outros passageiros me esperavam, com os rostos fechados e um ódio sem motivo aparente em suas expressões.

— Quem é você? — questionou um dos homens, um brutamontes de pele bronzeada e quase dois metros de altura.

Ele se aproximou ameaçadoramente de mim, com a cabeça quase tocando o teto.

— Responda-lhe — ordenou um jovem de não mais do que vinte anos, apontando para o brutamontes.

— O que vocês querem? — indaguei, sem tirar a mão da maçaneta.

O jovem sorriu para mim.

— Você sabe, não se faça de desentendido.

Eu não fazia a mínima ideia.

— Que confusão é essa? — Uma voz grave ecoou do fundo da multidão. — Vamos, mexam-se, sem brigas em meu navio!

Os homens deram espaço.

Um senhor de meia-idade surgiu entre eles. Tinha cabelos negros e brilhantes, cortados curtos. Vestia uma túnica militar de algodão, com mangas estreitas e comprimento até os joelhos. Um cinto de jade, adornado com detalhes bordados em ouro, prendia a túnica à cintura, enquanto um chapéu de palha trançada, de abas largas, cobria sua cabeça.

— Vocês conhecem as regras! — proferiu, e todos ficaram quietos, sem nem mesmo ousar olhar diretamente para ele. — Sem brigas neste navio! Se tem alguma desavença com alguém, façam em Lóngmén Guān.

Ele era baixo. Tão baixo, que o brutamontes parecia ter o dobro de seu tamanho. Mesmo assim, o senhor era quem o intimidava.

Seus olhos se focaram em mim.

— E você.

— Eu? — Apontei para mim mesmo.

— Você, venha comigo.

Desconfiei.

Não podia deixar Mei sozinha naquele quarto. Não mesmo.

— Por que eu deveria segui-lo?

O homem me encarou por alguns segundos. Seu rosto não demonstrava hostilidade, mas também não havia nenhum sinal de simpatia.

— Sou o capitão do navio e tenho algumas palavras para falar com você.

— Fale agora. Não posso deixar minha… — Tive que pensar em uma desculpa rápida. — Prima sozinha.

— Prima? A garota é sua prima? — Ele sorriu, como se não acreditasse na minha informação. — E qual é o nome dela?

— Nasha Lyu Mei — respondi quase de imediato.

Quase coloquei a mão no rosto ao perceber que fora uma péssima resposta.

— E qual é o seu nome?

Agora não tinha mais jeito.

— Herman Krieger.

Todos se entreolharam, sem entender nada.

— Pode repetir?

— Herman Krieger.

Outra péssima resposta.

De todos os nomes que eu tinha na minha lista, tinha que escolher justo um nome e sobrenome de Rohes Reich?

O senhor me olhou de cima para baixo.

— Não minta, sei que seu nome é Toma Nasha Lyu — disse ele.

A dor física de ter meu nome mutilado era maior que a de ter sido descoberto.

— Thomas Nyrzyr! — disse, com bastante ênfase no sobrenome. — Nyrzyr.

— Pois bem, senhor Nasha Lyu, siga-me. Preciso falar com o Senhor.

— Não posso sair daqui. — Minha mão ainda estava presa à maçaneta.

— Garanto-lhe que a garota não será molestada.

“Molestada? Que escolha de palavra específica…”, pensei na mesma hora.

— Qual a garantia que tenho da sua palavra?

O capitão girou a cabeça, e uma intenção assassina emanou dele. Fui o único que não reagiu; nenhum dos outros presentes conseguiu sustentar seu olhar por mais de um segundo. Em um único instante, o corredor estava novamente vazio.

— O que você quer? — suspirei, dando um passo à frente para ficar lado a lado com ele.

Ele sorriu, os dentes brancos como porcelana.

— Siga-me.