Capítulo L (50) – Para o Mar do Dragão
Capítulo L (50) – Para o Mar do Dragão
Entrei na cabine do capitão.
A porta era feita de madeira nobre, decorada com pequenos ornamentos de jade. A cabine era enorme, facilmente dez vezes maior que a nossa.
Lanternas de papel pendiam do teto e balançavam suavemente com o movimento do navio. Estantes cobriam boa parte das paredes, repletas de pergaminhos cuidadosamente organizados. Fios presos às prateleiras mantinham os rolos no lugar, impedindo que caíssem com o balanço das ondas.
No canto esquerdo, próximo à porta, havia uma grande mesa de madeira cercada por várias cadeiras. Os móveis eram encaixados no chão como peças de um quebra-cabeça. Uma obra de engenharia fascinante.
O capitão fechou a porta atrás de mim, sentou-se em uma das cadeiras e esperou que eu fizesse o mesmo.
Fiquei de frente para ele, sem desviar o olhar.
— O que você quer?
— Você não sabe nada, não é? — Ele deu um sorriso tão debochado que me deixou um tanto curioso.
— Continue… — falei, ao fechar as mãos sobre o peito.
— Me parece que você não sabe mesmo de nada, o que me surpreende um pouco. — Ele se levantou, caminhou até uma das pequenas janelas, de costa para mim, e observou a tempestade ao longe. — Você sabe para onde estamos indo?
— Mar do Dragão.
— Esse é o nosso destino final, estou falando do caminho.
Girei o pescoço, e o encarei de costas. Não respondi nada.
— Você não sabe, não é? — Esfregou a mão no vidro e o desembaçou.
— Shuǐ Tiān Mén.
— Saber o nome das coisas não significa que você saiba o que elas são. — O capitão caminhou até sua mesa, pegou uma garrafa de porcelana e se preparou para colocar o conteúdo em dois copos. — Huangjiu? Aceita?
— Não bebo. — Neguei com um aceno de mãos.
Ele arregalou ligeiramente os olhos, colocou o vinho amarelado em seu copo e sentou-se novamente à minha frente.
— Diga-me, senhor Toma Nasha…
— Nyrzyr — interrompi.
— Senhor Nyrzyr — repetiu ele, com evidente desprezo na voz.
Não me alterei. Permaneci com os olhos fixos nele.
— Escute-me. Os jovens sonham com o dia em que cruzarão Shuǐ Tiān Mén e chegarão ao Mar do Dragão. Acreditam que poderão ter uma vida melhor, entrar em uma seita, formar uma família e viver tranquilos. — Ele encarou a parede, um tanto reflexivo. — Todos os meses, vejo seus olhos brilhantes, cheios de esperança, até que são destruídos quando chegam a Lóngmén Guān. Você é diferente deles.
Ele ficou em silêncio, com um sorriso quase psicótico.
— Diferente como? — questionei, com a mão preparada para puxar a carta escondida na manga do meu casaco.
— Perdoe minhas maneiras. Deixe-me apresentar-me primeiro. — Levantou-se e fez uma pequena reverência. — Capitão Li Wang, sétimo filho do trigésimo segundo filho do Governador Turquesa.
— Um príncipe? — Não pude deixar de dar uma pequena risada.
— Um príncipe. — Sorriu. — E você?
— Sou Thomas Nyrzyr.
— E de onde vem?
— Thomas Hope.
— Em qual dos cinco reinos fica? — Coçou a cabeça.
— Está no meio do nada, mas no centro de tudo.
Ele gargalhou.
— Então você é um caipira! Isso explica muito sobre você!
Não esbocei nenhuma reação.
— Deixe-me explicar, garoto. Shuǐ Tiān Mén é a única passagem entre os Cinco Reinos Mortais e o Mar do Dragão. Eu, como capitão deste navio, tenho autorização do próprio Imperador Dragão para levar qualquer um que possa pagar para cima, mas somente aqueles autorizados podem descer.
— Entendi… — Cruzei os braços e balancei a cabeça.
— O que você não entendeu? — Ele tomou um gole do Huangjiu e deixou o copo sobre a mesa.
— Entendi tudo.
— Você diz que entendeu tudo, mas seu rosto diz o contrário.
— Qualquer um que possa pagar? — questionei ao coçar a cabeça.
Era estranho. Por qual motivo eles deixariam a imigração livre?
— Qualquer um. Não me importa se são fortes, fracos ou se estão preparados. Basta que paguem a passagem e estejam cientes de que não haverá volta para casa.
A notícia não era boa. Se aquilo fosse realmente verdade, seria um pesadelo logístico transportar mercadorias, tropas e todo o resto do Mar do Dragão para os Cinco Reinos Mortais.
Eu tinha um encontro em Lóngmén Guān, e deveria aproveitar aquele momento para obter informações sobre.
— Você conhece um restaurante chamado “Lótus do Rio”? — perguntei, um tanto mais relaxado na cadeira.
— Todos conhecem, é o restaurante mais famoso da cidade. As melhores comidas, as melhores bebidas… — Pausou por um instante e deu uma piscada. — As melhores mulheres…
Não estava interessado nesse tipo de coisa. Meu dever era outro.
— Há mais alguma coisa que eu deveria saber? — Preparei-me para encerrar a conversa e voltar para a cabine.
— Não estou aqui para responder às suas perguntas ou ajudá-lo. Tenho ordens superiores para entender você. O que você fez com os Hua Yuling não é bom. — Ele se levantou e encheu o copo com mais Huangjiu. — A casa Fushe quer matar você. Eles viram o que você fez com os Hua Yuling. Esse tipo de coisa enlouquece as pessoas. Veem os outros pagando por seus pecados e passam a acreditar que serão os próximos. A casa Hua Yuling era uma das mais importantes em toda essa região. Digamos que Lóngmén Guān estará um grande caos nos próximos dias.
— Caos?
— A casa que controlava o porto de Tinhang acabou, e agora nos restam perguntas. Quem vai substituí-los? Vão cobrar taxas? A cidade já está um caos completo, sem nenhum governante. Você tem um alvo gigante nas suas costas.
— Eu não tenho nada a ver com o que aconteceu entre os Wen Qishu e os Hua Yuling. Quando tudo aconteceu, eu já tinha ido embora.
— A verdade não importa. — Passou o dedo pela lateral do copo. — Tudo o que importa é aquilo em que as pessoas acreditam, ou querem acreditar.
— E no que elas acreditam? — indaguei, com a mão nervosa, pronta para pegar uma carta.
— Que você é um imortal do Palácio dos Deuses ou do Reino dos Celestiais. Teve sua honra violada pelos Hua Yuling e se juntou aos Wen Qishu para exterminá-los. Só que o patriarca descobriu e decidiu executar o Julgamento dos Nove Parentes.
— E no que você acredita?
— Eu estou no Sexto Reino. Sei muito bem diferenciar charlatões de imortais poderosos. Você não é um charlatão, mas também não é um imortal. Seu fluxo de Qi é inexistente. Sua presença não pode ser sentida.
Li Wang fechou os olhos e bebeu o restante do vinho de uma só vez. Em seguida, colocou o copo sobre a mesa e se levantou.
— Chegamos. Venha, se quiser ver algo único em sua vida.
Ele abriu a porta e eu o segui, logo atrás.
Assim que deixei a cabine, fui atingido por uma rajada de vento tão forte que precisei me apoiar na parede para não perder o equilíbrio.
A tempestade estava dez vezes pior.
Raios rasgavam o céu em todas as direções, iluminando o convés por frações de segundo antes de desaparecerem atrás das nuvens negras. O trovão era quase contínuo. Já não era possível distinguir onde terminava um estrondo e começava o seguinte.
Eu mal conseguia entender as palavras dele, mas ele falava algo.
Olhei para o horizonte.
No meio da tempestade, enormes trombas-d’água erguiam-se do oceano até as nuvens. Fiquei sem palavras. Era aterrorizante, no pior dos sentidos. O navio era imenso, todavia, comparado a aquelas coisas, era minúsculo, um pontinho isolado no meio da tempestade.
— Toquem os sinos! Toquem os sinos! — ordenava um dos marinheiros para seus companheiros.
— Shuǐ Tiān Mén! — gritou o capitão, ao abrir os braços e um enorme relâmpago cair em nossa frente.
E eu vi.
O redemoinho gigante, e nós estávamos navegando diretamente em direção a ele.
O navio inclinou-se violentamente. Me desequilibrei por um momento, segurei firme em uma das cordas soltas, quase fui levado pelo vento.
Senti a vertigem e a náusea no estômago, conforme o navio inclinou-se para baixo e começou a cair. Uma sensação de queda livre. Navegávamos diretamente para o centro da tempestade.
Fechei os olhos, e por um instante, achei que tinha morrido.
Houve silêncio, a tempestade parou, o vento desapareceu.
Abri os olhos.
Estávamos mergulhados em uma escuridão profunda. Apenas as lanternas de papel continuavam acesas, balançavam suaves, como se nada tivesse acontecido.
O capitão estava diante de mim. Segurava-se em uma das colunas de madeira do convés, o rosto sério. A atenção toda voltada no horizonte negro.
— O que você está procurando? — perguntei.
Não precisei de uma resposta. Ouvi um som vindo da escuridão. Era parecido com o canto de uma baleia, mas muito mais grave e, ao mesmo tempo, estranhamente agudo.
Então, uma fraca luz azulada surgiu ao longe.
Olhei para ela.
Estávamos no fundo do mar. Ao nosso redor, havia apenas água. O navio inteiro estava protegido dentro de uma pequena bolha de ar.
A luz começou a se aproximar, cada vez mais.
A silhueta da criatura começou a se formar diante de mim. Seus dentes gigantescos projetavam sombras sobre o navio, fazendo com que parecessem ainda maiores.
Ela era pelo menos três vezes maior que a Calamidade de Tianhang.
Engoli em seco e esperei pelo pior.
Em vez disso, eu senti o navio começar a subir.
A sensação era semelhante à de estar dentro de um elevador em movimento, só que muito mais violenta. Meu estômago pareceu ficar para trás enquanto o navio era arrastado para cima.
Não estávamos mais no fundo do mar.
Olhei para o céu.
Podia ver as estrelas, o gigantesco planeta gasoso e a pequena lua sobre a qual eu estivera pouco tempo antes.
Por um instante, tudo pareceu silencioso.
E no próximo segundo, começamos a cair. O navio despencou na mesma velocidade com que havia subido.
A madeira gemeu.
Um estrondo ensurdecedor percorreu toda a embarcação, tão forte que tive a impressão de que o casco inteiro se partiria ao meio.
Não havia mais tempestade.
O céu se estendia limpo acima de nós. Nenhuma nuvem escondia o sol, que brilhava com uma intensidade quase desconcertante depois da escuridão que havíamos acabado de atravessar. O mar estava calmo, sem ondas, o vento era quase inexistente, mais como uma brisa gelada úmida.
— Mar do Dragão… — O capitão me deu um tapa nas costas. — Seja bem vindo, Thomas, ao Mar do Dragão.