Capítulo de Interlúdio I (1) – Stalgrad
Capítulo de Interlúdio I (1) – Stalgrad
Stalgrad, União das Comunas Populares do Norte. Dois anos antes.
Chovia do lado de fora do carro. Uma garoa fraca, típica do final da primavera. A lua cheia um tanto encoberta pelas nuvens conseguia lançar uma fina luz prateada sobre o asfalto molhado.
Eu estava sentado no banco de trás, com a cabeça apoiada sobre a mão, enquanto observava a paisagem da cidade através do vidro embaçado. Alguns poucos carros trafegavam pela larga avenida de seis faixas de cada lado, separados por uma alameda de árvores. Não havia quase nenhum pedestre à vista, e as patrulhas de soldados, em seus uniformes negros, caminhavam em duplas pelas calçadas.
Os prédios monumentais se erguiam por dezenas de metros, com seus ângulos retos e o concreto bruto. Muitos ainda estavam em construção. As árvores da alameda ainda eram novas, apenas mudas de bétulas e pinheiros.
Havia alguns edifícios da velha cidade, a maioria em ruínas, marcados pelas balas e pelos destroços da artilharia e dos bombardeios. Cartazes de guerra estavam estampados nos muros de concreto vazio.
A avenida se dividiu em duas, com um pedestal no meio, ainda aguardando a chegada da escultura. Viramos à esquerda para adentrar a praça principal. Um posto de controle estava montado no acesso.
Os soldados revistavam cada carro, iluminando o interior dos veículos com lanternas de luz intensa. Ao lado deles, três robôs de combate permaneciam imóveis, vigiando o posto de controle.
Tinham quase três metros de altura e uma estrutura compacta, projetada mais para resistência e mobilidade do que para imitar a forma humana. As laterais da carcaça possuíam curvas suaves, quebrando a aparência excessivamente rígida do blindado. No topo de cada unidade havia três grandes sensores, que alternavam entre o amarelo e o branco enquanto examinavam o movimento ao redor.
O armamento estava integrado diretamente à estrutura. Um canhão de alto calibre ocupava a posição sobre o ombro esquerdo, enquanto duas metralhadoras de plasma estavam montadas nas extremidades dos braços.
— Nome e convite, por favor — disse um dos oficiais, aproximando-se do veículo. Em uma das mãos, carregava uma lanterna, cuja luz percorreu o interior do carro; na outra, segurava um pequeno dispositivo eletrônico.
Diferentemente dos soldados, todos vestidos de negro, o oficial usava um uniforme de linho roxo, agora parcialmente encharcado pela garoa. Duas medalhas estavam presas ao peito.
O homem sentado na minha frente, no banco do passageiro, entregou-lhe um cartão azul-marinho.
O oficial passou o cartão pelo dispositivo. Uma pequena luz verde acendeu, acompanhada de um breve sinal sonoro.
— Tenham uma boa apresentação.
Ele fez uma curta continência e devolveu o cartão.
— Um bom trabalho para o senhor.
O homem respondeu à continência e, em seguida, fez um gesto para o motorista prosseguir.
Prosseguimos por mais alguns minutos, passando pelos diversos prédios governamentais, até finalmente chegarmos à Casa de Ópera, um dos poucos edifícios antigos da cidade que haviam sobrevivido às revoluções liberais e à guerra.
Suas colunas de mármore, adornadas por curvas elegantes, destoavam da arquitetura de concreto dos novos edifícios ao redor. Acima delas, uma grandiosa cúpula, com quase cem metros de altura, dominava a paisagem e se erguia sobre nossas cabeças.
Diante do teatro, no meio de uma fonte, ainda permanecia a estátua de trinta metros do Primeiro Imperador. Era quase um milagre que tivesse sobrevivido à revolução sem ser derrubada pelos revolucionários. As demais estátuas, que antes compunham o restante da fonte, dedicadas aos Kaisers e Czares que haviam governado a cidade em tempos mais recentes, haviam sido removidas, destruídas ou guardadas em algum museu.
A entrada estava lotada. Centenas de convidados chegavam sob a chuva, enquanto, do lado de fora, equipes de diversas emissoras de televisão, vindas de diferentes províncias, disputavam os melhores lugares para registrar os acontecimentos daquela noite.
Desci do veículo sozinho, a roupa de gala pinicava um pouco, e o barulho das minhas três medalhas enquanto eu andava me irritava um pouco.
— Príncipe Thomas… — Um membro da Guarda Imperial se aproximou, com o guarda-chuva na mão.
— Obrigado. — respondi, ao passar com pressa na frente dos repórteres.
Os flashes das câmeras iluminaram a escadaria de mármore por alguns instantes, misturando-se aos reflexos da chuva. Não me virei para nenhum deles.
Dois soldados da União abriram a porta principal para mim. Eu podia ver o desprezo no rosto do mais velho, enquanto o mais jovem, um soldado com uma perna protética, me olhava com admiração.
Adentrei o recinto, com suas decorações em prata, ouro e pedras preciosas, Mal tive tempo de contemplar o ambiente, logo fui abordado por um assessor.
— Príncipe Thomas. O General Orlov quer conversar com Vossa Excelência.
Ser chamado de Vossa Excelência em vez de Vossa Alteza era o esperado. Afinal, a União não reconhecia títulos de nobreza. Mas isso poderia mudar nas próximas semanas.
Era um homem baixo, de cabelos grisalhos e rosto comprido. Usava um terno preto perfeitamente alinhado, com um pequeno broche de uma flor roxa preso à lapela.
— Me leve até ele — ordenei, ao mesmo tempo que acenava para os outros convidados que me reconheciam.
Passamos por um longo corredor vazio, ainda haviam as marcas nas paredes dos antigos quadros e esculturas que enfeitavam o ambiente.
O assessor bateu em uma porta de madeira fechada. E uma voz rouca veio do outro lado.
— Um momento.
Aguardamos em silêncio por alguns instantes, até que a porta se abriu. Uma jovem surgiu do outro lado. Tinha cabelos ruivos intensos, olhos azuis quase hipnotizantes e vestia um vestido bastante revelador.
Ela apenas acenou com a cabeça para nós e seguiu pelo corredor, sem dizer uma palavra.
Entrei na sala, e o assessor ficou do lado de fora, ao fechar a porta atrás de mim.
— Thomas! Meu amigo! Já estava achando que você não chegaria a tempo de conversarmos! — exclamou o homem, de costas para mim, enquanto enchia um copo com uma dose de uísque.
Era um homem alto, de cabelos grisalhos e postura imponente. Vestia o uniforme roxo de um oficial de alta patente.
— É impressionante o que vocês fizeram com esta cidade — comentei, ao acomodar-me numa cadeira perto da porta.
— Você ainda não viu nada! — Ele soltou uma risada curta e me estendeu um copo.
— Obrigado, mas você sabe que eu não…
— Eu sei. Mas continuo sendo um homem educado. — O oficial sentou-se na poltrona à minha frente e deu um gole na bebida. — Então, fica combinado para amanhã? Vamos juntos ao memorial?
— Sim, combinado. Vai ser bom para a imagem pública do Império.
— A população está um pouco tensa com os últimos acontecimentos, você já deve ter percebido.
— É natural. Quase oitenta anos sem presença de tropas imperiais. Ter que receber a Guarda Imperial e a Guarda Jaguar pode ser um tanto estranho para a população.
Orlov apoiou o copo sobre a pequena mesa ao lado da poltrona
— Oitenta anos… — Ele coçou a sombrancelha. — Já faz tempo assim?
— E parece que não aprendemos nada… — Bocejei. — Novamente, Rohes Reich se rebelou contra a autoridade da capital Imperial.
— A União está disposta a se submeter novamente ao Império, se vocês aceitarem nossas condições.
Fiquei em silêncio por um instante.
— Será que o mundo estará unido novamente sobre a mesma bandeira?
— Assim como o Primeiro Imperador idealizou — respondeu ele, em um murmúrio baixo. — E como vamos fazer depois que vencermos a guerra?
— Vamos reestruturar o parlamento Imperial, estabelecer a União como uma das sete nações, punir os rebeldes. O Império nunca foi injusto com seus súditos, embora isso não seja recíproco.
Fomos interrompidos por uma grande algazarra vinda do corredor. Vozes se misturavam do lado de fora, acompanhadas pelo som de passos apressados.
Orlov ergueu os olhos na direção da porta.
— O Imperador chegou… — Levantei-me da cadeira e ajeitei o uniforme. — Tenho que ir…
— Espero vê-lo amanhã, Vossa Alteza — disse Orlov, ao tomar o último gole do uísque.
— Eu também.