Capítulo de Interlúdio II (2) – Entrada
Capítulo de Interlúdio II (2) – Entrada
O vestíbulo estava ainda mais cheio quando retornei.
A conversa havia cessado quase completamente. Os convidados permaneciam em silêncio ou falavam em murmúrios discretos, enquanto a maior parte dos olhares estava voltada para a entrada principal. Alguns fotógrafos já se posicionavam ao redor do salão, preparando suas câmeras para registrar a chegada do Imperador.
— Príncipe Thomas. — Outro assessor aproximou-se rapidamente. — Estamos organizando a ordem de entrada. Por favor, acompanhe-me.
Fiz um breve aceno e o segui.
Atravessamos o salão principal e passamos por uma das portas laterais, entrando em uma sala reservada aos membros da Família Imperial e às autoridades do Império que estariam presentes na apresentação. O ambiente era consideravelmente mais simples que o grande vestíbulo, com algumas mesas, poltronas e funcionários circulando de um lado para o outro enquanto conferiam a ordem de entrada.
Apoiado de maneira desleixada sobre uma mesa no canto da sala, estava meu irmão gêmeo não idêntico, Victor Nyrzyr, que era mais velho do que eu por alguns dias. Os cabelos estavam levemente bagunçados, como de costume. O uniforme do Exército Imperial, um tanto amarrotado.
À sua frente estava meu irmão mais novo, Samuel Nyrzyr.
Victor falava alguma coisa, gesticulando ocasionalmente com uma das mãos, enquanto Samuel permanecia cabisbaixo, aparentemente alheio à maior parte do que o irmão dizia.
Assim que me viu, Victor interrompeu a conversa.
— Finalmente. Pensei que você tivesse se perdido no caminho.
Samuel levantou os olhos por um instante e apenas acenou para mim.
Eu me aproximei dos dois.
— Orlov queria me ver. Onde está Andrew? — questionei a ele sobre nosso irmão mais velho.
— Andrew? Ele entra antes do Imperador — respondeu Victor, enquanto apanhava distraidamente um salgado de uma bandeja próxima e engolia tudo de uma vez.
— Qual é a ordem de entrada?
— Samuel, você e depois eu — respondeu, ainda mastigando o salgado. — Aí entram os quatro representantes da coalizão, o grão-mestre Jacob, o príncipe herdeiro e, por fim, o Imperador. Estamos em camarotes separados. Então, boa sorte.
— Cale a boca. — Revirei os olhos. Não queria ter que dividir um camarote com algum diplomata chato,
— Quedonossor — Victor falou o título da ópera. — Eu já disse que isso vai ser uma chatice. Por que escolheram logo essa peça?
Cocei a testa e o encarei sério por alguns instantes.
— Bem, é a história de um rei tirano. Agrada à União e, ao mesmo tempo, ao Império.
— Continua uma chatice. – Victor cruzou os braços e esboçou iniciar um bocejo.
— É claro, você seria um rei tirano — disse Samuel sem pensar muito.
— O que você disse? Seu… — Ele se aproximou, e Samuel se encolheu um tanto.
— Vocês dois, calem a boca. — Essas briguinhas rotineiras deles me incomodavam bastante; não estávamos em um local adequado para esse tipo de discussão. – Victor, arrume esse uniforme agora. Você entendeu?
— Tanto faz. — Ajeitou a gravata e alisou o casaco negro. — O que acha? Melhorou?
— Tanto faz — rebati, ao usar a mesma frase que ele.
Quatro sinos se ouviram; era o sinal para começarmos.
Samuel se colocou na frente de nós, junto à porta lateral, enquanto um funcionário com um ponto de escuta organizava todos.
— Príncipe Samuel, aguarde meu sinal. Depois, caminhe até as escadas e suba para o camarote indicado.
Samuel fez um breve aceno com a cabeça.
As portas se abriram, e a claridade do lado de dentro aumentou. A maior parte da assistência estava de pé, os olhos em nós.
Meu irmão mais novo respirou fundo.
— Está tudo bem? — perguntei para ele.
Ele olhou para mim.
— Estou bem. — Ele baixou os olhos para as próprias mãos. — É muita gente.
— Apenas olhe para frente.
Ele atravessou a porta, e o mestre de cerimônias começou a falar:
— Lorde Príncipe Imperial, Samuel Nyrzyr, quarto filho do príncipe Thomas Nyrzyr, o Aventureiro. Portador do artefato “Metal Pesado”.
Alguns dos diplomatas murmuraram entre si. Pequenos pontos luminosos piscavam em seus ouvidos enquanto os dispositivos de tradução transmitiam a apresentação para cada um em seu próprio idioma.
Esperei um pouco e dei um passo à frente ao entrar no auditório principal da ópera.
— Lorde Príncipe Imperial, Marechal Thomas Nyrzyr, o Terror da Ponte, terceiro filho do príncipe Thomas Nyrzyr, o Aventureiro. Portador do artefato “Alexandria”.
Andei até as escadas que levavam aos camarotes. Subi sem pressa, guiado por dois membros da Guarda Jaguar. Eles abriram a porta entalhada do meu camarote e a fecharam atrás de mim.
Era um camarote um tanto grande, com quatro poltronas, e duas mesas de centro com garrafas de água, taças e algumas garrafas de vinho. Era do lado esquerdo do palco, com uma boa visão da apresentação, e também da plateia e dos corredores centrais.
Uma mulher de cabelos brancos estava sentada ao lado da minha poltrona. Vestia o uniforme imperial do exército, com detalhes em dourado na gola.
— Incomodaram muito você? — perguntei, antes de me sentar.
Ela soltou um suspiro e voltou a olhar para o palco.
— Um tanto — disse Lefkó, ao cruzar os braços e pernas.
Sentei-me, e encarei o corredor. Victor era o próximo a entrar.
— Lorde Príncipe Imperial, Almirante Victor Nyrzyr, a Sombra, segundo filho do príncipe Thomas Nyrzyr, o Aventureiro. Portador do artefato “Senhor da Névoa”.
Observei lá de cima seu andar debochado, o sorriso para os outros presentes, que o encaravam céticos.
— O que o seu irmão está fazendo? — Lefkó me questionou, ao balançar a cabeça em desaprovação.
— Não se preocupe, Andrew vai matá-lo depois…
Infelizmente, eu já estava acostumado com aquele tipo de comportamento.
Cinco homens adentraram pela porta principal do anfiteatro. Na frente deles, o líder.
— Chefe Tāwhiao, eleito pelas tribos de Yvy-Marã como Chefe dos Chefes. Representante da Confederação de Yvy-Marã.
O homem no centro, um brutamontes bronzeado de quase dois metros de altura, cujo rosto, braços, costas e peito estavam marcados por tatuagens ritualísticas, avançou pelo corredor central. Sua roupa destoava completamente dos uniformes formais dos diplomatas que já haviam entrado. Usava um grande manto escuro sobre os ombros, preso por uma peça metálica junto ao peito, deixando parte dos braços à mostra. Sobre a cabeça, carregava um adorno de penas negras e vermelhas.
Atrás dele vinham os representantes das grandes tribos.
O primeiro era o rei dos Qollor. Usava uma coroa de lã adornada com detalhes em ouro e uma túnica sem mangas, em tons de verde e azul, que lhe chegava até os joelhos.
O segundo, representante das tribos Itzpapal, possuía praticamente a mesma estatura de Tāwhiao. Sobre os ombros carregava uma capa feita de pele de jaguar e, na cabeça, uma coroa de penas coloridas nos mais diversos tons do arco-íris. Vestia uma túnica de algodão da mais alta qualidade, adornada com peças de jade e obsidiana ao redor do pescoço.
O terceiro era um homem mais velho, líder das tribos Pumawasi, de costas ligeiramente curvadas e apoiado em uma bengala de madeira entalhada. Usava uma coroa feita de penas de aves aquáticas, roupas confeccionadas com couro de búfalo e uma armadura cerimonial decorada com ossos.
Por fim, vinha o mais jovem dos quatro, chefe dos Yolatan. Era apenas alguns anos mais velho que eu. Tinha o olhar abatido e o rosto fechado, e vestia simples túnicas artesanais de lã, cobertas por padrões geométricos.
— Presidente do Partido Coletivista, camarada Alexandri Tartotán — anunciou o mestre de cerimônias. — Representante da União das Comunas Populares do Norte.
Um homem um tanto acima do peso, vestido com um terno cinza e uma gravata roxa, entrou sozinho logo atrás dos representantes de Yvy-Marã. Sua barba grisalha ia até a metade do peito, e sua careca polida refletia a luz dos lustres.
— Primeiro-ministro do Império dos Oito Reinos, Cho Kian Tao.
O homem que entrou pela porta principal era baixo e magro, provavelmente já próximo dos sessenta anos. Vestia uma longa túnica negra, fechada até o pescoço, sobre a qual havia bordados dourados com sete espadas de prata e jade. Com um pequeno broche de jade verde em formato de tigre preso junto ao colarinho.
Esperamos em silêncio até o anúncio do quarto e último representante das nações da coalizão.
Ele surgiu pela entrada, vestindo o uniforme de um oficial de alta patente do Exército Imperial, embora nenhuma medalha adornasse seu peito. O bigode, impecavelmente aparado, contrastava com a simplicidade de seus demais adornos. Presos à cintura, carregava dois coldres de couro, ambos vazios.
— Lorde Marechal Herman Krieger, Primeiro-Ministro do Império. Portador do artefato conhecido como “Adagas Curvas de Bukharin”.
Herman caminhou até as escadas e subiu até os camarotes. Alguns instantes depois, desapareceu pela porta do mesmo camarote ocupado por Alexandri Tartotán.
Herman era muito mais que o chefe da coalizão, tinha sido um pai para mim e meus irmãos. Desde pequenos.
Seis soldados vestidos com uniformes cinza-escuros se posicionaram diante da entrada principal, formando uma linha perfeitamente alinhada. No centro de seus peitos, ‘letras que esmagam o mundo’. Os seis homens ergueram os braços simultaneamente e bateram os punhos fechados contra o peito.
— Grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros dos Templos dos Messias, Jacob Krieger.
Ele devia ser uns cinco anos mais velho que eu.
Jacob entrou sozinho.
Vestia uma longa túnica branca, coberta por uma couraça de placas cerimoniais que protegiam o peito e os ombros. Um manto azul-escuro caía pelas costas, preso junto ao pescoço por um broche de prata no formato de uma espada atravessada por uma coroa.
Três sinos tocaram, e todos, com exceção de mim e de meus irmãos, se levantaram.
— Lorde Príncipe da Coroa, Andrew Nyrzyr, o Escolhido, filho primogênito do Príncipe Thomas, o Aventureiro, sobrinho do Décimo Segundo Imperador. Portador do artefato conhecido como ‘Baralho Imperial’.
Uma única medalha em seu peito, uma flor roxa com detalhes de rubis e esmeraldas. Seu uniforme do exército imperial estava, como sempre, impecável.
Ele caminhou até o palco e se posicionou ao lado do mestre de cerimônias.
Vários soldados da Guarda Imperial e da Guarda Jaguar se posicionaram, assim como fizeram os Cavaleiros Templários. Era o anúncio da chegada do Imperador.