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Capítulo de Interlúdio III (3) – Catedral

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Capítulo de Interlúdio III (3) – Catedral

— Décimo Segundo Imperador, o Diplomata…

Silêncio.

Eu conseguia ouvir a respiração dos presentes.

Então, meu tio entrou.

Era um homem de rosto fino e liso, os cabelos castanho-escuros cuidadosamente cortados. Vestia um traje de gala inspirado nas vestimentas dos antigos czares que governaram Stalgrad antes da conquista pelo Quinto Imperador.

Estávamos no trigésimo sexto ano de seu governo.

Ele sentou-se na frente do palco, e todos os demais presentes se sentaram após ele.

— O Imperador parece ter envelhecido bastante — comentou Lefkó com uma pequena cotovelada.

Não falei nada, mantive a atenção no meu irmão mais velho, que subia na tribuna ao lado do palco.

— Com a palavra, Lorde Príncipe da Coroa, Andrew Nyrzyr. — O mestre de cerimônias entregou o microfone.

— Primeiramente, desejo uma boa noite a todos — falou ele, sem deixar de encarar a multidão, que respondeu com acenos de cabeça. — Estamos aqui reunidos hoje para apreciar esse belo espetáculo, escrito no segundo século com base na história do Lorde Quedonossor, primeiro senhor das Terras do Azharin e primeiro portador do artefato conhecido como “Espada Cinzenta”.

Andrew olhou para cima e encarou eu e  Lefkó por um instante, antes de retornar ao discurso.

— Há seis anos, Rohes Reich, o Sublime Sultanato, a Nova Confederação de Caldris e o Império de Mandala ergueram-se em revolta aberta contra a Coroa. Atacaram suas nações irmãs e romperam o Tratado das Sete Nações, firmado pelo Quinto Imperador e pelos sete governantes.

Do camarote, eu conseguia observar o salão inteiro. As luzes haviam sido apagadas, só com os refletores sobre meu irmão e o palco. Atrás dele, a enorme cortina permanecia fechada.

— Sofremos muito nesses últimos anos. Eles avançaram contra o povo, para destruir nossa força de lutar. Por exemplo, três anos atrás, Rohes Reich, ainda em sua campanha de destruição e vingança, tentou invadir e destruir esta cidade. Mas as forças do Exército Púrpura jamais se renderam. Resistiram até o fim e venceram a Batalha de Stalgrad, assim como eu e meus irmãos vencemos a Batalha da Ponte da Capital. Nós resistimos! E lutamos de volta!

Sua voz ganhou um tom mais firme.

— Estamos nos aproximando do fim desta guerra. As forças do Sultanato recuaram para o interior de Azharin, as cidades sagradas de Caldris e Messanor foram recapturadas pelas forças templárias, e Rohes Reich recuou até o norte do continente de Augusto. E essa conquista não pertence a uma única nação. Ela só foi possível graças à valiosa indústria de Yvy-Marã, que nos forneceu armas e suprimentos; ao sangue derramado pelos soldados da União das Comunas Populares do Norte; e à indomável resistência das forças do Império dos Oito Reinos.

Andrew percorreu a multidão com os olhos.

— Espero que, nos próximos dias, possamos continuar o trabalho dos meus antepassados, toda a humanidade sob a mesma bandeira, para podermos cumprir as profecias dos antigos.

Ele se retirou do palco sob aplausos solenes.

— Que tédio… — Lefkó se espreguiçou.

— Você deveria prestar mais atenção à ópera — disse a ela, enquanto observava as cadeiras vazias ao meu lado.

— Como se eu não conhecesse a história de Quedonossor.

— Quem deveria estar sentado ao nosso lado?

— Suponho que o doutor Wells.

Peguei um pequeno dispositivo quadrado do bolso e pressionei um botão lateral. A tela se acendeu, e exibiu a hora. Faltavam quinze minutos.

— Qualquer coisa, diga que tive uma pequena indisposição.

— Você vai para a reunião?

— Óbvio. É a primeira reunião em meses em que todo o Conselho está reunido.

A porta atrás de mim se abriu.

Um homem de pele escura e cabelos raspados entrou na sala. Vestia o uniforme azul do Sindicato, impecavelmente ajustado ao corpo. Um pequeno monóculo de metal sobre seu olho esquerdo, preso por uma fina haste.

— Príncipe Thomas — cumprimentou, fazendo uma pequena reverência.

— Doutor Wells. — Acenei brevemente com a cabeça.

Ele sentou-se do outro lado do camarote, ao mesmo tempo em que as cortinas se abriam.

A peça iniciou-se com o nascimento de Quedonossor e a fuga de sua mãe pelo deserto, até que ela finalmente encontrasse um poço de água. A música era melódica, mas carregava uma tonalidade trágica, enquanto a orquestra conduzia a cena com intensidade.

— Você já sabe das novidades? — sussurrou Wells, sem desviar os olhos do palco.

— Um pouco, por um momento, até acreditei que o Doutor Moreau iria participar dessa noite.

— Ele está muito ocupado com a nova filial do sindicato aqui em Stalgrad.

— Existe algum dia em que ele não está ocupado? — comentou Lefkó, da outra ponta.

Wells permaneceu em silêncio, os olhos e ouvidos na Ópera.

— No que você está trabalhando no momento? — Tentei quebrar o constrangimento.

— O estabilizador está com alguns problemas de regulagem, mas ficará pronto antes do fim da guerra.

Sua resposta foi seca, desprovida de emoção, no mesmo tom neutro de antes.

Meu bolso vibrou.

Estava na hora.

Levantei-me.

— Estou indo para a reunião. Vejo você depois, Lefkó. E não faça nenhuma besteira enquanto eu estiver fora — disse a ela.

Então voltei-me para Wells.

— Doutor Wells, desejo-lhe uma boa apresentação.

— Ao seu dispor, Vossa Alteza.

Retirei a carta do bolso e a ergui diante de mim.

— A Torre.

A carta se desfez na minha mão.

Coloquei a mão na maçaneta e senti o lado de fora mudar.

Era escuro e mal iluminado. O piso de madeira estava coberto por uma fina camada de poeira, um silêncio que me permitia escutar o barulho das gotas de chuva do lado de fora.

Fechei a porta às minhas costas e caminhei pelo corredor.

Pouco adiante, encontrei uma enorme porta dupla de madeira, com relevos e ornamentos detalhados em cobre.

A gigantesca catedral revelou-se diante de mim.

Era ainda maior do que eu esperava.

Boa parte dos bancos havia sido retirada, e o salão central estava praticamente vazio, com exceção de um par de bancos na primeira fileira. Andaimes cobriam as paredes e subiam até o teto abobadado, onde uma pintura antiga, parcialmente desgastada pelo tempo, representava o Primeiro Messias em sua última batalha contra a Calamidade do Mar de Urias.

— Um pouco adiantado — falou um homem sentado no banco na frente do púlpito.

A voz veio de algum lugar à minha frente.

Um homem estava sentado sozinho em um dos bancos diante do púlpito. Não se deu ao trabalho de olhar para trás. Parecia muito mais interessado no livro que segurava entre as mãos.

— Boa noite, doutor Moreau. — Sentei-me no banco do outro lado.

Ele tinha por volta dos trinta anos, cabelos loiros penteados para trás e olhos verde-claros. Usava um uniforme azul do Sindicato, um tanto desbotado, com detalhes dourados na gola. Seu óculos de grau tinha as lentes grandes e grossas, como fundos de garrafa.

— Boa noite, Príncipe Thomas. — respondeu, ainda imerso em seu livro.

— Wells me disse que você estava ocupado com a nova filial.

— E estou. — Passou o dedo indicador na língua, e trocou de página.

Ouvi três passos atrás de nós.

— Moreau, não vi você na ópera. — Victor se aproximou e, subiu os degraus do púlpito. — Como você não estava lá, considero que vou ter que dizer as palavras do Andrew.

— Não faça isso… — resmungou Samuel, enquanto se sentava ao meu lado.

— Eu, Andrew Nyrzyr, o Perfeito, lutei sozinho contra um milhão de soldados, e vocês são grandes inúteis! — A imitação era tosca, feita com uma voz forçada que, com certeza, o deixaria rouco no dia seguinte. — Agora tenho que fingir que vocês fizeram alguma coisa em nome da paz…

— Cale a boca… — ordenei, e ele parou, com o rosto um tanto emburrado.

A cena era um tanto constrangedora.

— Por que você ainda se irrita com ele? — perguntou o terceiro rapaz, que acompanhava Samuel e Victor.

Ele ficou de pé ao lado de Moreau, que não parou de ler.

“Pequeno Dragão” era como nós o apelidamos. Seu rosto era liso como o de um bebê, olhos azuis penetrantes e observadores, com um longo cabelo preto que chegava até a cintura. Usava um ornamento de jade para prendê-lo. Sua túnica vermelha descia até os tornozelos, presa por um cinto de ouro e rubis.

— Ele gosta de se irritar comigo. — Victor sorriu debochado para mim.

— Desça daí. — Andrew surgiu da escuridão, detrás do altar.

— Como quiser. — Victor levantou as mãos e, ao se transformar em uma fumaça negra, apareceu ao meu lado.

Andrew caminhou até o púlpito, com uma pasta de documentos na mão.

— Boa noite a todos.

Ninguém respondeu.

— Bem, vamos começar.

— E o Herman? — perguntou o Pequeno Dragão, de braços cruzados, apoiado de lado contra um dos bancos.

— Que se dane o Herman. Deve estar negociando com o “camarada”. — Victor fez o gesto de aspas com os dedos. — Senta aí.

— E sujar minha roupa com esse pó todo? — O Pequeno Dragão olhou para os bancos cobertos de poeira. — Prefiro ficar em pé.

— Falando nele… — disse Moreau, ao perceber a presença de Herman sem olhar para trás.

Herman havia acabado de entrar, completamente alheio à conversa.

— Vamos logo. Tenho dez minutos antes de voltar para mais uma rodada chata de vodca, vinho e charutos.

Ele segurava uma garrafa plástica de água com gás, da qual tomou um longo gole antes de guardá-la.

Andrew olhou para todos nós.

— Todos presentes?

Moreau fechou o livro e se levantou. Caminhou até o lado de Andrew, que lhe entregou a pasta de documentos. Ele a abriu, ajustou os óculos e examinou rapidamente os papéis.

Então ergueu os olhos para nós.

— Vamos iniciar a reunião.