Capítulo de Interlúdio IV (4) – Reunião do Conselho
Capítulo de Interlúdio IV (4) – Reunião do Conselho
— Nós conseguimos — disse Moreau, sorrindo.
— Conseguiram? — Os olhos do Pequeno Dragão brilharam por um instante.
— A passagem está estável. É pequena, mas está estável.
Ele exibiu uma fotografia de uma piscina de água, cujo reflexo revelava um templo abandonado. Então, aproximou-se do Pequeno Dragão e mostrou-lhe a imagem mais de perto.
— Reconhece?
O Pequeno Dragão balançou a cabeça, soltando um suspiro triste.
— Infelizmente, não.
— Eu imaginei.
Moreau olhou para o Príncipe da Coroa.
— Conseguimos sincronizar com mais dois locais. Chamamos de Sítio B e Sítio C — acrescentou Andrew. — O Sítio B é bastante promissor. Conseguimos identificar a presença de diversas civilizações. Estão cerca de trezentos anos atrasadas em relação a nós, mas ainda assim é promissor.
Moreau virou algumas páginas da pasta e exibiu imagens de satélite de péssima qualidade. Uma delas mostrava uma fortaleza de pedra, muito semelhante aos antigos castelos que Rohes Reich possuía antes da chegada do Primeiro Imperador.
— E o Sítio C? — perguntou Samuel, desconfiado.
— Apenas uma selva gigantesca. Há rastros de vida, mas não encontramos sinais de qualquer civilização — respondeu Moreau.
Levantei-me e comecei a caminhar lentamente de um lado para o outro, pensativo.
— E quanto aos rastros de tecnologia dos Anjos? — indaguei para ele, ao olhar mais uma vez para a pintura no teto.
— Existem, sim. Mas os rastros encontrados no Sítio B são muito mais numerosos do que nos outros dois — respondeu Moreau.
Ele fechou a pasta e a devolveu a Andrew.
— Se dependesse de mim, deveríamos concentrar nossos esforços no Sítio B. Mas, Andrew…
— A reserva energética do Sítio A seria suficiente para abastecer uma frota espacial inteira — Andrew interrompeu.
Victor soltou uma risada curta.
— Frota espacial? Não temos dinheiro nem para terminar a maldita base lunar.
— Ela estará pronta em seis meses — respondeu Andrew, calmamente, enquanto coçava a orelha. — Assim que a guerra terminar, teremos recursos para reconstruir o anel do nosso sistema estelar e, quem sabe, iniciar a construção de novos anéis de passagem.
— Podíamos encerrar a guerra amanhã, é só você ordenar — zombou Victor de volta.
Olhei sério para ele. Todos sabíamos o motivo da guerra continuar.
— Precisamos de um inimigo, Victor. Temos que justificar esses gastos secretos em alguma coisa — falei.
— Vocês estão armando a União com robôs de guerra. — Ele fechou os olhos e colocou a mão no rosto. — Tem ideia de quão estúpida é a ideia de compartilhar tecnologia de robótica com eles?
— Eles são nossos aliados. — Herman deu o último gole em sua garrafa.
— Nossos vassalos, você quer dizer. — Victor encarou Herman e, depois, voltou sua atenção para Andrew, que permanecia ignorando aqueles comentários.
Um tanto irritado, mas já acostumado com a postura dele, Herman tentou explicar:
— O tratado das sete nações…
— Aquele tratado morreu no dia em que eles decidiram opor-se ao parlamento.
Deu um longo suspiro e gritei:
— Cale a boca, não estamos discutindo isso.
Ninguém disse mais nada.
— Como eu ia dizendo… — Andrew, como sempre, foi o primeiro a tentar retornar o ritmo da conversa. — Vamos começar os preparativos da invasão em um ano. Esse é o prazo. Thomas e Pequeno Dragão, vocês vão para o Sítio A; eu, Victor e Herman estaremos responsáveis pelo Sítio B. Alguém quer falar alguma coisa antes de irmos para o próximo assunto?
Levantei a mão.
— Sobre o sítio A, qual o nível de infraestrutura aproximada deles?
— Detectamos cinco luas menores ao redor do gigante gasoso. — Moreau sentou-se e voltou a ler seu livro. — Como já disse, Pequeno Dragão, quatro delas são habitáveis.
— E a quinta lua? — questionou Victor.
— Vulcânica, alta atividade tectônica — explicou Moreau, com uma encarada rápida para Pequeno Dragão. — Mas os sensores precisam de alguns ajustes antes de determinarmos a composição do satélite.
Moreau virou mais uma página.
— Ainda não sabemos se a quinta lua possui alguma forma de vida inteligente. A distância e a atividade vulcânica dificultam as leituras.
— Como chamam a quinta lua? — Victor olhou para Pequeno Dragão.
— Não sei. — Ele deu de ombros.
— Você deveria saber esses nomes. — Apertou os dedos e ficou de pé.
— Cale a boca — interrompi, antes que ele falasse alguma besteira.
Victor me encarou por alguns segundos.
— Como você quiser, traça de biblioteca.
Ele voltou a se sentar e cruzou os braços.
— Vamos direto ao ponto, Andrew. Você não nos chamou aqui para discutir isso. Poderíamos ter resolvido tudo por telefone. Então, por que queria todos nós presentes?
— Como sempre, perspicaz da sua parte. — Andrew levou a mão ao bolso do paletó e retirou um pequeno cilindro de vidro.
O recipiente era pouco maior que a palma de sua mão. Em seu interior, um líquido translúcido oscilava entre tons de azul e vermelho, em um movimento quase hipnótico.
— O que é isso? — perguntou Samuel.
Seus olhos permaneceram fixos no cilindro, acompanhando cada mudança de cor.
— Ainda não decidimos um nome. Por enquanto, chamamos de Reator de Protótipo — explicou Moreau. — Aquelas pedrinhas que você trouxe nos ajudaram bastante. — Ele levantou os olhos e sorriu para o Pequeno Dragão.
— Não são pedrinhas, são Pedras Espirituais — rebateu o Pequeno Dragão.
— Não se preocupe. Vamos decidir um bom nome científico para elas depois. — Moreau passou para a próxima página do livro.
— Uns dez quilos. Suficiente para o exército imperial pelos próximos cinco anos — respondeu Moreau, com certo desprezo. — É por isso que considero o Sítio B mais importante no momento. De que adianta termos energia infinita se não pudermos utilizá-la?
— Temos um planeta quase quinze vezes maior que o nosso, cheio disso — argumentou Andrew, ao entregar o objeto para Victor. — O Sítio A é muito mais promissor que o B.
— Quanto tempo para enviarmos os primeiros batedores? — indagou Victor, enquanto balançava o objeto na mão e testava seu peso.
— Até o final da guerra, já devemos estar relativamente preparados para enviar um ou dois dos nossos — respondeu Moreau, continuando focado em seu livro.
— Do que isso é feito?
Victor ergueu o cilindro contra a luz fraca das lâmpadas presas nos andaimes.
— Uma liga de cristal e metais condutores — respondeu Moreau. — A composição exata ainda está sendo estudada. É uma estrela em miniatura; utilizamos plasma líquido e eletromagnetismo para conservar o calor.
Victor virou o cilindro entre os dedos. Em um ato bem imprudente, jogou o objeto para o alto.
Antes que pudesse pegá-lo de volta, Andrew estendeu a mão e agarrou o reator em pleno ar.
— Isso é frágil, seu…
Ele interrompeu a frase, respirou fundo e guardou o cilindro novamente no bolso do paletó.
Victor levantou as mãos, sorrindo.
— Bem, eu preciso voltar… — Herman se levantou e esmagou a garrafa vazia na mão.
— Então finalizamos por aqui — disse Moreau.
Fechou o livro, ajustou os óculos e percorreu cada um de nós com os olhos.
— Pequeno Dragão, reúna-se com Lefkó. Quero que juntem o máximo de informações possível sobre seu antigo lar — ordenou Andrew, fechando a pasta e entregando-a a Moreau.
O jovem assentiu e então sorriu para mim.
— Boa noite a todos — disse Andrew.
Sem esperar o nosso cumprimento de resposta, virou-se e desapareceu na escuridão atrás do altar.