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Capítulo I (1) – Lóngmén Guān

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Capítulo I (1) – Lóngmén Guān

Lóngmén Guān, Mar do Dragão. Dias atuais.

A ilha se erguia no horizonte, uma dezena de picos rochosos com paredões de pedra escura e úmida. O porto principal era uma enseada segura na costa oeste da ilha, onde enormes juncos de três, quatro e cinco mastros permaneciam dispostos em fileiras.

As construções esculpidas nas rochas ou penduradas nos penhascos me arregalaram os olhos com a ousadia dos habitantes. Escadarias de pedra, túneis sinuosos e passarelas de madeira conectavam os diferentes níveis da cidade. Cultivadores voavam pelos céus em suas espadas e montarias. Comerciantes de rua se aglomeravam logo na entrada e anunciavam seus produtos aos gritos.

Já fazia três dias que havíamos atravessado Shuǐ Tiān Mén.

O restante da viagem foi relativamente tranquilo. Mei parou de chorar, embora estivesse visivelmente abalada e um tanto relutante em comer. No fim, porém, cedeu.

Fomos os primeiros a desembarcar.

Mal colocamos os pés em terra firme, uma dezena de comerciantes se aproximou de nós.

— Anéis de armazenamento! Uma pechincha! Duas moedas de prata apenas!

— Pílulas de cultivo aqui! Os melhores preços da cidade baixa!

Balancei a mão em negação para todos. Ficava difícil caminhar no meio de toda aquela multidão.

— Fique perto — disse a Mei, que me seguia logo atrás.

— Para onde vamos? — perguntou ela, enquanto um comerciante tentava lhe vender um frasco de perfume roxo.

— O capitão nos recomendou uma pousada. Vamos para lá primeiro.

Saímos da parte baixa do porto e chegamos a uma escadaria de pedra, esculpida na própria rocha, cuja iluminação vinha de lanternas de papel penduradas no teto. Havia portas nas laterais, para dar acesso a lojas e casas construídas dentro da pedra.

A escadaria parecia não ter fim. Os túneis eram confusos, escuros e lotados de gente. Continuar a subir até chegar na parte alta da cidade, essa era a instrução dada por Li Wang. Segui a instrução dele, até sentir a luz do sol novamente.

A diferença de claridade me fez cerrar os olhos até me acostumar.

O bairro alto era completamente diferente.

Os grandes picos rochosos davam lugar a enormes torres e pavilhões suntuosos, erguidos sobre as encostas e ligados por pontes de pedra. As ruas eram largas e bem cuidadas, cercadas por árvores ornamentais e jardins que ficavam diante das lojas mais refinadas e das grandes mansões.

Os cultivadores também pareciam seguir regras diferentes das que encontrei na parte baixa. Lá embaixo, voavam em todas as direções, desviavam no último segundo das pessoas, barracas, telhados e da rocha. Aqui, porém, seguiam trajetos definidos, como se houvesse verdadeiras ruas suspensas no céu acima de nós.

Guardas da cidade patrulhavam as vias. Suas armaduras cobriam o corpo inteiro, e cada um carregava uma longa lança. Havia sempre dois deles em cada esquina, imóveis e atentos ao movimento das ruas.

Enquanto caminhávamos, percebi que algumas pessoas nos observavam com curiosidade. Outras simplesmente desviavam o olhar. Duas mulheres passaram por nós usavam vestidos azuis de seda que se arrastavam até o chão. Tinham a pele clara como porcelana, maquiagem pesada e leques ornamentados nas mãos. Sombrinhas floridas protegiam seus rostos da luz do sol.

Quando passaram por Mei, uma delas levou o leque à boca.

As duas riram baixinho.

Mesmo depois que já estavam de costas, consegui ouvir uma pequena risadinha.

Olhei para Mei. Ela caminhava ao meu lado, mas havia baixado a cabeça.

— Tudo bem? — perguntei.

Ela demorou um instante antes de responder.

— Estou.

Assentiu com a cabeça, sem me olhar.

Continuei andando por mais alguns passos.

— Não parece.

Lóngmén Guān era muito maior do que eu imaginava. Quanto mais avançávamos, mais distante parecia estar do nosso destino.

Depois de quase uma hora de caminhada, finalmente chegamos à praça principal. Eu estava exausto. Minhas pernas queimavam de tanto subir, e sentei na primeira escadaria que encontrei.

— Está com sede? — indaguei a Mei, enquanto ainda recuperava o fôlego.

Por instinto, levei a mão ao bolso e procurei a carta do Mágico. Poderia simplesmente materializar uma garrafa de água. Parei no meio do movimento. Havia vários guardas que nos observavam à distância. Mostrar as habilidades das cartas naquele momento seria uma estupidez. Retirei a mão do bolso e respirei fundo.

— Obrigado — respondeu ela à minha pergunta.

Ela continuava perfeitamente bem, sem demonstrar o menor sinal de cansaço.

Olhei para ela por alguns segundos.

Eu estava bastante exausto depois de uma hora subindo degrau após degrau, enquanto ela parecia ter acabado de acordar, com uma disposição impressionante.

— Não cansou?

Ela balançou a cabeça em negativa.

— O quê você está fazendo? — gritou um homem corpulento atrás de mim. — Vamos! Levante-se! Saia daqui! Está afastando os clientes!

Girei o pescoço para trás, fixei meu olhar nele, sem falar nada.

Ele manteve o olhar por um tempo, antes de engolir em seco e sorrir de uma maneira estranha. O homem apontou para uma placa pendurada acima da escadaria.

— Aqui não é lugar para vadiagem.

Olhei para a placa. Os ideogramas continuavam tão ilegíveis para mim quanto antes.

— Você não sabe ler? — perguntou ele, ao cruzar os braços e o sorriso falso desaparecer.

— Não.

Ele soltou uma risada curta.

— Então vá embora. Não perturbe meus clientes!

Não respondi.

Levantei-me e comecei a caminhar.

Mei veio logo ao meu lado.

Só depois de nos afastarmos o suficiente para não sermos mais ouvidos pelo homem, ela perguntou:

— Por que você não sabe ler?

— Eu sei ler.

Ela me olhou, confusa.

— Então por que não conseguiu ler a placa?

— Porque não sei ler o seu idioma.

Ela pareceu ainda mais confusa.

— Mas você fala tão bem…

Sorri.

— Falar é fácil quando se tem as ferramentas certas. — Levei a mão ao pescoço e afaguei a cabeça de Lefkó, que permanecia enrolada ao meu redor.

Cruzamos a praça e entramos numa rua lateral. O prédio havia sido construído sobre a rocha, em uma colina. Era uma grande construção de madeira escura, com sete andares e telhados ornamentais que se projetavam para fora. Um alto muro de pedra cercava toda a propriedade, enquanto uma escadaria de mármore e granito levava até uma varanda, onde alguns homens conversavam em voz baixa. Esculturas de cervos estranhos, cada um com um único chifre, estavam dispostas em pares, desde o início da escadaria até a porta principal.

— É aqui? — perguntei, coçando a cabeça.

Não era uma pousada comum, isso era evidente.

Mei arregalou os olhos e disse:

— Sim, é aqui. Qilin de Jade.