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Capítulo II (2) – Qilin de Jade

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Capítulo II (2) – Qilin de Jade

O interior era duas vezes mais luxuoso que o lado externo.

No meio do saguão, havia uma estátua feita de jade negro, tão polido que era possível ver o reflexo do ambiente. A estátua representava um dragão nativo, de corpo serpentino e sinuoso e quatro patas. Ele estava sobre um mar de ondas esculpidas, realistas e detalhadas, como se o próprio vento as tivesse moldado.

Sentados nas mesas, vários grupos conversavam em voz baixa. As mesas eram feitas de madeira escura, perfeitamente polida. Algumas tinham pequenos vasos de porcelana, outras possuíam jogos de chá feitos com porcelana fina. As paredes eram decoradas com pinturas de belas paisagens, de famosas batalhas e pessoas. O lugar cheirava a um incenso perfumado, luxuoso e de alta qualidade.

Senti os olhares direcionados a nós.

Um grupo de dois jovens estava sentado em uma mesa, bem ao lado da porta que levava ao pátio principal. Os dois vestiam roupas de seda amarelada, com bordados prateados nas mangas, e carregavam espadas presas à cintura.

Aproximei-me deles, e nossos olhares se encontraram. Um deles se levantou, e colocou-se na minha frente, bem no meu caminho.

— Presumo que seja o senhor Lyu? — questionou-me um deles, ao dar um passo para frente.

O mais alto do grupo era também o mais velho, embora não parecesse ter mais de vinte e poucos anos. Tinha os cabelos negros presos no alto da cabeça por um pequeno ornamento de prata com formato de leão e um rosto estreito, de traços delicados e quase femininos. Seus olhos, entretanto, demonstraram uma dureza estranha, quase implacável.

— Só pode ser ele — afirmou o segundo rapaz, e tomou um pouco do chá. Era um tanto roliço, as bochechas gordas e vermelhas. — É igualzinho à descrição. Vestes negras, serpente branca no pescoço.

— Senhor Toma Nasha Lyu, é um prazer conhecê-lo. — O primeiro fez uma respeitosa reverência com a cabeça e se aproximou um pouco mais. — Meu nome é Fang Hua Ping, discípulo interno do Pavilhão da Espada.

— O que você quer? — indaguei, sem nenhuma educação, direto e rápido.

O jovem cerrou os dentes; a expressão calorosa desapareceu.

— Perdoe-o, Ping, como eu lhe disse, eu sabia que ele era um caipira — falou o outro, com um sorriso irônico. Levantou-se, com certa dificuldade, graças ao peso. —  Senhor Toma Nasha Lyu. Meu nome é Ning Mu Wang, também discípulo interno do Pavilhão da Espada. Em nome da filial de nossa seita, gostaríamos de convidar você e sua companheira, Wen Qishu Mei, para uma visita de recrutamento.

— Senhores Fang Hua e Ning Mu, perdoem minha falta de conhecimento, mas como sabem nossos nomes? — Mei se adiantou, muito mais formal do que eu, e fez a pergunta que estava na ponta da minha língua.

Fang Hua Ping sorriu.

— Senhorita, todos conhecem os nomes de vocês.

— Que droga… — murmurei, um pouco mais alto do que deveria, levando a mão à cabeça.

Todos os pescoços se voltaram para mim. Ninguém disse uma palavra. Por um instante, parecia que até a respiração havia parado. Era como se eu tivesse acabado de insultar os próprios ancestrais deles.

— Demonstre um pouco mais de respeito pelo ambiente, Thomas! — repreendeu Mei.

Dei uma pequena gargalhada, incrédulo com a reação dos presentes. O silêncio durou pouco; logo as pessoas pararam de me encarar e retornaram ao que estavam fazendo antes.

— O que vocês querem? — repeti a pergunta.

Ning Mu Wang abriu um sorriso.

— Sabia que ia gostar de você.

Seu companheiro, Fang Hua Ping, lançou-lhe um duro olhar de reprovação antes de voltar a atenção para mim.

— Nossa seita é uma das cinco grandes do sul do Mar do Dragão. Por isso, gostaríamos de convidá-los para conhecer nossa seita e, quem sabe, para se juntarem a nós.

— Por que fariam isso? — questionei, de braços cruzados.

— Seu nome se tornou famoso, senhor Lyu.

— Meu nome é Thomas, e meu sobrenome é Nyrzyr.

Os dois se entreolharam. Tentaram pronunciá-lo por um instante, mas logo desistiram.

— Todos lhe chamam de Toma — Ning Mu Wang murmurou, um tanto decepcionado.

— Esse não é meu nome. — Balancei a cabeça em desaprovação.

— Mas nenhum de nós consegue pronunciar seu nome.

E eu também não conseguia pronunciar os deles sem o auxílio do veneno de tradução de Lefkó.

— Que seja. Chamem-me como quiserem — resmunguei, já irritado com toda aquela situação.

Fang Hua Ping assentiu.

— Senhor Toma, deixamos o convite em aberto. A filial do Pavilhão da Espada fica na sexta colina de Lóngmén Guān. Tanto o senhor quanto a senhorita serão bem-vindos.

— Obrigado. Iremos pensar a respeito — respondeu Mei, fazendo uma pequena e respeitosa reverência.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela segurou meu braço e começou a me conduzir em direção ao pátio interno principal.

— Thomas! Você não pode fazer isso! — sussurrou assim que nos afastamos dos dois jovens.

— Fazer o quê? — perguntei, sem oferecer resistência enquanto ela me puxava.

— Ser tão desrespeitoso assim! Ainda mais com representantes de uma seita tão importante.

— Não se preocupe tanto com isso. Agora me diga: o que você sabe sobre eles?

Mei ficou em silêncio por alguns instantes, pensativa.

— Meu tio… — começou ela. — Meu tio me falou sobre eles uma vez. O Pavilhão da Espada é uma das principais seitas do sul. Eles controlam várias minas e ilhas importantes e possuem algumas das melhores técnicas de espada de todo o Mar do Dragão. São bastante famosos.

Continuei caminhando; as pessoas no salão ainda mantinham o canto dos olhos em nós.

— O que será que querem conosco? — perguntei, mais para mim mesmo do que para Mei.

Parei diante da porta ornamentada, que estava entreaberta.

Empurrei-a e entrei.

Ao meu lado, sentado diante de uma mesa baixa de mogno escuro, havia um senhor de meia-idade. Ele me olhou de cima a baixo, levantou as sobrancelhas por um momento, pegou sua caneta de tinta e preparou-se para escrever sobre o rolo de papel de arroz.

— Bom dia, senhor — cumprimentou-me.

— Bom dia. Precisamos de dois dos seus melhores quartos, por favor.

Ele estendeu a mão.

— Placas de identificação, por favor.

Pisquei duas vezes, sem entender.

— Como?

Virei-me para Mei.

Ela ficou imóvel por um instante, como se tivesse acabado de lembrar de algo importante.

— Eu a perdi… — murmurou, ao encolher-se e olhar para baixo. — Esqueci completamente delas.

— O que seria isso? — perguntei, coçando a cabeça.

— Um documento. Pode ser feito de madeira ou jade — explicou ela, baixando a voz. — Aqui no Mar do Dragão, todo mundo precisa de um.

— Para quê? Tenho dinheiro e estou disposto a pagar bem pelos dois quartos.

O homem soltou a caneta sobre a mesa e cruzou os braços.

— Sem uma ficha de identificação, não posso registrar vocês.

— Por quê?

— É a lei. Somos obrigados a registrar todos os nossos hóspedes.

— Certo. — Coloquei dois dedos sobre o nariz e respirei fundo. — Onde posso conseguir essas tais placas?

— Vá à prefeitura. Se tiver sorte, poderá retornar no final do dia. Teremos muita honra em recebê-los, mas, sem placas de identificação, infelizmente, não podemos fazer nada.

— Onde ela fica?

— Na frente da praça principal, o prédio ao norte.

Assenti.

— Certo. Obrigado.