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Capítulo III (3) – Burocracia

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Capítulo III (3) – Burocracia

A prefeitura estava lotada.

O ambiente contrastava com o Qilin de Jade. A conversa alta da multidão, a aglomeração que me impedia de caminhar sem esbarrar em alguém. Tudo parecia feito para nos enlouquecer.

— Isso é a prefeitura? — exclamei, enquanto tentava atravessar e chegar à porta principal.

Quando o senhor me disse “prefeitura”, pensei em algo mais refinado, talvez um grande edifício administrativo, com jardins, funcionários bem vestidos e algum tipo de símbolo oficial pendurado na entrada.

Esqueça tudo isso.

Era uma bagunça completa.

O salão não possuía móveis ou qualquer tipo de decoração. Havia apenas o piso frio de madeira e um enorme balcão que se estendia de uma parede à outra, que dividia o cômodo ao meio.

Do lado dos funcionários, havia dezenas de cadeiras, estantes abarrotadas de papéis e uma falação desenfreada. Do outro lado estávamos nós: pessoas de expressão fechada, algumas impacientes, outras simplesmente cansadas, enquanto conversas soltas ecoavam pelo salão entre aqueles que ainda tinham paciência para conversar.

— Onde nós temos que ir? — Suspirei fundo, e clamei em silêncio por ajuda divina para evitar o tédio que provavelmente me esperava.

— Podemos pedir informações ali. — Mei apontou para uma velha senhora sentada atrás de uma pequena mesa ao lado da porta. Ela conversava com um jovem marinheiro de expressão fechada, que resmungava enquanto ela analisava um pergaminho que ele carregava.

— Pegar uma fila para descobrir qual fila eu tenho que pegar? — Balancei a cabeça. — Não tenho tempo para perder assim.

Observei a multidão e encontrei a vítima perfeita.

Um jovem, vestido com trajes nobres, de expressão cansada e com três pergaminhos presos ao casaco. Estava com as costas apoiadas numa coluna, batia os pés no chão impacientemente.

Sorri, confiante, ao me aproximar dele.

— Bom dia. Como vai? — disse eu, ao me encostar bem ao lado.

Observou-me em silêncio, primeiro o meu pescoço, depois as minhas roupas e, finalmente, encarou Mei.

— Bom dia… — respondeu, com desconfiança na voz.

— Faz um dia lindo lá fora, não acha? — perguntei, ao tentar puxar uma conversa inicial.

— Senhor, que os céus iluminem o vosso pequeno aprendiz, mas não acredito que este seja o local mais adequado para o senhor tentar conversar comigo sobre o clima — respondeu, de maneira extremamente formal.

— Então vou ser direto: você sabe onde eu posso pedir placas de identificação?

Encarou-me com surpresa e um tanto de descrença.

— Terceiro andar. Procure pelo Departamento de Identificação da cidade.

— Obrigado! — Fiz um sinal de joia com a mão e me virei.

— Senhor, espere um pouco. Você é Toma Nasha Lyu?

— Não — respondi, sem olhar de volta para ele.

Ele suspirou, decepcionado, e voltou a se recostar na coluna.

Subimos as escadas. Os andares superiores eram muito mais silenciosos e vazios do que o térreo. Na verdade, exceto pelos poucos funcionários, o lugar estava relativamente vazio. O que era um tanto curioso.

Aproximei-me de uma grande porta dupla que dava acesso a uma das salas. Um homem alto e musculoso parado ao lado dela ergueu a mão, e impedia imediatamente a minha passagem.

— Somente cultivadores.

— Preciso de placas de identificação.

— Andar de baixo.

Franzi a testa.

— Aqui não é o terceiro andar?

— Esta seção é reservada exclusivamente aos cultivadores. — O homem me examinou por um instante. — Desculpe-me, mas o senhor não parece ser um cultivador.

— Ela é uma cultivadora. — Apontei para Mei.

O homem cruzou os braços, o rosto sério, os olhos fechados como se eu falasse algum absurdo.

— Podem entrar — disse, ao empurrar uma das portas duplas.

— Obrigado pela sua compreensão. — Pisquei para ele, e entrei no cômodo.

A sala era muito menor do que eu esperava. Havia algumas mesas espalhadas pelo ambiente, cada uma ocupada por um funcionário. Pilhas de pergaminhos cobriam boa parte das superfícies, enquanto pequenas caixas de madeira, carimbos e frascos de tinta estavam organizados esplendidamente.

Aproximei-me de uma moça sentada atrás de uma mesa. Ela mantinha um dos ombros apoiado sobre a madeira e parecia estar no mais completo estado de tédio. Seus olhos acompanhavam lentamente o movimento das pessoas pela sala, sem demonstrar o menor interesse.

Tentei esboçar um sorriso para a funcionária, e tentar parecer um pouco carismático.

— Bom dia, tudo bem? Precisamos de placas de identificação.

— Primeira vez? — perguntou ela, a pergunta acompanhada com um bocejo.

Olhei para Mei e esperei que ela respondesse primeiro.

— Eu tinha uma placa, porém ficou em casa… — explicou ela, timidamente, sem conseguir encarar a mulher. Seus olhos permaneciam fixos no chão.

A moça pegou a caneta de junco, mergulhou na tinta e começou a escrever em uma fina folha de papel de arroz.

— E o senhor? — Me olhou de cima a baixo.

— Primeira vez, preciso de uma placa de identificação.

Ela fez uma breve anotação no papel antes de responder, com indiferença e frieza.

— O custo total será de três moedas de ouro.

— Três?

Para mim, três moedas de ouro eram fáceis de conseguir. Ainda assim, eu sabia que aquela quantia estava longe de ser pequena para os padrões de Daolong.

— Uma moeda pelo segundo forjamento da placa da moça e duas pelo forjamento de uma nova para o senhor — explicou ela.

Apontou para uma placa presa à parede, onde havia uma série de ideogramas cuidadosamente esculpidos. Olhei com o canto do olho para Mei, na espera da tradução dela.

— Tabela de preços — respondeu-me.

Entreguei as três moedas sob o olhar suspeito da funcionária. Dinheiro não seria exatamente um problema para mim.

— E agora? — questionei.

Ela girou as moedas na mão, colocou-as em um pequeno molde para confirmar se tinham o tamanho correto e, em seguida, colocou-as sobre uma balança.

— Sigam pelo corredor e falem com o senhor Zhu Mí Máng. — Ela nos entregou dois círculos de madeira, cada um com um buraco redondo no meio. — Ele dará continuidade ao processo.

Caminhamos um pouco mais. Os funcionários nos ignoravam completamente, passando por nós em uma caminhada lenta, quase como tartarugas sem pressa. Chegamos a uma porta entreaberta, no final do corredor. Do lado de fora, havia algumas poltronas luxuosas e uma mesa de centro sobre a qual repousavam uma chaleira e peças de porcelana delicadas.

Bati à porta.

— Com licença.

— Quem é? — falou, a voz um tanto aguda e fina.

Ele estava de costas para nós, com os olhos fixos na janela, observava a movimentação dos transeuntes na praça principal lá fora. Era baixo, bem baixo, menor que Mei; sua cabeça mal chegava à altura da janela.

Havia uma grande mesa no centro da sala e, nas estantes, inúmeras poções de cores exóticas, potes contendo ossos moídos, pedras espirituais verdes e azuis protegidas por pequenas caixas de vidro. Sobre a mesa, havia um cristal vermelho que brilhava fracamente, iluminando os objetos ao seu redor com uma luz rubra.

O homem finalmente se virou.

Homem?

Para minha surpresa, era uma criança.

Tinha cabelos negros presos em um pequeno coque no alto da cabeça e vestia uma túnica cinza simples, sem qualquer bordado que indicasse riqueza ou posição. O rosto era jovem demais para combinar com a voz aguda que eu acabara de ouvir.

Ele deveria ter, no máximo, doze anos.

— Que merda é essa… — exclamei, sem pensar muito nas palavras.

Ele ignorou completamente minha falta de educação. Sentou-se em sua cadeira, totalmente relaxado.

— Forjamento de placa de identificação? — perguntou, os olhos castanhos fixos nos dois círculos de madeira em minha mão.

Fiquei em silêncio.

Trabalho infantil era permitido?

— Sim. Eu preciso reforjar a minha placa, e ele precisa fabricar a primeira dele. — Mei tomou a dianteira da situação.

— Muito bem. Quem vai primeiro?

Pegou a caneta de junco e começou a anotar.

— Ela — respondi imediatamente.

— Então, por favor, saia da sala enquanto eu faço o ritual. — Ele sorriu para mim.

— Ritual?

Mei apenas acenou com a cabeça, em sinal de que estava tudo bem.

Saí da sala e fechei a porta atrás de mim.

Fiquei parado no corredor por alguns segundos.

— Ritual… — murmurei, ao me sentar em uma das cadeiras do lado de fora da sala.

— E você? — Lefkó saiu de dentro do meu casaco, deslizando lentamente até repousar sobre meu ombro.

— Eu o quê?

— Você e o ritual. Como espera passar?

— Não entendi seu ponto…

Cocei o canto do olho, tentando afastar o tédio que começava a se acumular em minha cabeça.

Lefkó ergueu a cabeça e me encarou.

— Você não possui Qi.

— Eu sei.

— Então?

— Então, o quê?

— O ritual verifica provavelmente a presença de Qi.

Fiquei olhando para ela.

— E daí?

— E daí que você não possui nenhum.

— Eu dou um jeito. Sempre dou um jeito.