Capítulo IV (4) – Nome Oficial
Capítulo IV (4) – Nome Oficial
Quinze minutos.
Longos e tediosos.
Quando eu estava prestes a cochilar, a porta se abriu.
— Acabou? — Levantei-me, sentindo o corpo um tanto rígido após permanecer sentado por tanto tempo.
Mei sorriu para Zhu Mí Máng e saiu da sala.
— Sim, finalizamos. Wen Qishu Mei, leve a placa para o departamento de fundição da cidade; eles irão reforjar sua nova placa — disse ele, apontando para mim. Agora, o senhor Nasha Lyu, vamos começar.
— Nyrzyr — falei com um suspiro irritado, enquanto entregava Lefkó para Mei.
— Não entendi, Senhor Nasha Lyu. — Ele balançou a cabeça.
— Nyrzyr. Meu sobrenome é Nyrzyr. — Fechei a porta, e sentei-me na cadeira.
O rapaz ignorou completamente minha reclamação.
— Senhor Nasha Lyu, antes de começarmos…
Desisti. Ainda tinha esperanças de fazê-lo falar meu nome de forma correta.
— Vou testar o nível da sua energia demoníaca. — Apontou para o cristal vermelho no centro da mesa.
— Quê?
— Sua energia demoníaca. Cultivadores demoníacos não são permitidos em Lóngmén Guān, ou em qualquer outra cidade.
— Energia demoníaca? — repeti, ao olhar para o cristal vermelho.
— Sim, aproxime sua mão.
Encostei no objeto e senti o calor que emanava, como uma pedra aquecida pelo sol.
Nada aconteceu.
— Então? É isso? — questionei. Já imaginava aquele resultado; minha preocupação era outra.
— Estranho. O senhor é um cultivador?
— Sim. — Sem pensar duas vezes, eu menti. Afinal, precisava da placa.
— Não consigo detectar seu Qi, muito menos seu Dantian… — Zhu Mí Máng, de braços cruzados, batia o pé no chão.
— Sei ocultar meu poder muito bem.
Zhu Mí Máng desistiu.
— Qual é o seu nome completo? — perguntou, enquanto começava a anotar.
— Thomas Nyrzyr.
— Toma Nasha Lyu… — sussurrou de volta.
— Thomas Nyrzyr! — repeti.
Ele me olhou com seriedade.
— Não conheço os caracteres necessários para escrever esse nome.
Respondi com um verdadeiro meio-sorriso. Sem dizer nada, mas minha expressão falava tudo.
Zhu Mi Máng esfregou as mãos e, com um suspiro, soltou a caneta na mesa.
— Sei que algumas tribos selvagens dos reinos inferiores não usam os caracteres emitidos pelo Palácio Celestial. O senhor não me parece um selvagem…
— Defina “selvagem”.
Selvagem.
Eu tinha certeza de que, para os habitantes de Daolong, esse termo teria um significado diferente do meu.
— As tribos que vivem nas montanhas e em territórios isolados. O senhor é bem diferente de um deles. Apesar de suas roupas serem bem feias — falou, no tom de voz mais frio possível.
Ignorei o comentário.
— Então, como vai ser? Vai escrever o quê?
— Podemos escrever um novo nome nos caracteres oficiais. Será o seu nome para o resto da vida.
Fiquei calado, pensativo na oferta dele.
Resto da vida? Que se dane, eu não pretendia ficar em Daolong por tanto tempo assim.
— E se eu não quiser um novo nome?
Zhu Mí Máng ergueu uma sobrancelha.
— Então o senhor terá um problema.
— Que tipo de problema?
— Sem um nome que possa ser escrito nos caracteres oficiais, não posso concluir o registro.
— Então qual vai ser o meu nome?
— Toma Nasha Lyu. Não é esse o seu nome?
— Não. Meu nome é Thomas Nyrzyr. — Apesar da minha promessa de não me irritar mais, estava ficando difícil.
— Que tal Tang Ní Zhào?
— Ní? Não sou esse tipo de cavaleiro. — Balancei o dedo em negativa.
Ele franziu a testa.
— Não entendi.
— Deixa para lá.
Olhei para o teto. Aquilo já estava demorando mais do que deveria.
— Quais são minhas outras opções?
— Já sei! Que tal Lǚ Tuōshā?
Não sei por que continuei pedindo sugestões a ele. Todas eram terríveis.
Então, uma ideia maldosa surgiu em minha mente. Era perfeita demais.
— Meu nome será… — Sorri ao me lembrar do rosto de medo do meu homenageado alguns dias antes. — Wen Qishu Renyan.
Zhu Mí Máng ficou imóvel por alguns segundos.
Então me encarou, incrédulo.
— Com todo o respeito, o senhor é idiota? — A reação de Zhu Mí Máng me atingiu como um caminhão. — Não vou escrever esse tipo de nome! Seria ofensivo para a senhorita que acompanha o senhor!
Deixei-me escorregar na cadeira. Para mim, tinha sido uma ótima escolha de nome.
— Seu nome será Toma Nasha Lyu, na verdade, o que acha de Niè Zī Tao?
Naquele ponto, qualquer nome, tirando esse maldito Toma Nasha Lyu, me parecia mais razoável.
— Pode ser… — murmurei, o corpo quase caindo da cadeira.
Zhu Mí Máng assentiu e voltou a mergulhar a caneta na tinta.
— Niè Zī Tao — repetiu, enquanto escrevia os caracteres lentamente. — Sim, ótima escolha.
Ele ergueu os olhos para mim.
Minha postura desleixada, o corpo largado sobre a cadeira e o bocejo de tédio provavelmente não ajudavam a causar uma boa impressão.
— O que o senhor acha?
Estendeu a folha para mim. Olhei para os caracteres cuidadosamente escritos.
— Parece bom — respondi, embora não fizesse a menor ideia do que estava escrito.
Ele franziu a testa.
— O senhor nem sabe o que está escrito.
— Você acabou de me dizer.
— Poderia estar escrito “grande idiota babaca”, e o senhor aceitaria do mesmo jeito?
— Você escreveria isso?
— Não.
— Então, confio em você. — Me ajeitei novamente na cadeira.
Ele escreveu mais algumas vezes no papel, em total silêncio e concentração.
— De onde o senhor vem? Qual é a terra do seu clã? — perguntou, sem sequer olhar para mim.
— Local de nascimento ou onde fui criado?
— A terra da sua família. Acredito que o senhor seja um nobre, não?
— Pode-se dizer que sim. Nasci em Thomas Hope e fui criado na cidade de Joia da Coroa.
Ele se levantou com tanta pressa que quase derrubou a cadeira. Sem fazer qualquer comentário, começou a vasculhar os pergaminhos empilhados sobre as estantes.
— Qual dos Cinco Reinos Mortais?
— Império Unido.
— Não conheço esse reino…
Zhu Mí Máng derrubou vários pergaminhos no chão e começou a procurar entre eles. Depois, esticou-se para alcançar um que estava no alto de uma estante, apoiando um dos pés na prateleira inferior.
— Qual é o nome da maior cidade nas redondezas?
— Joia da Coroa.
— Deve ser uma cidade bem pequena, nunca ouvi falar — comentou, enquanto agarrava um pergaminho empoeirado no fundo da última prateleira da estante. — O senhor é dos Cinco Reinos Mortais? Não?
Ele tropeçou e quase caiu de costas.
Levantei-me por reflexo e o segurei antes que caísse.
Zhu Mí Máng ficou suspenso por um instante, apoiado em meu braço. O pergaminho escapou de sua mão e caiu no chão, desenrolando-se até parar aos meus pés.
— Desculpe. — Sorriu e fez um pequeno cumprimento com a cabeça em agradecimento, enquanto pegava o pergaminho.
— Não, não sou dos Cinco Reinos Mortais. — Sentei-me novamente na cadeira.
— Quão grande é a cidade que o senhor mencionou? Joia da Coroa? — Zhu Mí Máng afastou os objetos da mesa e abriu o pergaminho.
— Vinte milhões de habitantes.
— Vinte… milhões? — Seu queixo caiu. — O senhor está inventando isso! A capital do Palácio dos Deuses tem dois milhões. Imagine uma cidade com vinte milhões!
— Não estou mentindo para você.
— Qual é o assento tradicional da sua família? — Desviou o olhar e começou a vasculhar o pergaminho.
— Quer uma história detalhada da minha família? — questionei de volta, pronto para começar um longo monólogo.
— Conte-me.
— Hursag-Nercel, a cidade-monastério, é o lar ancestral da minha família. Depois, nos mudamos para a ilha de San Hannibal. Após a Titanomaquia, a família se dividiu entre os Nercel de Caldris e os Nyrzyr de Hy-Brasil. Após a vitória do Quarto Imperador, nos mudamos para a segunda capital, Tzarerburg. Por fim, durante o reinado do Décimo Imperador, fomos para a nova capital, Joia da Coroa.
Zhu Mí Máng ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para mim.
— Espere… o senhor está inventando esses nomes?
— Não.
— Está, sim. — Ele apontou para o pergaminho sobre a mesa. — Este é um mapa das províncias que existem além do mundo conhecido. Não há nenhuma Joia da Coroa aqui. Nem Tzarerburg. Nem San Hannibal. Nenhuma dessas cidades que o senhor mencionou.
— Então?
— Então pare de inventar!
— Não estou inventando.
Ele balançou a cabeça, como uma criança mimada.
— Não, não e não! — Cruzou os braços e fechou os olhos, permanecendo em silêncio. Seus lábios formaram um pequeno bico de indignação.
Observei-o por alguns instantes.
Agora que prestava atenção, era difícil não notar como suas feições destoavam da maneira irritadiça com que se comportava. Zhu Mí Máng tinha um rosto delicado, quase feminino, com a pele clara e cuidadosamente tratada. Seus olhos eram grandes e ligeiramente alongados, emoldurados por cílios escuros que pareciam longos demais para um homem. O nariz era pequeno e fino, e os lábios estreitos completavam um conjunto de traços suaves.
— Escreva Tianhuang e tudo estará resolvido, não? — falei.
Eu deveria ter respondido isso desde o começo. Não havia necessidade alguma de falar sobre as histórias da minha família, cidades que ele nunca ouvira falar ou qualquer outra coisa. Bastava dar-lhe um nome que pudesse escrever e seguir em frente. Não sei por que resolvi ser sincero, já que, pensando bem, mentir às vezes era o caminho mais fácil. E, naquele momento, eu estava tornando tudo muito mais complicado do que precisava ser.
Ele parou com a pose de birra. Voltou os olhos para o mapa e começou a passar os dedos pela borda.
— O senhor disse, Hy-Brasil?