Capítulo V (5) – Teste de Proficiência
Capítulo V (5) – Teste de Proficiência
— Sim disse, Hy-Brasil, lar ancestral do Primeiro Imperador — respondi para ele.
Zhu Mí Máng ficou em silêncio, os olhos e atenção focados em um nome na extrema borda direita do mapa.
— O senhor está mentindo! — Bateu a mão na mesa, que fez um estrondo.
Decidi não responder às acusações dele. Apoiei a minha cabeça sobre a mão esquerda, e o encarei no fundo dos olhos.
— Quem é esse tal Primeiro Imperador? — questionou, enquanto passava a dedo indicador no mapa. — Nosso único Imperador é o Imperador Dragão! Esse título de primeiro, segundo, normalmente é usado para os governadores do Reino dos Celestiais.
— Não estou com paciência para explicar isso — respondi. — Podemos simplesmente chegar à parte que realmente importa? Quero voltar para o Qilin de Jade o quanto antes.
Zhu Mí Máng estreitou os olhos.
— Então o senhor admite que está mentindo?
— Não admiti coisa alguma. — Suspirei. — Escreva o que quiser e terminemos logo com isso.
— Como é Hy-Brasil?
Ele parou de discutir. Havia curiosidade em sua voz.
— Quê? — perguntei, sem entender a mudança repentina de postura.
— Como é essa tal cidade onde o senhor nasceu?
— Não nasci em Hy-Brasil. Nasci em Thomas Hope. Hy-Brasil é a ilha que minha família reivindicou antes do início do primeiro século.
Zhu Mí Máng fechou os olhos por um instante e respirou fundo.
— O senhor realmente não consegue parar de inventar coisas, não é?
— Você é muito chato, sabia?
— Como ousa!
— Pela paciência dos Santos Messias, vamos para o que importa?
Zhu Mí Máng abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Por um instante, pareceu considerar seriamente a possibilidade de me expulsar de sua sala. Depois, fechou os olhos, inspirou profundamente e tornou a se sentar.
— Muito bem, como quiser, senhor Nasha Lyu. Vamos terminar seu registro.
— Nyrzyr.
— Sim, sim. Nasha Lyu.
— Hy-Brasil… — murmurou, enquanto escrevia em ideogramas.
Cocei a cabeça.
Antes, ele dissera que não conseguiria escrever meu nome. Agora, porém, parecia capaz de escrever o nome da ilha. Não fazia sentido.
— O que você está escrevendo aí? — Apontei para os caracteres que ele acabara de escrever.
Ele me olhou como se eu fosse o maior dos idiotas. Seu olhar era cínico e analítico, acompanhado por aqueles grandes olhos castanhos.
— Hy-Brasil.
— Como?
— Como o quê? — perguntou, erguendo a cabeça, confuso com a minha pergunta.
— Você consegue escrever Hy-Brasil, mas não consegue escrever Thomas Nyrzyr?
Ele me encarou com seriedade e voltou a escrever os ideogramas.
— Responda-me!
— Sei escrever o nome de Hy-Brasil porque ele consta nos registros do Palácio Celestial.
Fiquei imóvel por um instante.
— Mas que diabos… — murmurei, sentando-me na cadeira enquanto a informação me atingia em cheio.
Ele estranhou minha reação. Parou de escrever e passou o dedo pela borda do mapa.
— Bem aqui. — Apontou para o local e voltou os olhos para mim.
O ideograma não fazia o menor sentido para mim. No entanto, a pequena ilha no canto inferior esquerdo parecia mais uma mancha de café do que uma ilha de verdade.
— Não coloque isso. — Levantei-me, e bati a mão na mesa. — Escreva Tianhuang. Sou de Tianhuang, eu estava brincando com você.
— Não posso apagar.
— Ah você pode. — Balancei a cabeça e apontei o dedo indicador para ele.
Zhu Mí Máng olhou para o meu dedo e, em seguida, para o meu rosto.
— Não posso apagar um registro oficial… — repetiu, ao cruzar os braços e me encarar.
— Você pode e vai!
Seu sorriso se transformou numa expressão de pura malícia.
— Então, o senhor estava mentindo para mim! — Ele gargalhou sozinho. — Eu sabia! Eu sabia! Achou que conseguiria enganar Zhu Mí Máng, mas eu conheço todas as terras conhecidas do mundo!
Fiquei em silêncio, observando-o se vangloriar como um tolo.
— Agora, tire esse registro daí.
— Que registro? — Ele voltou a rir. — O senhor achou que conseguiria me enganar, mas fui eu quem enganou o senhor!
— Então, o que você escreveu aí? — Suspirei. Aquele garoto começava a me irritar.
— Tianhuang, naturalmente. Assim como no registro da noiva do senhor.
— Noiva? Quem? Mei? — perguntei, sem compreender exatamente o que ele queria dizer. — De onde você tirou isso? Ela é só uma amiga… se é que posso chamá-la assim. Eu tinha uma dívida com o tio dela.
Ele apontou o dedo para mim e continuou a rir.
— Amiga? Não tente me enganar novamente, senhor Nasha Lyu.
— De onde você tirou que ela era minha noiva?
— Bem… — Ele se calou por um instante. — Vocês dois estão viajando juntos e… Bem, são apenas rumores…
— Rumores? O que você sabe?
Zhu Mí Máng apoiou os cotovelos sobre a mesa, entrelaçando os dedos diante do rosto. Um sorriso presunçoso surgiu em seus lábios.
— Toma Nasha Lyu e Wen Qishu Mei… — Fez uma pausa calculada, e passou a língua pelo lábio superior. — Os dois únicos sobreviventes do surgimento de uma besta espiritual ancestral que devastou a seita e a família que controlavam o porto de Tianhuang. Alguns dizem que o senhor exterminou os Hua Yuling sozinho.
Ele me examinou de cima a baixo, com uma expressão de evidente decepção.
— Agora que o vejo pessoalmente, devo admitir que esperava algo mais… imponente. O senhor parece passivo demais para alguém capaz de tal feito.
Passivo? Sério? Era isso que ele pensava de mim?
— Que ótimo… — Suspirei e balancei a cabeça. — Terminamos aqui? Posso ir embora?
— Ainda não. Preciso avaliar sua aptidão espiritual e vincular seu sangue ao registro.
Zhu Mí Máng pousou a mão sobre a pedra vermelha no centro da mesa. Sua superfície brilhou, mudando lentamente para um amarelo intenso.
Franzi a testa.
— Já não fizemos isso antes?
— Na primeira vez, verifiquei apenas se havia vestígios de energia demoníaca em seu corpo. São procedimentos completamente diferentes.
— E qual é a diferença?
Ele me encarou por alguns segundos, até o momento, era o que ele mais fazia, me encarar em silêncio, como se eu fosse um quadro abstrato em exibição.
— Perdoe-me pela pergunta, senhor Nasha Lyu, mas… o senhor é um caipira?
Olhei de volta para ele, sem falar nada, apenas a expressão neutra e de tédio.
— Por favor, vamos terminar isso logo — disse eu, já entediado de tudo aquilo.
Não perguntou mais nada, apenas estendeu a mão para a pedra agora amarelada, como se esperasse que eu reagisse.
— O que seria suposto eu fazer?
Pisquei algumas vezes.
— O senhor é estúpido?
— Talvez. Agora, diga-me: o que exatamente deveria fazer aqui?
— Preciso mapear o fluxo de Dantian do senhor. — Zhu Mí Máng balançou a cabeça e soltou um longo suspiro. — Coloque a mão sobre a pedra e conduza seu Qi pelo Dantian. Ela registrará seus canais, a intensidade e a natureza do seu fluxo espiritual.
Segui suas instruções. Apoiei a mão sobre a pedra e senti um calor suave se espalhar pela palma.
— O senhor sabe usar Qi, certo? — perguntou, encarando-me com suspeição.
— É claro. — Menti.
Então, tentei forçar a névoa negra a interagir com a pedra.
Uma ideia estúpida.
Assim que a névoa tocou a superfície, meus músculos enrijeceram. Minha mão ficou presa, como se tivesse sido cravada na pedra, e não consegui retirá-la. O chão e as paredes começaram a tremer. Os pergaminhos nas estantes sacudiram e, um após o outro, despencaram no chão.
— O que está fazendo, seu estúpido? — Zhu Mí Máng aproximou-se, mas uma força invisível pareceu impedi-lo de avançar.
Não consegui responder. Mal era capaz de abrir a boca.
A pedra começou a brilhar, emitindo uma luz cada vez mais intensa, até que sua superfície se tornou tão luminosa quanto o próprio sol.
A luz envolveu meu corpo, e logo fui cegado por sua intensidade.