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Capítulo 66 – Repetido.

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Capítulo 66 – Repetido.

— Talvez isso doa um pouco — avisou o velho homem de cabeça brilhante, antes de derramar a mistura sobre o braço de Jonas.

Seus dentes apertaram o lenço que usava como mordedor, enquanto a aflição lacerante se espalhava pelos ferimentos, fazendo seus olhos lacrimejarem ante o oleoso líquido ardente.

Cheirava a cânhamo.

O fármo pareceu indiferente a sua reação, continuando a ministrar a medicação por toda a abertura vermelha em sua carne. Por todo o braço, nas costelas e no pescoço. Saíra ferido do confronto com o dente de adaga, sendo atendido por moradores do rio atraídos pelo barulho da luta, tendo os ferimentos lavados por aguardente e enfaixados com panos limpos. mas não teve noção da real gravidade até o outro dia, quando tudo já havia passado. Pensava não ser tão sério, afinal, mesmo com a dor, ainda podia andar. Mas Graça o fez crer que era, ficando pálida como uma parede recém pintada de cal ao vê-lo sem camisa. Motivo pelo qual Jonas fora praticamente obrigado a procurar por um fármo e tratar suas feridas corretamente, tendo de passar por aquela dor.

Talvez não tenha durado mais do que alguns minutos, porém Jonas não desejava mais revivê-los durante toda a sua vida. Ao fim, seus ferimentos foram envoltos em faixas empapadas com uma gosma que parecia catarro, cheirando a mato selvagem. Então Jonas vestiu-se  e dez moedas de cobre saíram de suas mãos para as mãos do fármo, que deu-lhe um sorriso satisfeito em resposta.

— Que a sorte o acompanhe, jovem senhor — saudou ele quando Jonas saiu de sua loja, caminhando pelo corredor verde onde ficava a maior parte dos fármos e alquimistas de Beuha.

Havia sempre grande movimento de aventureiros da guilda e caçadores livres, comprando poções e medicamentos, principalmente após o abatedouro ser aberto. Porém naquele dia, a quantidade parecia ter triplicado. Uma turba em especial fazia grande confusão na frente de uma banquinha bem conhecida, onde uma senhora de cabelos grisalhos e rosto seco vendia seus últimos frascos de poção cicatrizante.

Um pouco além dela um homem robusto discutia com um vendedor um palmo mais baixo e duas vezes mais largo sobre o preço de uma dúzia de bálsamos. Ao final da rua, crianças moíam cascas de árvores na fachada do prédio de esquina, onde um casal vendia substâncias que funcionavam como suplementos.

Em nenhum lugar Jonas encontrou Keren.

Pisando com certo desconforto em seu pé direito, ele rumou em direção ao prédio da guilda, sentindo o calor do meio dia.

Desejou comer algo e passou por onde deveriam vender frutas e verduras, notando outra vez o movimento atípico. Se o corredor dos fármos estava super lotado. A rua das frutas estava esvaziada. Fosse de clientes, fosse de comerciantes.

Continuou andando, sem achar algo que o agradasse.

Mulheres estendiam roupas e toalhas nas janelas, garotos corriam pela rua de calçamento enlameada, e um grupo de homens se juntava próximo a um beco, discutindo assuntos seus, que Jonas ouviu sem prestar atenção, ouvindo algo sobre vingança a outro grupo de aventureiros.

Ele se afastou, desejando não ouvir mais. E por um momento sua mente se voltou para a história contada pelo velho homem do rio. Sobre as mulheres.

Uma delas não tinha retornado, e as outras pouco pareciam se importar.

Beuha não era propriamente considerada uma cidade, e sim um assentamento feito por aventureiros, em ruínas reconquistadas dos monstros que as ocupavam, os orcs. E depois fora ocupada como posto avançado para explorar as terras desoladas. Atraindo comerciantes pouco a pouco, e aumentando a população.

Não pertencia a nenhum reino, nem possuía qualquer governador ou lei formal. Com a guilda sendo o único e principal meio de autoridade na região. Porém isso parecia ocorrer apenas dentro dos limites ocupados. O que ocorresse nas áreas de caça ou em lugares não vigiados era da conta de quem estivesse presente.

Lembrou-se outra vez das colinas uivantes. Se fosse outro e não Leovard ali, o que teria ocorrido?

Haviam tido sorte.

Retornou para a sede da guilda, subindo ao seu quarto e encontrando-se com Graça.

— Está melhor, querido? — perguntou a senhora, em tom preocupado.

— Sim, praticamente me remontaram.

— Oh, graças a Deus — Graça aproximou-se, tocando-o, como se para conferir se Jonas estava bem.

Teria o acompanhado ao fármo, se Jonas não tivesse praticamente fugido dela. Detestava quando sua avó o levava ao médico na infância, tratando-o como se o catarro preso no pulmão fosse uma pneumonia, e a gripe normal, um câncer. Sentia que Graça agia do mesmo modo e tratou de se cuidar de uma vez.

— Cadê o Erik e o Leandro? — perguntou, notando apenas a boa senhora e seus animais no quarto. O coelho dormia, e o fanzo espiava o movimento da rua pela janela. Ambos pareciam mais gordos do que antes.

— Desceram há algum tempo — comentou ela, com uma expressão desaprovadora. — Espero que não estejam bebendo. Deus sabe como isso faz mal.

Jonas deu-lhe um meio sorriso, então virou-se para sair.

— Tá bom, vou atrás deles — avisou, girando os calcanhares e projetando a mão para a porta.

— Certo, volte logo — ouviu a senhora pedir e uma estranha sensação aqueceu seu peito. Olhou para a mulher idosa. Parecia tão frágil sem um dos braços.

— Certo — respondeu, com um sorriso que surgiu facilmente.

Desceu pela escadaria até a taverna, onde mais de uma dezena de aventureiros ocupavam as mesas, conversando em voz baixa.

Jonas fingiu não escutá-los.

Em meio aos sussurros e murmúrios entrelaçados, ele ouviu algumas conhecidas e seguiu até elas. Em duas mesas que formavam uma, viu o rosto sorridente de Leandro, os braços cruzados de Dork’t, e o sorriso entretido de Lect, que parecia afinar um instrumento de cordas redondo. E também o olhar concentrado de Erik, e o vermelho para o qual ele olhava, ornamentando a cabeça de Morda. Um broche contendo um estrela dourada de quatro pontas em um fundo branco

Ela falava sobre si, Jonas pôde ouvir, sobre as amigas que teve, e os professores que a ensinaram. E sobre uma torre. E Erik parecia muito concentrado em ouvir.

— Ei, Jonas — Leandro ergueu um copo, acenando.

Lect passou os dedos sobre as cordas e fez soar um acorde agudo.

— Eeei Jonaaas — cantarolou, dedilhando mais algumas notas.

Dork’t grunhiu, olhando para o companheiro violonista.

— Vejam só, se não é o bom decano que matou o dente de adaga — Lect sorriu. — Ande, sente-se e sirva-se. Queremos uma história, e você nos vai contar — Arpejou nas cordas, a melodia parecia ondas se quebrando no ouvido de Jonas.

— Não sou muito bom em contar histórias — retrucou.

— Então pratique.

Leandro animou-se, incentivando Jonas junto a Lect, que empurrou um copo de cerveja para Jonas, e gesticulou para que ele bebesse. Dork’t suspirou pesadamente, levantando-se da mesa.

— Não vou ajudá-lo dessa vez — resmungou, distanciando-se.

— Má língua, meu amigo — Lect gritou.

Jonas engoliu em seco, lembrando-se da confusão em sua mente após a última vez que bebeu.

E do vermelho.

A voz de Morda pareceu-lhe mais aparente por um momento. Ela ainda conversava animadamente com Erik, sem prestar qualquer atenção ao entorno.

Por algum motivo, Jonas sentiu o ar escapando de seu nariz, num suspiro.

— Melhor não — disse ele a Lect.

— Não se importe com o que aquele furúnculo gigante diz, se divirta.

— Só hoje, acho melhor ficar sóbrio — resistiu.

Lect deu de ombros, tomou o copo de volta e foi assaltado por Leandro, que o virou na boca, causando uma rusga na testa do arqueiro.

— Ah, isso não se faz, atrai má sorte.

— Tudo bem. Tenho dois pés de coelho lá em cima — respondeu Leandro.

Lect franziu ainda mais o cenho.

— O que isso quer dizer?

— Que a cerveja está muito boa — gritou Leandro.

— Há, isso é — outro acorde soou.

Jonas acenou para a quase sempre entediada atendente, até que ela lhe prestasse alguma atenção e pediu por uma porção de costelas de govido. Um animal que possuía carne especialmente macia. Ela sumiu e voltou pouco depois, explicando que não tinham mais. O que fez levantar uma sobrancelha. Dando de ombros, pediu por um cozido. A garota confirmou, encarando-o com seu olhar sempre tão desinteressado e saiu novamente.

— Que cara é essa? — perguntou Leandro.

— Não, é só que nunca tinha acontecido de faltar algo da cozinha.

— Acontece, o estoque sempre acaba, não é — Leandro olhou para Lect, que franziu as sobrancelhas.

— Não tão próximo ao começo do inverno — disse, o dedo escorregando em uma nota desafinada. — Merda.

— Foi mal me intrometer no assunto — A voz de Erik chamou a atenção de todos. — Mas parece que tá faltando comida no mercado também.

— Verdade, eu vi isso enquanto passava por lá — Jonas respondeu a Erik, porém seus olhos pareciam focar a atenção em Morda, que estava ao lado.

— Ouvi que alguns carregamentos têm sido atacados recentemente, mas não achei que fosse tão sério — comentou Lect.

Jonas lembrou das dezenas de vezes que sentou numa mesa e ouviu por horas e horas relatos de ataques a mercadores nas estradas ao redor de Beuha. Alguns casos pareciam se tratar de simples bandidos. Noutros, de outras coisas.

— E é tão sério assim? — insistiu em perguntar Leandro.

Lect apenas acenou enfaticamente, girando um dos botões que esticavam as cordas do instrumento.

— Faltar comida no inverno, sem o que plantar e o que colher, não é algo a se desejar — explicou.

— Teremos de comer uns aos outros, então? — comentou Erik, talvez num tom de brincadeira, que esbarrou numa expressão pensativa de Lect enquanto este respondia.

— No querer da sorte, pode acontecer a alguns. Eu sempre tenho meu arco, e isso — Estendeu o cordão amarrado e seu pescoço com o broche branco com estrela dourada incrustado. — Então não preciso me preocupar.

— O que quer dizer? — Jonas apontou para o emblema da guilda no pescoço do arqueiro.

— Temos reservas, amigo. Mais do que todos na região podem imaginar. Então num caso de extrema necessidade, aventureiros serão os últimos a se preocupar por aqui.

Jonas encarou Lect, sentindo que havia alguma pergunta perscrutando sua mente.

— E o resto? — Leandro indagou.

O arqueiro deu um sorriso quase tímido.

— Eles não teriam tanta sorte.

Uma nota surgiu de seu instrumento, se prolongando pelo tempo que o silêncio entre os três durava. O que fez Jonas prestar mais atenção na conversa entre Morda e Erik. Ele a fazia rir com piadas que havia aprendido, ao escutar conversas alheias entre aventureiros.

Algumas, foi o próprio Jonas quem as ouviu e o contara.

Além deles, existia uma disforme massa de vozes ecoando pela taverna, causada por outra dúzia de vozes, discutindo entre si seus próprios assuntos. Jonas ouviu as palavras “dente de adaga” ser dita por alguém e virou o rosto em sua direção, não distinguindo quem falava em meio a outra mesa ocupada.

— Mas devo dizer, não escutei a história sobre tua última caçada, rapaz — Lect chamou sua atenção. — Como foi contra o “dente”?

Jonas olhou para o arqueiro, que ainda permanecia concentrado em afinar o instrumento, e começou a contar o que ocorrera. Parando ao final e olhando de resvalo para Morda, por algum motivo. A garota, não prestava muita atenção, bebericando em seu copo e olhando para um canto distante. Erik, no entanto, ouvia com atenção. Interrompendo Jonas para fazer comentários sobre o que achava de exagerado na história.

O que frustrou Jonas.

Parou de falar ao mesmo tempo em que ouviu passos caminhando em sua direção, aproximando-se mais

— Aí estão vós. Só não achei o Dork’t, havemos de ir — avisou Leovard.

— Não podemos só terminar essa bebida? — perguntou Lect.

— Bebam o que está no copo e vamos embora. Devemos encerrar nossa missão em aberto o quanto antes.

Lect e Morda franziram as sobrancelhas

— Por quê tal pressa? — indagou o arqueiro.

— Porquê, após ela, há outra missão para fazermos. Uma da guilda, entenderam?

Jonas percebeu os olhares dos três se cruzarem. Lect então virou o copo, terminando de beber, enfiou a mão no bolso, e depois jogou duas moedas de prata na mesa.

— Amigos, aqui me despeço — anunciou, levantando-se.

Morda fez o mesmo. Leovard deu um aceno de despedida e os três saíram em direção a porta.

Jonas e Erik permaneceram sentados. Com Erik calculando quanto aquelas moedas de prata pagariam pelas bebidas que todos beberam, e Jonas, involuntariamente, continuou a ouvir as conversas que corriam ao redor. Escutando mais e mais vezes diferentes relatos com o mesmo nome.

“Dentes de adaga”.