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Capítulo 68 – Um pouco antes. Muito depois.

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Capítulo 68 – Um pouco antes. Muito depois.

Um dos cachorros ergueu o focinho da pedra coberta por musgo marrom. Latiu e tentou correr, e os outros fizeram o mesmo, acabando por arrastar o pobre homem que os segurava.

— Por aqui, por aqui, eles encontraram o rastro — gritou um dos que iam à frente, movendo um dos braços para chamar os que estavam atrás.

— Vamos encontrá-los logo, não é, sir? — perguntou-lhe um velho lenhador, cujo topo da cabeça pelada brilhava de suor.

Sem propriamente responder, Thierry acenou com a cabeça, enquanto ouvia as vozes praguejantes dos homens que vinham atrás.

Murmurantes, ranzinzas, cansados e ainda determinados, eles prosseguiram.

Thierry via nisso uma familiaridade cômica.

Eram todos camponeses que trabalhavam com enxadas, pás, machados de lenhador e arcos para caçar lebres. Ainda assim, comportavam-se quase do mesmo modo que homens de armas acostumados com lanças, arcos longos, bestas e machados de batalha.

Porém sabia que tal semelhança acabaria no momento em que encontrassem o que procuravam.

Diante do inimigo, homens de armas sabiam o que fazer e como fazer. Haviam treinado para aquilo, e o tinham feito ao menos algumas vezes. Porém aqueles homens, uma milícia, não.

Thierry já havia visto homens comuns pegando em armas contra guerreiros acostumados à batalha. Não foram situações em que teve especial prazer em estar. Ainda lembrava das expressões desagradáveis de medo e dor na face de alguns, enquanto morriam.

Porém não enfrentariam homens de armas, nem cavaleiros, mas goblins. E isso não aquietava em nada o peito de Thierry.

Sabia o que esperar de soldados treinados, mas não de monstros ao qual não estava acostumado. Ainda assim, teria de tomar as decisões, como era esperado dele.

Não desejava, mas todos os outros, sim. Pareciam concordar que era ele o melhor preparado para liderar a empreitada. Tal como praticamente o haviam empurrado o jarro de leite durante a noite de luzes, e pedido para que lavasse os pecados de uma criança ainda não nascida. Tudo pelo mesmo motivo.

Por quê todos viam-no como sir Thierry, “o abençoado”, apóstolo de Ellday e veterano da última guerra sacra. Um homem santo.

Todos o viam como tal. Menos ela.

Matara mais de uma centena de homens em toda a sua vida. Lutara ao ponto do cabo da espada grudar em sua mão e a cabeça martelo tornar-se vermelha, tamanho o sangue derramado de seus inimigos, e ao dormir, não lembrava o rosto de nenhum deles. Porém não podia esquecer a expressão na face dela.

Morrerei essa noite , já tendo vivido o amanhã, ela lhe dissera, e você para sempre pensará no ontem.

Era bela demais para ser uma bruxa.

Os cachorros pararam novamente, farejando um cerimeiro, cujos galhos nus projetavam-se tortos do tronco retorcido, engolindo e envolvendo os galhos das árvores ao seu redor, criando uma espécie de redoma de madeira acima deles.

Os homens se juntaram, espremendo-se cada vez mais dentro dela, à medida que os retardatários os alcançavam.

Thierry sempre temia que alguém ficasse para trás, sumindo na floresta.

Linces vampiros, serpentes de madeira e coelhos unicórnios, que poderiam atravessar a barriga de um homem com uma arremetida de seu chifre. Gauss não era temida apenas por conta dos goblins que lá viviam. Ao menos três homens haviam descoberto esse fato nos três dias de marcha até ali.

— Senhor Thierry, talvez devamos dar um descanso para os cachorros — sugeriu um jovem guarda, a quem se recordava bem o nome.

Thierry olhou para o céu quase invernal antes de responder:

— Bem observado, Piercy. E já está escurecendo também. Encontramos um bom lugar. Vamos descansar por aqui — decidiu, percebendo o sentimento orgulhoso nas feições joviais do rapaz após chamá-lo pelo nome.

Thierry não pôde deixar de sorrir, suspirando.

— Mandem que recolham lenha, temos de acender uma fogueira para passarmos a noite — ordenou, a ninguém em específico, mesmo assim, três dos que estavam próximos a ele correram para obedecê-lo.

Pensou em ordenar quem tinha pá a cavar trincheiras ao redor do acampamento. Mas parou ao lembrar que aqueles homens não eram soldados e sim camponeses famintos e cansados.

Ainda assim, instruiu sempre ter alguém vigiando as extremidades do acampamento.

A fogueira foi acesa, e logo os homens se uniram ao redor dela, conversando e desejando beber. Embora não se atrevessem. Como bem tentaram no primeiro dia, com alguns revelando odres que haviam levado. Thierry tomou o odre do mais barulhento deles e o derramou na sua frente, encarando a expressão de confusão e fúria do velho lenhador.

— Isso me custou três cobres — reclamou o homem.

— Thierry pôs uma mão no bolso, tirando três moedas puídas que sempre deixava em suas roupas para qualquer situação de necessidade, e lançou-as ao homem — Para aqueles que ainda desejam beber e enfrentar nossos inimigos de ressaca quando menos esperarmos, sintam-se à vontade.

Nenhum gole fora tomado desde então.

As conversas fluíam, com ruídos e murmúrios misturados, ao passo em que as porções de pão e carne eram repassadas entre todos. Uma pequena parte do estoque guardado no castro para o inverno. Também sempre havia quem levasse comida escondida, a comendo longe da vista dos demais.

Thierry já fora um desses. Eram dias tão simples, refletiu enquanto limpava a lâmina da espada que trouxera. Não cria ser cômodo andar pela floresta carregando seu grande martelo.

— Crê que estamos perto, meu senhor? — perguntou-lhe um soldado idoso ao seu lado.

Thierry o reparou.

Notou sua expressão quase apática, e os olhos centrados, apesar do cansaço. Além da voz calma e quase sem ansiedade. Não parecia um dos homens alistados após os incidentes com os ursos, ou um simples trabalhador dos campos instigado a pegar em armas devido ao ocorrido com as garotas.

Era um soldado.

— Sinto dizer que é difícil saber. Não estou a par dos hábitos das criaturas. Se tem ninhos ou tocas, ou se vagam a todo momento, e dormem ao relento em locais diferentes — respondeu, coçando o queixo.

O homem fez uma expressão pensativa, antes de voltar a falar:

— Já participei de uma caçada a goblins em Pinho branco, ao sopé dos paredões rochosos, muitos anos atrás. Eles escondiam-se em uma mina abandonada, e conheciam os caminhos da montanha. E havia um, maior e mais forte que um homem, capaz de erguer um cavalo com montador.

Thierry franziu as sobrancelhas.

— Um orc?

Debret piscou, parecendo confuso.

— O que é um orc? — perguntou Piercy, sentado a três pessoas de Thierry. — Ah, deixe de lado. Por favor continue — pediu, olhando para o soldado.

— Ocorreu de perdemos muitos bons homens até nosso líder decidir recuar.

— Que covarde, sir Alois não recuaria — apontou um dos lenhadores que ouvia a conversa, recebendo ecos de confirmação dos demais.

— Talvez, mas não creio que recuar fora uma decisão tola. Afinal me tirou do — observou comicamente o velho homem. — Ainda assim, ele buscou outro meio para erradicar os goblins de suas terras.

— Perdão, mas como posso chamá-lo, senhor? — perguntou Thierry, incomodado pela própria grosseria.

— Debret, se assim lhe parecer bom.

— Então, bom Debret, como o bom Senhor de Pinho Branco limpou suas terras dos goblins? — indagou Thierry, percebendo a curiosidade crescendo entre os que ouviam a conversa.

Debret olhou para Thierry, para alguns dos homens e então finalmente respondeu.

— Ele mandou uma ave para a guilda.

Como apenas um som, as queixas saíram da boca de todos.

— Digo outra vez, é um covarde.

— Chamar desconhecidos para suas terras por ser incapaz, isso não é um homem.

— E ainda por cima vagabundos.

Thierry ouvia aquilo, já ciente de toda aversão dos camponeses por aventureiros.

— E o que aconteceu? — insistiu em ouvir o resto.

Debret esperou o clamor arrefecer um pouco antes de voltar a falar.

— Chegaram cinco pessoas, que se chamaram a si mesmos de centos. E no mesmo dia em que vieram, pediram por um guia e subiram sem mais ninguém pelo caminho da montanha que levava a mina abandonada — contou, olhando para o fogo e depois para Thierry. — Pensei que não os veria novamente. O que poderia cinco fazer onde cinquenta falharam?

“Mas, duas semanas depois, eles retornaram, os cinco, não parecendo muito piores do que quando subiram. Foram até o nobre da cidade e então partiram. Levavam cerca de cinco dias para chegar à mina, então meus companheiros e eu pensamos que eles haviam fugido dos goblins logo que os avistaram. Mas quando nosso senhor mandou-nos subir para pegar os corpos, tivemos uma visão assustadora. Não vimos um goblin pelo caminho, apenas quando finalmente chegamos à mina. Havia uma dezena de corpos espalhados na entrada, quase reduzidos a esqueletos pelos corvos. E lá dentro, encontramos muito mais. Os arrastamos para fora e juntamos todos numa pilha de corpos de quase cinco côvados. Eu carreguei o grandão junto a outros quatro homens. Estava sem cabeça, com o corpo queimado e rasgado de uma ponta a outra. Tive medo daquele monstro quando o vi pela primeira vez, e depois percebi que homens haviam feito aquilo com ele.

A voz de Debret alcançou uma fileira de homens com as bocas abertas e vazias de palavras. A maior parte negaram que isso fosse possível. E o resto permaneceu em silêncio.

— É mentira, diga a ele, sir — gritou um dos homens.

— Não sou um mentiroso covarde como você, Manet — Debret respondeu no mesmo tom acalorado.

Thierry respirou profundamente.

— Basta. Se o homem viu ou não viu, isso só pode ser sabido por ele e Ellday — repreendeu, levando todos ao silêncio.

— Mas não há como acreditar que apenas alguns vagabundos mataram tantos monstros — disparou novamente o homem chamado Manet.

— É possível, afinal, eu mesmo matei mais homens do que isso — afirmou Thierry, enfadado da conversa. Se levantou pesadamente, e então afastou-se da fogueira para se deitar junto ao tronco do cerimeiro.

Pensou no que os jovens estariam fazendo em sua casa, e onde Edwardo e Caio poderiam estar naquele momento, sentindo em seu peito a saudade de estar sentado na mesa de sua casa, junto a eles.

Seis estrelas… em suas mãos… Cabe a você decidir.

Não conseguia dizer se tinha feito o que era correto. Às vezes parecia que nunca conseguia fazê-lo. Esperava apenas acordar e estar vivo no outro dia para ter outra chance.

E depois que o sol nasceu, Thierry rezou para conseguir.

Os cachorros os levaram até uma clareira com um declive natural, onde uma íngreme descida de talvez trinta metros levava até uma abertura cavernosa no solo rochoso, cheia de água acumulada ao fundo. A floresta alaranjada e quase sem folhas descrevia um círculo ao redor dela, com o céu escurecido pelas nuvens densas logo acima.

Thierry olhou para aquilo, apertando o queixo.

— Tens certeza que é para lá? — perguntou ao homem que segurava os animais, que latiam.

— Sim, sir, o cheiro para aqui.

Um frio parecia subir lentamente por sua espinha ao olhar para a entrada.

— Então vamos descer, não adianta nada ficar só aqui — berrou Manet, com seu jeito grosseiro, quase virando, quando Thierry o chamou de volta.

— Esperem — disse. — Debret, pegue dez homens e desça para verificar a entrada. Os outros devem esperar e aguardar o meu sinal. Prestem atenção nas suas costas — ordenou.

— Como assim, sir. Está com medo de alguns goblins?

Thierry não respondeu. Apontou a dedo quem desejava e os dez foram com o velho soldado.

Não era incomum para goblins planejarem algo como uma emboscada, de acordo pelo que entendera com a história contada por Debret na noite passada, mas talvez não dispusessem de algo mais que o elemento surpresa. Olhou para a área ao redor, mandando outros dois grupos de cinco homens contornarem o declive, enquanto o primeiro descia, e o restante dos homens aguardava junto a Thierry.

Assistiu-os contornarem a íngreme descida, e então focou-se em Debret e seus homens aproximando-se mais e mais do fundo, e caminhando com cuidado pela água, que parecia cobrir os calcanhares. Ao se aproximarem da entrada da caverna, Thierry franziu o cenho.

Mas sua atenção foi puxada para os outros dois grupos. Para seus gritos soando através das árvores. Daí piscou os olhos e sentiu  como se todo o ar a sua volta fosse o sopro quente de um gigante.

A água no fundo se incendiou em segundos, cobrindo os homens que lá estavam.

Chamas verdes, negras e amarelas iluminaram a clareira, antes do cheiro ocre subir junto à fumaça escura.

Os que ficaram no topo, recuaram, assustados e embranquecidos pela visão pavorosa.

Um zumbido incomodou seunouvido, e a mão de Thierry ergueu-se, amparando na manga acolchoada a flecha lançada sobre sua cabeça. Viera do outro lado da clareira. Para onde ele havia enviado os outros dez homens, e de onde os gritos deles tinham vindo momentos antes.

E não fora a única.

Um lenhador foi acertado no ombro, e o que levava os cães teve o olho perfurado, caindo e rolando precipício abaixo. Um dos animais foi arrastado junto a ele. E o outro correu para dentro da floresta, sumindo em meio aos homens.

E mais ao longo da fileira de homens foram acertados.

— Recuem — gritou, aparando outra flecha com o braço.

Os homens correram desesperados, talvez nem ouvindo suas ordens.

Manet corria à sua frente, até receber um impacto forte na cabeça, e rolar pelo chão. Thierry parou, olhando para o corpo, e agachando-se antes que fosse acertado por uma pedra lançada pela funda de um goblin. O homem que vinha às suas costas não teve a mesma sorte, caindo com o impacto.

Thierry escondeu-se por trás de uma árvore, e prestou bem atenção no caos ao seu redor.

Homens caíam acertados pelas pedras, e os que continuavam eram cercados e perfurados pelas criaturinhas verdes. Dezenas delas. Haviam-nos emboscado.

Apenas… como?

E então viu o brilho de um elmo prateado de um arqueiro humano.

Como?

Tentou não pensar nisso naquele momento, agarrou os homens mais próximos dele e decidiu o correto a ser feito naquele momento.

Sobreviver.