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Capítulo 71 – Apenas beleza.

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Capítulo 71 – Apenas beleza.

— Sente algum desconforto? — perguntou Arianne.

— Não — respondeu Eduardo, sentindo o olhar dela sobre ele. Ou melhor, sobre a roupa que usava.

Uma blusa de couro de veado, pintada de vermelho, costurada de modo que a linha não fosse vista atravessando o tecido. A manga e a gola tinham linhas entrelaçadas amarradas de um modo específico para que não atrapalhasse a movimentação ou parecessem desalinhadas.

— Parece bom — comentou sir Alóis, sentado numa cadeira, com uma perna apoiada na outra.

— Parece estranho — retorquiu Eduardo, se olhando no espelho.

— Tá muito bom, relaxa — Carmen entrou na tenda, com agulha e linhas de várias cores nas mãos. — Quais são as cores mesmo, senhora?

— Machados e coroa invertida pretos. Fundo branco — respondeu a senhora Arianne, afastando-se de Eduardo.

— Aprecio que também se dêem o trabalho de costurar meu símbolo no gibão — disse o cavaleiro, com um ensaio de sorriso. Arianne olhou-o de relance, e voltou a mexer nas prateleiras, repletas de tecidos.

— Como vosso escudeiro, ele deve representá-lo dignamente, meu senhor — respondeu ela, abrindo um dos baús que as duas haviam carregado desde que deixaram a aldeia.

— Agora tu tem que tirar a camisa, Edu, ou vou acabar te espetando — avisou Carmen, com a agulha em mãos. Sua voz parecia mais infantil que o normal. — Se quiser eu ajudo a desamarrar.

— Não, tudo bem, eu faço isso — disse, afastando-se um passo da garota, que se encolheu levemente.

Eduardo retirou o gibão, ficando apenas com a camisa branca e fina que usava por baixo, e o entregou a Carmen, que iniciou os trabalhos, fazendo surgir em pouco tempo dois machados e uma coroa negra no tecido cor de vinho.

— Como é habilidosa sua aprendiz — observou Alóis.

Parando de mover as mãos, Carmen olhou para o cavaleiro.

— Obrigada — disse, com um sorriso amável.

— Tudo devido às boas instruções de madame Jackelin — respondeu a refinada costureira, fazendo o sorriso de Carmen minguar em sua boca.

— E também é uma bela companhia para você essa noite — comentou então Alóis, olhando para Eduardo, que vagueou seu olhar pelo chão, e as paredes de tecido do pavilhão. Passou os olhos  sobre a costureira mais velha, e notou que ela também desviou seu olhar para o lado.

Eduardo não poderia detestar mais um costume como naquele momento.

— Terminei — anunciou Carmen, exibindo o desenho bordado no gibão. Tornara-se boa naquilo, Eduardo tinha de admitir.

— Sua companhia também é bem agradável para mim, senhora Arianne — declarou o cavaleiro.

A costureira piscou, e baixou a cabeça num gesto cortês. O cavaleiro sorriu a isso e então levantou-se.

— Vamos, Edwardo. Precisamos nos preparar e deixar que nossas acompanhantes se preparem também — declarou ele. Eduardo o seguiu, tomando o gibão e saindo da tenda para a pouca claridade do céu nublado. Em breve iria anoitecer, percebeu.

E mesmo em meio a noite quase feita, o acampamento não parecia menos movimentado. Homens iam e vinham, com suas vozes formando um eco de conversas intermináveis. Os dois foram até o pavilhão de sir Alóis, onde Eduardo o ajudou a banhar-se, enchendo a banheira de água fervente, antes de tomar o seu próprio banho também.

— Sente-se infeliz com a jovem? — perguntou o cavaleiro em seu tom descontraído.

— Tá tão na cara, assim? — Eduardo deixou escapar um sorriso de canto de lábios.

O cavaleiro suspirou de olhos fechados.

— Ela não é o que se poderia chamar de beleza do reino, mas ainda assim me parece bem apessoada — comentou ele.

Eduardo soltou uma pequena bufada risonha.

— Acontece que tem uma beleza do reino me esperando — respondeu, dessa vez com um sorriso sincero.

— Ah, um fiel. Há tempos não vejo um — riu Alóis. — Lembro-me da jovem. Espero que ela tenha tal comprometimento para contigo.

Eduardo dobrou os lábios, pensando.

— Preciso mesmo ir com ela? — perguntou, finalmente.

— É meu escudeiro — respondeu Alóis, secamente.

— Mas precisa ser com ela?

— Imaginei que fosse simples ir com ela, uma vez que já se conheciam, não? — A voz de Alóis se tornava cada vez mais lenta e rançosa. Ele suspirou — Pode não ser ela, mas deve ir com alguém, e não creio que o seu amigo lhe faça um bom par. Será uma pena pela jovem. Parecia tão animada pelo baile dessa noite.

Eduardo sentiu os ombros baixarem. Pensou que qualquer outra mulher seria melhor do que Carmen, no entanto, o cavaleiro continuou a falar.

— Mas arranjar outra companhia e vesti-la tão em cima da hora será deveras complicado. Então os acertos dessa noite deverão continuar os mesmos — Alóis comentou, observando a expressão de Eduardo. O cavaleiro pareceu divertido com ela. — Mas não se preocupe. Serão acompanhantes, apenas isso.

Eduardo dobrou os lábios, e jogou mais água quente na banheira, vendo o vapor subir. Após tomar seu próprio banho e se vestir para a ocasião, usando o gibão cor de vinho de antes. Alóis usava um gibão branco, com os machados duplos, e a coroa invertida, bordados no peito. Os dois juntaram-se às duas que os acompanhariam.

Senhora Arianne trajava um vestido verde escuro, com um fino véu quase transparente por cima das saias. Como uma camada de teias tecida cuidadosamente por dezenas de aranhas. Partes menos e mais transparentes formavam padrões de flores no tecido. Carmen usava uma veste negra, que parecia brilhar a luz. Seu rosto estava mais claro que o comum, como se houvesse passado algum pó de arroz.

Eduardo nunca se questionou se maquiagem existia naquele mundo, mas viu aquilo como uma confirmação.

A garota sorriu ao vê-lo. Um gesto tímido, quase íntimo. Eduardo engoliu em seco. Serão acompanhantes, apenas isso, tinha dito o cavaleiro. Deveria ter dito isso a ela, pensou Eduardo. Ofereceu o braço e Carmen o segurou, perto além do necessário, pensou ele.

Arianne e Alóis fizeram o mesmo e assim seguiram até o castelo.

As dezenas de janelas brilhavam à luz das velas, piras e tochas. A noite em volta jazia escura longe das luzes, e o céu era um amontoado de nuvens disformes acima das torres, e contra tamanha escuridão, o branco das paredes parecia brilhar mais.

Passaram pela ponte levadiça, atravessando o caminho feito por entre as fileiras de mesas dispostas no pátio, onde homens, mulheres e crianças bem e mal vestidas comiam, bebiam e conversavam com as vozes abafadas pelos instrumentos dos músicos. Nenhum deles meteu-se no caminho que seguiam o qual levava diretamente ao grande portão da principal. Um Guarda estava disposto em cada lado do portão. Acima deles, garças gêmeas de pedra abriam as asas acima da porta aberta que dava acesso ao iluminado e pequeno corredor que antecedia o imenso salão.

Os quatro pararam antes de entrar de fato no lugar, e sir Alóis apresentou um pergaminho a um homem com chapéu de pena aguardando em pé na entrada. Pediu que o homem não o anunciasse, e este encarou o cavaleiro com o cenho franzido, porém obedeceu.

Eduardo prestou atenção ao que ocorria lá dentro.

Instrumentos de cordas, sopro descreviam uma lenta e doce melodia enquanto os casais dançavam no centro do salão. Mesas vazias e cheias estavam dispostas próximas às laterais. Dezenas delas, grandes o suficiente para dez pessoas sentarem em cada lado. E algumas maiores estavam postas num estrado de frente para a entrada. Lá, homens e mulheres olhavam os demais no salão de cima para baixo, mantendo os queixos erguidos. E mesmo à distância, Eduardo sentiu seus olhares.

No centro sentava um homem cujo corpo, cabeça e membros pareciam bolas de diferentes tipos unidas em um só corpo. O senhor daquele Castelo, visconde de Genevile. Uma mulher de cabelos loiros estava sentada à sua direita, bebendo de uma lustrosa taça prateada. E os dois acentos à esquerda do visconde estavam vazios. Eduardo viu conde Fréive a esquerda da mesa, assim como Lohan, sentado ao lado do pai.

Olhava os demais que também estavam sentados quando sentiu um puxão no braço.

— Vamos — disse Carmen, acenando para sir Alóis e Arianne, que já se encontravam próximos às mesas que contornavam o centro do salão. Eduardo e Carmen também desceram, perseguindo os dois.

Eduardo percebeu o olhar orgulhoso e avaliador de duas dúzias de homens e mulheres. Jovens, velhos, homens e mulheres. Todos o encarando de cima a baixo, demorando sua atenção nos machados coroados em seu gibão. Ele mantinha o rosto erguido, encarando-os, acenando com a cabeça em breves reverências. Carmen parecia mais intimidada, olhando para baixo, e dando passos curtos em comparação com antes. Eduardo a guiou até onde estava o cavaleiro e a costureira, parados em frente a um jovem alto vestindo um gibão marrom com uma ave bordada em laranja, e um velho, um palmo mais baixo que o companheiro, porém de ombros largos e postura firme. O gibão cinzento que vestia não mostrava nenhum padrão ou desenho. Diferente dos demais.

Sir Alóis olhou para trás, notando sua aproximação de Eduardo e Carmen.

— Ah, senhores, devo apresentar-vos meu escudeiro Edwardo e sua acompanhante por essa noite, Carmen, aprendiz da bela Arianne ao meu lado — anunciou ele.

— Não é minha, mas de minha senhora — corrigiu com um sorriso cortês.

O cavaleiro limpou a garganta, levemente constrangido.

— Entendo — disse o jovem alto. — É um prazer de todo modo. Sou Gaspian de Parlas — disse com um sorriso confiante que fez Eduardo perguntar-se o quão importante devia ser aquele sobrenome. — Apresentaria-lhes minha acompanhante, porém ela está ocupada procurando alguns doces com a filha mais nova dos Genevile.

— Sir Enéritch de Cornio — apresentou-se o outro abaixando levemente a cabeça, e virou-se para sir Alóis mais uma vez. — Ouvimos muito sobre o norte e o leste.

— Boas novas, espero eu — disse Alóis.

— Novas, somente — respondeu sir Enéritch, tomando ar para voltar a falar. — O “Grande Norte” morreu — anunciou com voz apreensiva.

Sir Alóis franziu as sobrancelhas, assim como Arianne. Gaspian pareceu comprimir os lábios com a notícia. Eduardo olhou para um e depois para o outro, sem entender, então olhou para Carmen, que o encarou no mesmo momento. Tinha uma expressão que a fazia parecer tão confusa como ele estava.

— Perdão, mas isso na verdade não seria uma boa nova? — sugeriu Gaspian, fazendo o cavaleiro de gibão cinzento manear a cabeça em negação.

— Creio que não esteja muito a par do que se passa no norte da fortaleza alva, jovem senhor — comentou o cavaleiro com um sorriso cortês.

— Sei que não é invadida a quase vinte anos, sir — respondeu o jovem nobre com um dar de ombros.

— De fato, desde que o imperador desistiu de invadir o sul e voltou seus olhos para as fronteiras geladas em que não se cresce nada e os bárbaros invadem aldeias do império, matam os homens, velhos e jovens, arrancam bebês dos braços de suas mães e os dão aos cães. Desde então os exércitos do império não chegam a fortaleza Alva. Porém o imperador “Grande Norte” já não é o Imperador — explicou sir Enéritch.

Eduardo engoliu em seco, e notou reações semelhantes da costureira e do jovem nobre.

— De fato, resumiste bem, meu bom sir — concluiu Alóis. — Já se sabe quem herdará o trono imperial?

— Se tem uma esperança em uma disputa pelo trono, receio que os príncipes deles sejam melhores do que os nossos, meu bom sir. — respondeu Enéritch, fazendo Gaspian pigarrear e Arianne olhar para o lado, como se estivesse tentando manter a compostura. — Oh, perdoe-me.

O cavaleiro tomou uma lufada de ar antes de seguir falando:

— E já se tem notícias do que ocorreu na corte imperial de Behemut? — perguntou num meio sussurro, quase inaudível a Eduardo devido ao som dos instrumentos.

— O mais velho sentou-se no trono. O mais novo desceu para o sul — explicou Enéritch.

Eduardo cansou-se de tentar decifrar as expressões dos presentes e fez a própria pergunta.

— Desculpa, mas o que isso significa?

Os quatro rostos se voltaram para ele, e por mais de um segundo não houve qualquer resposta. Tempo demais para se ficar em silêncio em uma conversa, sabia.

O homem de cinza sorriu.

— Ah, temo que estejamos aborrecendo os jovens com essa conversa, senhores — disse sir Enéritch, voltando-se para Gaspian. — Falemos de coisas mais agradáveis. Como vai seu noivado, meu jovem senhor de Parlas?

A expressão do nobre apertou-se e linhas desagradáveis surgiram em seu rosto. Sir Alóis riu a isso.

Eduardo e Carmen acompanharam Alóis durante algum tempo. Conheceram homens de meia idade com expressões sérias, e outros com sorrisos fáceis. Senhoras que pareciam saídas de um asilo, completamente revestidas de sedas e moças jovens com sorrisos enérgicos e olhares curiosos.

Todos nobres dos mais diversos tipos, imaginou Eduardo.

A maior parte das mulheres parecia sorrir a Eduardo, e a maior parte dos homens franzia o rosto para sir Alóis. Especialmente aqueles com quem dividiram a viagem.

Carmen parecia sentir um misto de medo e admiração, não desgrudando de Eduardo não importa quanto andassem, olhando o tempo inteiro para as paredes e colunas de pedra branca esculpida.

Após darem uma volta por metade do salão, os quatro sentaram-se numa das mesas, onde o cavaleiro recebeu ainda mais olhares do que antes. Alguns levemente incomodados, outros de ácido desprezo mal disfarçado. E Eduardo percebia-os. Tentou não se incomodar, acenando com a cabeça e sorrindo de modo educado para aqueles que se demoravam nele, tal como seus avós o haviam ensinado. Sir Alóis parecia pouco se importar, bebendo vinho branco em uma taça de vidro.

Nobres odeiam um bastardo, Eduardo lembrou o cavaleiro dizer, e finalmente entendeu o motivo dos olhares para Alóis. Lembrar disso o incomodou mais do que os olhares sobre ele próprio.

Alóis sussurrou algo no ouvido de Arianne, a costureira balançou a cabeça em confirmação e bebeu seu vinho, afastando levemente o corpo. O que fez o cavaleiro lamber os lábios, passando os olhos pela mesa. Virou-se para Eduardo e fez um gesto para que ele também comesse. Eduardo o fez, tomando um pedaço do que parecia ser um assado de carne vermelha e cortando uma tira. Carmen fez que também queria e ele a serviu.

Ambos comeram a carne macia e quase doce, e quando Eduardo engoliu o último pedaço em seu prato, um som de trombeta cantou, ecoando pelo grande salão, e todos os instrumentos foram silenciados. As conversas cessaram e parecia que cada um dos presentes voltou-se para a mesma direção.

Os casais que giravam no meio do salão pararam seu movimento, e os que estavam sentados se colocaram de pé. Eduardo seguiu o exemplo, assim como Carmen.

Uma voz grave e enérgica se ergueu em meio ao repentino silêncio feito, dizendo como se entoasse um cântico:

— Vossa alteza real, beleza do reino e primeira rosa da primavera, princesa Désirée de Andrias, e seu consorte, Odillon, senhor herdeiro da casa de Archambault — anunciou, fechando um pergaminho e ajoelhando-se perante o casal que surgira.

Os casais que haviam parado de dançar afastaram-se do centro do salão, abrindo caminho. E passando entre eles, Eduardo viu um homem que parecia tão jovem quanto ele, cuja pele parecia brilhar. Usava um gibão dourado, com um machado negro rodeado de olhos vermelhos em seu peito. E segurando seu braço, estava alguém que parecia trazer consigo todo o encanto do mundo. Os cabelos eram uma cascata de petróleo brilhante que parecia em constante movimento mesmo quando ela estava parada. O vestido que usava parecia feito de penas púrpuras e rosas, e cobria seu corpo ao mesmo tempo que ressaltava sua forma. Como se suas curvas se negassem a se esconder. O rosto poderia se passar como uma estátua esculpida em porcelana branca, se ela não piscasse os olhos.

Era essa a princesa do reino.

Os dois atravessaram o salão recebendo referências de todos os nobres. Orgulhosos e risonhos, novos e velhos. Todos baixavam o corpo e a cabeça.

— Ali é a princesa? — Carmen ergueu-se na ponta dos pés para ver melhor, baixa demais para ver por cima dos ombros dos demais nobres em pé.

— Sim — respondeu Arianne.

— E quem é aquele com ele? — perguntou Eduardo.

— Archambault — respondeu Alóis com uma voz que parecia ferir sua garganta ao sair. Eduardo olhou para ele e viu em seus olhos o mesmo desprezo que outros nobres o lançaram momentos antes. Estava voltado para o acompanhante da princesa.