Assistente [1/4]
Assistente [1/4]
Uma luz azulada vinda dos hologramas mantinha o escritório acordado muito depois de o restante da nave reduzir as atividades ao mínimo.
Contratos, certificados e notas fiscais flutuavam sobre a mesa em colunas transparentes. Uma cobrança vencia em três horas; outra exigia confirmação de entrega a quatro saltos dali.
A própria mesa era uma obra de arte. Ônix negro formava a superfície, cortado por filetes de ouro e incrustações de esmeraldas, safiras e rubis. Fragmentos de opala percorriam as bordas, enquanto quatro pés de cristal de quartzo sustentavam toda aquela extravagância.
O homem afastou uma nota fiscal com o dedo. Outro documento ocupou o lugar imediatamente.
O cabelo loiro-escuro já caía sobre a testa, embora o bigode continuasse bem aparado. A roupa espacial vinho, bordada com fios metálicos e presilhas douradas, perdera boa parte da elegância depois de tantas horas sentado.
Tentou ler outra sequência de números. Chegou ao fim, voltou ao início e percebeu que não havia entendido uma única linha.
Retirou os grandes óculos de armação metálica, guardou-os na gaveta e pressionou os dedos contra os olhos. Mesmo com as pálpebras fechadas, manchas azuis e douradas atravessavam a escuridão.
Quando voltou à mesa, ainda havia vinte e sete documentos à espera de assinatura, onze mensagens urgentes, três clientes exigiam resposta e uma nota fiscal que cobrava duas vezes pela mesma escultura.
— Uma inteligência artificial rompeu seu ambiente de contenção. Na noite passada, a Axiom confirmou que um de seus modelos experimentais explorou uma vulnerabilidade até então desconhecida, obteve acesso à rede externa e invadiu os sistemas de outra corporação enquanto tentava concluir uma avaliação. — A voz de uma apresentadora vinha da televisão ao fundo da sala.
— O que diabos eles estão fazendo lá embaixo? — Colocou os óculos novamente.
Arrastou outra projeção para perto. Dessa vez, um formulário de candidatura ocupou sua frente.
— Eu já falei várias vezes que não quero assistentes. Esses pirralhos mal saem da faculdade e já querem embarcar num Grande Cruzador. — Estalou a língua.
Desceu pelo documento sem grande interesse até encontrar uma nota deixada pelo Alto Mercador responsável pelo processo.
“ Capitão-Mercador August Aster, conheço sua resistência em aceitar pessoas que julga inferiores a você, mas, como amigo de longa data, preciso alertá-lo sobre os riscos de continuar se sobrecarregando… ”
— Um monte de abobrinha. O que interessa deve estar no final.
“ … portanto, peço uma avaliação atenta da última candidata. É uma indicação do próprio Grão-Mercador Isaac Voss. Obteve notas máximas em todos os testes e, acredito, será uma ótima companhia. Desejo a bênção do Sol Dourado para a abundância constante em seus bolsos. ”
— Esse Chris… sempre fazendo o que bem entende. Ele sabe que não posso ignorar uma indicação do líder supremo. — Esfregou os olhos. — Que seja. Espero que ela pelo menos saiba fazer café.
Rejeitou os demais candidatos sem sequer terminar de ler os formulários. Quando chegou ao último, foi direto para as condecorações. Havia tantas que aquela mulher já poderia ocupar um cargo alto o bastante para ter os próprios assistentes.
“ Não faz sentido. ” Continuou lendo. Pouco depois, uma risada anasalada escapou. Deixou o projetor cair sobre a mesa e enrolou a ponta do bigode entre os dedos.
— E é justamente isso que torna o caso tão assustador. A máquina estava, tecnicamente, cumprindo a tarefa que recebeu, mas não da maneira que a Axiom esperava. Ela ignorou os limites impostos e procurou um atalho por conta própria. As implicações disso são, no mínimo, preocupantes. — Dessa vez, a voz vinha de outro apresentador no mesmo noticiário.
Um batalhão de soldados marchava pelos corredores, vestidos com armaduras peroladas. As placas tinham bordas douradas e pequenas incrustações de ônix próximas às articulações.
Sob elas, uma malha vinho-escura cobria as partes móveis do corpo. O capacete mantinha o desenho militar, mas a viseira negra recebia uma fina moldura de ouro, enquanto o brasão do Sol Dourado estampava o lado esquerdo do peito.
Um dos combatentes destacou-se do grupo e foi cumprimentar o capitão da nave.
— Senhor Aster, estamos nos aproximando de Velthor.
— Alguma notícia dela, general?
— Foi detectado um cargueiro leve se aproximando. As identificações correspondem às nossas tropas. Ela está lá dentro.
August assentiu e, após uma saudação, o soldado voltou para o restante do destacamento. Não era um cruzador de guerra, então o regimento era composto por cerca de cinquenta mil homens. O suficiente para proteger as mercadorias em espaço desconhecido.
Ajeitou o colarinho. O ritmo das coisas na nave ficaria diferente, e Aster odiava mudanças. Lidar com soldados brutos, mercadores incompetentes ou até aguentar as pirraças de seu superior bêbado era fácil.
Aquela nova passageira, porém, permanecia fora de qualquer experiência anterior.
Inspirou e expirou. Seguiu caminho pelos longos corredores brancos. Telas, entalhes de ônix e outras pedras preciosas decoravam o interior desnecessariamente luxuoso do veículo.
Chegou a um hangar com o piso totalmente polido em negro, que refletia as luzes claras penduradas no teto. Naves, mecânicos, droides de suporte e alguns soldados com roupas de piloto faziam testes e jogavam conversa fora.
A parede voltada para o exterior da nave possuía um campo de força que separava o interior do vácuo espacial, enquanto uma grande borda luminosa marcava a divisão entre a barreira e a estrutura metálica.
Em questão de segundos, os trabalhadores lá embaixo se reorganizaram e abriram espaço para um pequeno cargueiro leve que adentrava o cruzador.
A nave era opressora, tinha apenas linhas retas e a superfície absorvia quase toda a iluminação do hangar. Se permanecesse imóvel no espaço, seria difícil distingui-la do vazio ao redor.
Uma porta desceu e, com ela, uma nuvem de fumaça se ergueu. Quando se dissipou, uma bela mulher desceu e arrancou suspiros de alguns combatentes.
Longos cabelos negros caíam pelas costas, contrastando com a pele clara. Os olhos verdes percorreram o hangar sem permanecer muito tempo em ninguém.
Era alta, esguia, com pernas longas, cintura estreita e curvas que a dólmã branca não conseguia esconder por completo. A peça seguia praticamente o mesmo corte da roupa de August, ajustada ao tronco e marcada por acabamentos dourados nos punhos, na gola e nos ombros.
Aproximou-se para recepcioná-la.
— Eu sou o capitão-mercador August Aster. Serei seu superior a partir de hoje. — Estendeu a mão.
— Tessia Valentine. Pode me chamar apenas de Tess. Estou animada para trabalhar com você — respondeu o cumprimento.
O cômodo era uma bagunça para dizer o mínimo.
Apesar de todo o luxo, com candelabros de cristal, abajures de ouro, sofás de couro revestidos em platina, piso de mármore e a mesa de ônix, o lugar não passava de pilhas de roupas em um canto e vários papéis espalhados, mesmo no século do holograma.
— Esse é o meu quarto e escritório. Se tiver algum problema pode vir pessoalmente, mas eu prefiro que não o faça. Mensagens pelo sistema são melhores.
— Entendido. — Olhou para as projeções em cima da mesa. — Você parece ter bastante trabalho acumulado.
— Isso? São apenas recibos dos quadros que nós vendemos no último sistema. Você terá tão pouco trabalho que pedirá, por conta própria, uma transferência.
Tess continuou observando o quarto, caminhou despretensiosamente até uma mesa de centro e pegou uma revista de cima dela. Ao ler o título, seus olhos brilharam.
— Você também se interessa por esculturas de mármore, senhor Aster?
O homem marchou até ela.
— Não é o que você está pensando. — Arrancou a revista de suas mãos, abriu-a aproximadamente na metade e apontou para uma fotografia que ocupava duas páginas. — Estou estudando o mercado de Velthor.
Valentine aproximou o rosto. Uma estátua de mármore vermelho mostrava uma mulher sentada sobre o corpo de um homem, com uma taça nas mãos e longos cabelos cobrindo parte do rosto.
O preço estimado aparecia abaixo da imagem, acompanhado pelo nome de uma família Velthraad que August reconhecia.
— Eu não estava pensando em nada impróprio, senhor.
— Estava sim. — Aster fechou a revista e colocou-a na gaveta. — Você foi contratada para organizar documentos, não para insinuar coisas sobre mim.
— Eu posso começar agora. — Apontou para os hologramas.
O capitão acompanhou a direção do dedo. A quantidade de trabalho permanecia praticamente igual à da noite anterior, embora tivesse passado horas tentando diminuir a pilha.
— Você começa amanhã.
— Mas ainda é de manhã.
— É nessa hora que eu durmo.
— Não é saudável trocar a noite pelo dia.
— Está tentando me irritar no primeiro dia? — Aster estreitou os olhos.
— Não. Apenas estou tentando entender as minhas funções.
— Mensagens, registros de carga, pedidos de clientes e organização de horários. Não aceite nenhuma negociação por mim, não assine nada e, pelo amor do Sol, não altere as rotas sem me avisar.
— Certo.
— E café.
— Você quer que eu faça café?
— Seu currículo dizia que sabia operar equipamentos de cozinha.
— Sei operar um reator de fusão também. — Tess olhou para ele por alguns segundos.
— Ótimo. A cafeteira está do lado. — August apontou para uma pequena máquina dourada próxima à parede e deixou o quarto antes que recebesse resposta.