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Velthraad [2/4]

Ela — illusia.com.br · All chapters

Velthraad [2/4]

A visita pelo cruzador começou pelos setores de carga. A maior parte do veículo existia para transportar coisas que alguém considerava valiosas demais para confiar a uma nave comum.

Havia câmaras climatizadas para pinturas, cofres pressurizados, depósitos de esculturas e setores inteiros dedicados a objetos cuja composição exigia atmosferas específicas.

Algumas obras não podiam ser expostas à luz; outras precisavam permanecer sob temperaturas que matariam um humano em poucos minutos.

Valentine caminhava ao lado dele e prestava atenção em tudo. Raramente perguntava duas vezes sobre a mesma coisa. August começou explicando os setores com frases curtas, apenas o suficiente para cumprir a obrigação de apresentar a nave.

— Nós vendemos tudo isso?

— Quase tudo. Algumas peças já têm dono. Só estamos transportando. Outras pertencem ao Sol Dourado e não podem ser negociadas sem autorização.

— E as suas?

— Minhas o quê? — Aster diminuiu o passo.

— Obras. Você trabalha com arte há quanto tempo?

— Dezenove anos.

— Então deve ter uma coleção.

— Tenho uma mesa. Ônix de Keldran, ouro terrestre, esmeraldas de Proxima e opalas de quatro luas diferentes. É uma excelente mesa.

— Isso não é uma coleção.

— Tem várias pedras.

— Foi uma piada?

— Não vou responder.

Continuaram pelo corredor.

A galeria principal ocupava três andares do cruzador. As peças destinadas a clientes especiais permaneciam expostas durante as viagens para que comerciantes, diplomatas e possíveis compradores pudessem avaliá-las antes de qualquer negociação.

August passou a identificação diante da porta e os painéis se recolheram. Tess demorou alguns segundos para entrar.

Pinturas ocupavam as paredes brancas em intervalos largos. Esculturas descansavam sobre plataformas de mármore negro, algumas protegidas por campos transparentes, enquanto objetos menores flutuavam dentro de vitrines antigravitacionais.

No centro, uma estrutura semelhante a uma árvore havia sido moldada com milhares de lâminas de prata tão finas que se movimentavam com o ar condicionado.

— Isso tudo vai para Velthor?

— Uma parte. Os Velthraads não gostam de dinheiro quando negociam arte.

— Pensei que eles fossem banqueiros.

— São. Justamente por isso dinheiro não impressiona nenhum deles. Se oferecer crédito para um Velthraad, ele provavelmente vai mostrar uma conta com mais zeros do que você consegue ler.

Aster caminhou entre as pinturas e apontou para algumas etiquetas.

— Arte por arte. É assim que negociamos. Eles entregam alguma coisa que desejamos e levam outra de valor semelhante. Às vezes a negociação dura horas. Às vezes semanas.

— Como definem valor se ninguém paga?

— Essa é a parte divertida.

Tess parou diante de uma tela muito maior do que as demais. A obra mostrava uma cidade destruída sob um céu esverdeado. Corpos ocupavam as ruas, soldados apareciam ao fundo e uma criança segurava uma pequena flor no centro.

A etiqueta indicava que o artista morrera mais de setecentos anos antes.

— Esse quadro. É feio.

— Ele vale quase seiscentos milhões.

— Isso não deixa ele menos feio.

— Você não saberia. — August aproximou-se e observou a tela.

— Por quê? — Tess desviou os olhos da pintura para ele.

— Seu currículo diz que você recebeu treinamento extensivo em avaliação, catalogação e autenticação. Isso ensina a reconhecer o preço e não o valor.

— Qual é a diferença?

— O preço é uma convenção com parâmetros que podem ser ensinados.

— E o valor?

— Não. — Voltou a andar.

Ela permaneceu diante da pintura por mais alguns segundos antes de acompanhá-lo.

— Então como você sabe que é bonito?

— Eu não disse que era.

— Você disse que eu não saberia.

— Porque você falou como se houvesse uma resposta correta.

— Existe?

— Não.

— Então eu posso achar feio.

Aster abriu a boca, mas decidiu continuar andando.

— Você vai ser uma dor de cabeça.

A viagem até Velthor ainda levaria pouco mais de um dia. August passou o restante da tarde conferindo cargas enquanto tentava resolver os documentos acumulados. Tess recebeu acesso limitado ao sistema administrativo.

Quando voltou ao quarto-escritório algumas horas depois, encontrou metade dos hologramas desaparecidos. Parou na porta. A mesa de ônix estava quase limpa e a assistente ocupava sua cadeira.

— O que você fez?

— Trabalhei. — Arrastou uma das últimas notas fiscais para o lado.

— Saia da minha cadeira.

Ela levantou.

Aster correu até a mesa e abriu o painel de registros. Das vinte e sete autorizações pendentes, restavam quatro. As onze mensagens urgentes haviam sido respondidas e dois dos três clientes tinham confirmado os novos termos.

— Eu falei para não negociar por mim.

— Não negociei. Esses dois aceitaram redução de taxa. Eles já tinham direito à redução, o sistema só não aplicava automaticamente porque as mercadorias foram registradas antes da atualização do código alfandegário.

August abriu o primeiro processo e viu que estava certa. Abriu o segundo e confirmou a mesma coisa.

— E os outros documentos?

— Reclassifiquei as solicitações repetidas, agrupei contratos que dependiam da mesma autorização e usei a credencial do setor fiscal para eliminar vinte e três verificações redundantes.

— Você não tem credencial do setor fiscal. — Levantou os olhos.

— Eu tenho agora.

— Como?

— O sistema permite acesso temporário quando um funcionário administrativo solicita uma revisão de tributação de uma carga pertencente ao próprio setor. Solicitei a revisão e, durante os oito minutos em que a permissão ficou ativa, concluí os processos.

— Isso é uma falha.

— Possivelmente.

— Você explorou uma falha no sistema da minha nave.

— Você pediu que eu resolvesse o trabalho acumulado. Não disse como. Ainda restam quatro. — Tess apontou para a mesa.

— Não faça isso novamente.

— Posso terminar os quatro?

— Pelos caminhos normais.

— Vai demorar aproximadamente uma hora e vinte minutos.

— Então demore uma hora e vinte.

— Como quiser. — Sentou-se na cadeira ao lado.

August permaneceu olhando para a tela por alguns segundos.

— Onde você aprendeu a procurar esse tipo de atalho?

— Nos testes.

— Que testes?

— Os que constam no meu currículo.

Ele tentou lembrar das dezenas de condecorações e avaliações listadas no formulário. Não lembrava nem da metade.

— Certo.

Tess voltou ao trabalho.

Velthor surgiu diante deles na manhã seguinte.

O planeta ocupava quase toda a janela da ponte quando o Grande Cruzador saiu do salto. Luzes artificiais contornavam continentes inteiros, e estações de comércio formavam anéis irregulares em torno da órbita.

Milhares de naves entravam e saíam do sistema em rotas tão organizadas que, de longe, pareciam linhas desenhadas sobre o espaço.

August chegou à ponte já vestido para a negociação. A dólmã vinho havia sido trocada por outra em melhor estado, o cabelo estava novamente penteado e o bigode não apresentava uma única ponta fora do lugar.

Tess esperava ao lado de um dos painéis.

— Você está… diferente. Tomou banho?

— Tome isso como uma lição. Nunca deixe um cliente perceber que você não dormiu.

— Você não dormiu?

— Claro que dormi.

— Durante duas horas e treze minutos.

— Como sabe disso? — Aster virou o rosto lentamente.

— Você me enviou a última mensagem às quatro e vinte e sete e abriu a primeira às seis e quarenta.

— Não calcule mais as minhas horas de sono.

— Tudo bem.

O cruzador recebeu autorização para atracar numa das plataformas reservadas à comitiva imperial. August já havia negociado com Velthraads em outras ocasiões, mas nunca diretamente com Ehmyr. Só isso tornava aquela viagem diferente das anteriores.

O Imperador de Velthor não precisava comprar nada. Se quisesse uma obra, poderia oferecer um planeta por ela e continuar mais rico do que o vendedor. O problema era fazê-lo desejar alguma coisa.

Aster passou a manhã conferindo o catálogo pela última vez. Valentine permaneceu ao lado, enquanto memorizava nomes, datas e procedências.

— Não fale durante a negociação a menos que eu pergunte algo.

— Certo.

— Não aceite comida, bebida ou presentes.

— Certo.

— E se alguém pedir seu sangue, recuse.

— Meu sangue? — Piscou.

— Eles são Velthraads.

— E se pedirem o seu? — Tess olhou para o braço.

— Irei recusar também.

A reunião acontecia num palácio construído acima da própria estação orbital. Os Velthraads faziam questão de lembrar os visitantes do quão ricos eram.

Mármore negro cobria o piso, grandes janelas davam vista para Velthor e colunas feitas de um metal avermelhado sustentavam um teto tão alto que as luzes pareciam pequenas estrelas.

Ehmyr aguardava sentado na extremidade de uma mesa comprida.

Era alto mesmo para os padrões de sua espécie, com cabelos brancos presos atrás da cabeça e pele tão clara que as veias próximas aos olhos ficavam visíveis quando a luz incidia de lado. Vestia preto e vermelho, sem qualquer brasão aparente.

August tomou o lugar reservado à comitiva Goldenbringer. Tess permaneceu alguns passos atrás. A primeira reunião durou seis horas e, como resultado, nenhuma obra mudou de dono.

Ehmyr apresentou vinte e três peças de sua coleção, enquanto Aster ofereceu dezessete do catálogo humano. Os dois recusaram praticamente tudo.

A única negociação que avançou ocorreu quando o Velthraad demonstrou interesse por uma escultura de cristal. Ehmyr ofereceu uma de suas obras em troca, mas August considerou insuficiente.

No final, levantaram da mesa exatamente com o que tinham levado.

— Foi um desastre? — Valentine perguntou quando entraram no transporte de volta ao cruzador.

— Foi excelente.

— Mas ninguém concordou com nada.

— Ele estava muito falante para um primeiro dia.

— Vocês passaram seis horas recusando propostas.

— Agora nós sabemos o que o outro quer.

— Você recusou uma obra que estava na lista de prioridades.

— Sim.

— Por quê?

— Porque ele percebeu que eu queria.

— Então fingiu que não queria.

— Não. Eu mostrei que não precisava.

— Isso parece uma diferença muito pequena. — Tess voltou a olhar pela janela.

— Negociações são feitas de diferenças pequenas.

Quando retornaram ao cruzador, August encontrou uma xícara de café sobre a mesa. Provou e estava exatamente como gostava.

— Você fez isso?

— Você reclamou ontem que eu deveria saber fazer café.

— Eu estava brincando.

— Então não precisava?

— Amanhã também. — Tomou outro gole.

Tess sorriu e foi a primeira vez que ele percebeu que ela tinha covinhas.

No segundo dia, Ehmyr mudou a abordagem.

Nenhum catálogo apareceu sobre a mesa. Em vez disso, o Imperador ofereceu acesso exclusivo a uma rota comercial controlada por três famílias Velthraad em troca de duas obras humanas e prioridade na compra de peças Goldenbringer durante os próximos vinte séculos.

August recusou, então Ehmyr acrescentou um porto. Diante de outra negativa, incluiu uma redução de tarifas, até que Aster pediu uma escultura. O Velthraad riu, e a conversa seguiu por mais duas horas. Tess assistia de seu lugar e tentava acompanhar tudo.

Em determinado momento, percebeu que já não discutiam arte.

Rotas, juros, seguros, taxas portuárias e contratos de transporte haviam tomado a mesa, embora nenhum dos dois parecesse ter esquecido as peças que iniciaram a discussão.

— Você é divertido, Aster. — Ehmyr recostou-se na cadeira.

— Suas gentilezas me honram, senhor.

— Olha só, um humano reverenciando outro líder. Em resposta, me permita tornar a proposta mais interessante.

— Sou todo a ouvidos.

— Seu sangue, e eu acrescentarei a escultura azurixiana que seu rei deseja.

— Receio que terei que recusar sua oferta, meu lorde.

— Uma única ampola.

— Lamento.

— Não tenho intenção de beber.

— Então para o que seria?

O Imperador mostrou os dentes num sorriso. Os caninos eram discretamente mais longos do que os de um humano.

— Minha filha mais velha vai passar pelo ritual da maioridade e ascender como a nova Imperatriz. Seria um presente pra ela.

— É uma honra que de todos os Goldenbringers que vêm até aqui eu tenha sido o escolhido, mas receio não poder ajudá-lo.

— Pelo menos pense, a oferta ainda ficará de pé.

— Claro.

O Imperador riu e voltou à negociação anterior.

— Ele teria dado a escultura. — Tess esperou até o transporte deixar o palácio.

— Eu sei.

— É uma das peças que você veio buscar.

— Eu sei.

— E uma ampola não faria falta.

— Eu também sei disso. — August soltou o primeiro botão da gola.

— Então por quê? A peça azurixiana é a prioridade máxima do Grão-Mercador.

— O ritual de ascensão consiste em um Velthraad sugar o sangue, ou essência vital, de um ser vivo até a morte. Meu sangue não está à venda. Eu acho que sou mais valioso vivo.

— Mas você não vende praticamente tudo?

— Praticamente. Comecei minha carreira vendendo pêssegos na Nova Itália e agora negocio esculturas com Imperadores de outros planetas.

— Então… existem coisas que não têm preço?

— Claro. — Aster demorou um pouco.

— Como você decide?

— Decido o quê?

— O que é mais valioso?

— Se eu soubesse explicar, provavelmente já estaríamos voltando pra Terra e carregando aquele palácio orbital deles. — August encostou a cabeça no banco.

— Seria engraçado. — Riu.

Aster fechou os olhos e, sem perceber, sorriu.