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Egocêntrico [3/4]

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Egocêntrico [3/4]

Tess começou a aparecer em outros setores da nave durante as horas em que Aster estava ocupado.

No terceiro dia, encontrou uma mulher na área de refeições dos mercadores. Ela administrava a cozinha da nave e já trabalhava sob o comando de Aster havia quase cinco anos. Estava com duas xícaras sobre a mesa quando Valentine se aproximou.

— Você é a nova assistente dele, não é?

— Tessia Valentine.

— Eu sei, todos nós te conhecemos. Me chame de Mara.

— É ruim todos me conhecerem? — Sentou-se à frente dela.

— Não. Só significa que August finalmente perdeu uma discussão para o Chris.

— Eles discutem muito?

— Constantemente.

Mara empurrou uma das xícaras na direção da nova colega. Tess não tocou nela.

— Como é… trabalhar com ele?

— Você já trabalha com ele, querida.

— Apenas há três dias.

— Então já descobriu quase tudo. Reclama de qualquer mudança, finge que não precisa de ajuda e acha que dormir é um desperdício de tempo.

— Ele também acredita que valor não pode ser calculado.

— Que tipo de conversa vocês andaram tendo? — Parou com a xícara próxima à boca.

— Eu disse que um quadro era feio.

— Qual?

Tess descreveu a pintura da criança no meio da cidade destruída.

— Esse é feio mesmo.

— Ele disse que eu não saberia.

— O senhor August fala muita bobagem. Não precisa se preocupar tanto.

— Ele é realmente tão bom em negociações quanto dizem? — Mexeu os dedos sobre a mesa.

Mara riu.

— Você não estudou o método Aster?

— Estudei.

— Então?

— Aster. — Tess demorou um instante.

— Pois é.

— Foi ele?

— Quem mais seria? Aquela técnica de deixar o comprador apresentar três concessões antes de revelar o objetivo real? Ele criou. A inversão de âncora em negociação sem moeda? Também. Metade das estratégias que ensinam nas academias mercantis saiu de negociações dele.

— O currículo que recebi não dizia isso.

— Porque August acha ridículo colocar no próprio currículo coisas que as pessoas já deveriam saber.

— Eu não sabia. — Apoiou os braços sobre a mesa.

— Não fala pra ele. Vai fingir que não liga e depois passar três dias insuportável.

— Certo.

— E não deixe ele te convencer a fazer horas-extras todo dia. — Tomou o restante da bebida.

— Ele faz muitas?

— É o jeito que ele vive trabalhando aqui.

— Você conhece arte?

— Algumas coisas. Mesmo para trabalhos mais braçais como o meu, é obrigatório ter um conhecimento sobre arte. Caso algum alien esquisito te pergunte… é pra passar a impressão que todo humano é versado na área.

— Você gosta?

— Sim, algumas esculturas que eu vejo os rapazes carregando são bem bonitas.

— Como sabe?

— Como assim? — Franziu a testa.

— Como sabe que gosta?

— Eu olho e gosto, eu acho…

— Só isso?

— Acho que sim, garota. Nunca pensei muito sobre isso.

Tessia levou uma mão ao queixo. Franziu o cenho e fixou o olhar na mesa à sua frente.

— Você pensa demais. Eu acho que arte não é algo que tenha uma fórmula ou que as pessoas tenham um motivo para gostar. O bonito é bonito e só isso.

O comunicador de Tess recebeu uma mensagem de August, que queria saber onde estava o relatório da reunião. Ela respondeu que a ata já estava no sistema havia quarenta minutos.

O capitão, em sua tréplica, disse que ainda não havia achado, a mulher, então, se despediu da nova amiga e correu até o quarto-escritório.

A terceira negociação começou mal.

Ehmyr aumentou o valor de três obras que havia demonstrado interesse em trocar no primeiro dia, enquanto Aster retirou duas pinturas do catálogo sem explicar o motivo.

Conforme as respostas se tornavam cada vez mais lentas, Tess notava o peso da desvantagem numérica, já que o Imperador trouxera cinco assessores contra apenas ela do lado de August.

Durante quase uma hora, debateram sobre uma escultura feita com a liga metálica de um planeta destruído; Ehmyr exigiu três peças humanas em troca, mas Aster ofereceu apenas uma.

Quando o Velthraad reduziu o pedido para duas, August tentou mudar de assunto, porém Ehmyr sempre voltava à escultura.

A dinâmica só foi quebrada assim que Aster perguntou sobre uma pintura que não aparecia em nenhum catálogo, uma manobra que Valentine reconheceu de imediato como uma das estratégias que estudara anos antes.

Aster deixava o outro lado lutar para retornar ao assunto principal até transformar o próprio interesse numa concessão. Quando Ehmyr finalmente aceitou discutir a pintura escondida, já havia reduzido a exigência sobre a escultura sem perceber.

Tess observou o capitão durante o resto da reunião. A postura cansada que conhecia da nave desaparecia por completo diante daquela mesa. August raramente consultava os documentos.

Guardava preços, procedências, datas e negociações anteriores na memória. Quando precisava de tempo, apenas esperava. Ehmyr fazia o mesmo. Às vezes passavam quase um minuto inteiro sem falar. Valentine começou a entender por que aquilo levava dias.

Quando retornaram à nave, entrou no escritório sem ser convidada.

— Você criou o método Aster.

— O nome deveria ter dado uma pista. — Tirou os óculos.

— Existem milhões de Asters.

— Mas apenas um importante.

— Mara disse que metade das técnicas ensinadas nas academias veio de você.

— Ela fala demais.

— Por que não me contou?

— Você não perguntou.

— Eu achei que você fosse apenas desorganizado. — Aproximou-se da mesa.

— Eu sou desorganizado.

— E preguiçoso.

— Cuidado.

— E arrogante.

— Isso está me ofendendo.

— Mas não incompetente.

— Obrigado, eu acho. — Colocou os óculos sobre a mesa.

— Foi um elogio. — Sorriu.

— Você precisa praticar.

Ao contrário de todas as outras, naquela noite, ele não mandou que ela saísse do escritório.

Trabalharam juntos até quase três da manhã. August revisava as propostas de Ehmyr enquanto Tess organizava os valores e encontrava equivalências entre as obras. Em algum momento, a mulher apareceu com duas xícaras de café.

Aster tomou metade da primeira antes de perceber que a dela continuava cheia.

— Você não gosta de café?

— Não muito.

— Então por que continua fazendo?

— Você gosta.

— É só o seu trabalho. Não tente parecer gentil.

— Talvez eu esteja praticando. — Segurou a xícara com as duas mãos.

Sem encontrar uma resposta rápida o suficiente, mudou de assunto.

No quarto dia, Ehmyr cancelou a reunião da manhã.

A mensagem dizia apenas que o Imperador precisava atender assuntos internos e retomaria as negociações no final da tarde. August aproveitou as horas livres para revisar a carga. Tess desapareceu depois do almoço.

Sem perceber no começo, só estranhou quando pediu café e ninguém respondeu. Abriu o comunicador e parou antes de enviar a mensagem. Podia muito bem fazer o próprio café sozinho.

Foi até a máquina, colocou uma xícara e escolheu a configuração que usava havia anos. O primeiro gole estava mais amargo do que o normal.

Olhou para o painel. A configuração era a mesma. Tomou mais um pouco e voltou ao trabalho. Quarenta minutos depois, abriu o comunicador novamente.

[Onde você está?]

[Galeria.] — Respondeu quase imediatamente.

August deixou a mensagem aberta por alguns segundos. Constatou que não havia motivo para ir até lá, mesmo assim, terminou dois relatórios antes de levantar.

A galeria estava praticamente vazia. Encontrou Valentine no andar superior, sentada no chão diante de uma tela apoiada sobre um cavalete. Havia pequenas embalagens de tinta abertas ao redor e um pincel entre seus dedos.

— Eu ia limpar tudo. — Percebeu a aproximação.

— O que está fazendo?

— Não sei ainda.

Aster chegou mais perto.

A pintura mostrava uma mesa escura coberta por pequenos pontos de luz. Apenas um par de óculos descansava próximo à borda enquanto, ao fundo, uma janela mostrava estrelas.

— Essa é a minha mesa.

— Talvez.

— Meus óculos estão ali.

— Existem milhões de óculos.

— Mas apenas um importante? — Reconheceu a provocação.

Tess riu e ele observou a tela por mais tempo.

— Por que está pintando?

— Queria descobrir se eu consigo achar alguma coisa bonita sem alguém me dizer primeiro.

— E conseguiu? — Voltou os olhos para a obra.

— Ainda não sei.

— Então por que justamente a minha mesa?

— Porque sim.

— Isso não é resposta.

— Foi o que a Mara me disse. Você olha e gosta. Só que não aconteceu assim. Primeiro imaginei. Depois quis ver. Então… fiz.

— E agora? — Abaixou-se para observar a tinta.

— Agora não sei se gosto.

— Perfeitamente normal.

— É?

— Artistas passam metade da vida odiando o que fazem e a outra metade mentindo sobre isso em entrevistas.

— Você gosta? — Riu enquanto tapava a boca.

— Ainda está incompleta.

— Isso não foi o que eu perguntei, August.

— Eu gostei. — Não sabia dizer se falava sobre a pintura ou dela ter o chamado pelo primeiro nome.

— Por quê?

— Não sei.

— Essa resposta é irritante.

— Não posso fazer nada sobre isso.

A reunião da tarde avançou até a madrugada.

Ehmyr finalmente aceitou trocar a escultura metálica por uma pintura humana e direitos temporários de exposição sobre outra peça. August conseguiu ainda incluir uma pequena coleção de máscaras Velthraad que Chris havia solicitado.

Restavam, porém, três itens principais.

O Imperador queria mais do que Aster estava disposto a entregar, e nenhum dos dois demonstrava intenção de ceder. No quinto dia, voltaram a discutir. No sexto, também.

Entre uma reunião e outra, a presença de Tess deixou de exigir qualquer ajuste. Aparecia no escritório antes do primeiro relatório, colocava o café próximo à mão direita de August e ocupava a cadeira do outro lado da mesa.

Quando ele esquecia uma refeição, ela lembrava. Quando Valentine passava tempo demais conferindo um documento que já estava correto, Aster mandava que parasse de procurar problemas onde não existia.

Mara começou a convidá-la para as partidas de cartas realizadas no setor dos mercadores depois do expediente. Na primeira noite, Tess perdeu todas. Na segunda, ninguém quis jogar contra ela.

— Você decora as cartas — acusou a cozinheira.

— Todos fazem isso.

— Mas ninguém acerta!

— Eu avisei que ela seria uma dor de cabeça. — August escutava as duas enquanto preenchia um relatório próximo.

— Você está proibido de ajudá-la.

— Eu nem estou jogando.

— Ela aprendeu isso com você.

— Eu nunca ensinei cartas.

— Ganhei. — Tess colocou três cartas sobre a mesa.

— Eu odeio vocês dois. — Mara jogou as próprias no chão.

Aster e Valentine começaram a rir e a cozinheira apontou para ambos.

— Isso. É exatamente isso. Vocês têm a mesma cara quando acham que são mais inteligentes que todo mundo.

Ambos ficaram pensativos. Mais tarde, quando voltaram ao corredor, ela ainda pensava naquilo.

— Temos a mesma cara?

— Não.

— Mara disse que sim.

— Mara estava perdendo dinheiro.

— Você acha que sou parecida com você?

— Não. — Apertou o botão do elevador.

— Por quê?

— Eu sou muito mais bonito.

Tess riu.

— E egocêntrico.

As portas se abriram e a viagem até o escritório durou menos de um minuto, mas nenhum dos dois ocupou lados diferentes do elevador como nos primeiros dias.