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Goldenbringers [4/4]

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Goldenbringers [4/4]

No sétimo dia, Tess terminou a pintura. Aster descobriu ao passar pela galeria antes da reunião com Ehmyr. A obra estava apoiada entre duas peças destinadas à negociação. Nenhuma etiqueta indicava preço, procedência ou artista.

A mesa continuava no centro, agora coberta por pequenos reflexos azuis. Os óculos permaneciam perto da borda. Na janela ao fundo, o espaço havia ganhado duas estrelas maiores do que as demais. Uma delas branca. A outra dourada.

Não entendeu o motivo, mas ficou olhando por alguns minutos. August precisava de alguma coisa nova. A negociação com Ehmyr havia parado, e repetir as mesmas ofertas apenas prolongaria a discussão.

— Levem essa também. — Chamou dois funcionários da galeria.

— Não está registrada, senhor. — Um deles consultou o catálogo.

— Eu sei.

— Qual o valor?

— Ainda não tem.

— Como devemos registrar?

— Nova aquisição. Artista desconhecido.

Os homens retiraram a tela e Aster seguiu para a reunião.

Ehmyr rejeitou as três primeiras propostas. August recusou todas as contrapartidas. Duas horas se passaram sem qualquer avanço.

Tess permanecia alguns passos atrás, com um painel nas mãos. Ela havia chegado pouco antes do início e não entrara na galeria naquele dia. Aster esperou o momento em que Ehmyr voltou a pedir uma das pinturas humanas mais antigas.

— Talvez eu tenha algo diferente.

— Depois de uma semana, espero que sim. — O Velthraad apoiou os braços sobre a mesa.

August fez um gesto. Os funcionários trouxeram a tela e Valentine levantou os olhos em direção ao painel. Ficou imóvel.

Ehmyr se levantou.

Aproximou-se da pintura e permaneceu diante dela por quase um minuto. Observou primeiro a composição, depois a tinta e, por último, os pequenos detalhes próximos aos óculos.

— Quem fez isso?

— Um artista novo.

— Humano?

— Trabalha na minha nave.

— Não reconheço a técnica. — O Imperador chegou ainda mais perto.

— É a primeira obra.

— Primeira? Eu compro. — Sorriu.

Tess baixou o painel.

— Não.

— Valentine.

— Não!

— Imagino que tenha encontrado o artista. — Ehmyr alternou os olhos entre os dois.

— Nós discutimos isso depois.

— Não há o que discutir. — Valentine largou o painel sobre a mesa. — Não está à venda.

— Você colocou a obra na galeria — sussurrou.

— Porque foi lá que eu pintei.

— Tudo naquela seção faz parte do catálogo de exposição.

— Você não me disse isso.

— Achei que fosse óbvio.

Tess olhou para ele. A boca abriu, mas nenhuma resposta veio. Os dedos apertaram a borda da mesa por alguns segundos.

— Eu não autorizei.

— Não existe venda ainda. Ele apenas demonstrou interesse.

— Então diga que não.

— Senhorita Valentine, o Imperador de Velthor acabou de se oferecer para comprar a primeira obra que você fez. Você entende o que isso significa? — Soltou o ar pelo nariz.

— Não.

— Significa que ela tem valor.

— Eu não perguntei quanto valia.

— Você queria saber se conseguia criar arte. Isso responde.

— Não responde.

— Como não?

— Porque ele quer comprar.

— Exatamente.

— Eu não fiz para ele.

Ehmyr voltou lentamente ao próprio lugar. Nenhum assessor se atreveu a interromper.

— Então para quem fez?

— Eu não sei. — Desviou os olhos para a pintura.

— Você precisa decidir.

— Não consigo. — A resposta saiu mais baixa.

August percebeu que os dedos dela continuavam apertando a madeira.

— Podemos conversar fora daqui.

— Eu deveria gostar disso?

— Do quê?

— Ele gostou. Você gostou. A obra recebeu uma avaliação positiva de duas pessoas com o conhecimento muito maior do que o meu. Isso deveria confirmar que o resultado foi satisfatório.

— Valentine…

— Mas eu quero que tire da frente dele. — A voz falhou pela primeira vez desde que Aster a conhecera. Ela soltou a mesa. — Agora.

August olhou para a pintura e depois para o Imperador.

— A obra está fora da negociação.

— Uma pena. — O Velthraad cruzou as mãos.

Tess pegou o painel e saiu da sala. Aster acompanhou a porta até fechar. Ehmyr continuou observando-o e mostrou os dentes.

— Eu certamente trocaria a escultura azurixiana por aquele quadro.

— Vamos negociar outras coisas.

— Não. Agora… eu quero a pintura ainda mais.

— Não está à venda.

— Tudo está à venda para os Goldenbringers.

— Essa não.

— Tudo bem. Mas a oferta pelo seu sangue ainda está de pé.

August encontrou Tess na galeria. A pintura já havia voltado ao cavalete. Ela estava sentada diante dela com os braços apoiados sobre os joelhos. Aster parou alguns passos atrás.

— Eu deveria ter perguntado. Achei que você tinha colocado ali para ser avaliada.

— Eu coloquei porque não sabia onde guardar.

— Certo.

— Você colocou um preço nela.

— Não coloquei.

— Eu não entendo. — A mulher levantou.

— O quê?

— Por que isso me incomoda. Eu só queria que você gostasse. — A frase o pegou desprevenido. — Quando perguntou se eu sabia o que era bonito, eu não consegui responder. Quando Mara explicou, também não. Então fiz isso porque queria descobrir. Você disse que gostava. Isso deveria ter sido suficiente.

— E foi?

— Quando ele disse que compraria, alguma coisa mudou. — Apontou para o quadro.

— Por que você não quer vender?

— Eu sei que não quero, mas não sei o porquê.

— Não precisa saber. — Aproximou-se da pintura.

— Como posso não saber? — Franziu a testa.

— Eu não sei por que gosto dela.

— Por quê?

— Talvez você esteja tentando transformar tudo em resposta certa e errada. — August passou a mão pelo bigode e se sentou no banco próximo.

— É assim que respostas funcionam.

— Não essas.

— Então como funcionam?

— Você acha aquele outro feio. — Aster apontou para o quadro de guerra com a flor no meio.

— Acho.

— Continua achando?

— Sim.

— Mesmo sabendo que vale seiscentos milhões?

— Sim.

— Então Ehmyr querer comprar o seu não muda se você gosta dele.

— Eu não sei se gosto.

— Também não muda isso.

— Eu deveria conseguir explicar. — Ela voltou a encarar a pintura.

— Eu fiz uma oferta pelo seu quadro sem pedir autorização, mesmo depois de passar uma semana dizendo que meu próprio sangue não estava à venda. Também deveria conseguir explicar como não percebi a contradição.

— Você é hipócrita. — Tess sentou ao lado dele.

— Bastante.

— E arrogante.

— Já discutimos isso.

— E desorganizado.

— Está abusando do momento.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela. August também ficou feliz.

— Desculpa.

— Eu ainda quero quebrar alguma coisa. — Tess passou alguns segundos olhando para as próprias mãos.

— Não quebre nada da galeria.

— Por quê?

— É tudo caro.

Ela riu.

— A negociação termina amanhã. — Aster levantou.

— Como sabe?

— Porque Ehmyr já cedeu.

— Ele não parecia ter cedido.

— Exatamente. Você vem?

— Posso deixar aqui? — Olhou para a pintura.

— Pode.

— Sem vender?

— Sem vender.

Ela o acompanhou.

Na manhã seguinte, Ehmyr aceitou a proposta que August preparara três dias antes.

Tess percebeu apenas quando os assessores começaram a registrar as obras. Depois de uma semana inteira de mudanças, recusas e novas exigências, o acordo final era quase idêntico ao que Aster havia previsto no quarto dia.

No transporte de volta, ela abriu o primeiro registro.

— Você sabia.

— Suspeitava.

— Por que continuou negociando por três dias?

— Porque ele precisava achar que a decisão foi dele.

— Isso é ridículo.

— Funciona.

— Ele também sabia?

— Provavelmente. — August ajeitou os óculos.

— Então vocês passaram três dias fingindo que não sabiam o que os dois sabiam?

— Bem-vinda ao comércio.

— Odeio negociação. — Tess apoiou a cabeça no banco.

— Você disse isso depois de decorar meu método inteiro.

— Para saber quando alguém está tentando usar comigo.

— Excelente motivo.

O acordo garantiu aos Goldenbringers oito novas obras Velthraad, uma coleção de máscaras, acesso temporário a duas rotas e direitos de exposição sobre uma escultura imperial. Infelizmente, voltaram sem a escultura azurixiana.

Em troca, Ehmyr recebeu sete peças humanas e prioridade em futuras negociações de determinados artistas.

Antes da partida, o Imperador apareceu pessoalmente no hangar.

— Aster.

— Ehmyr.

— Minha oferta continua válida.

— Qual delas?

— As duas.

— Meu sangue continua no meu corpo.

— E a pintura?

— Continua com a artista.

— Se algum dia decidir vender, envie primeiro para mim. — Ehmyr olhou para Tess.

— Não pretendo. — Ela permaneceu ao lado de August.

— As melhores sempre começam assim.

O Imperador se despediu e voltou para sua comitiva. Valentine esperou que ele se afastasse.

— Ele é irritante.

— Você se acostuma.

— Você recusou uma escultura de bilhões, mas quase vendeu meu primeiro quadro sem perguntar.

— Eu pedi desculpas. — Aster apertou o botão do elevador.

— Vou lembrar disso por muito tempo.

— Essa é a parte que me preocupa.

— Você deveria ficar preocupado. — Ela entrou primeiro.

O Grande Cruzador deixou Velthor algumas horas depois.

A rotina demorou menos do que August esperava para retornar. Soldados voltaram aos exercícios, mercadores conferiram as novas cargas e os setores administrativos começaram a produzir documentos suficientes para ocupar a mesa de ônix outra vez.

A diferença era que agora Tess sentava do outro lado. Ela já não perguntava antes de entrar. August também havia parado de reclamar.

Mara aparecia de vez em quando para arrastá-la às partidas de cartas, geralmente após verificar se Valentine tinha prometido não decorar as cartas. A promessa nunca durava.

A pintura saiu da galeria.

August encontrou-a no quarto de Tess quando passou pelo corredor e viu que a porta estava aberta. Não entrou. Apenas parou o tempo suficiente para ver a tela apoiada contra a parede.

No dia seguinte, um pequeno embrulho apareceu sobre a mesa dele. Dentro havia uma moldura vazia.

Aster levou o objeto até o quarto dela.

— O que é isso?

— Uma moldura.

— Eu sei que é uma moldura.

— Então por que perguntou?

— Por que me deu?

— Ainda não fiz nada para colocar nela. — Tess continuou organizando alguns documentos.

— Vai fazer outro? — August olhou para o objeto.

— Talvez.

— E esse vai ser meu?

— Talvez.

— Posso vender?

Valentine virou lentamente e Aster começou a rir antes que ela respondesse.

— Foi uma piada.

— Uma péssima.

— Você riu.

— Eu não.

— Quase.

— Saia do meu quarto.

Ele saiu, ainda sorrindo.

Dois dias depois, uma mensagem de Chris apareceu entre os relatórios administrativos. August quase a ignorou. O título mencionava o programa de assistência comercial.

Abriu.

“ Aster, antes que reclame, o teste foi considerado um sucesso. O Grão-Mercador aprovou a expansão do programa. A partir do próximo ciclo, todos os capitães-mercadores dos Grandes Cruzadores receberão assistentes automatizados de mesma categoria. As avaliações de produtividade ultrapassaram nossas expectativas. ”

August parou de ler. Do outro lado da mesa, Tess revisava um contrato. A mensagem continuava.

“ A propósito, a transferência do último protótipo quase foi cancelada por causa daquela confusão na Axiom. Ainda não entendi como convenceram Voss a manter o cronograma depois do incidente de contenção, mas não vou reclamar enquanto os resultados continuarem assim. ”

Franziu o cenho ao ler a última frase.

— Algum problema?

— Não. — Aster fechou a mensagem.

— Você fez aquela expressão de quando encontra uma cobrança duplicada.

— Eu tenho uma expressão específica para isso?

— Tem.

— Não quero saber.

Tess voltou ao contrato. August abriu um dos relatórios, tentou ler duas linhas e desistiu.

— Tess.

— Sim?

— Aquele quadro. Você descobriu se gosta dele?

Tess apoiou o documento sobre a mesa e pensou por alguns segundos.

— Acho que sim.

— Por quê?

— Ainda não sei.

— Ótimo.

— Ótimo?

— Significa que você finalmente entendeu.

— Entendi o quê?

— Nada. — Ele recolocou os óculos.

Valentine lançou um papel contra ele. Aster desviou e começou a rir, a assistente também.

A mensagem de Chris continuava aberta atrás dos outros hologramas, esquecida entre contratos, recibos e uma nota fiscal que, por algum motivo, ainda cobrava duas vezes pela mesma escultura.