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Capítulo 01 — Início Imprevisível — Parte 1

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Capítulo 01 — Início Imprevisível — Parte 1

16 anos depois…

“Duas chamas queimavam e se enfrentavam infinitamente. Uma desejava preencher o universo, a outra almejava reivindicar o que acreditava ser seu por direito. Eram semelhantes, porém extremamente diferentes. Sempre acabavam brigando, mas o que seria o certo e o errado?”

Mais um dia se iniciava, um dia que Kamito acreditava ser rotineiro. Após acordar sufocado por uma sensação de desespero devido a um pesadelo, o garoto sentia-se agitado, mas optou por ignorar e levantar como se nada o preocupasse. Enquanto se arrumava, Akane, sua vizinha, o chamava na frente de casa.

— Kamito, estamos quase atrasados! Já acordou?!

Akane era uma garota gentil, com longos cabelos castanho-escuros, quase pretos, que passavam do meio das costas. Seus olhos castanho-claro e o rosto fino e delicado faziam-na parecer uma princesa. Com uma diferença de apenas alguns meses, Kamito e Akane tinham dezesseis anos, apesar da aparência delicada e amistosa de Akane, ela carregava consigo um grande senso de responsabilidade.

Amigos desde a infância, Akane nunca se importou com a aparência de Kamito. Esse fato, no entanto, o fazia sofrer e passar por diversas situações difíceis. Seu cabelo naturalmente azul claro, o tom estranhamente claro de sua pele e os olhos vermelhos o transformavam, para os outros, em um monstro — mas para Akane, isso nunca foi um problema.

Por conta de sua aparência incomum e inexplicável, Kamito tornou-se alvo de pessoas ruins. Como todos o evitavam, nunca tinha mais alguém para defendê-lo. Akane, era a única a estar sempre ao seu lado e a defendê-lo quando podia, além de ajudar o garoto em seus momentos mais difíceis, fazendo com que sua gratidão e admiração se transformassem em um sentimento de amor que Kamito guardava para si.

— Tudo certo, eu acho… — murmurou Kamito, ainda se arrumando em seu quarto.

Ele olhou seu reflexo no espelho pela última vez enquanto arrumava o cabelo, mas foi interrompido por mais um chamado de Akane.

— Já estou indo! Só mais um minuto! — respondeu.

Com pressa, pegou sua mochila.

A sensação que o sufocara mais cedo retornou, mas Kamito entrou em estado de negação e caminhou para fora de casa, tentando esquecer. Ao abrir a porta, viu Akane em frente à sua casa, aborrecida com a demora.

— Bom dia, Akane. Está adiantada, como sempre. — sorriu Kamito sem jeito.

O garoto tentava disfarçar o cansaço, mas sabia que logo Akane descobriria que ele dormiu tarde na noite anterior. O cansaço o fez bocejar e, em uma tentativa de disfarçar, acabou sendo descoberto por sua amiga.

— Não acredito que você passou a noite acordado até tarde outra vez, Kamito. Por isso vive se atrasando. Você é mesmo um caso perdido.

Akane desviou o olhar e estreitou os olhos — um truque para parecer zangada. Ela sabia que sempre funcionava com Kamito.

— Ei, não precisa ficar brava comigo. Dessa vez foi por um bom motivo. Eu prometo que não faço mais isso! Por favor, foi a última vez. — respondeu Kamito, tentando se justificar.

Ao ver a reação de Kamito, Akane começou a rir da situação e, assim, a dupla seguiu o caminho cotidiano de sua rotina escolar.

— O tempo está bom hoje, não acha? Nem dá para acreditar que estamos quase mudando de estação. Está ficando menos frio e dando lugar a um clima mais agradável. Eu, particularmente, gosto do clima assim.

Kamito estava aliviado por não ter chateado Akane de verdade. Os dois seguiam seu caminho. Como de costume, estudantes e trabalhadores estavam apressados para chegar aos seus compromissos. A cidade de Fukinawa, embora de porte médio, transformava-se aos olhos em uma grande cidade graças ao número de prédios no centro, às muitas empresas e ao centro movimentado. Ao mesmo tempo, era um lugar calmo, e, em certos momentos, até silencioso.

— Uhum. É como se o mundo estivesse feliz. Eu amo esse clima agradável. — concordou Akane. — Me faz relembrar daquele dia em que nos conhecemos. É uma nostalgia tão boa.

Ela sorriu, um pouco envergonhada, ao recordar algo tão importante para os dois. Kamito a olhou sem entender a qual lembrança ela se referia; a garota notou e tentou disfarçar. Rapidamente, ficou vermelha e nervosa, tentando corrigir o que acabara de dizer.

— A-a-ah, não foi nada, não! Eu estava pensando alto!

Ela começou a sorrir sem jeito e caminhou mais rápido, como se estivesse com pressa. Kamito sempre se perguntava o que era tão nostálgico a ponto de deixá-la daquele jeito toda vez que falavam do passado.

Já próximos da escola, a sensação que ele sentiu pela manhã voltou a perturbá-lo. Desta vez, não apenas o sufocava, mas o dominava. Havia alguma presença causando arrepios no garoto.

Kamito gelou ao ponto de parar andar por um momento; um medo intenso tomava conta de seu corpo. Ao notar que ele ficou para trás, Akane o olhou sem entender o que estava acontecendo.

— Está tudo bem? — questionou a garota.

— Não é nada demais… Eu pensei ter visto algo. — respondeu Kamito, tentando disfarçar.

Ao chegarem à escola, Kamito se sentou e ficou olhando pela janela. Perdia-se em seus pensamentos, tentava entender o que aconteceu, o que sentia desde cedo. Era uma sensação fria e sufocante, como se algo estivesse ao seu redor, observando cada ação, cercando-o como se fosse uma presa indefesa prestes a ser atacada.

Embora tentasse evitar preocupar Akane, ela o observava de seu lugar. Sabia que algo não estava certo com seu amigo. Conhecia Kamito há muito tempo e sabia quando algo o perturbava. Ele não conseguiria esconder algo por muito tempo dela, ainda mais se fosse questionado.

A primeira aula logo começou, e Kamito não esquecia aquela sensação. Repentinamente, começou a sentir um calor intenso, como se uma energia estivesse crescendo dentro dele prestes a explodir. Em seus pensamentos, via a imagem de uma pequena chama azul que lutava para se expandir.

E então, mais uma vez, a sensação fria e sufocante retornou. Assustado, ele ficou paralisado de medo, as mãos tremiam. Estava distante da realidade, como se estivesse hipnotizado.

Com uma batida na mesa, o professor chamou sua atenção de volta a realidade.

— Kamito! Está me ouvindo?! — repreendeu o professor. — Francamente, já lhe disse que não tolero esse tipo de comportamento. Se não se interessa pela minha aula, pode sair!

— Não é nada disso. Eu estava prestando atenção sim! — respondeu nervoso.

— Sendo assim, gostaria de explicar pra turma o conceito que acabei de te perguntar?

Kamito olhou para o relógio antes de tentar responder e percebeu que metade da aula já havia passado. Ele perdeu todo o conteúdo.

O professor continuava encarando Kamito, esperando uma resposta, enquanto a turma, em silêncio, assistia à situação.

— Eu não sei responder essa pergunta… Desculpa.

— Que isso não se repita, fui claro?

— Entendido, professor.

Kamito riu de nervoso, desconfortável com a situação, e apenas desviou o olhar para evitar contato visual com o professor até que ele saísse dali. Envergonhado, preocupado e um pouco triste pela situação, Kamito teve sua atenção chamada por Akane.

— Kamito, está se sentindo bem? Desde que chegamos, você está quieto e distraído demais. Tem algo incomodando você? — sussurrou Akane, preocupada.

Ele sabia que não conseguiria esconder isso dela. A garota descobriria de um jeito ou de outro.

— No almoço eu te conto. — respondeu Kamito.

Akane concordou em esperar até o almoço, mas sua preocupação não a deixava parar de olhá-lo de forma sutil o restante da aula.

Após algumas aulas, o sinal finalmente tocou. Kamito tentava manter a calma, mas Akane não perdeu tempo e foi direto falar com ele.

— Então… O que aconteceu? — perguntou preocupada. — Você está pálido.

— Não sei se aqui seria um bom lugar para conversar. — respondeu com receio. — Podemos ir para outro lugar?

— Claro. Vamos para o nosso local secreto. — sugeriu a garota. — La teremos mais privacidade.

Por sugestão de Akane, concordaram em ir para a pequena praça onde costumavam almoçar em seu tempo livre.

Como poucas pessoas frequentavam o lugar naquele horário, não haveria lugar melhor para aquela conversa. A dupla pegou seus pertences e seguiu para o local.

Kamito sabia que ela não desistiria até que ele contasse tudo o que estava sentindo. Precisaria explicar tudo, mesmo que fosse algo irrelevante.

Devido ao horário de almoço, todo o alvoroço e movimento da cidade de Fukinawa foi substituído por um silêncio angustiante e assustador. Kamito sentia que até mesmo a cidade compartilhava do mesmo peso que ele carregava.

Enquanto pensava em como contaria o que estava acontecendo, Akane não parava de olhá-lo com preocupação. Sua tensão e preocupação eram visíveis.