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Capítulo 95 — Interrogatório

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Capítulo 95 — Interrogatório

A troca de olhares era intensa — ao menos, de um dos lados. Ryruka e Yujiro esperavam que Navaro cooperasse. Porém, o velho Nomura não parecia preocupado. Mesmo preso, seu senso de humor estava intacto.

— Você não tem piedade nem de um mero senhor de idade? Sem dúvidas você é um Nomura, jovem Yujiro. Mas se você e sua bela loira acham que irei trair o Imperador, estão enganados. — Navaro riu, despreocupado.

Sem hesitar, Ryruka cravou uma adaga de gelo na coxa esquerda do inimigo. Ele rangeu os dentes, tentando conter a dor. Podia sentir a perna queimar como fogo.

— Desgraçada! Pretende me matar se eu não cooperar, não é?! É melhor me matar logo! — ele tentou se libertar, novamente sem sucesso.

— Não iremos te matar, Navaro. A adaga irá. Ela está numa temperatura próxima ao zero absoluto. Em breve, sua perna estará congelada. Isso se você não morrer de hipotermia antes, é claro. Então, como vai ser? — ela criou outra adaga e a aproximou do pulso direito de Navaro. Um sorriso travesso surgia em seus lábios. — Vamos lá, Navaro. Diga quem são os capitães e qual é o plano do Imperador. Faça isso, e eu farei a dor parar. A escolha é sua.

— Que excelente adição você seria ao império. — ele comentou em meio a um riso. — Você é impiedosa e cruel, gostamos de pessoas assim. Está bem, eu irei contar.

Com cautela, Ryruka removeu a adaga, aliviando um pouco a dor na perna de Navaro — que não poderia contar com ela por algum tempo, estava inutilizada.

— O Estrategista, a Espiã, o Atacante, o Torturador, a Rastreadora, o Treinador, o Político, o Guardião, a Punho de Ferro, o Titã, o Pirata, o Bispo, o Juiz, o Último, o Traiçoeiro e eu, o Conselheiro. Estes são os dezesseis capitães do Grande Impero.

— Não queremos títulos, queremos reais nomes! Por que ainda os protege? Você acabou de entregar seus companheiros, traiu seu Imperador e ainda não pretende dizer os nomes? — Yujiro se aproximou, Navaro mantinha o sorriso no rosto.

Era aquele um sorriso verdadeiro? Yujiro o analisou com cuidado e não demorou para perceber que Navaro estava nervoso.

— Não precisamos dos nomes, os títulos valem muito mais. Chegaremos em seus portadores por meio deles. Você condenou seus aliados para salvar sua própria vida. Seria esse o seu medo, Navaro Nomura? — ele ergueu a sobrancelha direita.

— Vai saber. De nada adianta terem essa informação se vocês todos morrerão. Vocês já estão condenados! — ele gargalhou, convicto no plano do Imperador. — Você é como eu, rapaz. Deixou os Nomura por discordar deles. O que nos difere? Um nome, um conjunto de atitudes? Aos olhos deles, nós somos a mesma coisa: traidores.

— É por isso que eu reformarei o clã. Mudarei os conceitos e o posicionamento dos Nomura. Nós podemos ser iguais aos olhos deles, mas nunca seremos de verdade. Você matou inúmeras pessoas e se voltou contra o clã, eu os deixei para seguir o que eu acredito. E eu acredito que meu clã ainda tem salvação e estou disposto a buscá-la nem que isso custe a minha vida. É isso que nos diferencia, Navaro. — ele o fitou com seriedade e se aproximou um pouco mais. — Eu nunca trai o clã nem contrariei seus princípios. Eu os seguia sem discordar de nada. Mas eles negaram buscar a paz do mundo só para manter a própria. Por isso meu pai e eu saímos. Não queríamos uma falsa paz vinda de falsos heróis e de falsos sábios.

— Devo concordar. O clã sempre se isentou dos assuntos do Extra-Mundo, sempre se isolando e mantendo o povo com uma falsa esperança, uma falsa paz, uma falsa moralidade. — Navaro fechou os olhos, refletindo sobre suas ações. Pouco depois, voltou a encarar Yujiro. — Você faria tudo pela paz? Una-se a mim, Yujiro. Submeta os Nomura ao Império, faça-os enxergar seu erro e o quanto eles são podres. Tome meu lugar no Império e traga a paz que você tanto deseja.

— Eu não almejo poder, nem controle. Eu os farei enxergar seus erros por meio dos meus esforços. Ambições e o desejo por poder corrompem a mente e a alma, por isso as Fúrias são criadas. Não pretendo jogar fora quem eu sou apenas por poder.

Navaro ameaçou retrucar, Ryruka congelou sua boca. Yujiro a fitou com gratidão.

— Obrigado, Ryruka. Eu mesmo já estava prestes a calar ele. Esse traiçoeiro tentou me corromper, sabendo que uma das falhas de um Nomura é se entregar aos seus desejos. Por isso treinamos para manter o controle.

E então, a conversa chegou ao fim.

O templo mergulhou no silêncio. Após algum tempo, Ryruka decidiu partir.

— O que fazemos com ele? — Yujiro olhou para Navaro de longe.

— Deixemos ele aí. Não precisamos sujar nossas mãos com ele, mas também não precisamos deixá-lo ir embora. — ela cruzou os braços e deu de ombros.

— É uma boa ideia. — ele sorriu e acenou para Navaro. — Adeus, velho Nomura. Boa sorte para tentar escapar desse lugar.

E assim, ambos se retiraram, deixando o antigo templo e os xingamentos raivosos de Navaro para trás. Às vezes Yujiro ainda espiava por cima do ombro, observando a destruição do templo com culpa e tristeza.

— Ei. — ela o cutucou com o cotovelo. — Você está bem?

— Sim. Vamos em busca de mais informações sobre os Capitães.

— E a Ordem? Acha que devemos retornar?

— Não. — ele se virou para frente, convicto. — É melhor procurarmos por Harpia e Pombo. Ouvi Raishi dizer para o Coruja que pretendia as enviar em outra missão. Vamos torcer para que isso não tenha mudado. Se as encontrarmos, creio que elas terão alguma informação que nos levará a um dos capitães.

Em outra cidade, as gêmeas buscavam informações sobre o Império. O poder da Pombo era essencial: bastava olhar para uma pessoa para saber tudo sobre ela.

Pararam num pequeno restaurante para comer e descansar.

— Harpia, estou cansada. Estamos há dias sem encontrar uma única pista. Vamos voltar e dizer que não encontramos nada. Eles vão entender. — Pombo se debruçou sobre a mesa, fitando a irmã com aborrecimento. — Por favor, eu preciso dormir bem para recuperar minhas energias. No mínimo, três dias para poder voltar ao trabalho.

— Nada disso. Não exagere, Pombo. Temos uma missão a cumprir. Lembre-se do nosso lema: informação é poder. Se tivermos informação, você poderá descansar o quanto quiser quando voltarmos. O que me diz? — ela a fitou com seriedade. Bastou para a irmã sorrir e pegar o cardápio.

Enquanto Pombo escolhia o prato, Harpia observava os arredores, pensativa.

— Só peça o necessário. Não temos tanto dinheiro para gastar.

— Eu sei, eu sei. Para de pegar tanto no meu pé, eu não sou boba. Você deveria ter mais confiança em mim, irmã. Parece que você ainda pensa que sou criança. — ela a fitou com raiva. Dessa vez, que cedeu foi Harpia. Cardápio livre para a Pombo. — Ebaaaa! Obrigada, Harpia. É por isso que eu te amo muito. O que você vai querer? Ah, e deixa que eu faço o pedido, beleza? Não quero que o garçom se assuste com o seu olhar assassino. Você precisa sorrir às vezes, sabia? Nem parecemos gêmeas.

Apesar dos pormenores, ambas se divertiam com a companhia uma da outra.

Na Cidade do Sul, a missão evoluía gradualmente. O Político estava prestes a se revelar diante de todos os convidados. Mas um receio pairava no ar. Estava fácil demais, não? Talvez fosse um prelúdio para algo pior.