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Capítulo 122 — Homem Civilizado

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Capítulo 122 — Homem Civilizado

No hospital, Haythan vestia uma roupa cinza com detalhes em preto, sem nada que cobrisse o peito. Deixava a cicatriz à mostra. Ele colocou apenas uma jaqueta e, sem que ninguém percebesse, saiu pela janela do quarto.

Haythan caminhou tranquilamente pela propriedade do hospital até chegar a um muro que separava um pequeno bosque do estacionamento do local. Ele pulou o muro e se deparou com Aiko.

— Eu não esperava te ver tão cedo, Capitão. — disse Aiko, com o olhar calmo. — Qual é o plano? Caçar as pessoas que te feririam ou reunir seus homens?

Aiko sorriu de canto e entregou ao Capitão um saquinho com várias esferas.

— Tomei a liberdade de escolher os materiais de cada uma das esferas. Eu sei que o material afeta a eficiência da explosão. — disse Aiko. — Agora que não falta mais nada, podemos ir, Capitão Haythan.

— Bom trabalho, Aiko. — Haythan prendeu o saquinho na cintura. — Vamos antes que notem meu sumiço. Está mais do que na hora de iniciarmos nossa caçada.

Ambos seguiram para longe do hospital. A feição séria de Haythan mostrava como ele pensava exclusivamente em sua vingança.

— Vamos voltar para a ponte. Nossa busca terá início a partir de lá. Vou fazer algo que o Imperador não é capaz de fazer: encontrar um grupo de extra-humanos escondidos que nem um bando de ratos. Não será difícil. — explicou Haythan.

— Entendido, Capitão. O senhor está mesmo se sentindo bem? Seu ferimento não o incomoda mais? Se sentir cansaço, podemos parar a qualquer momento. Não precisamos ter tanta pressa. — Aiko o olhava preocupado. — Devemos chegar à ponte em três dias se formos a pé. Podemos usar esse tempo para descobrir algumas informações. Os rebeldes foram vistos pela última vez onde estava o cerco do Igner. Depois, eles sumiram do mapa. Devem estar escondidos em algum lugar discreto e longe dos nossos olhos. Eu estive mapeando os arredores e não encontrei nenhum esconderijo ou abrigo em potencial. Onde eles podem estar?

— Nós iremos descobrir isso, Aiko. — respondeu Haythan, sorrindo enquanto caminhava por entre as árvores. — Não importa onde eles estejam, nós os encontraremos. Ninguém fica escondido de mim por muito tempo.

Haythan pegou uma das esferas e começou a brincar com ela entre os dedos.

— Quando chegarmos na ponte, eu saberei para onde devemos ir. Uma caçada deve sempre ter um ponto de partida. E a ponte, onde eles estavam juntos, é esse ponto. Há muitos resíduos de energia naquele local. Por isso devemos começar por lá. Vamos iniciar nossa caçada.

E assim começou a caçada de Haythan pelo paradeiro da Ordem.

Em paralelo, a Emota seguia de cidade em cidade incentivando o povo a se rebelar. O Império logo tomou conhecimento de suas ações. Impero decretou a proibição de aglomerações do povo e de discursos públicos. Além disso, ele também ordenou a prisão de todos os apoiadores dos rebeldes ou da Emota. E o que mais esperavam também foi concretizado: ele ordenou a execução imediata do grupo e de seus aliados. Para isso, mandou um seleto grupo atrás da Emota.

Longe de tudo, naquela estranha caverna, uma mulher estava sentada de frente a uma fogueira. Ela olhava com um sorriso discreto para alguém deitado do outro lado do fogo. A pessoa desacordada enfim se moveu. Tinha despertado? A mulher se levantou e se aproximou do indivíduo para ajudá-lo a se sentar.

A meia-luz dificultava a visão, então ela fez a fogueira dobrar de tamanho. A luz revelou seus longos cabelos loiros e olhos vermelhos. Ainda não se podia ver com clareza a outra pessoa. A loira se sentou à sua frente para conversar.

— Finalmente, achei que você nunca mais fosse acordar. Se sente bem? Consegue me entender? Estou falando muito rápido? — ela o olhava seriamente.

A outra pessoa concordou com a cabeça, deixando-a aliviada.

— Ótimo. Uma última pergunta. Você sabe quem você é? De nada me adianta se você não se lembrar de quem é ou o que você é.

Após um breve momento de silêncio, outra voz se manifestou.

— E-eu me chamo Kamito. — respondeu ele, tocando o rosto com a mão esquerda. — Kamito Takeda, e também Lobo. Sou um Manifestador Espiritual. Eu estava, eu estou… Onde eu estou?!

Sua cabeça doía a cada palavra que dizia, como se todas as suas memórias voltassem de uma única vez. Ao se lembrar do que aconteceu, Kamito se desesperou.

— Onde está a Akane?! — perguntou ele, aflito. — Cadê o resto do pessoal?! Eu preciso voltar agora mesmo! Eu me lembro, eu me lembro! Estamos em guerra! Ela me viu cair! Ela deve achar que eu estou morto!

— Acalme-se, rapaz. — a mulher o segurava para impedir que se levantasse. — Sabe quanto tempo ficou desacordado? O suficiente para que já te considerem morto. E se você sair nessas condições, acabará morrendo de verdade.

— Você não entende! Ela precisa saber que eu estou bem!

— Você não vai a lugar algum! Não agora, ao menos. Você está muito fraco, e eu sinto uma enorme instabilidade na sua Energia Espiritual. Eu posso te deixar ir, mas só depois que dermos um jeito nisso. É a minha condição. O que me diz?

Para convencê-lo, a mulher estendeu a mão direita em direção à fogueira. As chamas balançaram, e pouco depois viajaram para a palma de sua mão.

— Como você fez isso?! — Kamito olhava, com desespero, a chama se manifestar na mão da mulher. — Como você manipulou o fogo?! Isso não deveria ser possível! Eu deveria ser o único a fazer isso! Isso não deveria ser possível!

Ela o olhava tranquilamente, com um sorriso sereno. Tentando se acalmar, Kamito estendeu a mão direita e manifestou uma fraca chama azul.

— Só deveria existir um único Manifestador de fogo… — disse Kamito, confuso. — Essa energia, eu já senti antes. Era por você que a minha Manifestação chamava? Quem é você de verdade? Me diga.

— Eu me chamo Aurea, e sou eu quem deveria ser a única Manifestadora de fogo. Não sei o que aconteceu, mas as nossas Manifestações conseguem conversar e ressoar uma pela outra.

Aurea colocou a mão próxima à de Kamito, mostrando que as duas chamas sempre iam uma na direção da outra — como se precisassem uma da outra. Ela então fechou a mão e desfez sua chama.

— Eu estive te esperando por muito tempo, Kamito.

— Por mim? Por quê?

— Eu me preparei unicamente para este dia: quando eu te encontraria e te treinaria. Você me chamou até aquela ponte. Sua Manifestação me chamou até aquela ponte. Se isso não tivesse acontecido, você estaria morto. — ela cruzou as pernas. — Você disse se chamar “Lobo”. Quer dizer que você faz parte da Ordem dos Cavaleiros Brancos. Eu já tive um nome lá: Águia.

— Você já foi membro da Ordem?! Como? Quando? Quem você realmente é?!

— Te contarei tudo, não tenha pressa. — ela se inclinou na direção dele, com um sorriso confiante. — Kamito, a partir de hoje eu serei a sua mestra e te ensinarei a usar a sua Manifestação de forma correta.

Kamito a olhou confuso e surpreso. Por algum motivo, ele acreditava nela. Embora tudo que estava sendo falado fosse sério, ele não parava de pensar em voltar para Akane e de mostrar a todos que ainda vivia. Mas, antes de retornar, precisava resolver seus problemas. Kamito aceitou treinar com Aurea, já que sua Manifestação parecia tranquila ao lado dela.

Enquanto a guerra eclodia, Kamito estava prestes a começar seu treinamento. Ele ainda queria saber mais sobre Aurea, e como ela o conhecia a ponto de dizer que o esperava há tanto tempo só para treiná-lo.

Kamito finalmente voltou, mas não fazia ideia do que acontecia com seus amigos. Talvez, naquele momento, ele não quisesse se preocupar com Akane e seus amigos antes de resolver o problema da sua energia. No estado que estava, voltar seria inútil.