Capítulo 128 — Lembranças Dolorosas
Capítulo 128 — Lembranças Dolorosas
“Você viveu o mesmo que eu, sentiu a minha dor, mesmo assim, por que estamos de lados opostos?”
Quando abriu os olhos, Kamito estava na Fragmentação. O local estava muito pior do que da última vez. Partes do Extra-Mundo colidiam com partes da Terra, criando uma mistura entre os dois mundos. O silêncio era enlouquecedor. Ele era a única pessoa entre dois mundos e buscava algo capaz de acabar com sua angústia.
Kamito respirou fundo e caminhou por aquele local iluminado por uma imensa lua vermelha. Ao passar pela rua principal, que sempre usava para ir à escola, a noite virou dia e a lua deu lugar ao sol.
Era assim que ele estava por dentro: uma imensa e permanente incerteza crescente, tudo por culpa daquele ser que tentava tirar tudo o que ele tinha. Não podia permitir que isso acontecesse. Tinha que vencê-lo o mais rápido possível.
Kamito percorreu a rua até ela se tornar a ponte onde caiu. Parou assim que imagens estáticas de todos que estavam lá começaram a surgir. Suas vozes ecoavam pelo local, fazendo-o repensar sobre o que estava fazendo. Era certo se arriscar tanto por uma possibilidade que ele, agora, estava começando a duvidar? Ele precisava continuar. Não podia cair nas armadilhas da sua própria mente. Tudo o que via era uma ilusão, e não podia se apegar a elas.
Olhou para cima enquanto caminhava, até que o cenário mudou novamente. Estava de noite e chovia muito, o que o fez sentir frio até os ossos. Mas ele conhecia esse lugar. Logo se deu conta de que estava onde encontrou sua Relíquia e o ser que o atormentava pela primeira vez — ou melhor, o que restou do lugar.
E então, vozes hostis começaram a ecoar.
— Aberração!
— Fique longe de mim, seu monstro!
— Você é uma aberração!
— Vejam só a atração de circo. Não tem como aquela garota andar com ele se ela não for mesmo burra. Aquela aberração não deveria estar na nossa escola.
Diziam outras.
— Vamos lá, esquisito, faça alguma coisa! Olha só para os seus olhos, você é uma aberração! Ninguém nunca vai te amar! Você é um monstro!
— Levanta! Levanta, eu ainda não me cansei de te bater! Levanta, saco de pancadas! Melhor você se levantar ou sua amiga se juntará à festa!
— Ei, esquisito, pode me emprestar um pouco de dinheiro? Eu esqueci a minha carteira. Seria uma pena eu ter que te cortar para conseguir uma merreca.
— Você que é o Kamito Takeda? Cara, você é mesmo esquisito. Você nasceu assim mesmo ou está criando moda? Como alguém pode ser assim?
— Fica longe! Não chega perto da gente, a sua amiga já está vindo. Fica aí na chuva. Pegaria mal se deixássemos você entrar aqui. Então, espera aí fora.
— Parece que ele não consegue ficar de pé. Ele levou uma surra das boas hoje. Até amanhã, saco de pancadas. Espero que você não fale quem te fez isso.
Kamito abaixou a cabeça e tapou os ouvidos.
— Essas vozes… Eu me lembro delas muito bem… — murmurou. — Lembro de cada rosto e insulto. Por que estou me lembrando disso agora? Só pode ser ele.
Ele não queria se lembrar daquilo, não agora. Odiava o que via. Odiava se sentir sozinho e não queria que as coisas fossem assim. Não queria passar por tudo de novo. Kamito caiu de joelhos, tentando não pensar, mas era impossível. Estava prestes a se render, mas, quando tocou o peito com a mão esquerda, sentiu o pingente que Akane lhe deu.
— Eu nunca estive só… Mesmo naquele tempo, ela esteve comigo o quanto pôde. Sempre cuidou de mim quando poderia ter virado as costas… Não posso desistir, não agora. — Kamito deu um leve sorriso. — Farei isso por você. Se não fosse por você, eu teria me entregado à solidão e ao sofrimento que eu sentia. Akane, obrigado por me lembrar de quem sou mesmo num lugar desses. Eu jamais vou me entregar aos meus medos! Vou acabar com aquela sombra!
— Foi por muito pouco, muito pouco mesmo. Você quase revelou quem é de verdade, impostor. — disse uma voz conhecida.
A Sombra surgiu lentamente, sentada em uma pedra bem à sua frente.
— Você está tão horrível que eu quase te venci com algumas das minhas memórias. Eu os odiava, e os queria mortos. Ainda os odeio pelo que fizeram comigo e quero muito que eles paguem. Eu não preciso mentir nem esconder isso. Já você, vai negar e dizer que é mentira.
Exibindo um sorriso sádico, a Fúria o encarou com certeza no olhar, supondo que sabia tudo sobre o rapaz.
— Yo! Há quanto tempo, hein, Kamito? Você demorou para vir me ver. — disse a Sombra em tom de ironia. — Pensei que tivesse desistido após a queda ou que fosse adiar o nosso encontro. Mas você veio. Finalmente decidiu me entregar o que é meu por direito e se assumir o impostor que sempre foi? Ou veio para morrer?
— Eu não vim para nenhuma das opções. — Kamito o encarou com seriedade, então deixou um sorriso escapar pelo canto da boca. — Vim aqui para pôr um fim nisso, e para pegar uma coisa que me pertence, “Kamito”. Se me entregar de forma pacífica, eu poupo você. Embora eu prefira acabar com a sua raça.
Seu corpo tremia de ansiedade enquanto a sombra o olhava. Ele esperou muito por esse dia, o dia em que finalmente poderia pôr um fim na sua angústia.
— Me entregue a sua Relíquia e a Chama Negra, ou eu as tomarei à força. — ordenou Kamito, estendendo a mão. — Eu percebi que você não é nada sem elas, sem o meu poder! Agora percebo isso. Na verdade, eu já tinha essa sensação. Na primeira vez que estive aqui, aquela espada negra me chamou, mas eu hesitei e ignorei seu chamado porque senti nela todas as coisas ruins que sempre reprimi. Agora sinto a mesma coisa. Eu cansei de fugir, de fingir que aquilo não eram meus pensamentos e sentimentos. Quero o que é meu de volta!
— Você finalmente admitiu ser um impostor todo esse tempo. Agora já é tarde! A Relíquia e a Manifestação me pertencem! Você as recusou para viver uma mentira, uma vida falsa! Você as rejeitou assim como rejeitou seu verdadeiro eu. Por que agora se acha no direito de pedir por elas?
O sorriso de antes deu lugar a um rosto furioso. Ao se levantar, a Fúria destruiu a pedra onde estava sentada.
— Você é idiota por achar que poderia vir aqui e pedir o meu poder! Um impostor jamais terá o meu poder, jamais! Eu vou mostrar que sou muito mais forte do que você e suas mentiras! Vou acabar com você, Kamito. Irá se arrepender de tentar tirar os meus poderes! Você as recusou e a si mesmo! Não passa de um falso!
— Cale a boca! Você diz que sou o impostor, mas não sabe quem eu realmente sou ou como me sinto! — Kamito assumiu sua postura de combate e olhou no fundo dos olhos daquele ser. — Você é o verdadeiro impostor! Eu não sou um ser de puro ódio e rancor como você quer que eu seja.
Kamito já estava farto de todas aquelas mentiras. Jamais seria igual à Sombra. Mesmo que já tivesse sentido muita raiva no passado, isso ficou para trás. Ele nunca se entregaria ao ódio como aquele ser tanto desejava.
— Vou te mostrar quem é a verdadeira cópia! — declarou Kamito. — Isso acaba hoje! Eu vou fazer você se calar de uma vez por todas! Observe bem, pois hoje será o dia da sua derrota. Farei você engolir as suas malditas palavras!
— Tolo! Isso é impossível! Eu jamais perderia para você! — a Sombra copiou a postura de luta. — Você jamais terá a capacidade de me derrotar, Kamito impostor!
Ambos fizeram o movimento de sacar a espada, devagar, enquanto se encaravam sem piscar. Estavam sérios e prontos para investir a qualquer momento. Suas energias se elevavam rapidamente.
— Vou mostrar a você o erro que você acabou de cometer! — gritou a Sombra. — Dilacere toda a carne, Zandriq!!!
— Você verá o erro que cometeu por ter tentado me corromper! — respondeu Kamito. — Rasgue o céu azul, Zendriq!!!
As energias colidiram, tentavam se sobrepor. Agora, Kamito sentia sua energia em todo o seu potencial. Sentia aquela espada o chamar e pretendia recuperá-la.
— Ei, Sombra. Como é olhar nos olhos do homem que te vencerá? — provocou Kamito. — Somos praticamente idênticos. Como é perder para você mesmo?
Toda a Fragmentação ruía enquanto se desfazia. O local não suportava todo aquele poder massivo. Estavam tão concentrados e sérios que suas chamas se manifestavam sozinhas. A pressão do ar dificultava a respiração, e o calor passava a sensação de a pele estar derretendo aos poucos.
Aquela sensação era sentida apenas pelo Kamito, já que seu adversário não parecia afetado. Kamito estava determinado a acabar com aquele ser e retomar o controle. Todo aquele tempo sofrendo estava prestes a acabar.
Fora da Fragmentação, Aurea observava o rapaz com seriedade. As chamas que cobriam o corpo dele estavam mais escuras e seus cabelos tornavam-se negros. Ela temia que ele não pudesse vencer a Fúria por não saber muito sobre as chamas, mas ele só poderia ter o controle total dos seus poderes depois que se resolvesse.
A caverna tremia levemente graças à energia, mas não era algo para se preocupar, não naquele momento, e ela sabia disso. Por isso que havia o círculo: para evitar que a Fúria saísse. Aurea se sentou mantendo seu olhar fixado no Kamito. Ele não podia deixar que Sombra vencesse, ou seria o seu fim.