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Capítulo 131 — Instinto de Lutar

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Capítulo 131 — Instinto de Lutar

“Eu posso sentir… Posso sentir tudo pelo que passamos, e mesmo assim eu não consigo te odiar.”

O som do metal se empurrando, misturado com a voracidade das chamas e os rangidos de dentes, deixava mais do que claro que ninguém estava disposto a ceder.

Kamito precisava dar um jeito naquilo antes que as Relíquias se destruíssem. Então, lentamente, ele inclinou sua lâmina para a esquerda, fazendo-a escorregar e ir de encontro ao chão. Antes de atingir o solo, ele girou o corpo e acertou um chute no peito da Sombra, jogando-a para longe.

O som dos impactos ecoou, a poeira subiu e as chamas se apagaram aos poucos. De joelhos, Kamito sentiu sua respiração pesar. Ele olhou para sua Relíquia e percebeu que ela estava bastante arranhada. Ofegante, ele levantou a cabeça e olhou para o céu, que estava dividido: de um lado, o céu azul e claro da Terra; do outro, o céu vermelho e escuro do Extra-Mundo.

— Droga… Não há tempo para descansar. Eu preciso derrotar a Sombra a todo custo. — ele abaixou a cabeça.

Tentou se levantar, mas suas pernas não o obedeciam. Forçou-as o máximo que podia, então percebeu que o inimigo vinha rapidamente na sua direção. Tentou desesperadamente se levantar, mas não sentia as pernas. Percebeu um vulto vindo de dentro da poeira e, quando se deu conta, seu peito estava sendo perfurado pela lâmina negra. Cuspindo mais sangue, ele olhava assustado para o ser que o atacou.

— Eu disse que jamais perderia para um fraco como você, Kamito. — a Sombra o olhava com um sorriso sádico. — Você não faz ideia do que realmente é. Por isso que não pode me vencer. Você é patético. Reconheço que foi capaz de me ferir, mas isso não é o bastante para me vencer. Você é fraco e não tem vontade de lutar.

Sentindo as forças se esvaírem, Kamito tentou, com a mão trêmula, afastar a lâmina do inimigo. Mas não bastava. Sua mão deslizava pela lâmina ensanguentada, e cada vez mais ele sentia que poderia perder a consciência. A Fúria riu com desdém.

— Sem vontade de lutar, não somos nada. — continuou a Sombra. — O instinto de sobrevivência e o desejo de lutar são instintos primitivos que carregamos em nossos interiores. Você perdeu o seu há um ano atrás, quando pensou que tudo havia acabado! Você é fraco porque desistiu de lutar. Isso jamais acontecerá comigo. Por isso que eu venci!!! Talvez o resultado fosse outro se não tivesse desistido.

— Instinto e desejo de lutar… — murmurou Kamito, pensativo. — Então era isso… É isso que eu preciso para te vencer… Solum… Ryruka… Cascavel… Leopardo… Quando os enfrentei, eu só queria vencer. Independentemente de serem inimigos ou não, eu queria vencer a qualquer custo.

Naquelas lutas, ele não se importou com o que iria acontecer. Só queria vencer, principalmente quando lutou contra Solum. Ele abandonou essa sensação quando foi possuído pela Sombra e quando a luta contra a Ordem havia acabado. Se quisesse vencer, precisava recuperar aquele instinto de volta.

Kamito respirou fundo e o encarou. Aproveitando a brecha dada pelo inimigo, ele largou sua Relíquia e rapidamente segurou a lâmina negra com as duas mãos. A Sombra se surpreendeu e tentou puxá-la de volta, sem sucesso. Sangue escorria por entre os dedos do rapaz devido ao fio da espada.

— Desista! Não vou soltar esta lâmina! Meu erro foi achar que eu te venceria só na força bruta, e não me dei conta de algo ainda mais simples! A minha vontade de lutar! — exclamou Kamito, apertando-a com força. — Eu lutava porque queria proteger a minha cidade, mas depois que ela foi salva, perdi essa vontade e nunca mais consegui encontrar um motivo para lutar de novo. Agora eu tenho. Eu quero vencer! Quero te vencer! Quero vencer esta guerra e deixar os meus amigos e todo mundo a salvo! Vou te vencer e conseguir o poder para realizar isso!

— Desgraçado! Tire suas mãos imundas da Zandriq! Solte a espada! — gritou a Sombra em desespero. — Eu vou te matar se continuar a segurando! Você não tem o direito de usá-la!

Irritada, a Fúria começou a chutar o rapaz repetidamente, na esperança de que ele soltasse a lâmina. Mas isso não aconteceu.

— Pretende manter a lâmina no seu corpo? — questionou, incrédulo. — Você é mesmo burro. Está tão desesperado assim para vencer que não se importa se vai morrer? Vou realizar a sua vontade e te matar de uma vez por todas, Kamito!!!

— Não desejo morrer. Eu já disse que irei vencer. Irei derrotar você! Eu não me importo com o que vá acontecer comigo. Eu apenas te vencerei!

A espada começou a tremer enquanto a Chama Negra saía do ferimento do rapaz. Ambos olharam surpresos, pois não sabiam o que poderia ser. Por algum motivo, o desespero da Sombra para que ele soltasse a espada ficou maior. Rapidamente, Kamito soltou a mão direita da lâmina e acertou o estômago da Sombra com o Atomic Flaming Fist, jogando-a para trás e fazendo-a, enfim, soltar a espada.

— Parece que você perdeu esta disputa, “Kamito”. — declarou Kamito. — Eu disse que te venceria! Agora que tenho sua Relíquia, irei te derrotar definitivamente!!!

Ignorando a dor, ele puxou a espada cravada no seu peito com alguma dificuldade. Nesse momento, as chamas que saíam do ferimento se intensificaram, indo até o céu até finalmente desaparecerem. Ofegando, Kamito deixou a lâmina da espada deslizar pela sua mão até chegar ao cabo.

A Sombra o encarava inconformada, pois não esperava que ele conseguisse empunhar sua Relíquia sem se ferir. Isso o fez se recompor quase que de imediato.

— Maldito! Devolva a minha Relíquia agora mesmo! — bradou a Sombra. —Vai pagar por isso! Eu não deixarei isso barato!!! Você não é digno da Zandriq!!!

O ser avançou contra Kamito, mas parou imediatamente assim que sentiu um leve aumento de energia vindo da Relíquia. Ele a olhou com surpresa, pois a espada estava se comunicando com Kamito como se fossem apenas um.

— Não é possível! Isso não é possível! A Zandriq não deveria ter te aceitado! — a Sombra arregalou os olhos. — Você a rejeitou antes. Por que ela me trairia?! Por quê?! Por que sempre é você?! Kamito, você está morto!

— Eu posso sentir… Posso sentir ela se comunicando comigo. — murmurou, sentindo a espada se unir à sua energia. — Sinto uma enorme solidão, apreensão, tristeza, medo, ódio, rancor e angústia, assim como eu era no passado… Me desculpe por ter dado as costas para você.

Lentamente, suas chamas azuis se tornaram negras. Ele se agachou e pegou a Zendriq do chão. Ao fazer isso, sentiu uma poderosa onda de energia vinda das duas Relíquias, que agora estavam se tornando uma energia só dentro de si.

— Então este é o poder das Chamas Negras? Eu não deveria ter medo deste poder. — refletiu Kamito. — Eu o usarei unicamente para o bem. Jamais deixarei que se corrompa de novo, principalmente você, Zandriq. Nunca mais ficará sozinha. Eu te prometo. Já não tenho mais medo.

Enfim, Kamito recuperou a Relíquia.

O poder que ambas as espadas emanavam juntas era surpreendente. Jamais imaginara ter um poder assim. Porém, sua missão ainda não estava completa. Ele ainda precisava derrotar a Sombra se quisesse ter total controle dos seus poderes e se livrar da sua ameaça. Kamito a encarou seriamente, empunhando as duas espadas, pronto para o último round daquela batalha.