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Capítulo 137 — Lapidação

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Capítulo 137 — Lapidação

“Concentre-se, concentre-se, concentre-se! Meu sangue ferve, essa é a sensação de ser poderoso?”

Kamito sorriu animado por ter conseguido manifestar uma chama no meio de tanta água. Porém, a animação durou muito pouco, já que agora viria a parte mais complicada: mantê-la por duas horas sem que ela diminuísse de tamanho ou que ele usasse mais energia do que o necessário.

Ele podia sentir que a chama estava instável e que precisaria manter a concentração, ou o mínimo descuido a faria se apagar. Aurea o olhava fixamente com um sorriso estampado. Ter pulado as etapas iniciais do controle de energia e aplicar uma lição intermediária se provou o correto a se fazer naquela situação. Ela podia ver cada vez mais do potencial de Kamito aparecendo. Sentia que estava lapidando um diamante bruto deixado por Coelho.

— Então foi isso que você fez, Coelho? — murmurou, sentando-se em uma pedra. — Você moldou um guerreiro sem tirar as imperfeições, nem lhe deu os devidos polimentos para que ele se virasse e aprendesse o resto sozinho. Mas agora, tenho o seu trabalho nas minhas mãos e irei aperfeiçoá-lo da minha maneira. Farei o que você não fez: o tornarei um Manifestador de verdade e não um simples guerreiro.

Ela estendeu a mão esquerda na direção de Kamito, criando uma chama do mesmo tamanho e intensidade da que ele estava mantendo. Aurea moveu seus dedos, fazendo com que a chama se movesse exatamente como ela queria.

— Espero que as suas chamas consigam superar as minhas, meu aluno. Todos esses anos eu me preparei para esse momento, e pretendo te ensinar tudo o que aprendi. Farei você se tornar um mestre tanto no uso das suas Chamas Azuis quanto nas Chamas Negras.

— Você falou comigo? — perguntou Kamito, distraindo-se. — Não consegui prestar atenção no que falou. Toda essa barulheira dificulta a minha audição, sem falar que estou me concentrando para que a chama não se apague.

Assim que terminou de falar, percebeu que tinha perdido a concentração e a chama se apagou. Kamito ficou incrédulo, pois estava se dedicando tanto para mantê-la intacta. O simples fato de ter se distraído a fez se apagar com extrema facilidade. Frustrado com a falha, ele bateu a mão esquerda repetidamente na cabeça.

— Aaah! Como eu pude ser tão descuidado! — ele olhou para Aurea. — Isso é culpa sua! Você ficou falando e acabou tirando a minha concentração. Não é justo. Já não basta tanta água e barulho, agora você está me distraindo!

— Eu não estava falando com você. — Aurea riu do erro bobo que ele cometeu. — Se me lembro bem, eu disse que você precisava manter a concentração constante, já que qualquer distração, por mais minúscula que fosse, poderia atrapalhar. O erro foi unicamente seu. Lembre-se, a contagem reiniciou. Comece de novo!

Ao fechar a mão esquerda, ela extinguiu a chama que controlava e se levantou. Então, virou-se como se fosse deixá-lo praticando sozinho e começou a caminhar.

— Não se preocupe em cometer um erro tão simples como esse. Se estivesse fazendo a mesma coisa fora dessa cachoeira, também acabaria cometendo erros. É exatamente por isso que você está praticando aí, para que seu único objetivo seja manter a chama. Então, concentre-se apenas nela, Kamito. Irei até uma pequena vila para comprar algo para comermos. Use esse tempo para continuar o treinamento e lembre-se de recomeçar a contagem assim que a chama oscilar. Fui clara?

— Clara como a água. Não vou tentar trapacear, então pode ir sem medo. — respondeu Kamito, sorrindo convencido enquanto a observava. — Dependendo do tempo que você levar, talvez eu até já tenha terminado. Já estou pegando o jeito de como controlar a minha energia. Parece até fácil no começo, mas é mais difícil manter um controle constante por tanto tempo.

Aurea não lhe deu atenção nem disse mais nada. Kamito apenas a acompanhou pela vista enquanto ela adentrava por entre as árvores até sumir. Assim que isso aconteceu, ele voltou a olhar para a sua mão direita, começando a se concentrar em manifestar a chama novamente. Não queria perder um único minuto.

— Eu preciso dominar isso o mais rápido possível. Não sei quanto tempo fiquei desacordado naquela caverna, mas preciso me tornar logo um Manifestador de verdade. Só assim poderei voltar para a Akane e pôr um fim em toda essa guerra. Espere por mim, Akane, eu prometo que ficarei mais forte.

Assim que manifestou outra chama, Kamito focou toda a sua atenção nela.

Enquanto isso, Aurea caminhava com certa preocupação no olhar.

— Não esperava que ele fosse progredir tão rápido em minutos. — refletiu, caminhando por uma trilha entre as árvores. — Ele entendeu como deveria controlar uma chama naquela situação. Qualquer um levaria horas para perceber isso e dias para aplicar a descoberta em prática. Em algumas tentativas, ele já estava mantendo a chama por alguns minutos sem a deixar instável. Esse garoto é impressionante. Ele aprende rápido para alguém que até agora demonstrou ter a técnica de uma criança.

Ela voltou a olhar as leves queimaduras nas mãos e as fechou com força, sentindo uma leve ardência.

— Qual teria sido o resultado da nossa luta se ele soubesse como utilizar todo seu poder? — murmurou, pensativa. — Se ele fosse mais experiente, eu não sairia com queimaduras leves…

Aurea levou a mão direita até o queixo, caminhando um pouco mais devagar.

— Será que essa aprendizagem rápida está relacionada ao fato de ele ser um Manifestador Negro? Ou tem algo a mais? Acho que agora estou começando a entender o porquê de você o ter treinado assim, Coelho. Ele aprende bem mais rápido do que qualquer um. Preciso mudar a forma como estou treinando-o ou posso acabar cometendo algum erro. Se ele dominar o controle de energia em tão pouco tempo, serei obrigada a ensiná-lo a controlar sua Manifestação Negra antes do planejado. Estou impressionada com o pouco que vi dele.

De volta à cachoeira, Kamito continuava seu difícil treinamento de controle.

— Eu vou acabar pegando um resfriado se continuar debaixo dessa maldita cachoeira! — exclamou irritado. — Preciso aprender logo a controlar a minha energia. Tenho que voltar o quanto antes. Eu sei que todos estão achando que eu estou morto, mas não posso deixar que as coisas fiquem assim. Preciso voltar!

Ele elevava tanto a energia, que seu corpo começou a emanar uma leve aura azul que fazia a água que o tocava evaporar. Kamito continuou olhando para a mão esquerda enquanto outra chama começava a se formar. Dessa vez, ela estava maior do que as anteriores e oscilando constantemente. Ele a fez sumir, abaixou a mão e fechou os olhos, tentando esvaziar a sua mente.

— Eu não vou conseguir nada se continuar com esses pensamentos. Preciso me concentrar nisso antes de qualquer coisa. Por mais que eu esteja preocupado com todos, não posso fazer nada no meu atual estado. Tenho que me concentrar unicamente nessa chama como se eu dependesse dela.

Ainda de olhos fechados, estendeu a mão direita e recriou a chama. Não abriu os olhos para que pudesse se concentrar unicamente na energia necessária para mantê-la. Se quisesse controlar a sua energia, precisava entender profundamente como ela realmente se comportava e qual era a sua sensação.

Algo que ele sempre negou e ignorou por medo. A sensação de sentir todo aquele poder correr pelo seu corpo e que fazia parte dele. Kamito sentia cada fração daquela energia circulando pelo seu corpo. Não só nele, mas também no seu sangue, espírito e alma. Ele a sentia alimentar sua chama e também suas Manifestações.

Aquele podia ser apenas o seu primeiro dia de treinamento, mas ele já tinha aprendido mais do que em todo tempo lutando e negando esse poder. Ele superou seus medos internos, e estava finalmente aceitando que o poder que ganhou pelo capricho do destino também fazia parte de si. Pela primeira vez na sua vida, Kamito se sentia extremamente bem e completo.

Finalmente estava sendo um só com sua Manifestação. Se seu primeiro dia já lhe ensinou várias coisas, não podia imaginar o que aprenderia nos outros dias. Kamito estava decidido a se tornar um Manifestador Espiritual, algo que deveria ter aceitado no dia em que recebeu a sua Relíquia. Se realmente tivesse levado tudo a sério, nada do que passou teria acontecido. Ele estava determinado a impedir que isso se repetisse, independentemente das consequências.