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Capítulo 138 — Voltando à Ativa

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Capítulo 138 — Voltando à Ativa

“Chegou a hora, me sinto tão ansioso. O que iremos encontrar? Não importa. Venceremos essa guerra.”

Um mês e meio se passou desde que o treinamento de Kamito com Aurea começou. Ele se esforçou dia e noite para seguir todos os seus ensinamentos e aprender o máximo possível antes de voltar. Ele não tinha nenhuma informação sobre seus amigos ou sobre os rebeldes há algum tempo. Aurea não queria que isso tirasse o foco do treinamento, então, nunca lhe dizia o que estava acontecendo pelo continente. Porém, isso o preocupava, pois queria saber sobre Akane.

Kamito se olhava pelo reflexo da água. Seus cabelos estavam longos, passando dos ombros. As Vestimentas Espirituais já estavam extremamente gastas e velhas. Nem mesmo sua energia conseguia regenerá-las. Ele colocou as mãos na água, pegando um pouco e lavou o rosto. Sentia muita falta de Akane, mas após todo aquele tempo, ela já deveria ter perdido as esperanças de que ele estivesse vivo. Olhou para o pingente que ela lhe deu e sorriu. Logo se levantou, prendeu o cabelo num coque estilo samurai e se afastou do rio para ir treinar.

O rapaz caminhou até uma área descampada completamente devastada, com vários sinais de luta e de incêndios. Foi até o meio do local e se ajoelhou. Com os olhos fechados, ele manifestou sua aura, que agora possuía a cor azul escura. Concentrou-se até conseguir sentir tudo ao seu redor. Podia sentir perfeitamente todos os seres próximos e conectados ao Véu Espiritual. Desde que aprendeu aquele poder, tentava encontrar a energia de Akane, mas sempre falhava e isso o frustrava.

Parou de meditar, abriu os olhos e se levantou. Após um breve alongamento, Kamito deu início ao treino. Pegou uma espada de madeira que estava próxima e começou a praticar alguns golpes até conseguir usá-los mais rápido. Treinou por algumas horas até que sentiu a energia de Aurea se aproximando e parou para recebê-la. Então, cravou a espada no chão e caminhou na direção dela.

Ao vê-lo, ela sorriu e acenou. Ele retribuiu. Como de rotina, ela havia ido a um vilarejo nas proximidades comprar ingredientes para o almoço. Como Kamito não conhecia Eudora e estava declarado morto, não podia sair andando por aí.

— Você está horrível nesses trapos. — disse Aurea em tom de ironia. — Por isso fui em uma costureira e fiz o favor de encomendar uma Vestimenta Espiritual nova para você. Fui buscá-la hoje. Espero que seja do seu tamanho.

Ela jogou um pacote na direção de Kamito e caminhou, com um sorriso de deboche, até uma fogueira apagada. Ajoelhou-se próxima a ela e a acendeu.

— Essas Vestimentas que eu encomendei são bem mais resistentes do que as que você usou até agora. São de um tecido especial que não se gasta facilmente.

— Obrigado pelo presente, estava mesmo precisando de roupas novas.  — Kamito já abria o pacote. — Faz tempo que eu uso essas Vestimentas. Infelizmente, chegou o dia de deixá-las. Agora, vamos ver o que temos aqui…

Primeiro, pegou uma nova calça preta e um par de botas da mesma cor. A camiseta de manga longa cinza estava logo abaixo, e depois um sobretudo fino azul escuro com uma longa calda que se dividia em três — duas ficavam nas laterais das pernas e uma atrás. Então, um par luvas e dois protetores de antebraço cinza. Por fim, um enorme cachecol cinza. Kamito fitou o cachecol um pouco decepcionado, mas feliz por ela ter o feito para ele.

— Outra vez, um cachecol… — murmurou. — Obrigado mais uma vez pelo presente, Aurea. Eu gostei bastante delas. Mal posso esperar para usá-las em ação.

— Eu queria falar sobre isso, Kamito. Andei pensando, e só te treinar não basta. — Aurea colocava uma panela sobre a fogueira e jogava alguns ingredientes nela. — Você me disse que recebeu pouco treinamento do Coelho e que foi ganhando experiência durante suas lutas. Estou pensando que está na hora de entrarmos nessa guerra para que você possa aperfeiçoar tudo o que aprendeu na prática. Uma luta real é melhor do que os combates simulados que sempre fazemos.

Ela finalmente o olhou.

— Chegou a hora de mostrar os resultados do seu treinamento. Não queria participar da guerra? Esse é o momento de voltar com tudo contra aqueles que quase te mataram. A única forma de ajudar seus amigos é acabando com o Império. Acha que consegue dar conta do Império agora, Kamito?

— Claro que consigo! — ele sorriu animado. — Eu sinto que minha Energia Espiritual está no máximo. Agora tenho o poder para vencer qualquer inimigo que ficar no meu caminho.

Ele enfim poderia encontrar Akane e lutar ao lado dela, como havia prometido.

— Se pretendemos lutar, precisaremos encontrar informações sobre os Capitães. Na noite em que caí da ponte, estávamos escoltando um deles, “O Político”. Se a Ordem, a Emota e os rebeldes conseguiram as informações dele, devemos considerar que o número de Capitães tenha diminuído devido ao tempo que passou.

— Você está certo, por isso devemos lidar com os Capitães que restaram. — ela concordou, mexendo a comida que cozinhava. — Se eles estão em maior número, suponho que pretendem invadir o palácio cedo ou tarde. Eles não podem perder homens nem se desgastar contra os que restaram. É aí que nós entramos.

Ela sabia que, cedo ou tarde, Kamito tentaria encontrar seus amigos, e isso poderia atrapalhá-lo. Por isso, precisava agir antes que isso acontecesse.

— Vamos atrás dos últimos Capitães e facilitar o trabalho da Ordem. Podemos nos reunir com eles no palácio, onde o verdadeiro inimigo estará. Se formos direto até seus aliados, o inimigo poderá tentar reunir os Capitães e Tenentes que restaram. Vê algum problema nisso? Eu sei o quanto você quer encontrar a sua noiva.

— Não tem problema. — ele caminhou até a fogueira e se sentou. — Se isso nos fizer acabar mais rápido com essa guerra, eu posso esperar mais um pouco. Todos acham que eu morri.

Ele encarou o céu vermelho, enquanto se lembrava do céu azulado da Terra. Queria poder voltar logo para casa. Queria poder falar com Luise, Suzumi, Senhora Karin. E, principalmente, queria falar com sua mãe. Sentia muita saudade de lá.

— Quando partiremos? Se queremos ficar por dentro da guerra, precisamos reunir informações imediatamente. Não podemos ir às cegas, nem nos expor antes da hora. Qual será o plano? Estou curioso para saber.

— Sei disso, por isso partiremos ao anoitecer. — Aurea terminava de fazer o almoço e pegou uma tigela próxima. — Reuniremos informações à noite. Assim é muito mais fácil de se esconder e sumir nas sombras, como a antiga Ordem fazia.

— Ainda bem, assim não vou precisar comer mais da sua comida. — provocou.

— O que você tem contra a minha comida?! Por acaso quer ficar sem comer?! — ela ameaçou, estreitando os olhos.

— N-não é nada disso! Eu estava só brincando.

— Acho bom mesmo, ingrato.

Ela sorriu e colocou um pouco de caldo na tigela e a entregou ao rapaz. Ele pegou a tigela e percebeu que Aurea o encarava com seriedade.

— Por que está tão sério? Você não é assim. Nem venha me dizer que meu treinamento te tornou maduro, pois isso é mentira. Eu vou te amarrar e te jogar naquele rio se não voltar ao normal imediatamente. Está me entendendo, Kamito Takeda?! Fui clara?!

— Tá bom, tá bom, não vou mais ficar sério. — ele desviou o olhar enquanto bebia o caldo. — Não sabia que isso te incomodava tanto. Isso não vai se repetir, eu prometo.

Ela se aproximou e se sentou ao seu lado. Kamito a olhou meio assustado até que ela puxou a fita que prendia seu cabelo, soltando-o. Ele não entendeu o motivo.

— Por que fez isso? Eu sei que meu cabelo está maior que o normal. Eu queria poder cortá-lo, mas não consigo sozinho, e acho que isso não é prioridade no momento. Por isso optei em prendê-lo.

— Você fica melhor com o cabelo solto. — disse Aurea. — Eu posso arrumar as pontas dele e a franja, mas não me arriscaria em cortar muito.

Sem que ele pedisse, ela começou a mexer e arrumar o cabelo dele. Ela demonstrava se preocupar bastante com ele, o que ainda o fazia estranhar. Tanto ela quanto Katharine agiam como se soubessem quem ele era, mas ele não as conhecia.

— As batalhas que estão por vir são muito mais perigosas do que as que você lutou até agora. Lembre-se do seu treinamento e pelo que luta. Não pode se descuidar nesse mundo. Não quero perder o meu aluno. Prometo que vamos encontrar a sua noiva. Esse treinamento terá valido a pena, você verá. Posso garantir que você se tornou um grande guerreiro.

Kamito terminou de beber o caldo enquanto ela arrumava seu cabelo. Não tiveram treino naquela tarde. Passaram o dia apenas se preparando para a hora de partir. Ele estava ansioso para poder sair dali e ver como estava o Eudora.

As horas foram passando até chegar o momento de partirem. Kamito pegou as novas roupas que Aurea lhe deu e as vestiu. Sentia-se bem leve e sem limitação, como se aquela roupa fosse parte dele. Por fim, pegou o cachecol e o enrolou no pescoço e na cabeça de forma que escondesse a sua identidade. O cachecol era tão comprido que ainda assim suas pontas tocavam o chão.

— Olha só! Você descobriu a utilidade dele sozinho! — brincou Aurea, dando um leve sorriso.

Kamito desviou o olhar para suas mãos e as apertou um pouco para relaxar as luvas, já que nunca as havia usado antes.

— Tudo pronto? — perguntou a mulher.

Ele acenou. Kamito se aproximou dela para enfim saírem daquele lugar. Eles deixaram o abrigo de semanas para trás à medida que os últimos raios de sol davam lugar à escuridão da noite. Assim, partiram rumo a uma nova jornada.