Capítulo 140 — Alvo Definido
Capítulo 140 — Alvo Definido
“Semanas de treinamento, e minha primeira batalha será a última do meu adversário. Mesmo fazendo uma promessa, eu sou capaz de cumpri-la?”
O percurso foi longo e desconfortável. A viagem foi ininterrupta e durou oito horas. O desconforto foi tanto que Kamito mal conseguiu dormir. Em determinado momento, o caminhão enfim parou. Talvez aquele fosse o local, ou os entregadores tivessem parado para descansar. O rapaz torcia para que fosse a segunda opção, mas suas esperanças se foram quando as portas foram abertas e a luz do sol entrou.
A dupla permaneceu imóvel atrás das cargas, para que não os notassem. Por mais que fossem os mesmos homens da noite anterior, eles agora estavam em território inimigo. Os homens começaram a pegar as caixas próximas das portas e levá-las para outro lugar.
Enquanto isso, dentro da arena, Kairus estava de braços cruzados. Via sua neta treinar repetidamente a mesma sequência de golpes. Ela estava suada, ofegava muito e suas pernas tremiam, mas não se dava por vencida.
Algumas pessoas assistiam ao treino, principalmente os aspirantes a guardas imperiais. Kairus não queria desistir da sua neta, então pediu para ela tentar de novo. Enquanto Yuffine o fazia, ele observou a plateia como se tivesse sentido a aproximação de um adversário. Sua neta o olhou sem entender.
— O que foi, vovô? Algum problema? Você parece apreensivo. — perguntou, preocupada. — Eu fiz algo que não deveria? Garanto que, dessa vez, vou acertar o ritmo!
Kairus não a respondeu de prontidão. Ainda voltava sua atenção para a plateia, tentando identificar quem era o responsável por causar aquela sensação. Yuffine sentiu um aperto no peito. Temia que o avô estivesse desistindo dela, ou que algo pior estivesse prestes a acontecer.
— Me desculpe por não ser uma boa aluna… — continuou Yuffine. — Eu prometo que vou continuar me esforçando para aprender todos os seus ensinamentos. Eu só preciso de um pouco mais de tempo. Por favor, vovô.
— Você não fez nada de errado, minha neta. — tranquilizou Kairus, com um sorriso. — Está indo bem e terá o tempo que for preciso para treinar e aperfeiçoar suas habilidades. Eu só estava pensando em algo, não precisa se preocupar.
Ele colocou a mão esquerda sobre a cabeça da neta e bagunçou o cabelo dela. Logo, seu sorriso sumiu e deu lugar a um rosto sério.
— Por que não se revela de uma vez por todas? Por acaso está com medo de mim? — indagou Kairus, em voz alta. — Não, não está. Para alguém esconder sua presença assim, significa que é muito poderoso. Vamos, apareça!!!
— Vovô, com quem o senhor está falando? Como assim há alguém poderoso aqui? — questionou Yuffine, confusa. — O senhor é o único Manifestador poderoso que está nessa arena.
Ela o olhava angustiada, até sentir uma leve energia que a assustou e a fez largar sua espada. Yuffine olhou para todos os lados da arena.
— Que sensação de poder monstruosa foi essa?! Quem teria tamanho poder? Eu nunca senti uma energia assim, nem mesmo a sua, vovô.
— Yuffine, afaste-se. Esse local é perigoso para você. Parece que o guerreiro que eu sempre esperei acabou de chegar. — ordenou Kairus, virando-se rapidamente para encarar uma figura misteriosa. — Eu não quero que você acabe se machucando por minha culpa. Você também não quer isso, não é mesmo?
Kamito estava a poucos metros, parecia tranquilo. Kairus encarava seus olhos, tentando identificar quem estava por trás do disfarce. O velho Capitão não estava surpreso.
— Por que esconde sua energia e o seu rosto, meu jovem? Por acaso você teme que adversários poderosos o encontrem? Eu também me sentiria assim se tivesse a energia que tem. Como se chama?
— Eu não temo nenhum adversário. Nem quero envolver a garota nisso. Vim aqui por você, Capitão Kairus. — retrucou Kamito, em tom de ameaça. — Como eu sei o seu nome, vou lhe dizer o meu. Eu me chamo Kamito Takeda, o Lobo da Ordem.
Ele puxou a parte do cachecol que cobria o rosto e revelou seus longos cabelos azuis. Kairus sorriu animado ao reconhecê-lo. Kamito retribuiu o sorriso. Sua energia começou a subir rapidamente.
— Isso mesmo! Eu não morri como vocês do Império achavam! Agora estou de volta para continuar de onde parei, e você será o primeiro que eu irei derrotar. Você me chamou de guerreiro poderoso. Espero estar à altura. — declarou confiante.
— Vovô… Quem é ele? Por que o senhor disse que ele é o guerreiro que o senhor sempre esperou? — questionou Yuffine, encarando Kamito com seriedade. — O senhor não vai morrer! Não hoje, nem nunca! O senhor é o Manifestador mais poderoso! Não será derrotado por ninguém!
Seu olhar transmitia sua angústia e desespero, Kamito podia sentir claramente. Porém, não podia fazer nada. A garota olhou para o seu avô, quase chorando.
— Por favor, não perca! O senhor não pode perder, vovô! — implorou. — Sei que o senhor será capaz de vencê-lo. Ele nem deve ser tão forte. Eu acredito nisso!
— Garota, afaste-se do seu avô se não quiser ser engolida pelas energias de ambos. Seu avô e o meu aluno estão segurando suas reais energias para que você não acabe se ferindo. Se quer mesmo ajudar em algo, afaste-se. — interveio Aurea, aparecendo próxima da garota e a puxando para longe.
Assim que elas se afastaram a uma distância segura, as energias dos dois guerreiros enfim colidiram. Aurea sorriu, pois finalmente veria os resultados do treinamento e se Kamito estava mais forte.
— Seu avô é um guerreiro, ele jamais recusaria lutar contra alguém como o meu aluno. Mesmo sabendo que ele pode morrer, esse é o seu desejo e a sua honra. — ela explicou, cruzando os braços.
— Kamito Takeda, o portador da Chama Negra da Calamidade. Então você será o homem a me derrotar? — Kairus riu contente, assumindo sua postura de luta. — Eu tinha um leve interesse em te treinar, mas quem diria que você estaria diante de mim querendo me enfrentar?!
Ele não estava assustado ou com raiva de Kamito, estava contente. Ele apenas queria lutar, assim como Kamito.
— Antes de darmos início, eu gostaria de propor um trato. Quero que você lute para valer comigo. Não precisa se segurar só porque estou velho. Me trate como igual. Se você vencer, quero que me mate. Quando isso acontecer, quero que aceite a minha neta como sua discípula e ensine-a a ser alguém tão poderosa quanto você. Essas são as minhas condições para poder lutar. O que me diz? — propôs o velho.
— Eu já não pretendia pegar leve, não me importo se está velho ou não. Você é um inimigo, e eu não sou tolo de te subestimar por causa da idade. — Kamito estalou o pescoço. — E sobre a sua neta, não sei se sou capaz de ensinar algo a ela. Ainda estou em treinamento, e dificilmente alguém aceitaria ser aluno do homem que matou seu familiar. Mas, se esse é o seu desejo, tentarei cumpri-lo.
Ele olhou Yuffine de relance e notou a apreensão nos olhos dela. Isso o fez se lembrar dos homens que riram dela na noite anterior e apertou os punhos com força.
— Pode deixar comigo, eu a farei ser a Manifestadora mais forte do Extra-Mundo. Prometo que vou ensinar tudo o que sei para ela. Não se preocupe com a sua neta. Ela estará em boas mãos.
— Obrigado por me dar a sua palavra. Agora eu não preciso me preocupar com mais nada, a não ser com a nossa luta! — declarou o velho, elevando sua energia com empolgação. — Yuffine, preste bastante atenção. Esse é o duelo do seu antigo mestre contra o seu possível novo mestre. Não interprete isso como a minha última luta, mas como o meu legado.
Com a feição serena, Kairus materializou duas navalhas nas mãos. Usou-as para fazer longos cortes em seus antebraços, que derramaram uma boa quantidade de sangue. O sangramento durou pouco, e o líquido carmesim que estava no chão começou a se mexer, até assumir a forma de duas espadas vermelhas. Aquela era a sua Manifestação: o Controle do Sangue.
— Está preparado para enfrentar o Manipulador de Sangue, Kamito Takeda?! Não pense que pegarei leve só porque quero que você tome conta da minha neta. Para isso acontecer, quero que prove ser digno disso.
— Eu irei, não queria que pegasse leve. Quero muito ver os resultados do meu treinamento e, principalmente, o meu atual nível de força. Estava ansioso para poder lutar contra alguém que me fizesse usar todo o meu poder. Agora sinto que sou capaz de cortar até mesmo o céu.
Kamito levou a mão esquerda à cintura, como se estivesse segurando algo. De repente, uma chama azul em formato de bainha se formou. Ele a segurou, sem tirar os olhos do adversário, e moveu a mão direita até a bainha. Foi nesse momento que finalmente materializou e sacou a sua Relíquia.
— A Garra Azul, Zendriq! — anunciou Kamito. — Espero que você não fique decepcionado comigo. Como eu disse antes, ainda estou em treinamento. Então não espere que eu seja um guerreiro definitivo ou alguém com anos de experiência.
Kamito não tirava os olhos de Kairus. Aurea e Yuffine se perguntavam como aquela luta se desenvolveria e qual seria o resultado.
“Por que ele não usou as Chamas Negras e a Zandriq? O que ele está tramando?” — pensou Aurea.
A colisão das energias fazia a arena tremer. As pessoas que assistiam estavam assustadas com o que estava prestes a acontecer e temiam por suas vidas. De um lado, uma energia azul escura, quente e calma, que se expandia rapidamente como uma chama em um palheiro. Do outro, uma energia vermelha, agitada, que tentava se manter em seu auge total. Ambas se chocavam para mostrar qual se manteria após a batalha.
Kamito estava de volta à luta e não pretendia perder, principalmente agora que recuperou a sua vontade de lutar. Ele iria salvar aquele mundo e todos que estavam nele, e jamais se daria por vencido novamente. Agora que a sua energia havia voltado ao normal, seria capaz de fazer isso, e mostraria a todos daquela arena que sairia vitorioso.