Capítulo 143 — Oponente Digno
Capítulo 143 — Oponente Digno
“Queime… Queime… Me sinto tão bem lutando… Eu sempre me senti assim? Ou essas chamas me tornaram nisso?”
O impacto foi avassalador. A estrutura da arena estremeceu violentamente. As chamas negras deixaram um rastro de corte no chão que queimava em direção ao impacto. O chão ao redor e a parede atingida ardiam enquanto a energia do ataque se dissipava. Kamito ofegava enquanto sua espada, aos poucos, resfriava.
— Vovô!!! — Yuffine tentou correr na direção dele, mas Aurea a segurou pelo braço. — Não, não, não!!! Você não pode perder aqui, vovô!!!
Ela fitou Aurea com os olhos cheios de lágrimas. Mesmo se debatendo, ainda não conseguia se soltar.
— Por favor, me solta! — implorou. — Eu preciso ver se o meu avô está bem! Não precisa ser assim! Não tem por que ele morrer aqui e principalmente dessa forma!
— Você não pode ir para lá! — respondeu Aurea, com firmeza. — Se for pega por toda aquela Energia Espiritual, acabará se machucando. Seu avô fez uma escolha: morrer como um guerreiro em uma batalha em que o vencedor vive e o perdedor morre. Respeite a escolha dele e observe atentamente esse combate.
Aurea a soltou e voltou a olhar na direção do impacto. Ela sentia que, embora o golpe de Kamito tivesse sido muito mais forte do que o anterior, não seria o suficiente para matar Kairus. Ela então apertou o punho com força.
— Vamos lá, Kamito. — murmurou. — Acabe logo com isso. Não deixe essa garota mais angustiada. Você precisa dar uma morte digna a ele de uma vez por todas.
Kamito fixou o olhar no local da colisão. Não podia ser pego desprevenido pelos ataques de Kairus. Logo, a poeira começou a se dissipar, e ele viu o velho guerreiro de pé, parado em frente ao buraco gerado pelo impacto. Kairus estava todo sujo e ensanguentado. Dos cortes no seu corpo, saíam pequenos tentáculos que se moviam rapidamente. Logo, eles começaram a crescer e se unir, criando uma enorme foice de sangue. Kamito ficou impressionado, pois, mesmo depois de ter se defendido de um golpe tão poderoso, ele ainda conseguia ter vigor para lutar.
Kairus arremessou aquela foice na direção de Kamito. Ele se preparou para desviar quando ela se desfez, virando uma mão gigante que o socou violentamente. Kamito foi jogado para trás, acertando um pilar. No mesmo instante, a mão de sangue se desfez e virou centenas de espadas apontadas para a sua direção. Foi um momento de apreensão. Se o rapaz se movesse, com certeza seria atacado. Kamito respirou fundo e começou a manifestar sua aura.
Assim que ela se elevou, as espadas começaram a vir na sua direção. Ele pulou para a esquerda e começou a correr, desviando-se daquela chuva de espadas com bastante dificuldade. Precisava contornar a situação — e rápido.
— Mais que droga! Essas espadas não acabam nunca?! — exclamou Kamito, irritado. — Eu já estou de saco cheio de ficar correndo!!! Black Sky Ripper!!!
Ele parou bruscamente, acumulando energia na lâmina da Zandriq, e se virou, disparando-a na direção das espadas. O impacto e o calor criaram uma chuva de sangue por todo o campo de batalha. Kamito o olhou seriamente. Estavam cobertos de sangue. Tudo estava coberto de sangue.
— Acho que está na hora de pôr um ponto final nisso. — disse Kamito. — Mas, antes, preciso que você me fale tudo o que sabe sobre o Império e sobre o Imperador. Eu não vim aqui unicamente por você. Seria um desperdício te matar sem saber o que eu preciso.
— Você foi o primeiro oponente a me ferir. Precisamos mesmo pôr um fim nessa luta. Não precisa se preocupar com isso. Minha neta sabe o mesmo que eu. Quando eu morrer, ela dirá tudo o que você quiser.
Ele se aproximou de Kamito enquanto invocava as duas navalhas outra vez. Calmamente, Kairus fez um corte em cada um dos seus dedos, criando fios de sangue quase invisíveis a olho nu.
— Vamos continuar com a nossa luta. — disse Kairus. — O último round sempre é o melhor de todos! Me surpreenda mais ainda, Kamito Takeda! Me mostre mais das Chamas Negras da Calamidade. Eu quero ver tudo o que você tem!
— Você não se cansa mesmo. — Kamito girou sua Relíquia enquanto afastava as pernas e dobrava os joelhos. — Queria ver como seria se você estivesse no seu auge. Essa luta seria muito mais interessante e duradoura. Fazer o quê? Infelizmente, nem tudo é da forma que queremos. Se eu não tivesse treinado com a Aurea, não teria chegado até aqui. Graças ao treinamento dela, eu pude ser o seu adversário. Uma pena que eu tenha que ser o último.
Ele esticou o braço direito, deixando a espada apontada para trás, enquanto posicionava o braço esquerdo próximo ao peito.
— Você é um oponente até que divertido. Me fez lembrar do Solum. Ele iria adorar lutar contra você. Aposto que vocês dois se dariam muito bem. Kairus, eu não pretendo perder essa luta. Tem alguém que eu quero encontrar. Infelizmente, terei que te matar para trazer a paz para esse mundo.
— Não se desculpe, garoto. — Kairus assumiu uma pose de combate enquanto juntava as mãos. — Esse é o caminho que escolhemos para nós mesmos. Não existe um caminho que não tenha consequências. Cedo ou tarde, morreremos por consequência de nossas escolhas. Eu estou pronto para morrer.
Ele desviou o olhar para a sua neta, que estava com os olhos cheios de lágrimas. Kairus então sorriu para ela e desfez a pose de combate.
— Não chore, Yuffine… Você ficará bem com eles. Eu tenho certeza de que esse homem é o único capaz de te treinar. — tranquilizou Kairus. — Ele jamais te deixará trilhar o caminho que eu escolhi para mim. Eu tenho orgulho de você, minha neta. Sua mãe estaria orgulhosa de ver o quanto você cresceu.
— Vovô… — Yuffine sorriu para ele. — Você sempre foi tão teimoso. Eu ainda torço para que você vença, mas, devido às circunstâncias, acho que isso não será possível. Espero que se divirta como nunca nesse combate. Você merece uma luta digna do seu nome.
Ela ainda estava triste, mas parecia ter aceitado o destino do seu avô. Logo, voltou o olhar para Kamito, como se estivesse o analisando.
— Não me desaponte, Mestre. Meu avô colocou todas as expectativas dele em você. Mostre que ele não estava errado. Mesmo que você seja aquele que lhe dará uma morte digna, mostre que você é digno de ser meu mestre.
— Kamito… — murmurou Aurea, impressionada. — Você progrediu muito em tão pouco tempo. É assustadora a rapidez com que você consegue aprender e aplicar tudo isso em uma luta onde sua vida está em risco. Será mesmo que eu estava apta a te treinar?!
Ela sorriu orgulhosa de si mesma e do seu resultado.
— Eu consegui. Eu realmente consegui, Lobo… Eu cumpri a minha promessa. Onde quer que você esteja, veja. Veja como ele carrega toda a esperança, todos os seus sonhos, e como ele se parece com você.
Suas energias explodiram, colidindo-se enquanto se encaravam seriamente. Kamito não conseguia conter a sua empolgação e deixou um leve sorriso escapar. Kairus também sorriu enquanto voltava a assumir a posição de combate.
O vento soprava violentamente, jogando os cabelos de Kamito para trás. Ele precisava acabar com aquilo para poder seguir em frente. Ainda queria encontrar Akane antes de ir ao palácio, mas isso não parecia possível no momento. Passado e futuro estavam prestes a definir um vencedor daquela luta equilibrada.
Aurea e Yuffine olhavam aquela colisão de energias impressionadas com tamanho poder. Mesmo tendo sido a própria Aurea a treinar Kamito, nem ela sabia que ele possuía tamanha energia. E ele devia isso a ela. Pois, graças ao seu treinamento, ele parou de queimar tanta energia à toa.
Kamito respirou fundo enquanto tentava não deixar a energia de Kairus o engolir. Ele já sabia o quanto o velho guerreiro era poderoso e possuía uma das Manifestações mais assustadoras. Agora que estavam no último round, precisaria ter muito mais cuidado com os seus ataques, principalmente com aqueles fios.
A conclusão daquele combate estava prestes a acontecer. Todos que assistiam aos treinos já haviam abandonado o local por segurança. Toda a arena tremia, e ninguém tinha coragem de se aproximar do local. Restavam apenas os quatro ali, e apenas três deles sairiam com vida.
Finalmente, Kamito estava de volta à guerra. Agora, poderia ajudar os seus amigos. E, para compensar o tempo que ficou fora, estava enfrentando talvez um dos Capitães mais poderosos do Império. Estava animado por ter voltado a lutar. Era isso o que ele mais queria: poder lutar novamente sem ter medo de perder o controle.
Agora era a hora de mostrar que as suas novas chamas eram superiores a qualquer desafio que estivesse no seu caminho. Ele venceria qualquer um até enfim acabar com o Império de uma vez por todas.