Capítulo 146 — Planos Futuros
Capítulo 146 — Planos Futuros
“Nossos caminhos se cruzaram por acaso, mas até quando seguiremos juntos? Tenho medo do dia que teremos que nos separar.”
Kamito e Aurea caminharam entre os destroços à procura de Yuffine por algum tempo. Kamito se sentiria muito culpado se algo grave tivesse acontecido com ela. Continuaram as buscas por mais um tempo até encontrarem uma pilha de destroços. Ela poderia estar debaixo daquilo tudo, e a qualquer momento poderia ser esmagada.
Andaram o mais rápido que conseguiram até os destroços e se depararam com algo inacreditável. Yuffine estava desacordada, e quem sustentava os destroços era o corpo do seu avô. Ele estava imóvel e sem manifestar nenhuma energia. Talvez ele ainda se lembrasse dela e desistiu da sua honra para salvar a vida da neta.
— Ele recobrou a consciência antes de morrer e a salvou. — Kamito olhava para o corpo de Kairus, completamente transformado em ferro. — Quem diria que, mesmo depois de tudo, ele usaria o pouco de vida que tinha para salvá-la. No final das contas, ele não era tão obcecado assim em lutar como eu estava pensando. Uma pena que as coisas acabaram assim.
Ele parou de se apoiar em Aurea e, ainda um pouco manco, se aproximou de Yuffine, pegando-a em seus braços.
— Eu vou cumprir com o prometido. Não vou deixar que ela passe pelo que eu passei. Eu sei que não estou qualificado nem tenho idade para ser mestre de alguém, mas eu serei o mestre dela e jamais a deixarei sozinha.
— Você está assumindo uma responsabilidade muito grande, Kamito. — Aurea o olhava seriamente. — Se tornar mestre vai muito além de apenas ensinar. Você precisa guiá-la e ajudá-la a encontrar seu próprio caminho. Você será a única pessoa que ela terá de agora em diante, e você ainda está em treinamento. Tem certeza de que quer isso?
Apesar do aviso, Aurea sabia que ele não voltaria atrás com a sua palavra.
— Está bem. Eu irei te ajudar no treinamento dela enquanto completo o seu. Irei apenas ajudar. Ela é a sua aluna; toda a responsabilidade por ela é unicamente sua. Está entendendo? Não irei ensinar nada a ela, só a você.
— Eu sabia que você diria isso. — respondeu Kamito. — Eu não pretendia pedir para você treiná-la. Eu quero treiná-la para que ela se torne mais forte do que o avô. Tenho certeza de que ela se tornará uma poderosa guerreira. Acho que aquilo que o Raishi me ensinou em quinze dias será o suficiente para ela. Se funcionou comigo, provavelmente funcionará com ela também.
Ele se aproximou dela com dificuldades. Ambos sabiam que precisavam sair dali rápido. Era questão de tempo até os soldados chegarem.
— Eu ainda não sinto nada. — disse Kamito. — Provavelmente temos pouco tempo até que aqui fique lotado de guardas do Império. O que me diz de irmos embora agora? Acho que já cumprimos com o nosso objetivo aqui.
— Sim. — Aurea já começava a caminhar, sem esperá-lo. — Pelo visto, você ainda precisa aprender bastante. Você baixou sua guarda várias vezes e permitiu que seu adversário te surpreendesse. Você poderia ter morrido várias vezes nessa luta.
Ela estava irritada por ele ter se descuidado tanto. Mesmo assim, Aurea sorriu sem que ele percebesse. Apesar das consequências, ela estava feliz com o resultado.
— Vamos para um local seguro para nos recuperarmos. — continuou Aurea. — Só então pensaremos no próximo passo. Sem seu maior treinador, o Império terá uma leve queda no número de soldados. Parabéns pelo feito.
Kamito a seguiu devagar. Olhou para Yuffine, que ainda estava desacordada, e voltou a olhar para frente. Ele realmente queria torná-la forte o bastante para poder lidar com qualquer problema sozinha.
— Aurea, por que ninguém consegue sentir a minha energia quando estou usando o cachecol? Eu pensei que ele era apenas para fins estéticos, mas parece ter algo a mais nele. Na verdade, em toda a Vestimenta Espiritual.
— Então você notou. — Aurea parou.
Ao se virar, ela apontou para o peito do rapaz e lentamente subiu o dedo até a testa dele. Um sorriso gentil estampava seu rosto cansado.
— Elas são feitas com um material extremamente raro que estava em um dos antigos esconderijos da Ordem. Esse traje, diferente do que você usava, é feito de pura energia. Claro que ele se desgasta, mas não tão facilmente quanto os que você usava. Além disso, ele também esconde toda a sua energia. — ela repousou a mão direita na cintura. — Se tem alguém que pode se considerar membro da Ordem, esse alguém é você. Tome bastante cuidado com esse traje. Eu pedi para que fizessem especialmente para você. Resumindo, ele só funciona com você.
— Eu vou cuidar dele. — disse Kamito, passando por ela. — Se não fosse por ele e pelo seu treinamento, eu provavelmente estaria morto. Eu pude sentir que boa parte dos impactos foram absorvidos por esse traje.
Talvez ele só estivesse de pé, mesmo com a perna ferida, graças ao traje. Kamito foi descuidado por pensar que poderia vencer sem ter consequências. Estava bem enganado.
— Isso não foi justo. — ele continuou. — Eu não venci aquela luta. Eu nem sabia se realmente seria capaz de vencer. É justo dizer que eu venci?
Aurea seguiu em silêncio. Kamito sabia que ela não diria nada, pois ele estava confuso. Enquanto caminhavam, Aurea colocou o cachecol ao redor do pescoço do discípulo e cobriu a cabeça dele, com o intuito de esconder a energia do rapaz.
Foram até uma pequena clareira no meio da floresta, onde iriam descansar. Kamito deixou Yuffine encostada em uma árvore e se sentou próximo a ela. Ficou pensando se Akane e os outros tinham sentido toda aquela energia. Será que eles se perguntaram se poderia ser ele? Queria muito poder reencontrar todos eles logo, mas isso era impossível no momento.
Então, ele fechou os olhos e começou a se concentrar. Em pouco tempo, ele voltou a sentir a energia de tudo que estava ao seu redor. Ele podia sentir muito bem as energias de Aurea e de Yuffine, mas não sentia mais ninguém nas proximidades. Provavelmente estavam mesmo em um local seguro.
Ao abrir os olhos, ele percebeu que Aurea o encarava. Kamito sabia o que aquele olhar queria dizer. Ela queria decidir logo o próximo passo, mas precisava esperar Yuffine acordar. Ela era a única que sabia mais informações sobre o Império. Kamito então fitou Yuffine, que parecia estar num sono tranquilo. Quando acordasse, ela certamente iria querer explicações sobre os poderes de Kamito e Aurea. Seria difícil fazê-la entender que Kamito era humano, mas ele disse que explicaria tudo.
— Aurea, o que você planeja fazer depois que toda essa confusão passar? Quando a guerra acabar, eu pretendo voltar para o meu mundo. Se Yuffine quiser ir comigo, ela será bem-vinda. Mas e você? O que pretende fazer? — indagou, curioso.
Ele sabia que o principal objetivo dela era concluir seu treinamento. Porém, quando isso acabasse, ela não teria nada para fazer e nem mesmo para onde ir.
— Você pretende voltar para a Ordem? — continuou Kamito. — Eu não sei bem, mas sinto como se você nunca quisesse tê-la deixado. Você é a minha mestra, então quero saber o rumo que você pretende tomar após a guerra.
— Talvez eu retorne para a Ordem. — Aurea desviou o olhar discretamente enquanto mexia na grama. — Assim eu poderia completar o seu treinamento, mas eu não deixarei o Extra-Mundo. Querendo ou não, esse é o meu mundo e pretendo continuar lutando por ele. Eu sumi por muitos anos e não quero ter que esperar um grande acontecimento de novo.
Ela parecia não gostar da ideia de ter que ficar escondida durante anos novamente, principalmente agora que sabia que dois de seus antigos companheiros estavam vivos e no comando da Ordem.
— Você não pretende mesmo ficar aqui? — perguntou Aurea. — Esse mundo combina muito mais com você. É como se você tivesse sido feito para ficar aqui. Você é talentoso e muito poderoso. Essa ideia não passou pela sua cabeça?
— Não. — disse Kamito, sorrindo só de se lembrar da sua mãe e da família de Akane. — Eu sinto algo diferente quando estou aqui. É como se o meu lugar fosse aqui, mas essa não é a minha casa, e eu consigo ver isso. Por mais que eu tenha sofrido no outro mundo, aquele lugar é a minha casa, e quero muito poder voltar para lá. Eu queria que você também pudesse ir.
Elas eram o maior motivo de ele querer voltar. Kamito tinha pessoas que o esperavam e não queria desapontá-las. A Terra era o seu lar, e nada mudava isso.
— Espero que você mude de ideia e também queira ir para lá. Eu adoraria te mostrar tudo o que tem no meu mundo. Você vai ver como eles são bem parecidos uns com os outros e, ainda assim, possuem diferenças.
Conversaram sobre a Terra e sobre as coisas que Kamito gostava enquanto descansavam. Sem Yuffine, qualquer planejamento era inútil — principalmente agora que estavam sendo caçados por causa da luta ter saído do controle. A participação deles na guerra ainda era tímida, mas ambos os lados, naquele momento, já deveriam saber da existência deles.
Toda aquela luta só serviu para colocar um imenso alvo em suas costas. Agora precisavam ter a cautela redobrada enquanto procuravam os outros Capitães. Mesmo com todos atrás deles, eles não pensavam em desistir. Esse era o momento para mostrarem a todos o poder das chamas.