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Capítulo 147 — Tornando-se Um Mestre

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Capítulo 147 — Tornando-se Um Mestre

“Agora entendi a dificuldade de treinar alguém. São tantas coisas, por onde começar?”

Um dia se passou desde a luta contra Kairus. A perna de Kamito não doía tanto quanto antes, mas ele não estava totalmente recuperado. Yuffine já estava consciente e já sabia tudo o que aconteceu com o seu avô. Ainda acampados naquela clareira, eles decidiram dar um tempo antes de pedir para ela contar tudo o que sabia.

Sentado na grama, Kamito admirava as estrelas enquanto pensava em Akane. Ele apertava o pingente com a mão esquerda, e então Yuffine se sentou ao seu lado com um olhar curioso. Ele soltou o pingente e a fitou, sabendo que ela tinha várias perguntas sobre seu futuro treinamento.

— Mestre, por que você esconde o seu rosto? Achava que isso era um disfarce para poder se aproximar do meu avô, mas parece que não é apenas isso. Me fale o real motivo, e nem pense em me enganar.

A julgar pelo seu olhar, ela não cederia até obter todas as respostas que buscava. Kamito desviou o olhar, tentando disfarçar o fato de não querer responder. Entretanto, Yuffine o puxou pela manga do sobretudo e o forçou a ceder.

— Você disse que iria me contar tudo! — ela insistiu. — Por que não começa agora? Eu só irei te contar tudo o que eu sei quando você responder a todas as minhas perguntas.

— Você é mesmo insistente. Está bem, vou responder às suas perguntas. — ele reclamou, ajeitando-se. — Primeiro, não sou um extra-humano. Eu era um humano comum que foi afetado de alguma forma pelo Véu Espiritual e acabei ganhando meus poderes. Segundo, também não sei como eu e a Aurea possuímos as mesmas Manifestações. Pelo que eu também sei, só deveria existir uma Manifestação de fogo. Talvez seja devido eu ter sido afetado por esse fenômeno. Terceiro, o cachecol esconde a minha Energia Espiritual, assim ninguém pode vir atrás de mim. Tenho que usá-lo a todo momento fora de combate.

Ele tentava se explicar. Sabia que não era o suficiente, mas, por enquanto, seria o essencial. Não queria perder tempo explicando coisas desnecessárias.

— Espero que isso tenha matado a sua curiosidade, Yuffine. Tem muitas coisas que eu também gostaria de saber, mas ainda não tenho as respostas, principalmente a verdade por traz da forma como eu consegui meus poderes.

— “Humano”? — repetiu, confusa. — Não pode ser. Você é extremamente parecido com os extra-humanos. Não dá para acreditar nessa sua história, mestre.

Ela passou a encará-lo com seriedade, e Kamito notou que ela estava irritada.

— Mestre, se não quer responder, não precisa inventar histórias. Não sou tão boba assim para você achar que eu cairia nessa história de humano afetado pelo Véu. Sua aparência prova o contrário. — ela cruzou os braços e bufou.

— Já chega de jogar conversa fora. Acredite se quiser, Yuffine. — interrompeu Aurea, aparecendo bem a tempo. — Eu também não acreditei no que ele contou, mas isso não vem ao caso agora. Precisamos que nos conte tudo o que sabe sobre a guerra entre o Império e os rebeldes. Dependemos dessas informações para agir.

Aurea parou diante da garota, com uma feição de poucos amigos.

— Estamos em guerra contra o Império, contra o seu antigo lar. Sua lealdade está com o seu mestre ou com o Imperador? Precisamos vencer essa guerra. Se tem alguma informação que possa nos ajudar, por favor nos diga.

— É claro que a minha lealdade está para com o meu mestre! — ela falou com as bochechas coradas. — Mesmo que isso me faça ficar contra o Império e todos que eu conheço, eu devo obedecê-lo e seguir os seus ensinamentos. Eu sou fiel unicamente ao meu mestre!

Ao perceber que Kamito ainda a olhava, ela virou o rosto para esconder o constrangimento. Yuffine tentou se recompor para enfim compartilhar o que sabia.

— Bom, o que eu sei não é muito animador para nenhum dos lados. Impero perdeu vários Capitães para os rebeldes, mas ele soube contornar isso bem, encurralando e aniquilando toda a aliança rebelde em um único dia. Baltar, Ângelo, Lux, Melina e meu avô foram os que morreram. Sora e Keila foram capturados pelos rebeldes e não se sabe nada sobre eles. Haythan, Navaro, Andrus e Ninyel estão desaparecidos e possivelmente mortos. Há boatos de que houve uma grande batalha no oceano Sunnan e que o Capitão Kaliko afundou junto com uma frota rebelde. Só restaram os Capitães Ivar, Jack, Victor e o braço esquerdo do Imperador, o Traiçoeiro.

— Parece que eles estão mais adiantados do que eu imaginava. — Aurea levou a mão até o queixo, pensando no cenário atual da guerra. — Eles lidaram com mais Capitães do que eu esperava, mas isso lhes custou toda a aliança rebelde. Ao que parece, eles precisam mesmo da nossa ajuda.

Com a aniquilação da Aliança Rebelde, eles eram os que mais sofreram duras perdas. Kamito apertou os punhos.

— Não podemos desperdiçar nosso tempo indo atrás de mais Capitães. Se o Império aniquilou todo o apoio que a Ordem recebia, suponho que eles pretendem invadir o palácio. Se isso for acontecer, os Capitães remanescentes estarão lá. Essa será uma boa oportunidade para nos infiltrarmos no palácio e assassinarmos o Imperador. Duvido muito que todos os rebeldes tenham sido aniquilados. Talvez isso seja uma notícia falsa para passar a imagem de que o Império é absoluto e de que ninguém é páreo para ele. — Aurea ponderou.

— Ainda assim eles tiveram baixas. Precisamos ir imediatamente! E se ela se feriu ou foi feita prisioneira?! O Imperador também tinha interesse nela! Temos que ir para o palácio! Eu não posso ficar parado! — Kamito se levantou desesperado. — Nós não podemos perder tempo! Você me pediu para te obedecer e esperar o momento certo para encontrá-la, mas se ela estiver em perigo, eu preciso ir!

— Acalme-se. Eu não pretendo te impedir de ir, mas devo te alertar. — Aurea o fitava seriamente. — O palácio será uma zona de guerra extremamente perigosa. Lá você não deve baixar sua guarda por um único momento. Se você pretende procurá-la no meio de uma guerra, eu não irei te impedir, mas também irei participar disso. Você é meu aluno, e eu te ensinei o suficiente sobre manter a calma e não se precipitar. Mas, se ainda assim você pretende fazer isso, vá em frente. Eu cuidarei para pôr um ponto final nisso.

Seu olhar parecia ter raiva da atitude de Kamito, mas, ainda assim ele não voltaria atrás. Sabendo que Akane poderia estar em perigo, ele não ficaria calmo. Aurea sabia disso, por isso estava zangada.

— Nós iremos até o palácio e procuraremos uma maneira discreta de entrar. Se você ainda pretende procurar pela garota, lembre-se de lidar com os Capitães e soldados que estão lá, ou acabará morto. Yuffine, você já esteve no palácio? Conhece alguma rota que possamos usar sem que eles nos notem? Se, quando formos para lá, os rebeldes também estiverem invadindo o local, poderemos usá-los como distração, mas a vigilância ficará dobrada justamente para evitar espiões.

— Eu nunca estive no palácio. Meu avô nunca me levou com ele, mas me lembro de já ter visto uma planta do local. — ela revelou. — Se me lembro bem, eram projetos de torres de vigilância que meu avô estava revisando. Lembro-me de ter visto três entradas: uma subterrânea, uma na área das famílias dos comandantes e uma rota no topo da rocha onde o palácio foi construído.

Yuffine começou a desenhar no chão. Ela tentava recriar exatamente o que viu enquanto fornecia explicações sobre o local. Olhando aquele desenho, já se podia ter uma noção do que estavam prestes a invadir.

— O palácio é muito bem protegido. Meu avô disse que, por todo o local, existem cristais capazes de bloquear a Manifestação de qualquer um que esteja lá. Somente os escolhidos podem usar suas Manifestações lá, porque eles recebem uma pulseira que os livra do efeito do cristal.

— Uma fortaleza quase impenetrável. — observou Kamito, pensando em como entrariam lá. — Por que tanta proteção se ele é tão poderoso e possui os mais fortes Manifestadores? Há algo de errado nisso.

Ele coçou a nuca. Se Impero podia impedir um ataque da Emota, os rebeldes não seriam problema. Talvez ele não os visse como uma ameaça real ou tivesse muito medo de ser atacado.

— Parece que precisaremos encontrar esses “escolhidos” e roubar suas pulseiras, caso realmente queiramos lutar. Obrigado pelas informações, Yuffine. Durante o caminho, pretendo te ensinar uma coisa. Considere como a minha primeira lição a você. Com isso, você se tornará uma grande guerreira. — concluiu Kamito.

Ao analisar aquele desenho, Aurea já sabia exatamente o que fariam.

— Bom… Partiremos ainda de noite. Temos que ganhar tempo, preparem-se.

Seu olhar estava diferente e passava a sensação de apreensão. Talvez fosse por não poder impedir Kamito de encontrar Akane no meio de toda aquela invasão.

Alguns minutos depois, partiram em direção ao palácio imperial. No caminho, Yuffine abordou Kamito novamente.

— Mestre? Como pretende me treinar? Meu avô me ensinou tudo o que sabia, mas eu nunca consegui fazer nada direito. Até mesmo na academia eu era assim. Sempre fui a última e, por causa disso, todos riam de mim. — explicou, cabisbaixa. — E há algo que quero muito dominar: a técnica da minha mãe.

— Não se preocupe, eu prometi que te treinaria. Vou cumprir minha palavra. — afirmou, com convicção. — Irei te ensinar o que eu recuperei. O motivo que te faz lutar dando tudo de si. Assim como a minha mestra me ensinou.

Aurea os fitava por cima do ombro. Sentia-se feliz por estar acompanhada de duas pessoas tão esforçadas.

— Yuffine, Manifestadores lutam por algum motivo. Seja orgulho, honra, poder, controle, esperança, justiça, redenção, proteção ou destruição. Isso é o que diferencia cada um. Quero que encontre o motivo para que você possa dar tudo de si. Consegue me dizer pelo que você luta? — ele explicou, esperando uma resposta sincera.

— Eu… Ainda não sei. Quero ser uma Manifestadora como a minha mãe foi. Sinto que assim terei a força necessária para mudar o destino cruel do meu clã. Eu me recuso a ter que seguir a lei dele! — a garota afirmou, convicta da sua decisão. — Me ajude a encontrar esse motivo, mestre!

— E-eu vou, não se preocupe!

A determinação de Yuffine deixou Kamito sem jeito. Às pressas, ele desviou o olhar. Ao fazer isso, ele notou que Aurea o observava. Sabia que ela ainda não concordava com a ideia suicida de sair procurando Akane, mas ele não mudaria de ideia. Se ela estivesse em perigo, ele iria salvá-la.