Capítulo 23 — Últimos Dias de Paz
Capítulo 23 — Últimos Dias de Paz
Faltavam quatro dias para as férias, todos estavam animados. Kamito e Akane caminhavam pelo corredor da escola enquanto vários alunos seguiam seus caminhos, já outros apenas permaneciam parados conversando entre si.
Kamito costumava focar no próprio rumo, ignorando todos ao redor, mas como os outros estudantes já haviam se acostumado com sua aparência e passaram a ignorá-lo, o trabalho tinha se tornado mais fácil. Os poucos que falavam com o garoto não se importam mais com esse detalhe.
Enquanto caminhavam, Akane lhe contava sobre os planos que fez para essas férias e de como amava festivais, Kamito apenas lhe escutava de forma atenciosa e sorria com sua animação. Estavam indo em direção do campo, queriam almoçar próximos a uma grande árvore, quando encontraram Ryruka e Yujiro, que conversavam em frente a sala de aula. Akane os convidou para se juntarem a eles, que por sua vez aceitaram.
O desgosto estampou o rosto do garoto, deixando óbvio o que se passava em sua cabeça, que seu momento de paz havia chegado ao fim. Ryruka notou sua expressão, e logo começou a lhe encarar.
— Por que essa cara feia? Por acaso está com tanta fome assim?
Kamito observou enquanto o rosto da garota que estava com um leve sorriso nos lábios.
— Ou será que você queria ficar sozinho com a Akane?
Ela se aproximou começando a cutucá-lo tentando provocá-lo, assim chamando a atenção dos outros colegas ao redor que ouviam curiosos.
— N-Não é nada disso! Eu só estou com fome. — o garoto riu nervoso, tentando disfarçar ao máximo sua vergonha. — As aulas do turno da manhã dão uma baita fome! V-Vamos logo!
Os outros alunos que passavam em volta fofocavam sobre suas suspeitas de um possível envolvimento entre Akane e Kamito, mas quando perceberam que podiam estar falando alto demais, passaram a andar mais rápido.
— Viu o que você acabou de fazer, Ryruka? — Yujiro bateu em seu próprio rosto de forma dramática se mostrando decepcionado. — Agora as pessoas vão pensar que os dois namoram. Sua tentativa de brincadeira pode ter alimentado ainda mais os rumores.
Kamito que antes já era um poço de vergonha, agora estava pegando fogo devido ao rubor que preencheu suas bochechas,
— N-Nós, nós… — Akane começou a falar de forma envergonhada. — A-acho melhor a gente andar um pouco mais rápido.
Ela desviou o olhar tentando disfarçar, o final de sua frase soou como um sussurro, fazendo com que ninguém entendesse o que havia sido dito. A mesma voltou a olhar para seus amigos e os apressou.
— Francamente, vocês não têm senso de humor. Vamos logo, estou com muita fome. Rápido, ou não esperarei vocês.
Ryruka começou a caminhar, os estudantes abriram caminho para ela passar. Naquele momento, foi possível ver o quanto as pessoas a respeitavam. Ser a “número um” da escola era uma grande responsabilidade.
— Ignorem a Ryruka, ela só está tentando ser legal. Mas, como puderam ver, não deu certo. Talvez seja por ela não ter tantos amigos, assim como nós.
Yujiro os acompanhou mantendo os olhos em Ryruka, que já os esperava mais a frente. A garota já havia comentado uma vez que ele era o “número dois” da escola, mas os alunos não o tratavam da mesma maneira, ele era mais legal do que aparentava.
— Ei, Yujiro, por que você é legal conosco? — Kamito o questionou curioso. — Eu pensei que só estava interessado em nos ajudar com os Carniceiros, mas desde que se juntou a nossa “equipe”, você tem nos ajudado bastante.
O rapaz era conhecido por ser uma pessoa reservada e séria, mas após a ajuda que prestou, se mostrava uma pessoa mais amigável. Os integrantes do grupo já estavam próximos da árvore, o local era perfeito para comer e descansar graças a sombra.
— Não tenho um motivo específico. Apenas decidi ser sociável com vocês. — revelou Yujiro. — Se seremos uma equipe, creio que devemos nos conhecer bem e sermos bons amigos… Ryruka também pensa assim, ela só não demonstra.
Ryruka e Akane já se sentaram próximas ao tronco, estavam conversando enquanto pegavam seus almoços.
— Ei! Vocês dois! — Akane os chamou, mostrando estar bastante animada e sorridente. — Venham logo ou não conseguirão almoçar!
Yujiro tocou o ombro de Kamito e foi em direção às garotas. Akane não conseguia conter a felicidade que sentia em seu peito, pois ela sempre quis ter momentos como aquele.
Kamito logo se sentou junto a eles, Akane que estava sentada ao seu lado entregou seu almoço. O grupo começou a comer e a conversar, falaram sobre seus treinamentos, sobre a luta contra os Carniceiros, sobre a escola e as férias. Todos estavam animados com as férias já tão próximas.
— Falando nisso… Sua mãe vem te visitar nessas férias ou você vai vê-la? — perguntou Akane.
— A gente só vai poder se ver final do ano. — respondeu Kamito. — Surgiu alguns imprevistos. Então ela não tem tempo.
— Agora que a Akane falou… Kamito, sua mãe trabalha no que? — Ryruka perguntou curiosa. — Pelo que deu para notar, você mora sozinho. Eu pensava que seus pais haviam morrido, mas, agora que mencionou ela, isso mostra que eu estava errada.
Os dois passaram a o encará-lo, fazendo com que Kamito parasse de comer e os olhasse confuso. Eles esperavam por uma explicação.
— Ah… Isso?! Você não estava errada totalmente. — ele colocou seu almoço no chão enquanto terminava de falar. — Meu pai morreu há muito tempo, e minha mãe trabalha fora do país. Ela tem a própria empresa, por isso não vive aqui… Tudo bem que fui eu quem pediu para ela não se preocupar comigo e focar no trabalho, mas às vezes sinto falta dela.
Isso o fazia ter recordações, estava com o olhar perdido enquanto seus amigos o observavam. Especialmente Akane, que sabia de tudo.
— Isso explica você ter aquela casa e como a mantém sem trabalhar. Quem diria que você era rico. Você é sortuda, Akane.
Ryruka entendia o que ele sentia, e tentou descontrair. Ela o olhava preocupada, pois não sabia o que dizer depois que aquele assunto veio à tona.
— Não é bem assim. Não me importaria se ele tivesse dinheiro ou não… Só ver seu sorriso todos os dias seria o suficiente.
Akane disse exatamente o que Kamito precisava ouvir. Mesmo estando triste, ela sabia como animá-lo.
— Como vocês se conheceram? — Yujiro perguntou, curioso. — A forma que você fala do Kamito faz parecer que vocês se conhecem há bastante tempo.
Isso também despertou interesse em Ryruka sobre a história do passado dos dois. Não havia mais saída. Para a sorte de Akane, o sinal tocou e ela respirou aliviada enquanto o olhava disfarçadamente. Ele sorriu ao se lembrar do passado e ajudou ela a arrumar as coisas para voltarem à sala.
Se restava alguma dúvida ou sentimento incompreendido em sua mente, eles tinham acabado de ir embora. Ele se lembrou de o motivo de sempre dizer que a protegeria, e da primeira promessa entre eles. Algo que estava decidido a cumprir assim que as coisas melhorassem.
No esconderijo da Ordem dos Cavaleiros Brancos, Coiote caminhava por um longo e escuro corredor. Ele mal podia esperar pelo momento em que pudesse lutar contra Kamito. Pouco depois, Coruja surgiu à sua frente, dizendo que tinha algo muito importante para falar e que eles deviam ir para outro lugar. Sem questionar, Coiote o seguiu para fora do esconderijo. Os dois foram até o topo de um edifício próximo. Coruja ficou na borda do prédio, enquanto Coiote estava logo atrás, observando-o.
— Então?! O que você quer conversar, Coruja? — ele o encarava seriamente, sem desviar a atenção por um segundo sequer.
Coiote estava um tanto nervoso.
— Coiote, você sabe que nosso objetivo é viver nesse mundo e que faremos daqui a nossa casa. Então, não coloque suas ambições na frente dos nossos planos.
Coruja se virou com um olhar preocupado. Ele não queria que Coiote lutasse naquele momento, apesar de estarem do mesmo lado, não queria que isso acontecesse agora.
— Eu sei que você está animado para lutar contra o Kamito, mas isso é um erro. Desista, por favor. Não jogue fora a oportunidade que estamos tendo de ter uma vida melhor nesse mundo.
— Tá de brincadeira?! Primeiro o Cascavel, agora você?! — Coiote se aproximou furioso.
Seu olhar e gestos demonstraram isso.
— Vocês não confiam em mim?! É isso?! — sua postura estava alterada, como se estivesse pronto para lutar a qualquer momento. — Por mais que eu faça de tudo por nós, vocês não me reconhecem! Não vou estragar tudo! Achei que entenderia!
— E entendo. Bastante para saber o quanto você é impulsivo! Coiote, se você lutar e ele sobreviver, colocará o nosso sonho em risco. Lembre-se que não tínhamos um lugar para ir ou um propósito para viver. Graças ao Falcão, nós pudemos mudar isso e agora podemos fazer a diferença. Nós devemos isso a ele, pois ele nos deu esse sonho.
Coruja desceu do muro de proteção e caminhou em direção a Coiote. Calmamente, colocou a mão esquerda no ombro do garoto e o encarou seriamente. Seu olhar era penetrante e mortal.
— Desista dessa ideia e aguarde as devidas ordens, assim como os outros. Siga o meu conselho antes que seja tarde demais.
— Está me ameaçando?! Acha mesmo que isso vai me assustar?! — Coiote empurrou o braço de Coruja e se afastou bruscamente. Não parava de encará-lo.
— Claro que não, isso foi apenas uma advertência. — ele ainda o olhava friamente, aguardando que aceitasse suas ordens. — Fui eu quem te trouxe para cá, não se esqueça. Você deve isso a mim, então me escute.
Ele aparentava ser um homem perigoso, muito mais perigoso, até mesmo do que o próprio Falcão.
— Me escute você. Quando eu tiver a oportunidade, eu irei cravar as minhas espadas no seu coração. Você pagará pela forma que me trata.
Coiote se virou e caminhou até a borda do prédio. Olhou para Coruja, que expunha um sorriso na face, ele virou o rosto e pulou do prédio.
— Coiote, você não entende a magnitude do nosso do sonho. Queria que deixasse de ser impulsivo e ao menos uma vez e escutasse à razão. Todos eles são nossos inimigos graças ao destino. — Coruja falou sozinho enquanto observava a cidade. — E mesmo assim, você quer lutar contra um deles por pura diversão. Por acaso já se esqueceu de como está o nosso mundo? E de como pessoas como eles e você, causaram a queda do nosso mundo?
Em seguida, invocou sua Manifestação, que transmitia as imagens de Kamito e dos outros na escola. Observava-os atentamente. Mesmo que fossem uma ameaça, cada um deles o intrigava. Que segredos aquele homem escondia? Era algo que, Kamito e os outros descobririam quando a verdadeira batalha começasse.
Enquanto isso, os demais descansavam no esconderijo, à espera do grande momento. Hiena estava em seus aposentos, se preparando de forma sedutora para algum tipo de encontro ou missão. Em certo momento, parou e encarou fixamente seu reflexo no espelho, pensativa sobre o que poderia acontecer no futuro, antes de voltar a se maquiar.
Em outra sala, Camaleão treinava sua Manifestação em uma série de testes. Não demonstrava ser má como os outros. Ao que tudo indicava, ela também recebeu a mesma proposta que Coiote. Cascavel estava sentado em uma cadeira, com o olhar morto fixado no treino da menina, até que Leopardo se aproximou.
— Fascinante, não acha? A beleza da juventude é inigualável. — ele falava sem tirar os olhos da garota. — É por isso que eu adoro matar pessoas jovens e belas. Elas são as melhores presas.
Cascavel virou a cabeça para o lado, quase deitando-a sobre o ombro direito, para olhar Leopardo.
— Não me importo se são jovens. O que realmente me importa é se eles dão uma boa caça, algo que vale a pena matar. — Leopardo foi sincero e direto. Seus olhos se moveram na direção de Cascavel. — Só assim meu desejo por sangue é saciado. Nada se compara com a emoção da caça.
— Você e eu somos parecidos. — Cascavel voltou sua cabeça para a posição normal, olhando para a frente. — Enquanto você caça por prazer, eu tenho prazer em matar jovens. Somos diferentes de todos eles… Às vezes me pergunto se há lugar nesse mundo para pessoas como nós. E porque fomos escolhidos como aqueles que trarão a paz para alguns Extra-humanos.
Seu olhar era tão frio que não dava para saber se estava feliz ou triste. A única coisa que realmente importava para ele era matar.
— Sempre haverá espaço para qualquer um. Diferente deles, nós sabemos o verdadeiro prazer da vida. Somos caçadores por natureza, aqueles que matam milhares para que centenas vivam em paz. Não estamos fazendo nada diferente aqui. Sacrificaremos vidas humanas em troca das vidas dos nossos.
Leopardo estava confiante em suas palavras. Orgulhava-se de matar por objetivos próprios, como se já não restasse nenhum remorso por tudo o que havia feito.
— Exatamente. Mataremos quantos forem precisos para enfim termos um lar.
Cascavel se levantou e empurrou a cadeira para trás. Caminhou para fora do local, deixando Leopardo e Camaleão a sós.
Na sala de reuniões, Falcão permanecia sentado em sua cadeira com os olhos fechados, como se estivesse descansando. À sua frente, Rinoceronte o protegia de qualquer ameaça, fosse ela uma invasão ou uma traição. Coruja entrou na sala e se aproximou de Falcão, que já havia aberto os olhos. Coruja disse sobre ter informações sobre o paradeiro de Raishi, que estava desaparecido há alguns dias.
Isso fez com que Falcão o olhasse com seriedade e o convidasse a se sentar para compartilhar a descoberta. Coruja logo se acomodou, preparando-se. Tudo o que planejavam estava ocorrendo conforme o esperado. Enquanto Kamito e os outros estavam distraídos, vivendo suas vidas normalmente, as sombras se moviam, orquestrando seus próximos passos.