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Capítulo 119 – Movimentando o Tabuleiro.

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Capítulo 119 – Movimentando o Tabuleiro.

A madrugada ainda segurava Cervalhion quando eles desceram as escadas da hospedaria.

As lanternas da rua lançavam círculos pálidos sobre a pedra úmida, e o ar frio abraçava o ambiente tornando o momento mais melancólico.

Kael caminhava à frente, usando roupas leves demais para alguém que partia para o leste. Aisha vinha logo atrás, capuz baixo, os passos mais silenciosos do que o necessário.

Ian os esperava junto à porta.

Não usava armadura. Apenas um manto escuro e o rosto cansado de quem não dormira.

— Vocês vão mesmo sair antes do sol? — perguntou.

— Menos olhos — Kael respondeu, abrindo um sorriso curto. — Prefiro assim.

Aisha ergueu o olhar para Ian. Por um instante, quis dizer algo, mas as palavras ficaram presas.

Ian foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Naira e Thamir já passaram pelo portão oeste.

Kael assentiu.

— Imaginei. Eles não gostam de despedidas.

— Pois é, só espero que retornem bem — Ian completou.

Kael apoiou o peso em uma perna só, observando-o com atenção, as olheiras os ombros tensos.

— Sobre o caso do Freddy… — Kael disse, baixo. — O plano é bom. Frio. Funcional.

Ian deixou escapar um riso baixo

— Não achei que você iria aderir o apelido.

— Fazer o que? — Kael deu de ombros — Thamir é bom dando apelidos.

— Concordo.

Ian esperou o “mas”.

— Só toma cuidado para não deixar isso te custar mais do que já custou — Kael continuou. — Ganhar tempo não vale perder o que ainda te mantém humano.

Ian soltou um ar curto pelo nariz.

— Fique tranquilo, acho que sei até onde posso ir.

— Acha que sabe, vou fingir que acredito — Kael respondeu, dando de ombros. — A gente aprendeu cedo que sobreviver não é o mesmo que virar uma pedra.

Houve um silêncio breve.

Então Kael sorriu de novo.

— E não ouse morrer antes de a gente voltar. — Apontou para ele. — Se a expedição rolar antes de nos voltarmos é melhor não ir.

Kael subiu na carroça dando a mão a Aisha a ajudando a subir.

— Não vou — Ian respondeu. — Alguém precisa impedir vocês de fazerem besteira quando voltarem.

Aisha se aproximou de Ian.

— Você… — começou, e parou. Engoliu em seco. — Obrigada.

Ian inclinou a cabeça, como se entendesse.

— Volta inteira.

Ela assentiu.

Kael já se afastava quando Ian falou de novo:

— Kael.

— Hm?

— Me faz um favor?

— O que?

— Pode ensinar o seu estilo de luta para ela?

…

— Não, e você sabe muito bem o porque. Vou ajuda-la com o treino dela, mas apenas isso.

— Cuida dela.

Kael olhou para Aisha, depois de volta para Ian.

— Eu sei.

Pouco a pouco, as sombras os engoliram na rua que levava ao leste da cidade, ainda fechada para o dia.

Ian permaneceu ali.

A carruagem deixou Cervalhion para trás enquanto o céu ainda clareava. O som das rodas no caminho de terra era constante, quase hipnótico. Kael estava sentado ao lado de Aisha guiando a carroça, relaxado demais para alguém prestes a entrar em um território cheio de bestas.

Ele observava a estrada com calma.

— Então.. Me conta — disse, depois de um tempo. — Como você se tornou a aprendiz dele?

A pergunta veio simples.

Aisha piscou, pega de surpresa.

— É… uma longa história.

Kael sorriu, satisfeito.

— Ótimo. Temos pelo menos três dias de viagem. — Inclinou-se um pouco para trás. — Histórias longas são as melhores. As curtas geralmente são mentiras bem ensaiadas.

Ela soltou um riso curto, nervoso.

— Você sempre faz isso?

— O quê?

— Pergunta coisas importantes como se não fossem nada.

— Mas não perguntei nada demais — respondeu. — Mas agora eu fiquei realmente curioso.

Aisha desviou o olhar para a paisagem. Campos ainda cobertos de névoa passavam lentamente. Ela respirou fundo.

— Eu conheci Ian… em um desafio.

Kael assentiu brevemente.

— Ele apareceu no meio de algo que já tinha dado errado — ela continuou. — Eu não confiava nele. Ele não confiava em mim. — Um pequeno sorriso surgiu. — O padrão… eu acho.

— Você é péssima contando historias sabia? — Kael comentou.

— O que?

— Você é péssima contando historias — Ele olhou para ela. — Conta a história direito, por exemplo, você estava fugindo do que?

— Eu… — Ela respirou fundo enquanto ponderava — Eu estava fugindo do meu passado, me mandaram junto com um grupo para morrer fazendo o desafio de Ian.

— Desafio de Ian?

— É — Ela concordou de forma breve.

Kael ficou em silêncio por alguns segundos, apenas guiando a carroça.

— Desafio em três partes… — murmurou. — Com um sacrifício, imagino.

Aisha assentiu.

Um sorriso curto surgiu no canto da boca dele.

— Então é isso.

— Isso o quê? — ela perguntou.

— O velho teste. — Ele balançou a cabeça. — Nosso mestre fazia algo parecido. Não para medir força… mas caráter.

Aisha o olhou de lado.

— E funcionava?

— Funciona bem demais. — O sorriso desapareceu. — Principalmente para eliminar gente que só enxerga vantagem.

Ela respirou fundo.

— Ele me escondeu num pilar de gelo depois. Perguntou se eu queria voltar.

— E você?

— Disse que não.

Kael assentiu, satisfeito.

O silêncio voltou a se instalar.

Então Kael falou, casualmente demais:

— Tá. E antes disso… você vinha de onde?

Aisha apertou as mãos.

— Eu…

— Se não quiser falar, tudo bem — disse ele, sem tirar os olhos da estrada. — Mas já que começou… histórias mal contadas costumam pesar depois.

Ela fechou os olhos por um instante.

Quando falou, a voz saiu firme demais para ser ensaiada.

— Eu não sou daqui.

— Daqui onde?

— Desse continente

A carruagem seguiu em frente.

— Eu sou de fora… De fora da barreira.

Maelis subiu os degraus da Torre com o passo firme de quem já conhecia cada pedra daquele lugar. O nome era mais simbólico do que literal; a estrutura fazia parte do complexo da escola de magos de Cervalhion, um núcleo de ensino, pesquisa e seleção política disfarçada de academia.

— Mestra Maelis — cumprimentou um grupo de aprendizes ao vê-la passar.

— Boa tarde — respondeu, sem diminuir o ritmo.

Professores inclinaram a cabeça, alguns com respeito genuíno, outros nem tanto. Ela reconheceu todos com breves acenos, atravessando corredores de pedra clara marcados por inscrições arcanas e janelas altas que deixavam o sol da tarde entrar em faixas oblíquas.

Ao alcançar seu andar, empurrou a porta do escritório e entrou. Fechando a porta atrás de si.

O ambiente estava exatamente como deixara: mesa organizada, documentos empilhados, o cheiro leve de pergaminho e tinta. Maelis soltou o manto, acomodou-se na cadeira e puxou a pilha de papéis para perto. Seus dedos tocaram o primeiro relatório.

— Jurei que iria chegar mais tarde.

A voz soou atrás dela.

Maelis reagiu por instinto.

Virou-se já conjurando, o calor explodindo na palma da mão. Uma esfera de fogo rasgou o ar do escritório, rápida e precisa.

O dono da voz desviou com um passo curto. A chama passou onde sua cabeça estivera um segundo antes.

— Maelis—

Ela não ouviu.

Já avançava, reunindo mana para um segundo ataque. Antes que a conjuração se fechasse, ele cruzou a distância entre eles e segurou seu braço com força suficiente para interromper o fluxo, mas sem machucar.

— Calma.

Maelis tentou se soltar circulando a mana fazendo subir uma fumaça no local onde o homem a segurava, o olhar ainda duro, até que finalmente olhou.

O rosto, os olhos, a postura.

Era Ian.

Por um instante, uma confusão brotou em seus olhos. Depois, a tensão se reorganizou, não sumiu, apenas mudou de forma.

— Solta — disse ela, fria. — Agora.

Ele obedeceu, dando meio passo para trás, as mãos visíveis.

— Não vim te atacar.

— Entrar no meu escritório sem aviso costuma ser o primeiro passo de quem vem — respondeu ela, mantendo a guarda erguida.

Ian respirou fundo. Estava diferente do habitual. Usava uma blusa branca, simples, bem ajustada, e uma calça azul escura. Arrumado demais para uma emboscada.

— Eu só… — ele hesitou por um segundo, coisa rara — Pensei em te convidar pra tomar um café comigo.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Maelis não abaixou a mão. Não sorriu. Não respondeu de imediato.

— Como entrou aqui?

— Eu só perguntei onde poderia te encontrar — Ele abaixou as mãos — E uma moça de cabelo curto que estava no castelo, ficou empolgada em me ajudar e me trouxe até aqui.

— O que? — Ela franziu a testa claramente confusa — Quem?

— Não sei, ela falou tanto durante o caminho que nem consegui perguntar o nome, ela ficou de voltar e avisar quando você chegasse.

Nesse momento a porta do escritório vai se abrir.

— Senhor Guardião, acabei de ficar saben — Ela encarou Maelis, viu as marcas de fuligem na parede. — Bom dia Senhora Maelis..

— Foi ela — disse Ian, apontando com o queixo.

— Alexandra… — Maelis retomou a postura mas claramente irritada — Porque você trouxe ele aqui?

— Ué, vocês… — Ela olhou para Ian e depois para Maelis — não estão juntos?

— Não.

— É que… depois do baile, muita gente começou a comentar.— Ela fez um gesto vago com a mão. — Sobre a senhora… e o Guardião. E sobre o noivado com o príncipe herdeiro.

— O que?

— Bom… — Ian finalmente falou — Isso meio que era esperado, depois da dança.

— Pode sair, Alexandra — disse Maelis, num tom controlado demais para ser calmo. — E feche a porta.

Alexandra engoliu em seco, fez uma reverência apressada e saiu quase tropeçando no próprio manto. A porta se fechou com cuidado excessivo.

— Eu disse que só queria um café — Ian falou por fim. — Mas acho que já arrumei problemas suficientes para o dia.

Maelis soltou o ar devagar, como quem se recompõe. A fuligem na parede ainda fumegava levemente. Ela passou os dedos pelo pulso onde Ian a segurara, mais por hábito do que dor.

— Como está a sua mão? — perguntou, finalmente.

— Não se preocupe — respondeu ele. mostrando as mãos sem qualquer marca — Suas chamas são quentes, mas só isso.

Ela o encarou de novo.

— Só isso? como assim?

— Bom — Ele se aproximou dois passos — Posso explicar melhor no café.

— Mas nunca é só um café.

Maelis caminhou até a mesa, apoiou as mãos na madeira e inclinou levemente a cabeça, avaliando-o como avaliaria uma proposta política.

— Se isso é um pedido — disse — seja direto.

Ian sustentou o olhar.

— É um pedido.

— De quê?

— De alguns minutos fora dessas paredes. Sem cargos. Sem títulos.

Ela ficou em silêncio por um instante longo demais para ser casual.

— Um Café — disse por fim. — Um. Agradeço pela sua ajuda no baile, mas é melhor evitar repercussões indesejadas.

Um canto quase imperceptível da boca dele se moveu. Não chegou a ser um sorriso.

— Justo.

A porta bateu de novo.

— Entre — Maelis falou.

Alexia abriu a porta devagar, o rosto pálido demais para quem apenas atravessara um corredor.

— Mestra — disse, a voz falhando — o príncipe… o príncipe está na torre.

O silêncio voltou, mais pesado que antes.

— O que? Onde? — perguntou Maelis, fria.

— No átrio inferior. Ele… — Alexia hesitou — ele perguntou por você. Disse que deseja vê-la. Agora.

— Estranho…

Maelis fechou os olhos por meio segundo. Só isso.

Quando abriu, exibia um sorriso curto convencido.

— Diga que ele pode subir. — Falou olhando para Ian, que assentiu com a cabeça.

Alexia assentiu e saiu tão rápido quanto entrou.

— Entendo, nessa caso podemos rem—

— Você fica Ian, caso ainda queira tomar um café comigo. — cortou Maelis.

Ela saiu de trás da mesa, se aproximando de Ian.

— Só preciso de mais um favor Guardião…