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Capítulo 127 – “Culpados”

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Capítulo 127 – “Culpados”

A porta fechou atrás do último deles, abafando o som distante do palácio.

Por alguns segundos, ninguém falou.

A sala oval era sustentada por pilares de pedra abraçados por raízes grossas que desciam do teto e mergulhavam no chão. Um dos lados permanecia aberto, revelando o pátio interno contornado pelas raízes da Árvore-Mãe. A brisa da manhã atravessava o salão, mas não aliviava o peso no ar.

Os quatro rostos carregavam a mesma tensão.

O primeiro a quebrar o silêncio foi o homem de meia-idade sentado à mesa. Inclinado para frente, ele apoiava os braços sobre a madeira enquanto a mão direita segurava o coto onde deveria estar o punho esquerdo.

— Quero ouvir que os relatórios estão errados.

O homem alto de pele escura permaneceu de pé.

— Eu também gostaria — disse, percorrendo os outros com o olhar. — Mas não estão. Confirmei pessoalmente os sinais de mana. Não restou estrutura defensiva em Kharun… e Sal-Reth virou areia.

— Areia? — perguntou a única mulher da sala, inclinando levemente a cabeça.

— A guardiã não poupou energia. Houve luta intensa… e ela não estava sozinha.

O silêncio retornou.

— Tem certeza, Hassan? Quantos? — perguntou o homem sem a mão, endireitando-se.

— Absoluta. Parece que o motivo dela não ter nos atacado nas ultimas semana foi porque ela foi buscar ajuda…

— Droga.. tem alguma pista sobre qual reino esta ajudando ela?

— Não havia sinais de exército em Sal-Reth, Korven. Apenas combate direto. Sangue Rumbra misturado ao dos nossos soldados, raízes queimadas… e algo estranho. Em vários pontos da areia encontrei fragmentos de vidro um pouco maiores que o meu pé.

Korven franziu a testa.

— Um mago de fogo… Será um mercenário?

— Talvez — respondeu Hasan. — Mas não parecia algo comum porque em Kharun, tem sinais dos Rumbra ajudarem em larga escala, crateras de fogo arvores queimadas pedras que foram lançadas, mas em Sal-Reth não apenas esses sinais de luta.

— Conhece alguém capaz disso Emma? — Kroven perguntou se inclinando na direção da mulher.

Ela cruzou os braços.

— Alguém capaz disso exigiria dinheiro… e conexões.

— Ou loucura suficiente para nos atacar — murmurou Korven.

Um leve som de porcelana tocando o pires chamou a atenção de todos.

O quarto homem, até então em silêncio, pousou a xícara.

— Não acho que seja fogo.

A frase pairou no ar.

— Então o que foi? — perguntou Hasan.

— Raios.

Korven soltou um riso seco e se levantou.

— Fala serio Mael, não me diga que realmente acredita naquela besteira de ter mana de uma besta de raios.

— Anthemor é meu subordinado há anos. Confio no julgamento dele — respondeu Mael calmamente. — Não digo que seja uma besta de raios. Mas pode ser um mago… e isso não é o que mais me preocupa.

Emma o observou.

— O que, então?

— O Dinheiro.

Ela assentiu devagar.

— O impacto econômico será rápido. Mercadores perceberão o desaparecimento das remessas em dias.

— Em horas — corrigiu Korven.

Hasan finalmente se sentou.

— Eles ignoraram depósitos militares e rotas civis. Foram direto às instalações de produção. Sabiam exatamente o que atingir.

Emma apoiou as mãos na mesa.

— Então o que diremos ao rei?

— A verdade — respondeu Korven.

Mael balançou a cabeça.

— A verdade completa vai gerar mobilização. Mobilização gera medo. E o medo quebra o mercado antes mesmo do próximo ataque.

— E esconder a dimensão real faz o quê? — rebateu Emma. — Quando outra fortaleza cair, pareceremos incompetentes.

Mael falou mais baixo:

— Não acho que o próximo alvo sejam fortalezas.

Os três o encararam.

— Se quisessem continuar o padrão, teriam atacado outras bases no mesmo dia. Não fizeram.

Korven franziu o cenho.

— Então?

Mael sustentou o olhar dele.

— Estavam abrindo caminho.

O silêncio voltou, mais pesado.

Hasan apoiou os dedos na mesa.

— Precisamos enviar uma mensagem conjunta. Sem disputa política desta vez.

Emma assentiu.

— Relato direto.

— E recomendação de reforço imediato das capitais regionais — acrescentou Korven.

— Especialmente aqui — completou Mael.

Emma puxou um pergaminho.

— Você realmente acredita que virão até aqui? nossa capital?

— Acredito que escolherão o lugar menos óbvio — respondeu Mael. — E todos estarão ocupados protegendo os lugares errados.

Korven levantou-se.

— Então escrevam. Os quatro nomes na carta.

Emma selou o pergaminho com cera ainda quente.

Korven observou o selo endurecer.

— Quando essa carta chegar a Cervalhion… o rei vai querer respostas que não temos.

Ninguém contestou.

Emma apoiou o selo sobre a mesa.

— Então é melhor começarmos a encontrá-las antes que ele pergunte.

O refúgio estava muito diferente desde a última vez que Thamir e Naira o deixaram.

Os refugiados Rum’brath haviam ampliado a clareira, abrindo espaço para os recém-chegados e transformando o pequeno esconderijo em um assentamento vivo.

Vert caminhou com dificuldade até o centro, apoiando-se em um cajado curto de madeira viva que crescia lentamente ao redor de sua mão. A perna ainda não havia se recuperado completamente.

Quase quatrocentos haviam sido libertados.

Alguns ainda tremiam após anos de drenagem constante. Outros simplesmente pararam ao chegar, afundaram os pés no solo e permaneceram imóveis, absorvendo a mana da terra como quem voltava a respirar depois de muito tempo submerso.

Vert observou em silêncio.

Anos de luta… e, pela primeira vez, um resultado que podia ser visto.

Seu olhar seguiu o Filho do Trovão e Sangue Livre entrando em um dos abrigos improvisados.

O abrigo estava silencioso, exceto pelo som suave da floresta respirando ao redor.

Raízes grossas formavam paredes naturais, e pequenos pontos de luz verde atravessavam o teto vivo, espalhando um brilho tênue pelo interior.

Thamir permaneceu de pé por alguns segundos, braços cruzados, observando o lugar.

Naira percebeu.

— O que foi?

— Temos que ir logo até a capital.

Ela franziu o cenho.

— Do que você está falando? Acabamos de destruir a principal artéria de Elandor. Eles vão entrar em alerta máximo. Precisamos esperar o primeiro movimento deles.

— Vamos perder tempo aqui.

— Thamir… senta ai.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso é uma ordem?

— Ainda não.

Um pequeno sorriso torto surgiu no canto da boca dele.

— Olha só… achei que a mandona tinha tirado férias.

Mesmo assim, sentou-se sobre uma raiz, apoiando os antebraços nos joelhos.

O silêncio durou poucos segundos.

— Você está estranho — disse Naira.

— Jura?

— Não desse jeito.

Ele não respondeu de imediato. Apenas olhou para o chão por um instante antes de encará-la outra vez, firme demais para alguém exausto.

— Não podemos arrastar isso.

— Você quase desmaiou há menos de uma hora.

— Estou bem.

— Não está.

Thamir soltou um sopro curto.

— Realmente quer dar tempo para eles reorganizarem rotas? Esconderem laboratórios? Moverem prisioneiros?

— Eu sei que não é o ideal — respondeu Naira com calma. — O que eu não sei é por que você está agindo como se fosse a sua primeira guerra.

Silêncio.

— Eu só quero terminar isso logo.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Porque tanta pressa?

A mandíbula dele se contraiu.

— Por favor, não me diga que isso tem a ver com Elenys — disse ela, sem rodeios. — Sei muito bem que você não iria agir assim.

Ele não desviou o olhar. Também não respondeu.

— Você nunca foi imprudente assim — continuou ela. — Impulsivo às vezes, irritante quase sempre… mas não assim.

— Acho que só estou ficando velho.

Thamir apoiou as mãos nos joelhos enquanto olhava para os refugiados, que buscavam locais para descansar. Naira seguiu o olhar dele, e um vislumbre de compreensão passou por seus olhos.

— Isso é culpa?

O silêncio pesou.

— Você ainda acha que podia ter feito algo diferente?

Nenhuma resposta.

Naira respirou fundo.

— Não foi culpa sua.

— É isso que você diz a si mesma também? — perguntou ele, calmo demais.

Ela sustentou o olhar.

— É o que eu sei.

— Não é… e você sabe. Eu lembro de cada escolha. Cada vez que decidimos esperar mais um pouco. Enquanto ele enlouquecia… esperar mais um pouco. Deixar se recuperar mais um pouco. — Os dedos dele se fecharam lentamente. — E no fim… não fizemos nada quando ele agiu.

— Então vamos dizer que eu não pretendo mais esperar quando aparecer uma janela.

Naira o observou por alguns segundos.

— Eu entendo, Thamir. De verdade.

— Mas se você lutar tentando compensar o passado… não vai proteger ninguém. Só vai morrer mais cedo do que precisa.

O vento atravessou as folhas acima do abrigo, espalhando sombras móveis sobre os dois.

— Não precisamos que você se puna — disse ela. — Precisamos que você continue vivo. No fim das contas… só restamos nós quatro.