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Capítulo 130 – Caça vs Caçador

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Capítulo 130 – Caça vs Caçador

— Não deixa ela falar contigo.

Lucas cuspiu as palavras entre os dentes, a voz rouca e baixa.

— Só… fica quieto.

Kael se abaixou e segurou Lucas pelo braço, erguendo-o com cuidado. O peso do homem caiu sobre o ombro dele assim que ficou de pé.

Lucas gemeu.

Um som curto, involuntário.

Logo depois veio a tosse.

Sangue escuro respingou na terra.

Kael olhou para o lado do corpo dele.

A lateral direita do peito estava afundada, as costelas formando um arco estranho sob a pele ensanguentada.

— Ela quebrou suas costelas? — perguntou, analisando o ferimento.

Lucas balançou a cabeça devagar, respirando com dificuldade.

— Não… — ele engoliu ar entre os dentes. — Tem outra besta com ela.

Kael franziu a testa.

— Outra?

— Grande… — Lucas murmurou. — Muitas bocas… parece… uma cauda. Ela protegeu a cobra quando fomos atacar.

Kael parou.

— Fomos?

Ele virou levemente o rosto.

— Você foi atrás dela com quem?

Mas a pergunta morreu antes de terminar.

O ambiente mudou.

Não foi um som.

Não foi movimento.

Foi a mana.

Uma ondulação suave atravessou o ar, como calor subindo de uma pedra aquecida pelo sol.

Kael parou imediatamente, segurando Lucas com mais firmeza.

— O-o que foi? — Lucas sussurrou.

— Quieto…

Kael não se virou de imediato.

Primeiro observou.

Entre os troncos da mata havia algo errado com a luz.

Um trecho onde as folhas pareciam desalinhadas, como se fossem vistas através de vidro irregular.

Lucas percebeu no mesmo instante.

A respiração dele falhou.

— …é ela.

Kael girou o corpo lentamente, ainda sustentando Lucas.

Entre as árvores, a silhueta translúcida se moveu.

Não caminhava.

Deslizava.

A distorção avançou alguns centímetros.

E então parou.

Observando.

Kael abaixou Lucas devagar até o chão.

A lança já estava na mão quando ele se levantou novamente.

Os olhos não saíram da figura.

Então a voz veio.

— Kael…

A voz era de Lucas.

Perfeita.

Lucas agarrou o braço de Kael com força.

— Não responde…

A distorção vibrou no ar.

E então se desfez.

A criatura se revelou entre as árvores.

Da cintura para cima, uma mulher.

Pele oliva iluminada pela luz morrendo do entardecer.

Cabelos negros escorrendo lisos até a cintura.

Olhos amarelos, brilhando com curiosidade.

Da cintura para baixo, o corpo de uma serpente de escamas verde-escuras se enrolava preguiçosamente entre raízes e folhas secas.

Adornos tribais de couro e pequenos ossos balançavam nos ombros e braços.

Nada pesado.

Nada que impedisse movimento.

Ela observava Kael.

E sorria.

Não era um sorriso de fome.

Era interesse.

Como alguém diante de algo raro.

Então a voz mudou.

Frágil.

Trêmula.

— …mãe…

Kael ficou imóvel.

— …Kael…

A respiração que acompanhava a voz era irregular.

Ofegante.

— …tá doendo…

Lucas rosnou baixo.

— Desgraçada…

— Calma — Kael murmurou, a mana já circulando pelo corpo.

Lucas engoliu em seco.

— Mas… é a voz da Mira.

— Eu sei.

A voz continuou.

Perfeita demais.

O choro contido.

A respiração quebrada.

— …pai…

Kael não reagiu.

A Lâmia observava cada detalhe do rosto dele.

Então falou novamente, agora com a própria voz.

Suave.

Quase gentil.

— Você é diferente.

Ela inclinou a cabeça, analisando-o.

— Os outros quebraram mais rápido.

Kael ajustou a postura.

A ponta da lança baixou alguns centímetros.

Não por relaxamento.

Por cálculo.

A serpente sorriu.

— Vai me atacar?

Ela inclinou o rosto, curiosa.

— Então tente.

Kael respirou fundo.

A mana percorreu o braço.

A ponta da lança começou a brilhar em vermelho.

O ar ao redor dela tremulou com o calor crescente.

— Você que atacou eles? — perguntou.

A Lâmia pareceu pensar por um instante.

Como se realmente estivesse tentando lembrar.

— Eu?… Talvez.

Lucas prendeu a respiração.

Kael deu meio passo à frente.

— É bom se lembrar. Pelo menos precisa saber por que vou te matar.

Nesse instante Lucas agarrou o braço dele.

Forte.

— Kael… não.

A voz saiu quase sem ar.

— Tem outro.

O mundo pareceu ficar quieto por um segundo.

Kael olhou novamente para o ferimento de Lucas.

Profundo.

Rasgado.

Não era marca de serpente.

A Lâmia voltou a sorrir.

Agora mais largo.

Divertido.

— Viu?

Ela olhou diretamente para Kael.

— Eu disse que você era diferente.

O sorriso começou a desaparecer enquanto o corpo dela se dissolvia outra vez na distorção de mana.

— Vou gostar dessa caçada.

O corpo serpentino deslizou para trás entre as árvores.

Sem pressa.

Sem medo.

A ondulação no ar voltou a engolir sua forma.

E poucos segundos depois restava apenas a floresta.

Silenciosa.

Como se ela nunca tivesse estado ali.

Kael esperou alguns segundos sem se mover, os olhos varrendo lentamente as árvores. O sol já estava baixo o suficiente para que a mata começasse a se encher de sombras longas, e entre os troncos a luz do entardecer parecia mais fraca, mais espessa.

Nada se mexia.

Nenhum som.

Nem mesmo o canto dos pássaros retornando para os ninhos comuns da região.

Só o vento passando pelas folhas.

Ele finalmente se abaixou e segurou Lucas novamente.

Quando o ergueu, o homem soltou um gemido abafado.

— Devagar… — Lucas murmurou entre os dentes.

Kael passou o braço dele por cima do próprio ombro e começou a caminhar pela estrada de terra, de volta para a vila.

Os passos eram lentos.

Controlados.

A lança continuava firme na mão direita.

Ele não olhava apenas para frente.

O olhar se movia o tempo todo.

Troncos.

Arbustos.

Copas.

Sombras.

Cada espaço onde algo poderia estar escondido.

Lucas respirava com dificuldade.

— Desculpa… — ele murmurou.

Kael não respondeu de imediato.

— Eu falhei em proteger os outros.

— Fica quieto. Não foi sua culpa.

Lucas apertou os olhos, respirando com dificuldade.

— Você deixou eles sob minha proteção e…

Kael virou o rosto para ele por um instante.

— Garoto.

A voz saiu firme.

— Eu também não estava aqui para proteger vocês. Então para de se culpar e me ajuda a entender como tanta gente sumiu… e quase não há sinal de luta.

Um estalo seco de galho quebrando interrompeu os dois.

Kael parou.

Os olhos se moveram imediatamente para a linha da floresta.

Lucas prendeu a respiração.

O silêncio voltou.

Pesado.

— Ela… ainda tá aí… — Lucas murmurou.

— Eu sei.

Kael retomou a caminhada.

Mas não acelerou.

Predadores perseguem presas que correm.

Ele não iria correr.

O caminho parecia mais longo agora.

A estrada serpenteava entre árvores antigas cujas raízes levantavam o chão em ondulações irregulares. A luz dourada do entardecer começava a desaparecer, tornando-se lentamente azulada à medida que o sol desaparecia atrás da floresta.

Lucas tossiu novamente.

Desta vez o sangue veio mais escuro.

— Aquela coisa… — Kael sussurrou. — A outra Besta… você a viu certo? Como ela era?

— Não muito bem.

Kael manteve os olhos na estrada.

— Ela veio de baixo da terra — Lucas continuou, a voz fraca. — Tinha… o que pareciam quatro cabeças… mas ela me acertou com a cauda.

Ele respirou fundo antes de continuar.

— Lembro de ver o Roger cortando uma das cabeças… mas ela pareceu não ligar.

Kael parou.

Por apenas um segundo.

O olhar desceu até o chão da estrada.

Terra batida.

Pedras.

Folhas secas.

— Não conheço nenhuma besta assim.

A sensação voltou.

A mesma que ele sentira antes.

Uma curta oscilação.

Como se algo os observasse de algum ponto da mata.

Kael virou o rosto lentamente para a direita.

Depois para a esquerda.

Nada.

— Kael… — Lucas murmurou.

— Continua andando.

Os dois seguiram.

A vila já começava a aparecer entre as árvores. Algumas casas de madeira surgiam na distância, suas janelas escuras como olhos vazios.

Mas a sensação não foi embora.

Ela ficou.

Colada na nuca de Kael como uma respiração fria.

Ele parou novamente.

Desta vez de forma mais brusca.

Lucas percebeu.

— O que foi?

Kael não respondeu de imediato.

Os olhos estavam fixos na linha da floresta atrás deles.

Alguma coisa tinha se movido.

Ou talvez fosse apenas o vento.

Mas o instinto dele não aceitava aquela resposta.

A mão apertou a lança.

A mana começou a circular lentamente pelo braço.

Silêncio.

Depois de alguns segundos, Kael voltou a andar.

Mas agora mais rápido.

Eles já estavam na vila.

E ainda assim…

O desconforto continuava.