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Capítulo 152 – Sem Margem IV

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Capítulo 152 – Sem Margem IV

Ian não levantou.

O corpo tentou.

Não respondeu.

A mão direita ainda fechada ao redor do cabo da espada quebrada. A esquerda havia parado de ser dele alguns minutos atrás — só sangue escorrendo pelo antebraço, pingando na pedra em cadência que ele conseguia ouvir mas não conseguia parar.

Dan veio andando.

Sem pressa.

O martelo pendendo no lado como coisa esquecida.

Parou a dois passos.

Olhou de cima para baixo com a expressão de quem está tentando entender alguma coisa.

— Então é isso?

Ian não respondeu.

Dan chutou.

O impacto jogou o corpo metros para trás, as costas batendo contra o que restava da carroça virada, a madeira cedendo com o peso. O ar saiu seco dos pulmões de uma vez, enquanto a espada finalmente se desprendia do braço com o impacto.

Ian tentou puxar o ar de volta enquanto forçava a mana a estancar o ferimento.

Veio pouco, apenas o suficiente para reduzir.

— O grande Guardião…

Outro chute. Barriga dessa vez.

O conteúdo do estômago subiu. O corpo falhou na hora de segurar.

— …morre assim?

A frase saiu cortada por um riso curto.

Mais um chute. Costelas.

Algo cedeu com um som que Ian sentiu antes de ouvir. Seco, interno, ele registrou antes do cérebro processar a dor.

Dan inclinou a cabeça.

— Em cima do próprio vômito.

Ian tossiu.

Sangue veio junto.

Dan ficou olhando para isso por um segundo.

Depois continuou.

— E as tuas garotas?

Silêncio.

Mais um chute.

O corpo já não acompanhava o impacto direito — só deslocava, rolava, parava onde a física decidia.

— Aquela do gelo…

Outro.

— …já deve estar no chão.

Mais forte.

Ian tentou levantar o tronco.

Não conseguiu.

— A Arquimaga?

Dan pausou.

Depois chutou de novo com força que Ian sentiu nos dentes.

— Deve ter gritado bonito.

Eldrik deu um passo à frente.

— Chega.

Aedin estendeu o braço sem olhar para ele.

— Ainda não.

Dan sorriu.

Mais aberto.

— Tá vendo?

Ele chutou de novo.

Lateral da cabeça dessa vez.

O mundo não virou de uma vez.

Virou devagar — o chão subindo pelo lado errado, os sons chegando de ângulos que não faziam sentido, a pedra da rua aparecendo onde o céu deveria estar antes de tudo parar de se mover e ficar desalinhado.

Ian ficou olhando para o chão perto do rosto.

Para uma rachadura na pedra.

Fina.

Longa.

Irrelevante.

O cérebro ficou nela por um segundo porque era a única coisa no campo de visão que não estava se movendo.

Depois o barulho voltou.

Passos.

A voz de Dan chegando de longe mesmo estando perto.

— Nem ele acha que você vale terminar rápido.

Ian não respondeu.

Os olhos meio abertos.

Sem foco completo.

O chão frio contra a bochecha.

O gosto de ferro constante, espesso, chegando de algum lugar acima da garganta que ele não tinha mais condições de identificar.

O sangue do antebraço pingando na pedra ao lado do rosto em cadência regular.

lento, mas regular.

Ele ouvia tudo.

Processava em partes.

A mana não vinha.

Tentou.

Veio irregular, insuficiente, dissipando antes de chegar a qualquer forma.

Kenzaru.

O pensamento apareceu.

Desapareceu.

Não.

Dan percebeu que ele havia parado de tentar levantar.

— Ah….

Levantou a perna devagar.

Encostou a sola da bota na testa de Ian.

Sem peso.

Só marcando.

— Já desistiu?

Ian não respondeu.

Não porque não queria.

Porque a resposta que tinha não ia sair da forma que deveria e ia gastar o que não tinha para gastar.

Ficou quieto.

Os sons ao fundo começaram a mudar.

Metal.

Passos.

Vozes chegando de direção que não era nenhuma das que havia sido antes.

Aedin ouviu primeiro.

O olhar mudou — pequeno, preciso, o tipo de ajuste que não precisa de gesto.

— Acabou.

Dan tirou a sola da testa de Ian.

— Agora?

Aedin já estava se movendo.

Passo firme.

Direto.

Sem pressa.

Sem raiva.

O machado subiu no segundo passo.

Ian não tentou se mexer.

Os olhos encontraram o machado subindo.

O braço esquerdo no chão ao lado, imóvel, a lâmina de Eldrik estava caída ao lado, e após os impactos de Dan o sangramento havia retornado.

O campo de visão piscou.

Escureceu em uma gradação.

Voltou.

Aedin deu o último passo.

O machado alinhou.

Ian ficou olhando para ele.

Não para o machado.

Para Aedin.

Para o rosto dele — firme, com um toque de raiva. Só resolução. O tipo de expressão que aparece em pessoas que acreditam completamente no que estão fazendo.

Ian soltou o ar devagar.

Não foi decisão.

O corpo simplesmente liberou o que ele havia estado segurando sem que ele percebesse — tensão nos ombros que havia durado decadas, pressão no peito que havia chegado a tempo suficiente para ele não se lembrar quando havia iniciado e nunca saído completamente, a contração constante dos músculos que insistiam em estar prontos para o próximo movimento mesmo quando não havia necessidade.

Tudo foi embora de uma vez.

O corpo afundou mais um centímetro contra a pedra.

O frio do chão chegou diferente.

Mais presente.

Como se a pedra tivesse estado lá o tempo inteiro esperando ele parar de resistir para poder ser sentida completamente.

Não havia mais nada para fazer com o que tinha.

O braço esquerdo no chão, imóvel.

O direito sem força suficiente para erguer o que restava da espada.

O joelho que não ia responder mesmo se o resto respondesse.

A mana que chegava em fragmentos inúteis, dissipando antes de chegar a qualquer forma.

Ian fechou os olhos.

A mana ambiente respondeu.

Não porque ele pediu.

Porque sentiu.

Uma velha pontada fria no coração.

O ar ao redor ficou mais pesado — não vento, não pressão direcional, só densidade aumentando de uma vez, como se o espaço ao redor do corpo dele tivesse engrossado. A pedra sob as palmas pareceu mais próxima. Os destroços ao redor pareceram afundar levemente nos próprios lugares.

Como se a gravidade tivesse aumentado um grau.

Pequeno.

Desconectado.

Sem controle suficiente para ser arma ou escudo.

Só a mana reagindo ao que o corpo não estava mais tentando esconder.

Um Caçador na borda do campo recuou meio passo sem entender por quê.

Dan ficou parado.

Os olhos varreram o ar ao redor de Ian analisando a variação de mana e a bolha de magia instável que se formava ao redor de Ian.

Ele havia sentido aquilo antes.

Não igual.

Mas parecido.

Em pessoas que estavam prestes a fazer algo que não havia volta.

— O que é isso? — Eldrik perguntou dando um passo a trás.

Dan apoiou o martelo no ombro.

— Isso, é a habilidade dos Kenzaru.

A expressão dele mudou por um segundo.

Não voltou ao sorriso.

— É bom acabar logo com ele Aedin… parece que esse rato ainda tem truques.

Aedin não parou.

O machado começou a descer.

Dan se moveu.

Não para frente.

Para o lado.

— Sai!

O braço fechou ao redor de Aedin e puxou com força que arrancou o rei da linha do golpe antes que completasse.

A lança caiu.

Negra.

Rasgando o ar onde Aedin havia estado meio segundo antes.

Cravou na pedra.

O impacto subiu pelo chão em vibração que Ian sentiu pela bochecha, pelo ombro, pelas costelas — misturando com o tremor irregular que já estava lá.

A poeira levantou.

Densa.

Fechando o campo de visão por um segundo.

Quando abriu, havia uma silhueta no meio dela.

Ian não conseguiu focar completamente.

Mas viu o suficiente.

Alguém havia chegado.