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Capítulo 164 – “O Administrador do Leste”.

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Capítulo 164 – “O Administrador do Leste”.

A sala de conferências dos fundos do Salão de Vidro era menor do que muitos esperavam.

O teto continuava alto, sustentado por paredes de rocha esculpida, o vidro servia menos para beleza e mais para iluminação.

O ambiente obrigava proximidade.

Sem música.

Sem dança.

Nem distrações.

Só luz do grande lustre atravessando os painéis superiores e refletindo sobre a mesa longa no centro da sala.

Os comerciantes começaram a ocupar os lugares lentamente.

Ninguém conversava alto agora.

Lorde Seridan foi um dos primeiros a sentar, ajustando o casaco com irritação visível enquanto observava os guardas tomando posição próximos das portas.

— Isso parece menos uma reunião e mais um interrogatório.

— Se fosse interrogatório você já teria respondido alguma coisa útil — rebateu outro comerciante enquanto puxava a cadeira ao lado.

Seridan bufou.

Mais à frente, representantes regionais discutiam em voz baixa sobre caravanas desaparecidas e aumento no preço das especiarias.

— Até o sal triplicou o valor.

— Sal não é o problema.

— Até faltar.

Um homem mais velho apoiou ambas as mãos na mesa.

— As poções estão começando a ser racionadas.

Os olhares começaram a se mover entre os alquimistas presentes quase automaticamente.

Nenhum deles pareceu confortável.

Varyn permaneceu de pé enquanto os guardas fechavam as portas da sala.

O som do mecanismo travando ecoou mais alto do que deveria.

Acima deles, escondido entre as estruturas do teto, Maek ajustou discretamente a posição.

A mulher encapuzada do outro lado não se moveu.

Abaixo, Varyn percorreu a mesa com os olhos antes de falar.

— Vou evitar desperdiçar tempo suavizando a situação.

Bom começo.

Maek quase sorriu.

— As cidades de Lethar e Orvin não conseguirão voltar a produzir seiva refinada em escala suficiente pelos próximos meses.

O silêncio ficou mais pesado imediatamente.

Um comerciante franziu a testa.

— Meses?

— Se tivermos sorte.

Outro interrompeu rápido demais:

— Isso é impossível. Os estoques—

— Foram destruídos ou sabotados.

Agora veio o silêncio real.

Algumas pessoas trocaram olhares imediatos.

Outras simplesmente congelaram.

Varyn continuou antes que o choque virasse interrupção.

— As rotas para o deserto também estão comprometidas. Perdemos acesso às caravanas de especiarias orientais.

— Isso é temporário — rebateu alguém no fundo.

— Não é.

A resposta veio seca.

Sem irritação.

— Sem acesso aos compostos do deserto, a produção das poções não consegue mais operar normalmente.

Uma mulher à esquerda da mesa ergueu a cabeça devagar.

— Temos reservas.

Mael respondeu dessa vez.

— Tínhamos.

A palavra caiu limpa no centro da sala.

— Os estoques de emergência já começaram a ser utilizados e já estamos próximos a metade do estoque.

Ele caminhou lentamente ao redor da mesa enquanto falava.

Sem papel, relatório ou consultar números.

Como alguém que já havia calculado tudo há muito tempo.

Alguns comerciantes começaram a entender antes dos outros.

E ficaram visivelmente pálidos.

— Sem as caravanas do deserto — continuou Mael —, manter os Rumbra escravizados deixou de ser economicamente sustentável.

A sala explodiu em vozes ao mesmo tempo.

— Isso é absurdo—

— Não podemos simplesmente interromper a produção—

— Os contratos com o deserto—

— Os nômades já realizaram o pagamento—

Essa última frase foi suficiente.

Varyn voltou os olhos para o homem que havia falado.

— Exatamente.

Silêncio outra vez.

Mais duro agora.

— Estamos em dívida com o líder das caravanas orientais.

Ninguém respondeu imediatamente.

Porque todos ali entendiam o significado.

Dívida comercial normalmente era negociável, mas uma dívida com os nômades do deserto era outra coisa.

Acima da estrutura metálica, Maek observou a mudança gradual do ambiente abaixo.

Agora sim, lá estava ele. O Pânico real se formando, o inicio da luta pela sobrevivência.

Do outro lado do parapeito, a mulher encapuzada também parecia mais atenta agora.

Não reagiu às perdas.

Nem às poções.

Mas reagiu à palavra:

dívida.

Interessante.

Varyn apoiou lentamente as mãos sobre a mesa.

E então falou a pior parte.

— Temos uma alternativa.

Ninguém gostou do tom antes mesmo da frase terminar.

— Cervalhion.

Agora vieram as reações.

Imediatas.

— Isso é insanidade.

— Eles ainda possuem o maior contingente militar do continente—

— Acabaram de sobreviver a um conflito com Altheria—

— E pretendemos iniciar outro?

— Não iniciar — corrigiu Varyn calmamente. — Encerrar rápido.

Os olhares se voltaram para ele.

Finalmente atentos de verdade.

— As terras férteis do sul de Cervalhion resolveriam nossa crise alimentar imediatamente. As reservas minerais quitariam a dívida oriental. E o reino ainda está fragilizado pelas bestas e pelo conflito recente.

— Fragilizado não significa indefeso — rebateu Seridan.

— Não. — Varyn sustentou o olhar dele. — Mas significa vulnerável.

A palavra ficou na sala.

Perigosa.

E pela primeira vez naquela noite, Mael sorriu.

O sorriso de Mael não foi grande.

O que tornou pior.

Porque não parecia entusiasmo.

Parecia reconhecimento.

Finalmente.

Ele apoiou uma das mãos na cadeira vazia mais próxima enquanto observava os comerciantes discutindo ao mesmo tempo.

— Que curioso.

A frase não foi dita alto.

Mesmo assim a sala começou a silenciar aos poucos.

Não por autoridade.

Por hábito.

Todos ali conheciam aquele tom.

O tom que o Administrador do Leste usava quando havia chegado em uma conclusão.

Varyn não interferiu.

Só observou.

— Isso ainda soa como um jogo para você?

— Um jogo? — Mael caminhou lentamente até uma das extremidades da mesa. — Eu jamais jogaria com as vidas de pessoas tão respeitadas…

— Então qual o motivo do sorriso? — Lorde Seridan perguntou arrumando as roupas.

— Apenas me ocorreu… e se os ataques nunca foram para causar uma destruição direta.

Ninguém respondeu.

— Sal-reth, Kharun, Lethar e Orvin. As caravanas orientais. — Ele ergueu um dedo a cada nome. — Nenhum dos alvos tinha valor simbólico relevante.

— Tinham valor econômico — rebateu Seridan.

— Exatamente.

Mael sorriu um pouco mais.

Agora interessado de verdade.

— Quem fez isso entende da nossa cadeia logística. Entende a produção. Entende tempo de resposta do reino.

A sala ficou quieta outra vez.

Acima deles, Maek diminuiu lentamente a respiração.

A mulher encapuzada permaneceu imóvel.

— Primeiro destruíram nossa capacidade de produção. Depois nossas rotas de estabilização. — Mael inclinou levemente a cabeça. — Então criaram pressão suficiente para forçar centralização militar.

Os comerciantes começaram a trocar olhares.

Agora acompanhando o raciocínio.

— Não fomos atacados porque estávamos vulneráveis — continuou ele calmamente. — Ficamos vulneráveis porque fomos atacados nos pontos internos corretos.

O silêncio ficou mais pesado.

Hassan um dos administradores franziu a testa.

— O que exatamente isso muda?

— Meu amigo.. — Mael abriu as mãos com um sorriso curto — Isso muda tudo.

A resposta veio imediata.

Mael ergueu os olhos lentamente para o teto translúcido acima da sala de forma breve.

— Porque significa que os ataques não eram o objetivo final.

Agora até Varyn parecia observá-lo com mais atenção.

— Eles forçaram movimentação.

A palavra atravessou a mesa devagar.

— As fortalezas atacadas obrigaram dispersão das tropas. As caravanas destruídas forçaram resposta comercial. O colapso das poções criou pânico econômico.

Ele apoiou ambas as mãos na mesa.

— E pânico centraliza poder.

Ninguém interrompeu dessa vez.

Porque agora todos estavam entendendo junto com ele.

Devagar.

Da pior maneira possível.

Mael olhou ao redor da mesa.

— Digam-me. Quantas vezes nesta década reunimos simultaneamente:

administradores regionais, representantes militares, comerciantes principais e a família real… dentro da mesma estrutura?

Ninguém respondeu.

Não precisavam.

A resposta era óbvia.

Quase nunca.

E então Mael sorriu de verdade.

Pequeno.

Genuíno.

Finalmente interessante.

— Ah.

A sala inteira ficou imóvel.

— Não fomos apenas atacados. — O olhar dele percorreu lentamente o ambiente. — Fomos conduzidos.

Acima da estrutura metálica, Maek sentiu o próprio corpo ficar mais rígido sem perceber.

Do outro lado do parapeito, a mulher encapuzada moveu os dedos levemente pela primeira vez.

Tensão.

Ela também entendeu.

— Quem fez isso queria exatamente esta reunião — continuou Mael. — Com exatamente essas pessoas.

O comerciante mais ao fundo se levantou de forma abrupta.

— Mas quem nos convidou foi você!

Uma onda de desconforto atravessou a mesa imediatamente.

— Meu amigo, não se preocupe — Mael passou a mão nos cabelos — Não tenho interesse em desestabilizar esse reino, apenas ofereci uma isca.

Alguns comerciantes olharam para as portas.

Outros para os guardas.

Um homem levantou da cadeira rápido demais.

— Você está dizendo que há um infiltrado aqui?

Mael inclinou levemente a cabeça.

— Estou dizendo que seria extremamente decepcionante se não houvesse.

Silêncio.

Então ele olhou para cima.

Não diretamente para o lustre.

Perto demais dele.

O suficiente.

Maek não se moveu.

Nem a mulher.

Mas ambos entenderam ao mesmo tempo.

Armadilha.

Mael levantou lentamente a taça que havia trazido consigo desde o salão principal.

— Afinal… — disse ele calmamente — seria desperdício preparar o salão inteiro e um assento com tão boa visão e não receber os convidados.

Então estalou os dedos.

E a runa escondida no centro do lustre principal acendeu.

A luz surgiu primeiro fraca.

Só um brilho azul atravessando as linhas metálicas do lustre acima da mesa principal.

Uma fração de segundo de silêncio absoluto percorreu a sala.

Confusão antes do medo.

Então as runas acenderam completamente.

A eletricidade explodiu pelo teto da estrutura inteira do Salão de Vidro.

O som veio junto da luz.

Um estalo brutal atravessando metal, vidro e ar ao mesmo tempo.

Os comerciantes gritaram.

Cadeiras caíram.

Taças estilhaçaram.

Guardas ergueram as armas.

Acima da estrutura metálica, a descarga atravessou o parapeito inteiro como uma onda azul violenta.

A mulher encapuzada perdeu o corpo imediatamente.

Nem chegou a reagir.

O choque atravessou o manto e lançou ela contra a estrutura estreita do teto antes do corpo despencar parcialmente sobre o parapeito em convulsão.

Mas Maek não caiu.

A energia atingiu ele também.

Percorreu as vigas.

Subiu pela estrutura.

Invadiu o metal sob sua mão.

E então simplesmente morreu.

Abaixo deles, parte do lustre principal se rompeu.

As correntes explodiram em faíscas quando a estrutura gigantesca despencou direto contra o centro da mesa de conferências.

Vidro estourou.

Madeira rachou.

Os comerciantes se jogaram para trás enquanto guardas avançavam instintivamente para proteger Varyn.

O lustre atingiu o centro da sala com violência suficiente para destruir metade da mesa.

Mas não havia ninguém nele.

O silêncio seguinte durou menos de dois segundos.

— ACIMA! — alguém gritou.

Guardas levantaram os olhos imediatamente.

Tarde demais.

Tudo o que conseguiram ver foi Maek desaparecendo entre as vigas enquanto carregava a mulher desacordada. Passando por cima da estrutura metálica sem hesitação enquanto alarmes rúnicos começavam a acender pelas paredes inferiores do salão.

Agora o castelo inteiro estava acordando.

A voz de Mael veio lá de baixo.

Calma.

— Fechem o distrito interno.

Maek atravessou a última viga e mergulhou pela abertura lateral da manutenção segundos antes de dois guardas alcançarem a estrutura superior.

Passos.

Gritos.

Ordens.

O castelo explodia em movimento atrás dele.

Então veio o frio da noite.

Os telhados de Elandor surgiram sob os pés dele enquanto saltava para a construção vizinha carregando a mulher inconsciente nos braços.

Leve demais para equipamento militar.

Não era uma guarda.

Bom saber.

Runas de alerta começaram a acender em torres distantes enquanto patrulhas inferiores recebiam ordens aos gritos.

— Setor norte!

— Fechem os acessos do mercado!

— Procurar dois suspeitos!

Dois?

Maek quase riu.

Então Mael havia percebido ela também.

Interessante.

Ele atravessou os telhados rápido.

Sem linha reta.

Sem padrão.

Mudando altura, direção e ritmo constantemente enquanto Elandor despertava abaixo deles.

E só reduziu velocidade quando alcançou a região comercial externa, onde o excesso de construções e toldos transformava perseguição organizada em caos.

Uma pequena porta lateral abriu antes mesmo que ele batesse.

Naira.

Ela puxou os dois para dentro imediatamente enquanto Maek fechava a entrada atrás deles.

O interior cheirava a ervas secas, tecido velho e fumaça.

Seguro o suficiente.

Por enquanto.

A mulher encapuzada ainda estava inconsciente quando Naira a imobilizou no chão por reflexo antes mesmo de perguntar qualquer coisa.

Maek começou a retirar a roupa de criado calmamente enquanto escutava alarmes distantes ecoando pela cidade.

— Você como sempre um imã de problemas.

— Trouxe companhia.

Naira lançou um olhar irritado para a mulher.

Então puxou o capuz dela para trás.

E congelou.