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Capítulo 168 – A Toca.

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Capítulo 168 – A Toca.

A primeira coisa que Maelis fez foi procurar uma vassoura.

Ou ao menos tentar.

Havia algo que um dia tinha sido uma vassoura encostado próximo à cozinha. O cabo ainda existia.

O resto não.

Ela ficou alguns segundos encarando aquilo antes de devolver o pedaço de madeira para o canto.

— Encontrou alguma coisa? — perguntou Lucas.

— Só um cabo que já deve ter sido uma vassoura.

Lucas olhou.

— Ah.

— Exatamente.

Atrás deles, Helena já tentava subir novamente para o andar superior.

— Helena.

— Eu só vou olhar.

— Não.

— Eu vou só—

— Não é não.

— Mas—

— Não.

Helena soltou um suspiro dramático.

Lucas apontou para um pano.

— Vamos ajudar na Limpeza.

— Mas.. vai demorar muito.

— Vai demorar menos se a gente ajudar.

Enquanto os dois continuavam discutindo, Kael passou carregando uma caixa de ferramentas enferrujadas.

Nem desacelerou.

— Helena, é melhor obedecer o Lucas.

— Viu? — respondeu Lucas. — Ele também disse não.

— Isso não é justo.

— Helen, depois a gente explora.

— Mas eu só queira olhar os quartos.

Aisha passou pelos três carregando uma pilha de cobertores antigos.

— Helen, assim que terminarmos eu vou explorar com voce!

— Promete?

— Prometo.

E continuou andando.

Encerrando o assunto.

A limpeza começou sem que ninguém combinasse nada, Kael havia dito que havia coisa para limpar e isso havia sido suficiente para o grupo se distribuir pelo espaço com a eficiência silenciosa.

Maelis ficou no andar térreo.

Não por escolha deliberada.

Só foi para lá e continuou.

A cozinha era o pior cômodo do nível inferior. Parte do teto havia desenvolvido infiltração antiga que havia manchado a parede inteira de um lado e deixado uma crosta de umidade sobre a prateleira mais próxima. Os utensílios ainda estavam dispostos como se alguém fosse usá-los no dia seguinte. Uma panela com tampa. Muitos copos alinhados. Uma faca com o cabo rachado pela secura.

Ela começou pelas prateleiras.

A poeira era espessa.

Décadas.

Talvez séculos.

Cada passada de pano revelava uma superfície diferente sob a camada cinzenta acumulada.

Do corredor superior veio o som de Helena tentando subir as escadas pela segunda vez, seguido imediatamente pela voz de Lucas pedindo para ela descer antes de cair, seguido pelo som de Helena subindo mais rápido.

Maelis continuou limpando.

A panela estava mais pesada do que parecia. Quando levantou a tampa, encontrou o interior limpo, não vazio por limpeza recente, mas vazio como coisa que havia sido guardada limpa e ficado assim, preservada pelo tempo seco dentro de uma casa que havia ficado fechada antes da umidade tomar conta completamente.

Ela pousou a tampa de volta.

Lysvallis apareceu alguns minutos depois.

Não disse nada imediatamente.

Ficou olhando para os tubos metálicos que atravessavam a parede acima da pia. Estrutura antiga, bem fixada, com pequenas runas de manutenção gravadas nos encaixes.

Ela carregava um pano. Claramente desconfortável.

Maelis observou em silêncio.

Lys observou o pano.

Depois a prateleira.

Depois o pano novamente.

— Como exatamente eu te ajudo?

Maelis piscou.

— O quê?

— Na limpeza.

— Você limpa.

— Sim, eu compreendi essa parte.

— Então?

— Qual lado do pano eu uso?

…

Maelis encarou ela.

Lys sustentou o olhar.

Absolutamente séria.

Aisha ergueu os olhos do outro lado da cozinha.

As bochechas de Lys coraram levemente mas ela não perdeu a postura encarando Maelis com os olhos violetas.

— Você nunca limpou nada na vida? — perguntou Maelis.

— Eu sou uma rainha — Lys prendeu os cabelos — Então nunca fiz trabalho braçal assim, mas eu já organizei livros.

— Isso não conta.

Lucas parou de mover uma caixa.

Até Helena olhou.

— Eu reorganizei uma biblioteca inteira.

— Isso definitivamente não conta.

Lys olhou para o pano.

— Certo, eu me viro.

— Usa o lado limpo.

— Certo, Obrigada. — Lys se aproximou da mesa.

— Não limpa a mesa ainda, pega uma cadeira dessa que esteja firme e me ajuda a limpar os armários — Maelis respondeu já voltando a passar o pano — A gente sempre tem que limpar de cima para baixo.

— Fascinante.

Aisha soltou uma risada pelo nariz.

Pequena.

Mas existiu.

Lys virou imediatamente.

— Você está rindo de mim?

— Claro Lys, nunca pensei que ia te ver tão perdida em algo.

— Isso não tem graça.

— Tem sim.

Aisha voltou a limpeza voltou para a limpeza.

Lucas e Helena ficaram parados por alguns segundos, até que Lucas finalmente segurou a mão de helena e se aproximou de Aisha.

— Oi…

Aisha abaixou uma caixa e olhou para ele.

— Oi.

— Olha não quero incomodar mas.. — Lucas falou quase sussurrando. — É verdade que ela é uma Rainha?

— É verdade, ela é a rainha de Altheria da Nevóa.

Helena não se aguentou e gritou.

— Uma Rainha de Verdade?!

Lys olhou por cima do ombro observando a cena.

— Não grita Helen! — Lucas puxou a garota pelo braço voltando para a limpeza.

O trabalho continuou.

Lento.

Constante.

Aos poucos a cozinha começou a reaparecer.

A madeira voltou a ter cor.

A pedra voltou a ser pedra.

As prateleiras deixaram de parecer blocos cinzentos.

Kael apareceu no andar térreo perto da hora em que Maelis havia terminado metade da cozinha.

Ele carregava uma caixa cheia de rochas amareladas que havia encontrado em algum cômodo do corredor superior.

— Caramba… vocês foram rápidos, Já dá pra dormir lá em cima, vou focar nos canos e na iluminação.

— O quarto no final do corredor oeste ainda está inutilizável — disse ele enquanto seguia para a primeira luminária. — Dois do lado norte também, e o chão range. E por favor não entrem no quarto em frente ao de Ian.

— O trancado? — perguntou Maelis.

Kael ficou parado por meio segundo.

— Não é meu para abrir.

Ela não pressionou.

Mas a resposta ficou no ar com o tipo de peso que não precisava de explicação para ser sentido.

A limpeza continuou por mais algumas horas até os panos ficarem sem salvação, mas em compensação toda a enorme cozinha estava limpa, era uma cozinha para ao menos seis pessoas cozinharem ao mesmo tempo, com espaço para o dobro ajudar.

Maelis respirou fundo olhando a cena.

— Terminamos… — Lys falou respirando fundo, com a roupa completamente coberta de poeira.

— Uma parte… — Maelis falou olhando para o corredor. — Vou ver se acho mais panos.

Maelis seguiu pelo corredor do térreo, com a pouca iluminação ela decidiu criar uma pequena chama na mão, ganhando mais alguns metros de luz.

O corredor seguia além.

Mais portas.

A primeira, dava para um cômodo totalmente escuro, a segunda possuía um pouco de iluminação, permitindo ela ver varias mesas.

Mais portas.

Mais espaço.

Ela saiu.

Olhou para o corredor principal.

Voltou a olhar para o novo corredor.

Aquilo não fazia sentido.

Lys apareceu logo atrás.

— O que foi?

Maelis apontou.

Lys observou.

Depois franziu a testa.

— Isso é enorme.

— Foi exatamente o que pensei.

— …

Lys caminhou até o final do trecho visível.

Observou as pedras quebradas.

As rachaduras.

Os blocos colapsados.

— Parece que houve um desabamento, então essa estrutura é ainda maior.

Maelis aproximou-se.

Agora conseguia ver.

Parte do corredor havia desaparecido sob toneladas de pedra.

Não era uma parede.

Era uma ruína.

Algo havia existido depois daquilo.

— Vamos voltar — Lys falou recuando um pouco — Acho que estamos mexendo em algo que não deveríamos.

A caminhada das duas foi silenciosa, até chegarem na cozinha e ouvirem Helen correndo pela sala, enquanto Lucas tentava alcançar, mas parecia ter dificuldade em manter o equilíbrio.

Kael estava logo depois deles.

Ele estava ajoelhado próximo a um conjunto de canos.

Uma das estruturas metálicas havia sido desmontada.

Outra claramente precisava ser substituída.

Lys falou primeiro

— Kael.

— Hm.

— O quão grande é esse lugar?.

— Era.

Resposta imediata.

As duas trocaram um olhar.

— Quanto maior? — perguntou Maelis.

Kael apertou uma válvula.

Água começou a correr dentro da parede.

— Bastante.

— Isso não responde.

— Responde sim.

— Quantas pessoas moravam aqui?

Pela primeira vez ele parou.

O silêncio durou alguns segundos.

Longos demais.

— Neste complexo?

Maelis piscou.

Lys também.

Neste complexo.

Não na casa.

Neste complexo.

Kael percebeu tarde demais o que havia dito.

Passou a mão pelo rosto.

Cansado.

— Existiam outros.

— Quantos?

— Seis.

Silêncio.

— Seis? — repetiu Maelis.

Kael assentiu.

— Os corredores conectavam todos.

— …

— Mas isso foi antes do desabamento e antes que perguntem mais é melhor esperar ao menos quando formos jantar.

Ele voltou a trabalhar.

Claramente encerrando o assunto.

Mas já era tarde.

A informação tinha sido dita.

As duas voltaram a limpeza, mas agora sem falar mais nada, as mentes ainda processando a informação.

O sol já havia se posto nas montanhas quando eles finalmente pararam a limpeza, o refúgio parecia diferente.

Ainda velho.

Ainda quebrado.

Ainda precisando de semanas de trabalho.

Mas diferente.

Parte da poeira havia desaparecido e algumas das luminárias voltavam lentamente a preencher o espaço com aquela luz amarelada e constante que percorria os canos presos às paredes.

Não era uma luz forte.

Mas era quente.

A sensação lembrava uma lareira distante escondida dentro da própria pedra.

Lys olhou para a própria manga.

Cinza.

Depois para as mãos.

Também cinza.

— Eu odeio admitir isso.

— Mas acho que estou ficando melhor nisso.

— Limpeza? — perguntou Aisha.

— Sobreviver fora de um palácio.

Kael surgiu no topo da escada, o corpo coberto de poeira e lama, carregando uma caixa de ferramentas em um braço e um feixe de tubos metálicos no outro.

Largou ambos próximos da parede.

— Certo.

Ninguém respondeu.

Ele apontou para o corredor.

— Vamos resolver onde cada um vai dormir.

Aisha foi a primeira a se aproximar.

Lys veio logo atrás.

Lucas apareceu carregando Helena debaixo do braço.

— Eu consigo andar.

— Só se prometer se comportar.

— ME SOLTAAA.

— Não.

Helena cruzou os braços.

Derrotada.

Por enquanto.

Kael começou a caminhar pelo corredor.

— Os quartos utilizáveis são esses.

Apontou para a primeira porta à esquerda.

— Naira.

Depois para a porta oposta.

— Thamir.

Seguiu andando.

— O meu não conta.

A porta seguinte.

— O de Ian muito menos.

Maelis olhou imediatamente naquela direção.

O quarto permanecia parcialmente aberto.

Silencioso.

Nenhum movimento.

Apenas a respiração distante de Ian.

Kael continuou para a próxima porta.

— Essa vai ficar trancada.

Depois a porta seguinte.

— E o de Seiryu.

Aisha observou o restante do corredor.

— E aqueles?

Kael acompanhou o olhar dela.

Mais duas portas permaneciam fechadas antes do final do corredor.

— Quartos sem ocupantes fixos, não mexi neles.

Então apontou além delas.

Uma porta reforçada ocupava quase toda a largura do corredor.

— Para lá existia o resto do complexo.

Maelis ergueu uma sobrancelha.

— Existia?

— Desabou.

Silêncio.

Lys foi a primeira a falar.

— Quanto desse lugar desabou?

— Bastante.

— Isso continua não respondendo nada.

— O que você precisa saber que esse lugar era grande o suficiente para acolher mais de duzentas pessoas com espaço de sobra.

A conversa morreu ali.

Naturalmente.

Porque todos já tinham percebido que Kael só respondia aquilo que decidia responder.

Forçar além disso era perda de tempo.

Helena apontou para a porta reforçada. em frente ao quarto de Seiryu.

— E o que tem aí?

O corredor ficou quieto.

Só por um segundo.

Mas todos perceberam.

Kael olhou para a porta.

Depois para Helena.

— Nada que vocês precisem saber pequena.

— Então..—

— Helena…

— Estou só perguntando.

Ela abriu a boca novamente.

Lucas cobriu a boca dela com a mão.

— A gente para de falar quando percebe um assunto delicado.

— Mmfmf.

— Exatamente.

Kael soltou um pequeno riso.

Mas Maelis percebeu.

Aquela porta incomodava ele.

Muito.

— Quem morava ali? — perguntou Maelis.

Kael permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu:

— Jyn.

O nome não significou nada de imediato.

Mas Aisha desviou os olhos.

Lys também.

E isso fez Maelis perceber que aquele nome importava.

— Jyn quem? — perguntou ela.

Kael olhou para a porta.

— A esposa dele.

…

A resposta atingiu Maelis alguns segundos depois.

A mulher das memórias.

Pela primeira vez aquela mulher tinha um nome.