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Capítulo 175 – Por trás das Barricadas.

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Capítulo 175 – Por trás das Barricadas.

Eli fechou a porta atrás de si enquanto prendia o casaco sobre os ombros.

O ar da tarde permanecia frio, mas a chuva finalmente havia dado uma trégua. O pátio ainda era um emaranhado de lama, tábuas e pegadas recentes — as poças d’água que os irmãos Tosk haviam começado a drenar pela manhã ainda transbordavam nos cantos, misturando terra escura com palha podre que alguém havia jogado ali na tentativa de estabilizar o chão.

Claramente não havia funcionado.

Ele observou tudo antes de dizer qualquer coisa.

O canal aberto pelos irmãos ainda estava raso demais. As bordas já começavam a desmoronar de volta para dentro. Se voltasse a chover durante a noite, a água cobriria novamente o centro da vila — o mesmo caminho de sempre, passando pela entrada da casa maior e acumulando sob a porta do galpão.

— Mais um palmo — disse, apontando para a vala.

Um dos irmãos ergueu a cabeça. Suado. Com lama até o joelho.

— Já dá pra escoar.

— Dá pra alagar também.

O rapaz bufou baixo, mas voltou a cavar.

Eli seguiu caminhando.

O pátio carregava a aparência específica de um lugar que havia sido construído para mais gente do que tinha agora — madeira encharcada, antigos bancos de pedra, resquícios de um período mais tranquilo. As casas ao redor eram todas de pedra e madeira escura, a maioria das paredes revelava umpouco dos últimos confrontos, marcas de garras e cortes. Os telhados baixos que pendiam levemente para o centro como se tentassem se proteger mutuamente. Algumas tinham janelas reforçadas com madeiras tão pequenas que a luz do inicio da tarde mal entrava. Outras compensavam com buracos nas paredes que não eram janelas, eram falhas que ninguém havia tido tempo ou material para tampar.

Um menino tentava empilhar lenha sob uma cobertura improvisada de lona amarrada entre dois postes. A lona estava tensa demais de um lado e frouxa demais do outro, criando uma inclinação que jogava a água da chuva diretamente sobre a pilha que tentava proteger. Ele não havia percebido ainda.

Outro carregava roupas molhadas para dentro de uma das casas menores, os braços carregados demais para o tamanho do corpo.

Cali girava lentamente a manivela do poço, usando o próprio peso para vencer a resistência da corda. O balde subia aos poucos, respingando água escura pelas tábuas do poço — tábuas que estavam cedendo nas bordas, a madeira inchada pela umidade constante criando lacunas por onde a corda raspava a cada giro.

— Cali.

Ela levantou a cabeça.

— Quando terminar esse balde, leva direto pra Serah. Ela vai ferver tudo antes de guardar.

A menina assentiu sem reclamar.

Eli continuou até a primeira das casas menores.

A porta estava aberta.

O cheiro veio antes da visão.

Urina, ervas secas queimando num canto para tentar cobrir o primeiro cheiro, e embaixo de tudo a umidade constante de parede que não secava completamente desde a última chuva grande.

O interior era pequeno demais para tudo que havia nele. Uma cama encostada na parede do fundo, com colcha remendada tantas vezes que a cor original havia desaparecido. Uma cadeira baixa de madeira escura junto à janela minúscula. Uma prateleira com três objetos — um copo, um pedaço de pano dobrado, uma faca sem bainha. No chão, um tapete de palha trançada que havia sido pisado tantas vezes que o centro estava completamente achatado.

Um velho sentado na cadeira tentava enrolar uma atadura na própria perna com dedos que não cooperavam completamente.

— Tá apertando errado.

O velho ergueu os olhos.

— Então aperta direito pra mim.

Eli pegou a faixa sem responder. Ajoelhou-se e refez o curativo com movimentos rápidos, acostumados — não gentis, mas precisos.

— Eu ainda posso fazer isso sozinho.

— Podia.

— Vou continuar fazendo.

— Continua fazendo errado então.

O velho soltou uma risada baixa.

— Tu deve ser chato igual teu pai.

— Nunca conheci meu pai.

— Então puxou de outro infeliz.

Eli terminou o curativo, deu um leve tapa na perna do velho e levantou.

— Tenta não molhar isso hoje.

— Eu vou é enfiar ela na latrina.

— Isso se você conseguir chegar lá.

Do lado de fora, duas crianças esperavam segurando um balde e alguns panos velhos. O balde tinha uma rachadura horizontal que havia sido tampada com barro seco — funcionava, mas deixava uma linha úmida na madeira abaixo dela sempre que estava cheio.

Nenhuma das crianças parecia feliz.

— Entra.

As duas trocaram olhares.

— De novo?

— O quarto tá fedendo.

— Mas a gente limpou ontem.

— sujou de novo.

Uma delas respirou fundo pelo nariz e imediatamente se arrependeu.

— Por que a Cali nunca faz isso?

Eli olhou para o poço.

Cali ainda puxava água, os braços vermelhos pelo esforço repetido, os pés firmes na lama ao redor da base do poço.

— Porque ela tá ocupada.

— Ela tá sempre ocupada.

— Quer trocar de lugar com ela? saindo todo dia de manha para buscar lenha na floresta e na vila sozinha?

Os dois abaixaram a cabeça.

Entraram resmungando, com a mesma relutância específica de quem já sabe exatamente o que vai encontrar lá dentro.

Eli seguiu para a próxima casa.

Essa era ligeiramente maior — duas janelas em vez de uma, e uma pequena varanda de madeira na entrada que havia sobrevivido melhor que a maioria das estruturas similares na vila, provavelmente porque tinha ficado coberto pela sombra das árvores. Na varanda, três idosos sentados em bancos de alturas diferentes separavam raízes numa bacia de madeira rasa, jogando as aparas diretamente no chão de madeira.

Assim que Eli se aproximou, um deles sorriu.

— Ainda mandando nessas crianças?

— Alguém precisa.

O velho riu.

— A pequena tá só na água hoje?

— Tá.

— Quando terminar, manda ela passar aqui. — Ele apontou para a bacia de raízes com o queixo. — Minha vista anda ruim pra separar essas coisas. Ela tem mão boa pra isso.

Outro completou antes que Eli respondesse.

— Tem mais paciência que esses moleques também. — Uma pausa. — E é boa companhia.

Eli nem diminuiu o passo.

— Hoje não.

— Amanhã então.

— Amanhã eu vejo.

Os velhos assentiram com expressões que não registraram nenhuma objeção.

Como se a resposta fosse completamente razoável.

Eli continuou.

Atrás dele, a conversa retomou o ritmo anterior — colheita, inverno, o telhado da casa do fundo que havia cedido com o peso. Banal. Sem atrito.

Quando dobrou a esquina da casa, ouviu as crianças cochichando perto do poço.

— Sempre sobra pra gente.

— Claro.

— A Cali nunca entra nas casas deles.

— O Eli nunca deixa.

Cali apoiou o balde na borda do poço e esperou até que as crianças fossem embora antes de erguê-lo de volta para a cintura.

Eli observou apenas até vê-la desaparecer pela porta de Serah.

Só então voltou ao trabalho.

A tarde passou sem drama, havia trabalho demais para qualquer outra coisa.

A vala foi aprofundada — o chão embaixo da lama era mais pedregoso do que parecia, e um dos irmãos Tosk bateu o cabo da enxada em pedra três vezes antes de encontrar ângulo que funcionasse.

As tábuas soltas da barricada receberam novos pregos — madeira velha que rangia diferente conforme o martelo batia, alguns lugares soando oco por dentro.

Dois telhados foram remendados com material que não era ideal mas era o que havia. Um deles ficou bom. O outro ficou funcional.

Serah passou boa parte do tempo entre a lareira e os barris — fervendo água em lotes, esperando esfriar o suficiente para transferir, repetindo o processo com aquela eficiência silenciosa de quem havia transformado tarefa necessária em ritmo automático.

Arlen ficou na janela da sala a maior parte do tempo, fingindo dormir e observando o pátio pelos olhos semicerrados.

Cali encheu seis barris.

Quando o sol desapareceu atrás das árvores, a vila inteira pareceu desacelerar ao mesmo tempo — como se houvesse um sinal que todos conheciam mas ninguém havia combinado. As portas foram se fechando uma após a outra. A fumaça começou a subir das chaminés ainda funcionando. As últimas panelas desapareceram para dentro das casas.

O pátio ficou com aquele vazio específico de lugar habitado que acabou de esvaziar — as marcas de tudo que havia acontecido ali ainda visíveis na lama, mas sem as pessoas que as haviam feito.

Cali colocou o último barril ao lado da parede, limpou as mãos no vestido e caminhou até o batente da casa de Eli, onde costumava enrolar o cobertor velho que Serah havia deixado dobrado naquele canto desde que a garota havia começado a aparecer por ali.

Serah olhou para ela pela janela vendo as crianças se juntando em frente a porta.

— Já trago algo.

Ela olhou de relance para Cali que ao contrario das outras vezes continuou sentada de costas para Serah.

Eli passou por ela.

Estava fechando a porta quando parou abruptamente.

O nariz contraiu quase por reflexo.

Cheiro de sangue.

Recente.

Vindo da direção da floresta.

Mas havia algo diferente misturado — não o cheiro de besta, que carregava o aroma de carne podre que enjoava o estômago de quem sentia. Isso era mais limpo. Mais direto.

Animal.

Ele girou imediatamente.

— Todos pra dentro.

A voz não foi alta.

Nem precisou.

Os irmãos Tosk já se levantavam na segunda casa. Uma das portas bateu. Outra começou a fechar. Serah puxou Cali para trás de si no batente.

Eli retirou uma espada curta de trás da porta e atravessou o pátio enquanto olhava de forma breve para a janela onde Arlen já segurava o arco de madeira escura com uma flecha encaixada.

O cheiro permanecia.

Próximo.

Mas a figura demorava a aparecer.

Eli franziu a testa.

Se fosse uma besta, já teria saído da mata.

Se fosse uma pessoa…

Também.

Alguns segundos se passaram antes que uma silhueta finalmente surgisse no fim da rua.

Ela caminhava devagar.

Não por cautela.

Pelo peso.

Um enorme javali pendia atravessado sobre os ombros.

Na mão esquerda carregava um galho comprido, grosso o bastante para servir de lança. A ponta havia sido quebrada e endurecida pelo fogo antes de ser coberta de sangue fresco.

Na direita, outro pedaço de madeira, reto e longo, sem qualquer marca de combate.

Lívia atravessou lentamente a rua principal.

A saia improvisada escondia completamente a parte inferior do corpo. Os braços estavam manchados de sangue até os cotovelos. Pequenos cortes recentes marcavam a pele onde o tecido não cobria.

Ela parou apenas quando chegou diante da barricada.

O javali caiu no chão com um baque pesado.

Só então ela olhou para Eli.

— Suas flechas são péssimas.

O silêncio tomou o pátio.

Ela retirou o arco do ombro e o estendeu para Eli.

— Precisei usar as cinco.

Ele recebeu o arco sem dizer nada.

O couro da empunhadura estava encharcado de lama e sangue. A corda havia perdido parte da tensão.

— As cinco? — perguntou.

Lívia puxou uma flecha partida da cintura e a deixou cair sobre o javali.

A haste estava torta.

Depois soltou outra.

A ponta de pedra havia se quebrado completamente.

— As outras foram piores.

Ela ergueu o pedaço de madeira ensanguentado.

A ponta, endurecida pelo fogo, estava lascada depois do impacto final.

— Isso resolveu o resto.

Eli abaixou os olhos para o javali.

Só então percebeu as duas flechas cravadas profundamente nas órbitas do animal.

Silêncio.

Ela havia cegado um javali adulto antes de abatê-lo com uma lança improvisada.

Lívia então levantou o segundo pedaço de madeira.

Ao contrário do primeiro, aquele tronco estava inteiro.

Reto.

Sem nós aparentes.

Leve o suficiente para curvar, mas denso o bastante para suportar tensão.

Ela passou os dedos pela casca como quem já avaliava a fibra da madeira.

— Esse vai servir.

Eli acompanhou o olhar dela.

— Pra lenha?

Ela balançou a cabeça.

— Pra um arco.

Olhou rapidamente para o que acabara de devolver.

— Um de verdade.

Lívia apoiou o pedaço reto de madeira sobre o ombro e deu um último olhar para o javali.

— Minha parte acabou.

A ponta da lança improvisada tocou de leve a carcaça.

— Agora ele é problema seu.

Ela já começava a se afastar quando ergueu a voz.

— Cali.

A garota levantou tão rápido que quase tropeçou no próprio cobertor.

— Já vou!

Ela correu desesperada cruzando o pátio em dois segundos, parando abruptamente na saída da barricada.

A mão de Eli segurou seu braço.

Livia parou imediatamente.

Ela olhou para os dois por cima do ombro, esperando.

Eli sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de falar.

— Onde pretende passar a noite?

Por um instante, o silêncio permaneceu entre os dois.

Lívia deixou escapar uma risada curta.

— Cuidado, Eli.

Ela sustentou o olhar dele.

— Se continuar perguntando onde uma mulher desconhecida dorme, sua esposa pode começar a tirar conclusões estranhas.

Eli não respondeu.

Ele soltou o ar devagar.

Reformulou a pergunta.

— Onde vocês vão… é seguro para uma criança?

Dessa vez Lívia pensou por um instante.

Os olhos deslizaram rapidamente até Cali antes de voltarem para Eli.

— O suficiente.

Não era uma garantia.

Também não era uma mentira.

Eli permaneceu imóvel.

Os dedos ainda presos ao braço da garota.

A expressão cansada dizia que ele continuava descontente com a situação, mas nenhuma alternativa parecia melhor.

Depois de alguns segundos…

Soltou.

Cali correu imediatamente até Lívia.

Parou ao lado dela segurando o próprio cobertor enrolado contra o peito.

Lívia voltou a caminhar.

Sem se virar completamente, falou por cima do ombro.

— Guarda minha parte.

Eli ergueu uma sobrancelha.

— Volto de manhã.

Ela não esperou resposta.

Apenas continuou caminhando pela rua escura, enquanto Cali se apressava para acompanhá-la.

Atrás delas, o cheiro de sangue logo começou a ser substituído pelo som de facas sendo afiadas e pela movimentação dos moradores em volta do javali. Eli observou as duas desaparecerem entre as sombras por mais alguns segundos, antes de finalmente abaixar a espada.

— Certo… — murmurou para si mesmo. — Vamos aproveitar antes que a carne estrague.