LNCrawler

Capítulo 178 – Ações e Consequências.

Guardião — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 178 – Ações e Consequências.

Narrado por Melissa

As portas se fecharam atrás de Lys e Eldrik.

Respirei fundo, apoiando as mãos nos braços do trono.

— Agora… vamos entender o que acabou de acontecer.

Ninguém respondeu de imediato.

O silêncio que sucedeu minhas palavras não era o mesmo de antes. Já não era choque puro. Aos poucos, transformava-se em outra coisa.

Analise.

Como sempre, foi Valcir quem o rompeu primeiro.

— O que aconteceu é que fomos ameaçados dentro do próprio salão do trono. Por um único homem.

— Um único homem que reduziu Danurem a cinzas — respondeu Lady Emil, seca. — Isso não é retórica, Valcir. Isso é histórico.

— E é exatamente por isso que a ameaça dele é vazia.

Havia uma convicção nova na voz de Valcir. Antes mesmo que terminasse de desenvolver o raciocínio, percebi que, pela primeira vez naquela noite, ele havia encontrado algo que realmente merecia discussão.

— Ele fala em fronteiras desenhadas em chamas. Fala em resolver “do próprio jeito”. Mas o que exatamente ele acha que resolve destruindo Cervalhion?

Ele se levantou.

— Cervalhion alimenta o continente inteiro. Trigo, cevada, milho, gado. Se ele incendeia nossos campos, se destrói nossa capacidade produtiva, quem morre de fome primeiro? Não somos nós. Somos o polo. Altheria compra nosso grão porque pedra nenhuma alimenta alguém. Se Cervalhion cai, Altheria não fica assistindo ao nosso funeral. Cai conosco, só que um pouco mais devagar.

Vi Miran Dorwain erguer a cabeça pela primeira vez desde o início da reunião.

— Então ele está blefando.

Balancei a cabeça.

— Ou simplesmente não sabe.

Todos voltaram os olhos para mim.

— Guardiões pensam em proteção. Pensam em força. Pensam naquilo que conseguem destruir com as próprias mãos. Kael pode acreditar que talvez “resolver do próprio jeito” seja uma ameaça coerente. Isso não significa que seja. Significa apenas que talvez — nem mesmo ele — ele não tenha calculado o custo real de cumprir a própria palavra.

Ninguém pareceu mais tranquilo depois disso.

Na verdade, o silêncio tornou-se ainda mais pesado.

Porque havia uma possibilidade pior do que enfrentar a fúria calculada de um Guardião.

Enfrentar a fúria de alguém que jamais parou para calcular suas próprias consequências.

— Então devemos dizer isso a ele — insistiu Valcir. — Mostrar que essa ameaça é autofagia. Que ele condenaria Altheria à mesma fome que imporia a Cervalhion.

Olhei para ele durante alguns segundos antes de responder.

— Você realmente acredita que dizer a um homem que acabou de transformar o capitão da Guarda Real em cinzas que a lógica dele está errada fará com que ele recue?

Valcir permaneceu calado.

— Kael não vai reconsiderar por causa de aritmética. Se essa ameaça for verdadeira, ela só deixa de existir quando houver acordo, não quando houver argumento. Amanhã alguém precisará mostrar a ele que Altheria também pagaria esse preço. Não como defesa de Cervalhion. Como um fato que ele, ou a Rainha provavelmente já conhecem e decidiram não mencionar.

A ideia pousou sobre a mesa com um peso maior do que qualquer exigência territorial.

Porque, se fosse verdade…

Então talvez aquilo não fosse estupidez.

Talvez fosse teatro.

Uma ameaça cuidadosamente escolhida justamente por nunca precisar ser cumprida.

Não compartilhei esse pensamento.

Ainda era cedo demais para apostar nele.

Foi então que Ronan falou.

Até aquele momento ele permanecera em silêncio.

— Ele deixou a Rainha aqui.

Toda a sala voltou-se para ele.

— Deixou a Rainha de Altheria sozinha, dentro do castelo da corte que acabou de tentar matá-la. Se estivermos desesperados o bastante… se alguém aqui decidir que Lysvallis é a única moeda capaz de conter os dois Guardiões…

Ele não terminou.

Não precisava.

Senti meu pulso acelerar.

Depois que aquela hipótese foi pronunciada, ela passou a existir para todos.

— Isso seria suicídio — disse Lady Emil. — Talvez funcionasse… mas seria suicídio.

Mas nem ela acreditou totalmente na própria frase.

— Seria.

Concordei.

— E, ainda assim, foi a primeira possibilidade que passou pela cabeça de qualquer estrategista desta sala quando aquela porta se fechou.

Olhei um a um ao redor da mesa.

— Isso não é acusação. É observação. Se foi nossa primeira conclusão, então Kael ou cometeu um erro de cálculo gigantesco ao deixá-la aqui… ou confia tanto na própria reputação que acredita que ninguém ousaria tentar.

— Ou ele quer exatamente isso — disse Miran lentamente. — Quer que pensemos na tentação. Quer que ela exista. Só para provar que até cogitá-la já seria imprudência suficiente para fazê-lo voltar.

Ninguém respondeu.

Porque ninguém sabia.

E, quanto mais eu refletia sobre aquilo, mais desconfiava de que justamente essa incerteza era o verdadeiro objetivo.

Esperei o silêncio amadurecer antes de voltar a falar.

— Seja qual for a intenção dele, um fato permanece. A Rainha de Altheria dormirá sob nosso teto esta noite. Cada hora em que permanecer viva, segura e intocada será a única prova de que Cervalhion ainda é governada pela razão, e não pelo desespero.

Percorri cada rosto da mesa.

— Ninguém se aproxima dela sem escolta dobrada. Ninguém repete, fora desta sala, a hipótese que Ronan acabou de levantar. Se essa possibilidade chegar aos ouvidos errados, deixaremos de discutir fronteiras. Kael voltará antes dos dois dias terminarem… e não será para negociar.

Foi a primeira vez naquela noite em que o silêncio venceu completamente a discussão.

Esperei mais alguns instantes.

Foi então que notei Aedin.

Desde que Eldrik deixara o salão levando Lys, meu marido não pronunciara uma única palavra, mas sua expressão havia mudado.

Eu conhecia aquele silêncio.

Existem dois.

O de quem ainda está tentando compreender o que aconteceu.

E o de quem já compreendeu tudo.

Aedin estava no segundo.

Continuava sentado, as mãos apoiadas nos braços do trono, olhando para um ponto indefinido entre a porta e o chão.

Não havia confusão em seu rosto.

Havia decisão.

Apenas aguardava o momento de revelá-la.

Quando finalmente se levantou, bastou o movimento para encerrar qualquer conversa restante.

— Ninguém vai decidir nada hoje.

Sua voz carregava o peso cansado de quem não buscava concordância.

— Não porque a urgência não exista. Existe. E Ronan acabou de dar nome a parte dela melhor do que eu conseguiria. Mas hoje o medo ainda está pensando por todos nós. E eu não vou assinar nada, nem ordenar medida alguma, que tenha sido concebida pelo medo em vez da razão.

— Majestade… e a segurança da Rainha…

— Será tratada ainda esta noite. Discretamente. Sem boatos de corredor. Kael nos deu dois dias. Vamos usar os dois dias. Não apenas o primeiro… e certamente não desperdiçando-os em pânico.

Ninguém insistiu.

Um a um, os lordes deixaram o salão.

Valcir foi o último.

Vi seu olhar repousar, por um breve instante, sobre o espaço vazio onde Danurem costumava permanecer.

As portas tornaram a se fechar.

Agora restávamos apenas nós dois.

Esperei até que os passos do lado de fora desaparecessem completamente.

— Você já tomou sua decisão.

Não era uma pergunta.

Aedin continuou olhando para o trono vazio ao lado do dele.

— Já.

A única palavra bastou.

Senti um peso familiar afundar no estômago.

Depois de vinte anos ao lado daquele homem, aprendi a reconhecer o tom que usava quando já havia escolhido um caminho que sabia que eu não aprovaria.

— E por que tenho a impressão… — perguntei devagar — …de que não vou gostar da resposta?

Aedin não olhou para mim.

— Porque você me conhece — foi tudo que ele disse.