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Capítulo 179 – O Peso de um Nome I.

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Capítulo 179 – O Peso de um Nome I.

Narrado por Eldrik .

Acompanhei Lysvallis até os aposentos reservados na ala leste do palácio.

Reconheci o corredor antes mesmo de chegarmos. Eram exatamente os mesmos que haviam sido preparados para a comitiva de Altheria semanas antes, quando tudo aquilo ainda parecia uma oportunidade de paz, não o prenúncio de uma guerra. Os grandes vitrais coloridos filtravam a luz da tarde em tons dourados sobre o piso de mármore, e os tapetes vermelhos permaneciam impecavelmente alinhados.

Nada havia mudado.

E, ao mesmo tempo, tudo parecia diferente.

Os criados continuavam cruzando os corredores em silêncio, carregando bandejas, roupas e jarros de água como faziam todos os dias. Curvavam discretamente a cabeça quando passávamos, mas evitavam erguer os olhos por mais de um instante. Não era respeito.

Era cautela.

A notícia do que acontecera no salão certamente já corria pelo castelo inteiro, espalhando-se pelos corredores mais rápido do que qualquer mensageiro seria capaz. Talvez ainda não soubessem exatamente o que havia acontecido. Talvez cada um carregasse uma versão diferente da história.

Mas todos sabiam que a presença da rainha ali representava um possível problema para a corte.

Quando chegamos à porta, Lysvallis diminuiu o passo. Por um momento, apenas ficou olhando para a madeira escura da porta, como se também reconhecesse aquele lugar.

Ali ela havia chegado como convidada, agora voltava como garantia de um acordo imposto. A diferença era pequena apenas para quem observasse de fora.

Ela pousou a mão na maçaneta, mas não a girou imediatamente. Voltou-se para mim.

Os olhos encontraram os meus por um instante.

— Obrigada.

Respondi quase por reflexo.

— Disponha.

Assim que a palavra deixou minha boca, percebi o quanto ela havia saído seca.

Não era a resposta que eu pretendia dar.

Era simplesmente o peso que ainda pressionava meus ombros desde o instante em que Kael pronunciara meu nome diante de toda a corte.

Vou deixar a Rainha sob seus cuidados diretos, príncipe Eldrik.

Até aquele momento eu não tinha entendido por que aquelas palavras continuavam voltando à minha cabeça.

Agora começava a entender.

Lys pareceu notar que minha atenção já estava em outro lugar.

Não insistiu.

Apenas fez uma pequena inclinação de cabeça, entrou no quarto e fechou a porta cuidadosamente atrás de si.

O clique da fechadura foi quase delicado, fiquei parado diante dela por alguns segundos. O corredor voltou a mergulhar naquele silêncio estranho que dominava o castelo desde a morte de Dan.

Nenhum som vinha do outro lado da porta.

Nem passos.

Nem móveis sendo arrastados.

Nem qualquer movimento.

Era como se ela também tivesse parado para organizar os próprios pensamentos.

Respirei fundo e continuei andando sem destino. Precisava colocar o corpo em movimento.

Descobri, anos atrás, durante o treinamento com Dan, que pensar parado era um erro. Quando permanecia imóvel, minha mente sempre voltava para o mesmo lugar, revivendo acontecimentos que já não podiam ser alterados.

Dan costumava dizer que uma mente inquieta precisava acompanhar o ritmo das pernas. Na época achei que era apenas mais uma das frases estranhas dele.

Agora fazia sentido.

Deixei que meus passos ecoassem pelos corredores enquanto reconstruía, pela décima vez, cada palavra dita por Kael.

Não a ameaça sobre queimar Cervalhion, redesenhar fronteiras e que voltaria em dois dias. Não era isso que me incomodava.

Era outra coisa.

As últimas palavras.

Sob seus cuidados diretos.

Franzi a testa.

Por que eu?

Kael conhecia meu nome havia poucas horas. Confiar em mim seria irracional.

Foi então que compreendi que confiança nunca fizera parte daquela equação.

Diminuí o passo enquanto o restante do raciocínio se organizava sozinho. Kael não entregara Lysvallis a Cervalhion; fizera questão de retirar dela qualquer proteção institucional. Não falara em Coroa, em reino ou em Conselho. Também não a deixara sob responsabilidade do rei ou da rainha Melissa.

Escolhera um homem.

Eu.

Naquele instante, a responsabilidade deixava de ser política e passava a ser pessoal. Se Lysvallis desaparecesse, fosse tomada como refém, assassinada ou apenas sofresse qualquer dano sob aquele teto, não haveria um reino para responder primeiro. Haveria um príncipe que recebera uma incumbência diante de dezenas de testemunhas e fracassara em cumpri-la.

Kael não estava confiando em mim.

Estava garantindo que, quando voltasse, saberia exatamente quem responsabilizar.

Parei diante de uma das janelas altas do corredor.

Lá fora, os jardins do palácio permaneciam exatamente como sempre estiveram. Jardineiros ainda recolhiam folhas secas. Guardas patrulhavam as muralhas. Ao longe, a cidade continuava vivendo, sem imaginar que o continente inteiro talvez tivesse acabado de mudar de rumo.

Apoiei uma das mãos no peitoril de pedra.

Um sorriso curto, quase sem humor, escapou antes que eu pudesse evitá-lo.

— Fui usado…

Murmurei para mim mesmo.

Fui usado como garantia.

Kael não precisava confiar em mim.

Bastava ter percebido, em poucos minutos, que eu jamais permitiria que algo acontecesse com Lysvallis sabendo que minha própria honra estava em jogo.

Ou talvez fosse ainda pior.

Talvez tivesse percebido que eu tentaria protegê-la mesmo que minha honra não estivesse em jogo.

Fechei os olhos por um instante.

Nunca gostei de política. Passei boa parte da vida acreditando que batalhas eram vencidas pela força, pela disciplina e pela coragem. Naquela tarde, porém, um homem que eu conhecia havia menos de uma hora me mostrara que uma única frase, dita no momento certo, podia prender alguém com mais firmeza do que qualquer corrente.

Afastei-me da janela.

Já não importava por que Kael fizera aquilo. A armadilha estava montada, e, quando voltasse, eu não tinha dúvidas de que ele não aceitaria explicações se algo acontecesse.

Lysvallis precisava permanecer viva.

Isso significava encontrar alguém em quem eu pudesse confiar para permanecer diante daquela porta, e a dificuldade não estava em lembrar nomes. Estava justamente no contrário: quanto mais eu pensava neles, menos certeza tinha de qualquer um.

Arven foi o primeiro.

Capitão do segundo turno da Guarda Real. Danurem dizia que era um dos homens mais disciplinados que já treinara, incapaz de abandonar um posto ou ignorar uma ordem direta.

Em qualquer outro dia eu teria entregue aquela responsabilidade a ele sem pensar duas vezes.

Mas este não era qualquer outro dia.

Arven perdera dois amigos na ponte. Eu não fazia ideia do que aquela perda despertava nele quando olhava para a Rainha de Altheria. Talvez conseguisse separar a culpa de quem realmente a carregava. Talvez não. E eu não podia transformar aquela dúvida em um teste.

Continuei andando.

O nome seguinte foi Bren.

Experiente, equilibrado e confiável… até lembrar das dívidas que acumulava havia meses. Normalmente aquilo pouco importaria; um bom soldado não deixava de ser bom porque devia dinheiro. Agora, porém, bastava a possibilidade de alguém lhe oferecer uma saída para que o risco deixasse de ser aceitável.

Também o descartei.

Outros nomes vieram logo depois, cada um caindo por um motivo diferente. Um era próximo demais de uma casa nobre cuja posição naquela crise eu já não conseguia prever. Outro falava mais do que deveria. Um terceiro era excelente em combate, mas impulsivo demais para permanecer imóvel diante de uma provocação.

Quando percebi, a lista inteira havia se transformado em um exercício de eliminação.

Não procurava mais o melhor guarda.

Procurava apenas alguém que não pudesse ser manipulado.

Segui descendo a escadaria principal. Os criados abriam passagem antes mesmo de eu me aproximar, quase se confundindo com as paredes. Ninguém parecia disposto a interromper o caminho do príncipe naquela noite, nem a cruzar seu olhar por tempo suficiente para descobrir o que eu carregava na cabeça.

Nem chamar sua atenção.

Ou lembrado.

A notícia da morte de Danurem ainda não havia sido anunciada oficialmente, mas o castelo parecia sentir a ausência dele mesmo assim.

Era estranho. Durante anos eu reclamara que Dan conseguia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Agora, pela primeira vez, o castelo parecia grande demais… vazio demais.

Continuei revisando nomes.

Harlan.

Não.

Era próximo demais da Casa Varek.

E, depois do que acontecera no salão do trono, eu já não sabia quais casas nobres aceitariam uma negociação e quais começariam a enxergar Lysvallis como uma oportunidade.

Mikel.

Também não.

Bom soldado.

Excelente arqueiro mas falava demais, uma informação dita na pessoa errada bastava para transformar um boato em conspiração.

Outro nome caiu.

Outro.

E mais outro.

Quando percebi, já não estava procurando o melhor guarda, estava apenas tentando encontrar alguém que não representasse um risco. Foi então que compreendi outra repercussão das ações de Kael.

Ele não havia colocado apenas a Rainha sob minha responsabilidade, tinha me obrigado a olhar para minha própria Guarda com desconfiança.

Cerrei a mandíbula.

Aquilo me incomodou mais do que deveria. Talvez fosse apenas neurose, afinal havia passado a vida inteira treinando ao lado daqueles homens. Conhecia muitos desde criança, sabia os nomes de suas famílias, tinha dividido refeições, campanhas, treinamentos. E, ainda assim…

Na única noite em que realmente precisava confiar neles…

Eu não conseguia escolher nenhum.

Uma lembrança arrancou um pequeno sorriso involuntário.

“Nobre sob pressão faz besteira.”

A voz de Danurem surgiu na minha cabeça com uma nitidez quase irritante.

“Soldado sob pressão também. A diferença é que o soldado precisa de uma ordem. O nobre acha que já nasceu sabendo qual ela deveria ser.”

Balancei a cabeça.

— Você sempre tinha uma frase pronta…

Murmurei sozinho.

A saudade veio antes que eu pudesse impedi-la.

Se Dan estivesse vivo… Provavelmente já teria escolhido alguém antes mesmo de eu terminar de pensar no problema.

Talvez nem tivesse escolhido..

Talvez assumisse ele mesmo aquela porta, como sempre fazia.

Expirei devagar.

Não adiantava continuar conversando com fantasmas.

Foi nesse instante que ouvi passos acelerados atrás de mim.

— Alteza!

Um soldado jovem aproximava-se quase trotando pelo corredor. Ao me alcançar, levou o punho ao peito e fez uma reverência curta, respirando um pouco mais rápido do o normal.

— O Rei solicita sua presença imediatamente.

Franzi o cenho.

— Agora?

— Sim, alteza. Assim que possível.

Assenti.

— Irei imediatamente..

O rapaz inclinou a cabeça e voltou pelo mesmo caminho, esperei até que desaparecesse na curva do corredor antes de retomar a caminhada.

O chamado do meu pai significava apenas uma coisa, ele também não encontrara respostas.

Mudei de direção, seguindo para a ala reservada à família real. Minha cabeça, porém, continuava presa ao mesmo problema.

Arven.

Bren.

Harlan.

Mikel.

Nenhum.

Pela primeira vez desde que vestira uma armadura, comecei a me perguntar se existia alguém em Cervalhion em quem eu realmente confiasse sem reservas que não fosse o rei ou a rainha, foi distraído por essa pergunta que entrei no corredor das escadarias centrais.

E acabei esbarrando em alguém.

Por puro reflexo, estendi a mão antes mesmo de reconhecer quem era, segurando-lhe o braço para impedir a queda.

Só então levantei os olhos.

Era Aura.

Ela ergueu o rosto para mim com uma serenidade quase irritante, como se esbarrar comigo fosse apenas mais um acontecimento comum do dia. Seu braço ainda permanecia sob minha mão, por um breve instante, nenhum dos dois disse coisa alguma.

Soltei-o de forma abrupta.

— Perdão.

Ela ajeitou a manga do vestido com um gesto calmo, como se o tropeço tivesse sido apenas mais um detalhe sem importância.

— Não imaginei que o príncipe Eldrik pudesse atravessar um corredor inteiro sem olhar para onde estava indo.

Havia um brilho discreto de diversão em sua voz, respirei pelo nariz, quase rindo.

— Hoje estou tentando decidir em quem posso confiar.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Um problema complicado.

— Bem mais do que deveria.

Aura permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Era algo curioso nela. Nunca tinha pressa para responder. Deixava que o silêncio trabalhasse antes das palavras, como se observasse muito mais do que demonstrava.

— Imagino que tenha relação com a Rainha de Altheria.

Olhei para ela.

— Como sabe?

— Porque o castelo inteiro comenta a morte de Danurem. Os serviçais não param de falar que Kael ameaçou Cervalhion. E você está caminhando na direção oposta dos aposentos reais com a expressão de quem acabou de receber um problema impossível.

Ela sorriu de canto.

— Restavam poucas possibilidades.

Acabei soltando um pequeno riso.

— Pode me lembrar o por que mesmo que diplomatas são perigosos?!.

— Porque observam antes de falar.

— Exatamente.

Continuamos andando lado a lado por alguns passos.

Os corredores voltavam a ficar silenciosos conforme os criados desapareciam nas salas laterais. Apenas o som de nossos passos quebrava a quietude.

— Lysvallis voltou aos antigos aposentos.

Aura diminuiu discretamente o ritmo.

— Sozinha?

— Sozinha.

Ela permaneceu alguns segundos sem responder.

Quando falou, sua voz perdera completamente o tom leve.

— Isso muda muita coisa.

— Muda.

Olhei para as janelas, o sol ainda iluminada as camadas do castelo.

— Kael a colocou sob minha responsabilidade. Diretamente.

Aura não respondeu de imediato. Apenas esperou que eu continuasse.

— Se alguma coisa acontecer com ela…

Balancei a cabeça.

— Acho que já sei quem será responsabilizado.

Ela me observou por alguns instantes.

— Acha?

Sorri sem humor.

— Tenho quase certeza.

O silêncio voltou, foi ela quem o rompeu.

— Então imagino que esteja procurando alguém para permanecer com a Rainha na sua ausência.

Assenti.

— E descobri que consigo encontrar motivos para desconfiar de praticamente toda a Guarda Real.

Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, vi Aura parecer realmente surpresa.

A reação foi mínima, mas o suficiente.

— Nem dos homens treinados por Danurem?

— Principalmente deles.

Ela franziu o cenho.

— Explique.

— Eles acabaram de perder o comandante. Alguns perderam amigos. Não sei quem ainda consegue separar a missão da raiva.

Continuei andando enquanto falava.

— Depois vêm os outros problemas. Há soldados próximos demais de certas famílias nobres. Outros estão endividados. Alguns obedeceriam qualquer ordem que saísse do trono, mesmo que eu dissesse o contrário. E basta um único homem fazer a escolha errada para transformar Lysvallis numa moeda de troca.

Aura permaneceu com o mesmo rosto calmo.

— Faz sentido.

Aquilo me surpreendeu.

Esperava que dissesse que eu estava exagerando.

— Faz?

Ela assentiu.

— Você não está procurando o melhor guarda.

Está procurando alguém incapaz de escolher entre duas lealdades.

Sorri.

— Exatamente.

— E encontrou?

Balancei a cabeça.

— Não.

Outro breve silêncio.

Então falei aquilo que vinha pensando desde que a encontrara.

— Na verdade…

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Eu pediria sua ajuda.

Ela não demonstrou surpresa. Como se já esperasse ouvir aquilo.

— Mas não posso.

— Porque represento Elandor.

— Sim.

Cruzei os braços.

— Imagine explicar ao Conselho que a Rainha de Altheria está sendo protegida pela Guardiã de outro reino.

Ela soltou uma pequena risada.

— Realmente seria uma conversa interessante.

Então ela inclinou levemente a cabeça.

Vi alguma coisa mudar em sua expressão.

— Você está tentando esconder uma guarda.

Balancei a cabeça.

— Sim.

Ela sorriu.

— Então pare de esconder uma guarda.

Franzi o cenho.

— Faça todos acreditarem que ela nunca existiu.