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Capítulo 180 – O Peso de um Nome II.

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Capítulo 180 – O Peso de um Nome II.

Narrado por Eldrik.

Olhei para ela sem entender.

— Tecnicamente…

Havia um brilho divertido em seus olhos.

— Eu apenas estaria visitando uma conhecida.

Franzi o cenho.

— Conhecida?

— Estive com a Rainha algumas vezes na última estadia dela em Cervalhion. Fomos apresentadas, nós conversamos até tomamos um chá juntas, se eu decidir passar parte da noite conversando com ela, quem exatamente poderá me impedir?

Pensei por alguns segundos.

Ela continuou.

— Não estarei armada na porta, não darei ordens aos seus soldados ou responderei pelo castelo. Apenas farei companhia a uma rainha estrangeira que está hospedada longe de casa.

Inclinei a cabeça.

Ela tinha encontrado uma solução elegante.

Como sempre.

— E, coincidentemente…

— Coincidentemente — completou ela, sorrindo discretamente — estarei presente caso alguém resolva transformar uma visita de cortesia em algo menos educado.

Não consegui esconder um sorriso.

— Acho que acabou de me mostrar que diplomatas são ainda mais perigosos do que eu imaginava.

Ela fez uma pequena reverência exageradamente formal.

— Fico feliz em contribuir para sua educação política, príncipe.

Ri pela primeira vez desde a ponte.

Foi um riso curto.

Mas verdadeiro.

— Então… tecnicamente, preciso lhe agradecer.

Ela começou a caminhar em direção à ala leste. Sem sequer olhar para trás, respondeu:

— Ainda não.

Fez uma pequena pausa.

— Mas considere que acabou de contrair uma dívida comigo.

Observei-a se afastar pelo corredor, sorrindo de canto. Ainda não fazia ideia de quais eram os verdadeiros objetivos de Aura, mas havia uma coisa da qual tinha certeza: naquela noite, não existia ninguém em Cervalhion em quem eu confiasse mais para ficar ao lado de Lysvallis do que ela.

Pelo menos um problema estava resolvido. Restava descobrir por que meu pai me chamara com tanta urgência.

Os corredores estavam mais vazios do que eu jamais os vira. A movimentação frenética que costumava seguir o fim das reuniões do Conselho tinha desaparecido — criados caminhavam depressa e em silêncio, soldados mantinham os olhos fixos à frente, como se qualquer conversa pudesse criar algo que ninguém queria lidar naquela noite.

Os dois guardas diante dos aposentos do Rei me reconheceram sem exigir anúncio. Bati duas vezes na madeira antes de entrar.

O ambiente estava escuro, só algumas lamparinas acesas espalhando uma luz amarelada que mal alcançava os cantos. Meu pai estava diante da janela, as mãos cruzadas atrás das costas, o olhar perdido no pátio interno — eu conhecia aquela postura. Ele não estava observando nada. Estava pensando. Minha mãe permanecia sentada perto da mesa, a coluna ereta, as mãos entrelaçadas no colo, calma do jeito específico que ela só parecia quando estava mais preocupada do que admitia.

Os dois já tinham conversado. Muito. Pela primeira vez desde a morte de Dan, tive a sensação de estar entrando no meio de uma decisão, não de uma discussão.

— Feche a porta, filho — disse meu pai, sem se virar.

Obedeci. Puxei uma cadeira e sentei. Ninguém falou por um momento, meu pai continuou olhando pela janela, minha mãe olhando para mim, como se um esperasse coragem para começar e a outra esperasse minha reação antes mesmo de saber a quê.

Apoiei as costas na cadeira enquanto meu pai permanecia de frente para a janela.

Esperei até que ele quebrasse o silêncio.

— Kael disse que voltará.

Assenti.

— Eu ouvi.

— Para terminar uma conversa com sua mãe. Sobre Ian.

Olhei para Melissa. Ela sustentou meu olhar por apenas um instante antes de voltar a observar meu pai.

— E foi isso que me fez perceber uma coisa. Nós conhecemos Ian. Crescemos ouvindo histórias sobre ele. Sabemos o que protege, como costuma agir e até onde normalmente está disposto a ir. Com Kael é diferente.

Ele finalmente se afastou da janela.

— Mal sabemos do que ele é capaz. Descobrimos que ele conseguiu matar Danurem sem dificuldade. Mas isso não responde nenhuma das perguntas realmente importantes. Não sabemos se é um estrategista frio ou um homem guiado apenas pela força ou loucura. Não sabemos se é sensato ou mesquinho, se calcula cada movimento ou se simplesmente deixou de medir consequências há muito tempo. Não sabemos sequer o que ele considera aceitável nessa situação.

Parou diante da mesa e apoiou as duas mãos sobre a madeira.

— E, enquanto não entendermos isso, não faço ideia do que esperar quando ele voltar.

A frase permaneceu suspensa por alguns instantes antes que ele continuasse.

— Passei a última hora tentando responder uma única pergunta.

Seus olhos encontraram os meus.

— O que Kael realmente veio buscar em Cervalhion?

Ninguém respondeu.

Ele mesmo começou a eliminar possibilidades.

— Território? Não. Recursos? Também não. Vingança…

A palavra demorou mais para sair.

— Talvez.

Minha mãe permaneceu em silêncio. Eu conhecia aquele silêncio. Ela estava deixando que ele organizasse o próprio raciocínio até o fim.

— Tudo começou comigo.

Franzi o cenho.

— A ordem para prender Ian foi minha. Fui enganado, manipulado, usado… mas a decisão ainda foi minha. Alexia morreu porque permiti que uma mentira conduzisse minhas escolhas. Danurem morreu tentando corrigir um erro que começou comigo.

Senti o peito apertar.

Nunca tinha ouvido meu pai falar daquela forma. Reis costumavam dividir culpas. Ele fazia exatamente o oposto, reunindo todas sobre si.

— Kael não pediu minha cabeça. Ainda não. Mas, quanto mais penso no que aconteceu hoje, mais acredito que era exatamente isso que ele esperava que eu entendesse.

Respirei fundo o encarando.

— Não estou acompanhando.

Ele caminhou até a lareira apagada antes de responder.

— Tente pensar como um Guardião, não como um rei. Um homem matou sua companheira ou amiga seja lá o que ela era dele. Lysvallis quase morreu. Kael encontrou o próprio irmão espancado sobre uma ponte. E o responsável por tudo isso continua sentado no trono.

Voltou-se para mim.

— Você realmente acredita que ele poderia considerar tudo isso. E só seguir em frente como se nada tivesse ocorrido?

Abri a boca para responder, mas nenhuma resposta veio.

— Talvez toda aquela conversa sobre tratados e fronteiras nunca tenha sido o verdadeiro motivo para estar naquele salão. Talvez fosse apenas o caminho até o único acerto de contas que realmente lhe interessava.

Respirei fundo.

Já sabia o que viria antes mesmo que ele dissesse.

— Quando Kael voltar… vou oferecer minha vida.

Levantei-me imediatamente.

— Não.

Minha resposta saiu antes que eu pudesse pensar.

Meu pai não pareceu surpreso.

— Escute até o fim.

— Não existe um fim que torne isso aceitável.

Ele sustentou meu olhar.

— Uma vida. A minha. Em troca de todas as que foram perdidas. A de um Rei pela a de uma Matriarca.

Balancei a cabeça.

— Isso talvez resolva o problema de Kael. Mas vai destruir Cervalhion.

Pela primeira vez ele hesitou.

Aproveitei.

— Acabamos de perder Danurem. O senhor realmente acredita que o reino suportaria perder o próprio rei poucos dias depois?

Ele permaneceu calado.

Minha mãe respondeu por ele.

— Não suportaria.

A voz saiu baixa, mas firme.

— Você não está encerrando uma crise. Está criando outra muito maior.

Meu pai fechou os olhos por um instante.

Quando voltou a abri-los, parecia apenas cansado.

— Então me digam.

Olhou primeiro para ela, depois para mim.

— O que Kael quer? Já descartei todas as outras respostas e continuo voltando para a mesma conclusão… Minha cabeça.

Melissa respirou devagar antes de falar.

— Há um problema nessa conclusão.

Meu pai ergueu os olhos.

— Qual?

— Você está assumindo que Kael pensa como você.

Ela se levantou e começou a caminhar lentamente pela sala.

— Está procurando lógica política em um homem que conhecemos há pouco mais de uma hora. Nós conhecemos Ian. Sabemos o que protege, como reage e onde costuma traçar seus limites. Kael, por outro lado, continua sendo uma incógnita.

Ela passou a mão pelo encosto de uma cadeira antes de continuar.

— Até hoje tudo o que sabíamos sobre o Guardião das Cinzas eram histórias distorcidas. Agora sabemos apenas mais uma coisa.

Olhou diretamente para meu pai.

— Que ele matou Dan.

A afirmação permaneceu no ar.

— Isso não nos diz como ele pensa. Não nos diz o que deseja. Não nos diz quais limites possui… ou sequer se possui algum.

Meu pai cruzou os braços.

— Concordo.

— Então por que tanta certeza de que ele quer sua cabeça?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Porque todo o resto me parece absurdo.

— Talvez seja.

Ela assentiu.

— Mas isso não torna automaticamente sua conclusão verdadeira.

Parou diante da lareira.

— Pense no comportamento dele durante toda a reunião. Entrou sem apoio. Nunca perdeu o controle. Não elevou a voz além do necessário. Não exigiu ouro, tropas, prisioneiros ou reparações financeiras. Pediu território, estabeleceu um prazo de dois dias…

Fez uma pequena pausa.

— …e deixou Lysvallis aqui.

O silêncio voltou.

— Esse é o único movimento daquela reunião que continua sem fazer sentido.

Meu pai permaneceu atento.

— Se Kael quisesse apenas puni-lo, por que abrir mão da própria Rainha? Por que deixá-la dentro do castelo da mesma corte que acabara de tentar matá-la? E mais do que isso…

Ela voltou os olhos para mim.

— Por que colocá-la sob responsabilidade direta de Eldrik? Não do trono. Não da Coroa. Não de Cervalhion.

Meu peito apertou novamente.

Eu também havia percebido aquilo.

Mas ouvi-la organizar todos aqueles fatos tornava a situação ainda mais estranha.

— É um risco enorme.

Ela concordou.

— Grande demais. Kael pode ser impulsivo, violento e até imprudente, mas não me parece descuidado. Muito menos depois do que vimos hoje.

Seus olhos encontraram os de Aedin.

— Portanto, existem apenas duas possibilidades. Ou ele sabe alguma coisa que nós ignoramos…

Ela deixou a frase suspensa por um instante.

— …ou essa decisão nunca foi dele.

Meu pai ergueu lentamente a cabeça.

Foi a primeira vez desde que eu entrara naquela sala que vi algo diferente em sua expressão.

Não era esperança.

Era reconhecimento.

— Continue.

Melissa estreitou os olhos.

— Você também chegou a essa conclusão.

Ele assentiu.

— Desde que a porta do salão se fechou.

Ela permaneceu imóvel por um momento.

— Então existe outra hipótese.

Meu pai respirou fundo.

— Talvez estejamos tentando entender o comportamento de Kael…

Olhou diretamente para mim.

— …quando deveríamos estar tentando entender o de Lysvallis.

Nenhum de nós falou.

Se aquilo fosse verdade, toda a reunião no salão do trono mudava de significado. Talvez nunca tivesse sido apenas uma negociação entre reinos. Talvez existisse uma segunda conversa acontecendo sob a primeira, conduzida não por ameaças ou tratados, mas por gestos que nenhum de nós soubera interpretar.

Meu pai permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se ainda estivesse decidindo se valia a pena dizer aquilo em voz alta.

Quando finalmente falou, sua expressão era de quem sabia que a própria conclusão soaria absurda.

— Foi isso que me levou a considerar uma segunda possibilidade.

Ele me encarou.

— Muito mais improvável do que imaginar que Kael queira minha cabeça.

A pausa foi curta.

— Talvez Lysvallis tenha vindo a Cervalhion em busca de alguma coisa. E talvez Kael apenas tenha garantido que ela pudesse fazer isso.