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Capítulo 181 – O Peso de um Nome III.

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Capítulo 181 – O Peso de um Nome III.

Narrado por Aura

Caminhei pelo corredor da ala leste sem pressa.

Tecnicamente, aquela seria apenas a primeira de uma série de visitas à Rainha de Altheria.

Na prática, era uma excelente oportunidade para colher informações.

Elandor estava desmoronando como um moribundo que insistia em caminhar sozinho. Ainda respirava, ainda mantinha a aparência de um reino funcional, mas bastava olhar um pouco mais de perto para perceber as feridas abertas por décadas de ganância. Cada casa nobre puxava o cobertor para si enquanto a cidade inteira passava frio.

Se eu realmente fosse abandonar minha missão, precisava ter certeza de que valeria a pena.

Parei diante da porta e bati duas vezes.

Poucos segundos depois, ouvi passos leves se aproximando. A maçaneta girou.

Lysvallis surgiu diante de mim, usando um vestido branco simples, bem mais discreto do que eu esperava de uma rainha. Os cabelos prateados caíam soltos sobre os ombros, escondendo parte das orelhas alongadas, embora as pontas ainda denunciassem a herança Gel’Varel. Os olhos azul-arroxeados continuavam exatamente como eu lembrava.

Difíceis de ler. Bonitos demais para alguém acostumado a negociar guerras.

Ela me reconheceu quase imediatamente. Um sorriso pequeno apareceu no rosto dela.

— Guardiã.

Inclinei levemente a cabeça.

— Majestade.

— Ao que devo a visita? — perguntou, ainda me observando.

Olhei rapidamente para os dois lados do corredor. Vazio, por ora — as patrulhas não demorariam a passar.

— Tecnicamente… vim apenas fazer uma visita.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Tecnicamente?

— Sim. Tecnicamente. — Sorri de canto. — Posso entrar?

Ela sustentou meu olhar por um instante antes de se afastar da porta.

— Claro.

Passei por ela. O quarto era amplo, luxuoso, exageradamente ornamentado — cortinas pesadas, móveis entalhados, detalhes dourados por toda parte. Nunca consegui entender o fascínio que nobres tinham por desperdiçar recursos para impressionar pessoas que já sabiam que eles eram ricos. Pelo menos havia uma pequena sala ao lado da cama, mais agradável do que o resto do aposento.

Lysvallis caminhou até uma das poltronas e sentou-se com a naturalidade. Indicou a cadeira à sua frente.

— Então?

Era minha vez.

— Vim a pedido do príncipe.

Ela ergueu discretamente as sobrancelhas.

— Eldrik?

— Sim.

Ficou em silêncio por alguns segundos. Não parecia surpresa. Parecia analisando.

— Confesso que esperava um guarda de Cervalhion — disse, por fim. — Mas sua presença já responde boa parte das minhas perguntas, Guardiã. — Um sorriso discreto. — Parece que o príncipe ficou sem opções.

Sorri também.

— Infelizmente, sim.

Sentei-me de frente para ela.

— Ou talvez ele tenha encontrado a única pessoa em quem podia confiar.

Ajeitei o vestido antes de voltar a encará-la.

— A propósito — não tive oportunidade antes — meus pêsames. Alexia parecia uma pessoa notável.

— Obrigada. — Lys respirou fundo, os olhos indo para algum ponto sem foco perto da cama. — Ela era. Não éramos tão próximas antes da viagem a Cervalhion. Eu só encontrava as matriarcas nas reuniões do Círculo, para discutir política.

Voltou a me encarar.

— Curioso como se pode conviver anos com alguém sem conhecer a pessoa de fato. Precisei de um guardião ressurgir dos mortos para me tirar da própria arrogância.

Aquilo era interessante, a rainha estava falando muito mais do que eu esperava. Poderia ser uma boa oportunidade para colher informações. Mas eu sabia que ela era esperta demais para isso ser simples; precisaria conduzir a conversa com calma. Como toda dança, os dois lados tinham que acompanhar o ritmo.

Sorri de leve.

— Vivo algo parecido, na verdade. — Mentira. — Jurei lealdade ao meu rei, mas nunca tive chance de falar com ele diretamente. — Respirei fundo. — Ao menos você teve a chance de conhecê-la.

Ela me observou com calma por alguns segundos. Difícil de ler, como sempre.

— Bom, você ainda tem essa chance — disse, levantando-se em direção a uma chaleira que soltava um leve vapor.

— Acho improvável. Digamos que o Rei Varyn não é tão… acessível quanto Vossa Majestade.

— Pode me chamar de Lysvallis. Ou apenas Lys, quando estivermos a sós.

Serviu duas xícaras e me estendeu uma. Aceitei com um aceno.

— Obrigada.

Levei o chá aos lábios. Era leve, com um aroma floral que não reconheci.

— Confesso que esperava algo mais forte.

Lys sorriu.

— É de Altheria. Preferimos chás mais suaves.

Assenti. Fazia sentido.

Ficamos em silêncio por um momento, observando o vapor subir das xícaras. Decidi quebrá-lo.

— Ouvi dizer que o Guardião ficou gravemente ferido.

Ela ergueu os olhos.

— Ian.

Confirmei com um aceno.

— Como ele está?

O sorriso dela desapareceu.

— Vivo. — Passou o polegar pela borda da xícara antes de continuar. — Mas continua inconsciente. O corpo está se recuperando, quando sai não havia mais risco imediato. — Uma pausa breve. — O problema é que ninguém sabe quando, ou se, ele vai acordar.

Baixei os olhos para o chá.

— Imagino que Altheria esteja preocupada.

— Está — respondeu, sem hesitar. — Ian nunca pertenceu ao nosso reino de fato. — Um sorriso pequeno. — Mas isso nunca impediu que muita gente passasse a depender dele.

— Espero que acorde logo — disse eu.

— Eu também.

O silêncio voltou. Dessa vez foi Lys quem o quebrou.

— E Elandor? Como está seu reino?

Sorri de canto. Era uma pergunta simples. A resposta não podia ser.

— Continua de pé.

Ela esperou que eu continuasse. Não continuei. Depois de alguns segundos, completei:

— Às vezes isso já é uma vitória.

Os olhos dela estreitaram, quase imperceptivelmente.

— As coisas estão tão ruins assim?

Olhei pela janela antes de responder.

— Algumas árvores levam anos para morrer. Continuam verdes por fora.

Passei o dedo pela borda da xícara.

— Mas por dentro…

Deixei a frase morrer. Ela entendeu. Não insistiu.

Em vez disso, sorriu de leve.

— Vejo que está mais sociável desde nosso último chá.

Ri pelo nariz.

— Alexia passou metade da tarde tentando descobrir como funcionava o Conselho de Elandor.

Lys sorriu junto.

— E Elenys fazia perguntas ainda piores.

— Ela era mais direta.

— Muito.

Rimos por alguns segundos. Era estranho, antes que eu continuasse.

— Você sente falta de Altheria? — perguntei.

Ela olhou pela janela outra vez.

— Um pouco. — Sorriu com nostalgia. — Principalmente do vento.

Franzi a testa.

— Do vento?

— No inverno, quando está bem frio e neva, o vento em Altheria cria pequenas correntes de flocos de neve no ar. — Deu de ombros. — Estranhamente, sinto falta disso.

Ri baixo.

— Nunca imaginei ouvir alguém dizer que sente falta de passar frio.

Ela riu, discreta.

— E você?

Pensei por um momento.

— Da chuva.

— Chove muito em Elandor.

— Eu sei. — Sorri. — Mas cada parte da floresta tem um cheiro diferente quando chove.

Ela ficou em silêncio, parecendo imaginar aquilo. Depois de alguns segundos, voltei a falar, não podia deixar a conversa morrer.

— Imagino que tenha sido estranho reencontrar Eldrik depois de tantos anos.

A pergunta saiu naturalmente. Sem pressa.

— Bastante — respondeu ela.

— Ele mudou muito?

— Mais do que eu esperava.

— Para melhor?

Um pequeno sorriso.

— Em alguns aspectos.

— E nos outros?

Um suspiro divertido.

— Continua tão teimoso quanto antes.

Sorri.

— Então algumas coisas nunca mudam.

— Algumas não.

Levei a xícara aos lábios de novo.

— Ele ainda costumava treinar desde antes do amanhecer quando era mais jovem?

— Não tenho certeza, acho que sim.

— Infelizmente meu quarto fica próximo a zona de treino dele, então geralmente o meu despertador é o som das espadas se chocando contra os bonecos, ou o galope de um cavalo correndo. — Complementei.

— Ele sempre gostou de cavalos, mas tinha dificuldade pra controlar.

— E continua evitando bailes?

Ela abriu a boca para responder. Parou. Os olhos dela ficaram fixos em mim.

Apoiou a xícara sobre a mesa.

Permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Não era um silêncio desconfortável.

Era o silêncio de alguém organizando um pensamento.

Quando voltou a falar, sua voz continuava tranquila.

— Conversamos sobre Ian.

Ela ergueu um dedo.

— Sobre Elandor.

Mais um.

— Sobre Altheria.

Os dedos voltaram para a xícara.

— Mas, curiosamente…

Ela sorriu de leve.

— Parece que seu foco está em Eldrik.

Mantive a expressão serena.

Ela não parecia me acusar, nem testar.

Apenas constatava um fato.

— Imagino que uma rainha esteja acostumada a perceber quando alguém tenta conduzir uma conversa.

Ela soltou uma pequena risada.

— Não.

Balançou a cabeça.

— Apenas presto atenção nas perguntas que as pessoas escolhem fazer.

O silêncio voltou por um instante.

Então ela me olhou diretamente.

Sem desconfiança ou hostilidade.

Quase… curiosa.

— Então me diga, Aura.

Outra pequena pausa.

— O que exatamente você está tentando entender?