Capítulo 182 – O Peso de um Nome IV.
Capítulo 182 – O Peso de um Nome IV.
— O que exatamente você está tentando entender?
A pergunta permaneceu suspensa entre as duas.
Lys não parecia desconfiada. Tampouco havia qualquer dureza em sua voz. Ela se limitou a expor um fato que já não podia ser ignorado. Ao longo da conversa, os assuntos haviam mudado diversas vezes, mas agora o real interesse havia sido exposto.
Eldrik.
Aura sustentou o olhar da rainha por alguns instantes antes de baixá-lo para a xícara entre suas mãos. O chá já não soltava vapor, e a superfície tranquila refletia parte da luz dourada que atravessava as janelas do quarto.
Ela demorou um pouco mais do que o habitual para responder.
Não porque tivesse sido pega de surpresa.
Mas porque precisava recalcular a abordagem.
Lys identificara a direção da conversa muito antes do que deveria.
“Fui apressada.”
Durante anos, Aura aprendera que informações raramente eram obtidas por perguntas diretas. Pessoas inteligentes fechavam portas assim que percebiam o verdadeiro objetivo de quem as interrogava. O caminho mais seguro sempre fora outro: permitir que acreditassem estar conduzindo a conversa, até entregarem espontaneamente aquilo que ela buscava.
Naquela tarde, porém, acelerara etapas.
Não por causa de Eldrik.
O príncipe continuava sendo apenas uma possibilidade.
O problema era outro.
Pela primeira vez em muitos anos, existia uma perspectiva concreta de abandonar a vida que construíra como Guardiã.
Elandor enfraquecia a cada estação. As Grandes Casas consumiam recursos em disputas internas enquanto o reino lentamente deixava de sustentar aqueles que faziam o trabalho que ninguém mais aceitava fazer.
Aura sempre imaginara que morreria servindo Varyn.
Agora começava a considerar que Varyn talvez não conseguisse manter o próprio reino de pé por tempo suficiente para isso.
Aquela possibilidade alterara seu julgamento.
Não a ponto de perder o controle.
Apenas o suficiente para abandonar um método que, durante anos, jamais falhara.
Ela registrou mentalmente o erro.
Não pretendia repeti-lo.
Restavam duas alternativas.
Recuar…
…ou transformar parte da verdade em uma ferramenta.
Mentir seria um desperdício.
Lys já havia percebido a direção da conversa.
Qualquer história inventada apenas criaria uma segunda camada de desconfiança.
Uma verdade cuidadosamente escolhida, por outro lado…
Poderia produzir o efeito contrário.
Aura ergueu novamente os olhos.
A decisão já estava tomada.
Não contaria toda a verdade.
Contaria apenas o suficiente para que a rainha acreditasse que conhecia a parte mais importante dela.
— Acho que estou começando a me interessar pelo príncipe.
Lys permaneceu imóvel.
O rosto continuava sereno, mas seus olhos perderam o foco por um breve instante antes de voltarem para Aura.
Ela não respondeu.
A Guardiã prosseguiu.
— Antes que isso fosse longe demais, achei que seria justo entender a situação entre vocês.
O silêncio voltou a ocupar o ambiente.
Lys apoiou cuidadosamente a xícara sobre a pequena mesa entre as duas. O som delicado da porcelana encontrando a madeira pareceu ainda mais evidente na quietude do quarto.
Ela permaneceu olhando para o chá durante alguns segundos, como se a resposta estivesse escondida no reflexo âmbar do líquido.
Quando voltou a falar, sua voz carregava uma calma diferente da que mantivera até então.
— Confesso que não esperava ouvir isso.
Lys cruzou delicadamente as mãos sobre o colo antes de recostar o corpo na poltrona.
Não havia desconfiança ou irritação.
Apenas surpresa.
Seu olhar se perdeu por um instante na janela aberta, onde a luz do fim da tarde pintava os jardins internos do palácio com tons dourados.
— Durante muito tempo… — começou, escolhendo as palavras com cuidado — imaginei que meu noivado com Eldrik definiria boa parte da minha vida.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Era um sorriso sem alegria.
Daqueles reservados às lembranças que deixaram de doer, mas nunca desapareceram completamente.
— Quando tudo terminou, passei meses tentando entender.
Sua atenção voltou lentamente para Aura.
— Depois percebi que estava procurando uma resposta que talvez simplesmente não existisse, já que na época era apenas política.
Fez uma pequena pausa.
— Pessoas mudam, reinos mudam.
A frase foi simples.
Mas havia nela uma aceitação construída ao longo de anos.
Aura percebeu que Lys já não falava apenas de Eldrik.
Falava de si mesma.
O silêncio que se seguiu não era exatamente desconfortável.
Era o tipo de silêncio que permitia às lembranças ocuparem espaço sem exigir explicações.
Lys respirou profundamente.
Os olhos permaneceram por alguns instantes fixos além da janela, acompanhando distraidamente o movimento das copas das árvores. Havia algo naquela expressão que Aura não conseguia definir. Não era tristeza. Tampouco nostalgia. Parecia apenas a serenidade de alguém que finalmente aceitara uma parte da própria história.
Quando voltou a encará-la, havia uma leveza diferente em seu semblante.
— Ainda sinto muito carinho pelo Eldrik.
Sorriu de maneira sincera.
— Muito respeito também.
Abaixou os olhos por um breve instante antes de concluir.
— Mas já não sinto a mesma coisa que um dia senti.
As palavras não pareceram carregar arrependimento ou culpa, era apenas a verdade.
Aura permaneceu em silêncio.
Não porque não tivesse o que dizer.
Mas porque compreendeu que aquela resposta custara mais à rainha do que qualquer outra durante toda a conversa.
Lys sustentou seu olhar por mais alguns segundos e, pela primeira vez desde que Aura entrara naquele quarto, sorriu sem qualquer sombra de melancolia.
— Então… — disse com gentileza. — Não precisa se preocupar comigo.
Aura levou a xícara aos lábios e bebeu um pequeno gole. O chá já havia perdido parte do calor, mas o aroma floral permanecia delicado. Quando tornou a pousá-la sobre o pires, encarou Lys por alguns instantes antes de voltar a falar.
— Posso fazer mais uma pergunta?
Lys sorriu de leve.
— Pode sim, já que vamos ficar na companhia uma da outra nos próximos dois dias, que ao menos tenhamos boas conversas.
Aura retribuiu o sorriso, mais discreto.
— Talvez.
A rainha soltou uma breve risada pelo nariz.
— Pelo menos agora não preciso adivinhar para onde a conversa está indo.
A observação arrancou um sorriso de Aura.
— Prometo que essa vai ser direta.
— Então faça.
Aura permaneceu alguns segundos organizando as palavras. Curiosamente, aquela pergunta lhe parecia mais difícil do que todas as anteriores, mas também a que mais tinha potencial de aproximar as duas.
— O que fez Eldrik se apaixonar por você?
Lys piscou uma vez.
A pergunta parecia simples.
Mas a forma como foi feita desmontou qualquer resposta pronta.
Ela desviou os olhos para o reflexo da luz dourada do fim da tarde que atravessava as cortinas claras, desenhando sombras suaves sobre o piso de pedra polida.
— As pessoas costumam procurar um grande acontecimento para explicar sentimentos…
Aura arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Então você acredita que não existiu um motivo?
Lys riu.
— Parece uma maneira elegante de fugir da pergunta, eu sei mas, acho que existiram centenas. Nenhum deles seria suficiente sozinho.
— Um pouco.
— Mas é verdade.
Ela cruzou uma perna sobre a outra e apoiou os braços no colo.
— Nunca houve um momento em que eu pensasse: “foi isso”.
Aura permaneceu em silêncio.
A resposta fazia sentido mas ainda assim, era insuficiente.
Lys percebeu.
— Está decepcionada.
— Um pouco.
A rainha sorriu.
— Imaginei.
Ela apoiou o cotovelo no braço da poltrona e passou alguns segundos observando Aura com mais atenção do que fizera até então.
Não havia malícia naquele olhar.
Era quase o mesmo olhar de um artesão tentando compreender uma peça bem construída.
Aura sustentou a observação sem desconforto.
Lys inclinou levemente a cabeça.
— Posso dizer o que eu vejo?
— Claro.
— Sabe qual é o problema? Você entra em um ambiente e todos percebem sua presença. Mas ninguém sente que pode se aproximar.
Aura franziu o rosto e soltou uma pequena risada.
— Dessa vez eu que não estava esperando por isso.
— Eu ainda não terminei.
A resposta veio acompanhada de um sorriso divertido.
— Beleza chama atenção.
Ela fez uma pequena pausa.
— Mas não mantém ninguém por perto.
Aura permaneceu ouvindo.
— Você também é inteligente, confiante e objetiva. Tenho a impressão de que dificilmente perde o controle de uma situação.
Aura não confirmou mas também não negou.
Lys sorriu ao perceber isso.
— Viu?
— O quê?
— Até um elogio você recebe como se estivesse avaliando uma negociação.
As duas riram baixo.
A tensão que dominara a conversa desde o início parecia finalmente ceder.
Lys voltou a observá-la.
Dessa vez com curiosidade genuína.
— Você passa a impressão de que está sempre pronta para agir. Conheci poucas pessoas assim.
Aura franziu levemente a testa.
— Quem?
— O próprio Kael.
A surpresa não chegou ao rosto de Aura, mas seus olhos permaneceram atentos.
Lys percebeu e tratou de continuar antes que ela interpretasse errado.
— Thamir também é assim, você pode encontrá-los rindo, conversando ou fazendo alguma brincadeira. Ainda assim…
Ela estalou suavemente os dedos.
— Dá a impressão de que conseguem reagir a qualquer perigo antes mesmo de percebê-lo conscientemente.
Os olhos de Aura permaneceram fixos nela, abrindo um pequeno sorriso.
— Não posso dizer que entendi bem. — Aura fingiu não entender.
Lys sorriu.
— Acho que não.
Ela apoiou as costas na poltrona.
— Eldrik também tem isso, não da mesma maneira. Mas existe, quando entrou naquele salão pela primeira vez, senti exatamente isso. Ele parecia completamente relaxado, ao mesmo tempo… Eu tinha a impressão de que nenhuma pessoa naquele ambiente conseguiria alcançá-lo antes que ele reagisse.
Aura pensou na luta contra Ian da qual Eldrik participou.
Depois nas poucas vezes em que observara Eldrik treinando sozinho.
A descrição fazia sentido.
Lys continuou.
— O curioso é que Eldrik consegue esconder isso melhor.. Mas ele sabe controlar essa sensação, acho que isso faz vocês parecerem maiores do que realmente são. Mais perigosos mas também distantes.
Ela sorriu de maneira gentil.
— O curioso é que, quando começamos a conversar, essa impressão desaparece.
Aura apoiou o cotovelo na cadeira.
— Então está dizendo que eu pareço ameaçadora?
— Estou dizendo que você parece inacessível.
A resposta veio sem qualquer hesitação.
— São coisas diferentes.
Aura refletiu sobre aquilo por alguns segundos. Nunca havia pensado dessa forma.
Para ela, manter distância na medida sempre fora uma vantagem.
Uma necessidade da profissão.
Lys continuou antes que o silêncio se prolongasse.
— Se realmente pretende conquistar o coração de alguém…
Ela sorriu.
— Não acho que precise mudar quem você é. O máximo que eu faria…
Lys observou o vestido escuro por alguns segundos.
— Posso dizer uma coisa?
— Claro.
— Quando abriu a porta, pensei que você estivesse pronta para sair em uma missão.
Aura olhou para si mesma.
— Esse era o objetivo.
Lys segurou uma risada.
— Imagino. Ele cumpre perfeitamente o propósito.
— Que propósito?
— …o de fazer as pessoas admirarem você à distância.
Aura acabou sorrindo dessa vez.
— Considerando minha profissão… Faz bastante sentido. …diria até que funcionou muito bem durante anos.
As duas riram juntas.
Pela primeira vez desde o início da conversa, nenhuma delas parecia medir cuidadosamente cada palavra.
O ambiente havia se tornado leve, confortável.
Lys sorriu.
— Se pretende começar uma vida diferente… talvez devesse começar a se vestir e agir já para a nova vida.
Aura nunca imaginou que pediria conselhos sobre homens justamente à mulher que um dia fora prometida ao homem que pretendia conquistar.
Foi justamente nesse momento que três batidas firmes interromperam a conversa.
As duas voltaram o rosto para a porta ao mesmo tempo.
— Majestade. — A voz de um guarda ecoou do lado de fora. — A família real solicita sua presença para o lanche da tarde. O príncipe informou que a aguardará no salão leste dentro de alguns minutos.
Lys fechou os olhos por um instante e sorriu com resignação.
— Parece que nossa conversa terá de continuar outra hora.