Capítulo 183 – O Peso de um Nome V.
Capítulo 183 – O Peso de um Nome V.
A brisa do fim da tarde atravessava o jardim suspenso do lado leste do castelo, fazendo as fileiras de tulipas balançarem em ondas suaves. Vermelhas, amarelas, brancas e lilases ocupavam canteiros cuidadosamente desenhados ao longo do caminho de pedra clara que contornava o terraço. Dali, a cidade de Cervalhion se estendia encosta abaixo. Os telhados de ardósia refletiam a luz dourada do sol poente enquanto pequenas colunas de fumaça começavam a subir das chaminés, anunciando o fim de mais um dia.
O lanche havia sido servido sob um gazebo de madeira branca, parcialmente coberto por trepadeiras floridas. Uma mesa redonda ocupava o centro, posta com porcelanas finas, frutas, pães recém-assados, queijos e uma chaleira de prata da qual ainda escapava um fio delicado de vapor.
Melissa observava tudo em silêncio.
Lys parecia completamente à vontade naquele ambiente.
Conversava com Aedin com a educação esperada entre dois soberanos, respondia às perguntas de Eldrik com tranquilidade e, vez ou outra, desviava os olhos para a paisagem como se realmente estivesse apreciando a vista.
Aquilo a incomodava.
Era uma naturalidade excessiva para alguém que, poucas horas antes, exigira parte do território de Cervalhion.
Aedin também parecia diferente.
Desde a sala do trono carregava um peso que Melissa conhecia bem. Sempre que ficava em silêncio por tempo demais era porque estava revendo alguma decisão.
Eldrik, por outro lado, permanecia concentrado.
Não parecia procurar culpados.
Depois de alguns minutos de conversa sobre assuntos triviais, ele apoiou delicadamente a xícara sobre o pires.
— Gostaria de tentar entender melhor uma coisa.
Lys voltou os olhos para ele.
— Estou ouvindo.
— Você disse no salão que as terras e os alimentos eram o menor preço que poderia defender diante de Altheria.
Ela assentiu.
— Continuo pensando assim.
Eldrik cruzou as mãos sobre a mesa.
— E se Cervalhion compensasse essa perda de outra forma?
Lys permaneceu alguns segundos em silêncio.
A brisa moveu alguns fios prateados de seu cabelo antes que ela respondesse.
— Que outra forma?
— Ouro.
Ela sorriu discretamente.
— Ouro compra reconstrução.
Fez uma pequena pausa.
— Não compra confiança.
Eldrik assentiu, como se já esperasse aquela resposta.
— Joias. Artefatos. Recursos estratégicos.
Lys negou com um leve movimento da cabeça.
— Continuariam sendo riquezas, isso temos de sobra nas ruinas.
Seus dedos tocaram distraidamente a borda da xícara.
— Alexia morreu durante uma visita diplomática organizada por Cervalhion.
Seu olhar percorreu lentamente os três.
— Meu povo precisa acreditar que algo mudou ou não terei como impedir das matriarcas marcharem ao sul.
Ela voltou a encarar Eldrik.
— Tesouros permanecem guardados em cofres, terras mudam fronteiras, alimentos sustentam pessoas. Essas coisas podem ser vistas, lembradas e explicadas.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
Melissa percebeu que Eldrik ainda não havia desistido.
— E uma aliança militar?
Lys respirou lentamente.
— Tornaria Altheria dependente de Cervalhion justamente quando parte do meu conselho acredita que fomos traídos pelo nosso anfitrião.
Ela abriu um pequeno sorriso.
— Seria uma péssima proposta para convencer os nobres.
Aedin finalmente falou.
— Então realmente não existe alternativa?
Lys demorou alguns instantes para responder.
Quando falou, sua voz perdeu parte da leveza.
— Existe.
Os três ergueram os olhos ao mesmo tempo.
Ela sustentou o olhar de Aedin.
— Existem alternativas muito piores.
O vento voltou a atravessar o jardim.
Ao longe, um sino anunciou mais uma hora.
Lys manteve a expressão serena.
— Alguns conselheiros vão defender uma ocupação permanente da fronteira. Outros querem sanções comerciais.
Ela fez uma pausa.
— Há quem considere que uma morte deve ser respondida com outra.
Aedin enrijeceu discretamente na cadeira.
Não precisou perguntar de quem ela estava falando.
Ainda assim perguntou.
— Kael?
Lys confirmou com um movimento quase imperceptível da cabeça.
— Ele quer minha morte.
Não era uma pergunta.
Ela não negou.
— Sim.
Melissa observou Aedin apertar lentamente a mão sobre o braço da cadeira.
Mesmo preparado para ouvir aquilo, a confirmação pesava de maneira diferente.
Lys prosseguiu antes que qualquer um falasse.
— Mas eu não concordo com ele.
Seu olhar permaneceu firme.
— O senhor não só falhou em proteger uma convidada sob sua responsabilidade como foi o motivo da sua morte. Isso é inegável.
Ela respirou fundo.
— Mas sua execução não devolveria Alexia. E provavelmente colocaria um nobre incompetente no seu lugar durante essa crise das bestas.
Aedin permaneceu imóvel.
Talvez fosse a primeira vez desde a morte de Alexia que alguém separava culpa de vingança.
O silêncio voltou a dominar a mesa.
Melissa observou Lys por alguns segundos.
Bonita.
Calma.
Sempre escolhendo exatamente as palavras necessárias.
Ela pousou a xícara sobre o pires com um estalo seco. Os três voltaram os olhos para ela.
— Por que não abrimos o jogo Lys…
Ninguém respondeu.
Melissa encarava apenas Lys.
— Desde o começo.
Lys inclinou discretamente a cabeça.
— O que exatamente?
Melissa abriu um sorriso pequeno.
Sem humor.
— Seu plano.
Pela primeira vez desde que chegara ao jardim, a expressão de Lys demonstrou verdadeira surpresa.
— Meu… plano?
— Sim.
Melissa recostou-se lentamente na cadeira.
— Você construiu uma negociação em que qualquer solução razoável leva ao mesmo lugar.
Eldrik franziu a testa.
Aedin também.
Mas Melissa continuou.
— Três territórios. Alimentos vendidos a preço de custo. Cooperação permanente entre os dois reinos.
Ela fez uma pequena pausa.
— É sempre caro demais para Cervalhion.
Depois olhou diretamente para Lys.
— Mas existe uma maneira de tornar tudo isso aceitável.
O vento fez algumas pétalas de tulipa atravessarem o caminho de pedra.
Ninguém falou.
Melissa concluiu, sem elevar a voz.
— Restaurar o antigo noivado.
O jardim mergulhou em silêncio. Nem mesmo os pássaros pareciam cantar. Naquele instante Lys permaneceu completamente imóvel.
Uma lembrança atravessou sua mente. O antigo jardim de Altheria, um Eldrik muitos anos mais jovem caminhando ao seu lado enquanto reclamava, pela terceira vez naquela noite, de mais um banquete diplomático.
Ela lembrava de ter rido.
Lembrava da expressão contrariada dele e da facilidade com que conversavam quando não havia política entre os dois. A lembrança desapareceu tão rapidamente quanto surgira. Instintivamente, esperou sentir o aperto que durante anos acompanhara qualquer recordação daquele tempo.
Ele não veio.
Naquela manhã, diante de Aura, afirmara que já não via Eldrik da mesma maneira, naquele instante compreendeu que não havia dito aquilo apenas para tranquilizar a Guardiã.
Era simplesmente a verdade.
A ideia de reconstruir aquele noivado já não despertava expectativa nem culpa.
Apenas lhe parecia… uma solução política. E foi essa constatação, mais do que a acusação de Melissa, que realmente a surpreendeu.
A rainha de Altheria apenas respirou lentamente.
Os dedos deslizaram pela porcelana da xícara antes de ela finalmente voltar os olhos para Melissa.
Havia serenidade em sua expressão.
Mas também uma firmeza diferente.
— Entendo por que chegou a essa conclusão.
A resposta pegou Melissa de surpresa.
Lys prosseguiu sem alterar o tom.
— E admito que, vista de fora, essa hipótese parece fazer sentido.
Ela desviou brevemente os olhos para a cidade abaixo da colina. Os últimos raios de sol refletiam nos telhados de Cervalhion enquanto o movimento das ruas diminuía lentamente.
Era uma cidade bonita.
— Mas estaria transformando Alexia em uma moeda de negociação.
Sua atenção voltou para Melissa.
— E eu jamais faria isso.
A firmeza daquela frase fez até Melissa hesitar.
Lys levantou-se calmamente da cadeira, o vestido branco acompanhou o movimento enquanto a brisa agitava alguns fios prateados de seu cabelo. Ela apoiou delicadamente uma das mãos sobre a mesa.
— A posição de Altheria permanece exatamente a mesma.
Olhou para Aedin.
— Três territórios.
Depois para Eldrik.
— Alimentos vendidos pelo preço de custo.
Por fim, voltou-se para Melissa.
— Se Cervalhion desejar apresentar uma contraproposta de valor equivalente, estarei disposta a ouvi-la. Mas ela deverá representar uma compensação real pela perda da Matriarca de Altheria, nem mais, nem menos.
Ela fez uma pequena reverência. Elegante.
— Agradeço pela companhia.
Virou-se para partir.
Quando já havia dado alguns passos pelo caminho de pedra, Eldrik falou.
— Lys.
Ela parou.
Não se virou imediatamente. Apenas permaneceu imóvel, observando o horizonte.
— Sim?
Eldrik demorou alguns segundos antes de responder.
— Obrigado…
Ele próprio pareceu procurar as palavras.
— …por impedir que isso terminasse de uma forma pior.
Lys fechou os olhos por um breve instante. Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.
— Agradeça quando todos voltarem vivos para casa.
Então retomou a caminhada. Melissa acompanhou sua figura desaparecer entre os canteiros de tulipas.
Nenhum dos três falou.
Aedin foi o primeiro a quebrar o silêncio.
Sua voz saiu mais baixa do que de costume.
— Ela estava dizendo a verdade.
Melissa não respondeu.
Ainda observava o caminho vazio.
Pela primeira vez desde a chegada da comitiva de Altheria…
Ela já não tinha tanta certeza de ter compreendido Lysvallis.
O Salão dos Registros não tinha lustre mais. Onde ele estivera pendurado, agora só havia uma corrente cortada e um teto enegrecido em forma de estrela — o que restou da cilada de Mael, na noite em que os intrusos escaparam por pouco.
Ninguém mandara consertar. Mael não deixou.
Deixa o teto lembrar todo mundo que quase funcionou. É mais útil que qualquer relatório.
Hassan chegou primeiro, com as pastas debaixo do braço apertadas contra o corpo como se pudessem fugir dele. Depois Korven, o coto do pulso direito enfiado na manga. Depois Emma, com papel e tinta, como sempre. Varyn entrou por último, sem anunciar, o jeito dele de lembrar quem ainda era o rei, mesmo quando a sala inteira sabia que “ainda” era a palavra que mais doía naquela frase.
Mael esperou todos sentarem antes de abrir a própria pasta.
— Vamos por ordem — disse. — Hassan primeiro.
Hassan não gostava de ser o primeiro a falar. Gostava menos ainda quando o motivo de ser o primeiro era o motivo de todos os outros também estarem ali.
— As rotas do deserto continuam funcionando — começou, e deixou a frase pairar tempo suficiente para que todos entendessem que aquilo não era a boa notícia que parecia. — Os nômades continuam negociando. Só que não mais com a coroa.
Emma ergueu os olhos do papel.
— Como assim, não mais com a coroa.
— Existe um mercado paralelo. Cresceu rápido demais pra ter sido acidental. — Hassan abriu a primeira pasta, mas não precisou consultá-la; os números já estavam gravados na memória dele havia semanas. — Compram e vendem exatamente as mesmas mercadorias que negociávamos, mas por rotas alternativas, com outros intermediários que trabalhavam pra nós até seis meses atrás. Só que agora o lucro não passa pelos nossos livros.
— Quanto perdemos? — perguntou Varyn, direto.
— Quanto controlamos das rotas do deserto? Metade, talvez menos. A arrecadação já caiu o suficiente pra aparecer nos relatórios como algo que não dá mais pra chamar de “flutuação sazonal”.
Korven bateu o coto na mesa, de leve.
— E como isso aconteceu sem ninguém perceber?
— Porque não aconteceu de uma vez — respondeu Hassan, e havia cansaço na voz dele, do tipo que só vem de ter passado semanas tentando explicar isso pra si mesmo antes de precisar explicar pra sala. — Aconteceu rota por rota. Intermediário por intermediário. Cada perda pequena o bastante pra não soar alarme. Até que alguém somou tudo.
Ninguém perguntou quem tinha somado tudo. Todos já sabiam que tinha sido Mael.
Korven não precisou de pasta. O que ele tinha pra dizer, carregava na postura.
— O exército está segurando. Por enquanto. — Ele fez uma pausa que não era pra efeito; era porque a próxima parte custava a dizer em voz alta. — Os salários atrasaram duas vezes. Da terceira vez, alguns já não vão esperar pra ver se acontece de novo.
— Deserção — disse Emma, sem rodeios.
— Ainda não. Ainda é gente saindo em silêncio, não gente saindo em grupo. Motim precisa de coordenação, e ninguém aqui está coordenado o suficiente pra motim. — Korven olhou para o próprio coto, um gesto que fazia sem perceber. — Mas lealdade não é uma coisa que você tem ou não tem. É uma coisa que você vai perdendo, devagar, até perceber que não tinha mais nada segurando quando precisou.
— E estamos perdendo — completou Varyn.
— Estamos.
Emma foi a que menos precisou de introdução. O que ela tinha pra dizer já estava escrito na própria postura de quem sentava naquela mesa havia meses vendo tudo desabar em câmera lenta.
— As casas nobres pararam de investir na defesa do reino.
— Pararam de investir, ou não têm mais com o quê investir? — perguntou Hassan.
— As duas coisas, mas a segunda é sintoma. A primeira é escolha. — Emma pousou a caneta. — Três casas já começaram a mover reservas pra fora do território. Uma delas comprou propriedade em Cervalhion na semana passada, em nome de um primo distante, mas ninguém aqui é ingênuo o suficiente pra achar que isso é coincidência.
Silêncio.
— Estão preparando saída — disse Varyn, e a voz dele tinha o peso específico de quem via a própria coroa sendo pesada por gente que já decidiu o veredito.
— Estão se preparando para a sobrevivência — corrigiu Emma. — O que pra eles significa a mesma coisa que abandonar o reino, só que ninguém vai chamar assim em voz alta até for tarde demais pra fingir que não era isso.
Mael não disse nada. Não precisava. Era exatamente o padrão que ele vinha vendo há semanas — só que até agora não tinha nome de casa nobre nem endereço em Cervalhion pra colocar em cima.
Não era incompetência dele. Era um reino cuja própria elite já tinha parado de acreditar que valia a pena defendê-lo.
Varyn ficou quieto por mais tempo do que o normal depois que Emma terminou. Absorvendo, como fazia questão de deixar claro que fazia.
O rei que escuta antes de decidir, mesmo quando a decisão já estava tomada antes da reunião começar.
— Se os nobres perderem completamente a esperança — disse finalmente —, isso não é mais uma crise que administramos. É colapso. De dentro pra fora, sem precisar de um único exército inimigo cruzando a fronteira.
Ninguém discordou.
— Precisamos de algo que devolva confiança rápido. Não paciência. Não reforma. — Varyn olhou pra cada um deles, um de cada vez, como se estivesse verificando se alguém tinha coragem de discordar antes de ele terminar de falar. — Precisamos de uma vitória. Grande o suficiente pra fazer essas três casas repensarem a mudança pro país vizinho.
— Está falando de Cervalhion — disse Korven, e não era pergunta.
— Estou acelerando os preparativos. Não vamos esperar mais o momento perfeito. — Varyn se levantou, e a decisão já estava na postura antes mesmo de estar completa na frase. — Uma guerra vencida resolve o que cem relatórios não resolvem. A nobreza não fica pra ver o reino cair. Fica pra ver o reino ganhar.
Hassan e Korven trocaram um olhar que nenhum dos dois comentou em voz alta. Nenhum dos dois achava aquilo prudente. Nenhum dos dois tinha uma alternativa melhor pra oferecer.
Todos já estavam recolhendo as pastas quando Mael falou.
— Antes de encerrarmos — disse, sem levantar a voz, do jeito que sempre fazia as pessoas pararem mais rápido do que gritar faria — eu também tenho algo. Uma boa notícia, pra variar.
Varyn parou, já de pé.
— Boa notícia? — repetiu Emma, sem esconder a descrença. Ninguém naquela sala tinha ouvido essas duas palavras juntas fazia meses.
Mael não abriu pasta nenhuma dessa vez. Não precisava.
— A organização do Véu de Safira deixou de existir.
Silêncio.
Do tipo que não é ausência de som — é o som de várias pessoas fazendo, ao mesmo tempo, as contas do que aquilo realmente significava.