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Capítulo 184 – O Peso de um Nome VI.

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Capítulo 184 – O Peso de um Nome VI.

Narrado por Frank

Nunca gostei daquela base.

Não exatamente por causa da floresta, mas pelas sombras que ela criava. As copas das árvores eram tão fechadas que o sol mal tocava o chão da clareira. Mesmo quando o vento morria, as folhas continuavam se movendo por conta própria, como se algo enorme atravessasse o bosque sem jamais se mostrar. Quando anoitecia, os lampiões iluminavam pouco mais que a porta das cabanas. O resto desaparecia entre troncos escuros.

Preferia mil vezes ter sido transferido com Jhosh para a base próxima da vila. Lá havia tavernas, cerveja ruim e gente suficiente para esquecer o trabalho depois do expediente.

Ali…

Só existiam árvores.

E homens que confiavam menos nos outros do que nas próprias facas.

O cheiro de madeira recém-cortada dominava tudo. Serragem cobria o chão. Homens discutiam o preço de toras enquanto outros descarregavam carroças enlameadas. Até os machados tinham marcas de uso verdadeiro.

Não era um teatro.

Era um teatro tão bem ensaiado que, depois de alguns meses, metade dos homens realmente tinha aprendido a derrubar árvores.

Quem cruzasse aquela estrada jamais imaginaria que, poucos metros abaixo da maior cabana, existia uma das maiores bases do Véu Carmesim em Elandor.

Mas, a cada dia que passava, saíam cada vez menos carroças com mercadorias.

Eu estava caminhando perto de uma das carroças cobertas de lona quando ouvi alguém falar comigo.

— Ainda não se acostumou?

— Pior que ainda não, meu amigo. Na verdade, não sei como vocês conseguem dormir bem à noite.

— Há — ele riu, leve. — Você se acostuma. Tenha paciência.

Olhei pra ele com calma. Era o vice-líder do Véu — o tipo de homem que gostava de passar boa parte do tempo livre cortando lenha feito lenhador de verdade, coisa que eu nunca entendi a lógica.

— Espero que sim, mas essa floresta é macabra — falei, olhando em volta.

As árvores eram enormes, troncos que precisariam de cinco pessoas ou mais pra abraçar, formando um domo de escuridão espessa sobre a clareira.

O vice-líder abriu um sorriso de canto, levemente malicioso.

— Você nunca ouviu as histórias sobre o bosque?

Tremi de leve.

— Não. E nem quero saber.

— O quê?! Não sabia que você era tão medroso assim — ele abriu os braços. — Mas enfim, é bom você saber. Dizem que essas árvores faziam parte de um bosque antigo, onde as maiores bestas viviam.

Fez uma pausa, me olhando de canto.

— Raposas, chacais, corujas… e as terríveis aranhas negras. Dizem que elas se camuflavam no topo das árvores e despencavam de vez em quando sobre as presas.

Coçou a barba, olhando pra cima. Segui o olhar dele.

— Já pensou a gente andando, e de repente pá — uma aranha gigante caindo bem na nossa cabeça?

— Sai pra lá, maluco. Se for cair em alguém, que caia na sua.

Arranquei uma risada dele com isso.

Fomos andando devagar em direção à cabana principal, o barulho de machado batendo em lenha ecoando ao longe, onde dois dos homens ainda praticavam o disfarce mesmo sem ninguém pra ver.

— E a comunicação? — perguntei, tentando soar casual, embora já soubesse a resposta antes de perguntar.

O sorriso dele sumiu um pouco.

— Nada ainda.

— Faz dois dias.

— Eu sei quantos dias faz. — Ele respirou fundo me olhando — Você é ótimo em estragar o humor dos outros hein?

— Pior que nem tento. — Ele sorriu levemente.

Ficamos em silêncio o resto do caminho até a porta da cabana. Cumprimentamos um guarda que cedeu passagem para uma pequena escadaria de madeira.

Descemos a escada.

O cheiro de resina deu lugar ao de suor, couro e tinta.

Homens cruzavam o corredor carregando caixas fechadas. Outros conferiam listas de carga enquanto um ferreiro martelava correntes novas no fim do corredor.

Era estranho.

Lá fora éramos lenhadores.

Lá dentro…

administrávamos um império.

Um império escondido sob tábuas velhas, sustentado por livros-caixa, correntes de ferro e pessoas que jamais voltariam a ver o céu.

Caminhei pelo túnel até a sala da contabilidade, o cheiro de tinta e couro velho, os pergaminhos empilhados em pastas separadas por região — Cervalhion, Altheria, e a mais grossa de todas, a pasta interna, a que ninguém de fora via.

Era ali que ficava o verdadeiro trabalho do Véu.

Não o contrabando de especiaria, não as rotas de seiva roubada — isso era só o que mantinha as aparências pra quem perguntava demais.

O que sustentava de verdade a estrutura, o que pagava os salários de todo mundo naquela base, incluindo o meu, estava três andares abaixo, em celas de pedra com correntes presas nas paredes.

E era exatamente sobre isso que o líder estava debruçado quando entramos.

— Frank — chamou, sem levantar os olhos do pergaminho. — Preciso dos números atualizados do estoque.

Puxei uma folha, ajeitei os óculos, e li em voz alta:

— Quarenta e três saudáveis. Doze com saúde comprometida.

Ele bateu o dedo na mesa, pensativo.

— E quantas casas nobres ainda estão comprando?

Foi aí que percebi que a pergunta não era retórica. Ele realmente não sabia mais a resposta.

— Quais continuam comprando?

— Casa Helvar e Casa Arcen.

— As duas mais distantes da fronteira.

O vice deu uma mordida na maçã, o estalo ecoando pela sala antes que ele falasse.

— Quem mora perto do rei resolveu virar santo de repente.

O líder esfregou o rosto com a palma da mão.

— Enquanto isso nosso estoque só cresce.

Ninguém respondeu.

Ele voltou os olhos para o mapa.

— Comida, água, guardas… Tudo isso custa. Mercadoria parada não rende um centavo.

— Podíamos reduzir o número. — sugeriu um dos guardas, limpando a lâmina da faca com um pedaço de couro. — Menos boca pra alimentar.

O líder ergueu os olhos devagar.

— Matar estoque é queimar lucro.

A resposta foi seca o suficiente para encerrar o assunto.

— Precisamos de outro comprador. Alguém que ainda tenha estômago pra esse tipo de negócio.

— Os nômades do deserto? — arriscou o vice.

— Normalmente compram poções, especiarias… informação. Não pessoas.

Ele respirou fundo.

— Mas vamos tentar.

O silêncio voltou à sala.

O líder continuava encarando o mapa, como se alguma rota nova pudesse surgir entre aquelas linhas vermelhas.

Foi um dos guardas quem voltou a falar.

— Chefe… posso estar falando besteira…

O líder ergueu os olhos.

— Fala.

— Antes de procurar comprador novo… não seria melhor descobrir por que ninguém responde nossas cartas?

O vice soltou uma risada curta.

— Olha só… o Cabeça de Peixe resolveu pensar.

O guarda mostrou o dedo do meio sem nem olhar para ele.

O sorriso do vice desapareceu logo em seguida.

— Mas ele tem razão.

Pegou outra maçã sobre a mesa e girou a fruta entre os dedos.

— Faz dias que nenhum mensageiro volta.

— Podem ter sido atacados. — disse um dos homens.

— Todos?

Ninguém respondeu.

O vice deu de ombros.

— Estou quase começando a acreditar nas histórias dessa floresta.

Senti um arrepio subir pelas costas.

O líder percebeu.

— Não me diga que você acredita nessas besteiras, Frank.

— Claro que não.

Respondi rápido demais.

O vice sorriu de canto.

— Eu também não acreditava.

Olhou para a maçã por um instante antes de continuar.

— Anos atrás eu fazia entregas para a Coroa. Uma patrulha inteira desapareceu cruzando esse bosque.

A sala ficou em silêncio.

— Encontraram os corpos? — perguntou alguém.

Ele balançou a cabeça.

— Só encontraram a estrada.

O líder suspirou, cansado.

— Fantasma ou bandido, não faz diferença. Quero descobrir por que nossa comunicação parou.

Voltou os olhos para o mapa.

— Porque, se ninguém consegue entrar… também ninguém vai conseguir sair.

O comentário fez a sala ficar estranhamente quieta.

Os dois guardas perto da porta quebraram o silêncio voltando ao jogo de dados.

— Ei, Frank. — chamou um deles. — Vai apostar dessa vez?

— Aposta com ele não. — riu o outro. — O Frank conta até dado torto.

— Prefiro guardar meu dinheiro.

— Claro que prefere.

As risadas voltaram, mas não duraram muito.

Voltei ao livro-caixa, fingindo me concentrar nos números.

Quando ergui os olhos outra vez, o líder ainda encarava o mapa.

Pela primeira vez desde que eu entrara para o Véu Carmesim…

Ele parecia não ter a menor ideia do que fazer.

A noite avançou devagar, e, por alguns minutos, tudo pareceu voltar ao normal. O líder permanecia inclinado sobre o mapa, rabiscando possíveis rotas enquanto murmurava coisas que só faziam sentido para ele. Os guardas perto da porta trocaram a partida de dados por cartas, enquanto discutiam baixinho sobre uma aposta, e eu já voltava a organizar os livros-caixa quando um grito rasgou a clareira.

Foi um grito curto, desesperado, daqueles que fazem qualquer homem reconhecer o perigo antes mesmo de entender o que de fato aconteceu.

A sala inteira reagiu ao mesmo tempo.

Nenhum de nós precisou esperar uma ordem. Cadeiras foram empurradas para trás, espadas deixaram as bainhas e os homens correram para as posições que cada um conhecia de memória. Corri até o armário ao lado da porta, retirei a caixa com os cristais de iluminação e subi os poucos degraus que levavam à janela principal. Quando cheguei ao lado do vice-líder, ele já observava a linha escura das árvores com uma calma que eu nunca conseguiria imitar.

Seu rosto não demonstrava medo.

Só atenção.

Depois de alguns segundos examinando a escuridão, ele respirou fundo e ergueu a voz.

— Façam a contagem.

A ordem atravessou a base.

— CONTAGEM!

Outra voz repetiu mais longe.

— CONTAGEM!

A ordem atravessou toda a clareira, sendo passada de homem para homem até alcançar os arqueiros espalhados pelos telhados, os vigias escondidos entre as carroças e os guardas posicionados na borda da floresta. Aquilo havia começado anos antes como um procedimento simples para confirmar se todos continuavam vivos depois de um ataque, mas com o tempo acabou se transformando em algo muito mais eficiente. Cada homem decorava sua posição na sequência dos nomes, de modo que ninguém precisava pensar antes de responder.

— Leral!

— Aqui!

— Morak!

— Aqui!

— Denver!

— Aqui!

As respostas surgiam de todos os lados da base, rápidas, quase ritmadas. Ouvir aquela sequência sempre me trazia uma estranha sensação de segurança. Enquanto as vozes continuassem respondendo, significava que a linha de defesa permanecia intacta.

— Kelvin!

O silêncio que se seguiu fez meu estômago afundar.

O homem responsável pela chamada esperou um instante e repetiu, agora mais alto.

— Kelvin!

Nenhuma resposta.

Ele respirou fundo.

— Kelvin, responde logo, seu desgraçado.

Meu corpo reagiu antes da cabeça.

Instintivamente procurei o telhado onde ele costumava ficar de guarda. No início achei que estivesse apenas escondido atrás da chaminé da cabana, mas então algo chamou minha atenção. Não foi um movimento. Foi justamente a falta dele. Por uma fração de segundo tive a impressão de que uma sombra se desprendia do telhado e voltava a se misturar à escuridão da floresta, como se alguma coisa tivesse puxado Kelvin para dentro da noite sem produzir o menor ruído.

Peguei um dos cristais e o arremessei o mais alto que consegui.

Assim que atingiu o ponto mais alto sobre a clareira, as runas gravadas em sua superfície despertaram ao mesmo tempo. O cristal explodiu em uma esfera de luz branca que inundou a floresta com a intensidade de um pequeno sol. As sombras desapareceram por um breve instante, revelando cada cabana, cada carroça e cada tronco ao redor da base.

Foi então que encontrei Kelvin.

Ele ainda estava sobre o telhado.

Em pé.

Por um momento, um alívio absurdo passou pela minha cabeça.

Durou menos que um piscar de olhos.

Até perceber o corpo dele tremendo.

O corpo girou lentamente.

Foi quando vi. Ele ainda estava consciente mas…

Metade da cabeça simplesmente havia desaparecido.

O lado esquerdo do rosto não existia mais.

Fragmentos de osso, cabelo e sangue escorriam pelas telhas enquanto o restante do corpo continuava sustentado pelas pernas, imóvel, como se ainda montasse guarda.

Meu estômago revirou.

O brilho do cristal começou a morrer, as sombras voltaram a crescer entre as árvores, ninguém ousava respirar.

Eu não conseguia desviar os olhos de Kelvin.

Ou do que restava dele.

Pela primeira vez desde que cheguei àquela base…

Eu desejei que as histórias sobre aquele bosque fossem mentira.