Capítulo 185 – O Peso de um Nome VII.
Capítulo 185 – O Peso de um Nome VII.
O clarão ainda iluminava a base quando um dos arqueiros mais à esquerda girou bruscamente sobre o telhado.
Seu arco apontava para a linha das árvores.
— Vi alguma coisa!
Outros dois arqueiros acompanharam o movimento quase por instinto, cinco flechas cruzaram a clareira. As cordas estalaram em perfeita sincronia, e os projéteis desapareceram entre os troncos.
Nenhum som de impacto ou grito.
— Acertou? — perguntou alguém.
— Não…
O arqueiro continuava olhando para a mata, com outra flecha já posicionada. A mão que segurava o arco tremia, com a tensão da corda conforme a mão ficava úmida.
— Eu juro que vi alguma coisa.
— Onde?
Ele abriu a boca.
Parou.
Os olhos percorriam lentamente as árvores, como se procurassem uma silhueta que já não estava mais ali.
— Eu… não sei.
O cristal ainda brilhava sobre nossas cabeças, mas já começava a enfraquecer. A luz dos cristais varria a clareira enquanto sombras enormes dançavam entre os troncos. Os telhados de madeira projetavam faixas escuras sobre o chão, as sombras voltavam a crescer entre os troncos.
Foi então que ouvimos um ruído, não parecia o som de passos ou de galhos quebrando. Era um som estranho… Como algo deslizando por cima das folhas.
Todos reagiram ao mesmo tempo. Espadas deixaram as bainhas, arqueiros ergueram os arcos e os magos recuaram um passo enquanto começavam a reunir mana nas mãos. Em poucos segundos, todos na clareira estavam voltados para o mesmo ponto da floresta.
— Encontrou alguma coisa? — O Vice líder perguntou em direção ao mago da terra que estava com as mãos no chão.
Ele negou balançando a cabeça.
Nenhuma resposta.
Um guarda soltou uma risada nervosa.
— Tá vendo? Não tem porcaria nenhuma alí.
Alguns homens respiraram aliviados mas se mantiveram em alerta. jogando o peso de uma perna para outra.
Foi então que o corpo dele começou a se erguer. A cabeça, não.
Num instante ela estava ali. No seguinte…
Não existia mais.
Não pareceu explodir nem foi arrancada, simplesmente deixou de estar sobre o pescoço, o corpo permaneceu imóvel por um segundo inteiro, antes dos joelhos começarem a dobrar lentamente, até cair para a frente.
Ninguém se moveu.
O homem ao lado era um veterano de barba grisalha, largo o bastante para parecer um muro quando empunhava o escudo. Um instante antes ainda mantinha a espada firme, os dentes cerrados e o olhar preso na floresta.
Então uma onda quente de sangue e fragmentos de osso atingiu seu rosto quando o corpo atingiu o chão.
Ele não piscou, continuava olhando para o cadáver como se o cérebro ainda tentasse entender o que acabara de presenciar. A respiração dele ficou pesada, ergueu uma das mãos, passou os dedos pelo próprio rosto quando olhou para a palma…
Ela estava completamente vermelha, vi seus olhos perderem o foco os lábios começaram a tremer.
Ele tentou falar.
— Eu…
Respirou outra vez.
— Eu…
Levantou a cabeça na direção do líder, e abriu a boca para gritar algo.
Nunca descobri qual palavra pretendia dizer.
Seu corpo desapareceu, no exato segundo que o brilho de um cristal cessou e foi substituído pelo próximo.
Não houve puxão, não houve impacto, foi como se junto ao piscar dos olhos ele desaparecesse… Ele simplesmente deixou de existir naquele telhado.
Um segundo depois…
Seu grito surgiu no meio da floresta.
Distante, claramente doloroso.
Terminou tão rápido quanto começou.
Foi nesse instante que senti o verdadeiro medo, até então eu procurava um inimigo, naquele momento percebi que nem sequer sabia onde olhar ou o que procurar.
Alguém deixou a espada cair, Outro começou a murmurar uma oração. Um veterano, homem que eu já tinha visto enfrentar bestas durante expedições, deu dois passos para trás antes de dobrar a cintura e vomitar sobre a terra. Ninguém falou nada, o líder foi o único que ainda parecia pensar, ele respirou fundo.
A voz saiu firme.
— Linha norte! Dois cristais!
Apontou para a clareira.
— Quero cada maldita sombra iluminada!
Dois homens obedeceram imediatamente, os cristais cortaram o céu escuro.
A luz alcançava apenas os primeiros metros da mata. Depois disso existia apenas uma parede negra formada por troncos tão largos que três homens não conseguiriam abraçá-los.
Enquanto a luz aumentava, percebi que todos nós fazíamos exatamente a mesma coisa. Não procurávamos mais um inimigo especifico, procurávamos qualquer explicação. Qualquer coisa podia estar ali. Um animal, um exército ou apenas a própria escuridão.
E isso…
Era muito pior.
Mais dois cristais subiram quase ao mesmo tempo.
Os cristais cruzaram o céu quase ao mesmo tempo. Antes mesmo de alcançarem o ponto mais alto, as runas gravadas em suas superfícies despertaram, derramando o brilho intenso sobre toda a clareira.
As sombras recuaram para o limite da floresta, revelando nossos homens de armas erguidas, arqueiros ainda com as cordas tensionadas e rostos cobertos de suor.
O líder girava a cabeça de um lado para o outro.
— Quero relatório!
— Setor oeste limpo!
— Sul limpo!
— Nada na linha das árvores!
— Telhados limpos!
Cada confirmação arrancava um pouco do peso que esmagava meu peito.
Pela primeira vez desde que Kelvin morrera, consegui respirar fundo.
Talvez…
Talvez aquilo realmente tivesse ido embora.
Ninguém baixou a guarda.
Os arqueiros continuavam com as cordas retesadas, os dedos já avermelhados pelo esforço de mantê-las tensionadas por tanto tempo. Um soldado enxugou o suor que escorria da testa, apenas para perceber que a mão tremia mais do que imaginava. Outro respirava pela boca, incapaz de controlar o ritmo, fazendo o peito subir e descer como se tivesse acabado de correr quilômetros.
A luz dos cristais banhava toda a clareira, arrancando sombras dos telhados, das carroças e das pilhas de madeira espalhadas pelo acampamento. O bosque parecia calmo outra vez.
Calmo demais.
Só se ouviam o crepitar dos lampiões, o estalar ocasional da madeira e a respiração pesada de quase cinquenta homens.
Foi então que alguém falou.
Quase num sussurro.
— Chefe…
A voz fez todos olharem para ele.
Era um dos vigias da linha oeste. A lança permanecia firme em suas mãos, mas seus olhos estavam presos em algum ponto acima da floresta.
Ele ergueu lentamente a ponta da lança.
— As árvores…
Demorei um instante para entender o que ele tentava mostrar.
As copas, estavam balançando.
Não todas.
Primeiro uma, depois outra e outra.
Como se alguma coisa estivesse correndo sobre elas.
Era rápido.
Rápido demais.
As folhas sacudiam violentamente, galhos grossos vergavam sob um peso invisível, mas, entre um movimento e outro, eu não conseguia enxergar absolutamente nada.
A trilha daquele movimento vinha da extremidade da clareira.
E seguia…
Direto na nossa direção
Os arqueiros reagiram imediatamente.
— Em cima!
Uma chuva de flechas subiu contra as copas.
Galhos quebraram.
Folhas despencaram.
Nada caiu.
O movimento simplesmente mudou de direção.
Agora seguia para a direita.
Depois desapareceu.
— Perderam ele! — gritou alguém.
— Eu ainda estou vendo!
— Onde?
— Lá!
Outro apontou exatamente para o lado oposto.
— Não! Está atrás das carroças!
— Não tem ninguém nas carroças!
— Eu vi!
— Cala a boca e aponta direito!
A ordem virou discussão, a discussão começava a virar gritaria.
Foi nesse momento que percebi. Seja lá o que estivesse atacando ele não estava só atacando. Estava nos fazendo olhar para lugares diferentes.
O líder percebeu quase ao mesmo tempo.
— Ninguém ataca sozinho!
A voz dele cortou toda a confusão.
— Escutem minhas ordens! Ignorem qualquer coisa que vejam até eu mandar!
Os homens tentaram recuperar a disciplina, alguns respiraram fundo enquanto outros abaixaram levemente os arcos.
Foi um erro.
Um estalo seco ecoou acima das nossas cabeças.
Não parecia madeira.
Parecia… Pedra sendo esmagada.
Levantei os olhos por instinto.
O bosque permaneceu imóvel.
Então ouvi um arqueiro engolir em seco.
Olhei para ele. Seu rosto estava completamente branco, ele apontava para o topo da maior árvore da clareira.
— Tem…
A voz falhou.
Engoliu saliva.
Tentou outra vez.
— Tem alguém…
Todos olharam, inclusive eu.
Só vimos o galho balançando.
Vazio.
O arqueiro piscou.
Confuso.
— Eu… eu juro…
Ele nunca terminou a frase, um estrondo atravessou a clareira, som de madeira se partindo vindo da floresta.
Nada aconteceu, por alguns segundos.
Até que um vulto marrom cruzou a clareira.
Ninguém sequer teve tempo de reagir.
A madeira perfurou o primeiro soldado pelas costas, atravessou seu peito sem perder velocidade e continuou avançando. O segundo mal conseguiu virar a cabeça, o tronco entrou abaixo das costelas, rompeu sua armadura como papel e o levantou do chão.
Mas ainda não havia parado um terceiro foi atingido um passo atrás.
A ponta atravessou seu abdômen e finalmente se enterrou na parede da oficina, fazendo toda a estrutura estremecer. O tronco atravessou a oficina inteira.
Barris explodiram, ferramentas voaram.
A parede rachou e a madeira continuou vibrando.
Por um instante…
Ninguém entendeu o que estava vendo.
Os três homens permaneciam suspensos, empalados pelo mesmo tronco.
Como insetos presos no espinho de uma planta.
Um deles ainda respirava, as mãos tremiam enquanto tentava alcançar a madeira atravessando seu peito.
Abriu a boca.
Só sangue saiu.
O homem do meio começou a tossir, cada tosse fazia o tronco vibrar dentro do corpo.
— A-aj…
Outra tosse.
Dessa vez vieram pedaços de sangue escuro.
— …uda…
A palavra morreu junto com ele.
Silêncio.
Nem mesmo os arqueiros disparavam mais, era impossível acreditar que aquilo tivesse sido lançado.
Foi o vice-líder quem rompeu o choque.
— Cobertura!
A voz saiu mais alta do que eu jamais tinha ouvido.
— Achem esse desgraçado!
As flechas voltaram a cortar o céu, desta vez não havia alvo, era puro desespero. Algumas atingiram árvores, outras atravessaram as próprias carroças.
Uma acertou um companheiro na perna.
A disciplina estava desaparecendo diante dos meus olhos, um guarda largou o escudo. Outro girava sem parar, espada em punho, tentando proteger todos os lados ao mesmo tempo.
Vi um veterano encostar as costas numa carroça.
Ele respirava como um animal encurralado.
— Que merda é essa?…
sussurrou.
— Isso… isso não é gente…
— Escudos à frente! Arqueiros nos telhados! Quero todo mundo cobrindo o perímetro! — Foi o líder quem voltou a agir.
Ninguém respondeu.
Os homens ainda olhavam para os três corpos empalados.
— Eu dei uma ordem!
A voz finalmente os despertou.
Como quem acorda de um pesadelo, começaram a se mover outra vez. Escudos se ergueram. Espadas deixaram as bainhas. Os arqueiros voltaram a ocupar posição, embora nenhum deles parecesse realmente acreditar que aquilo faria diferença.
Eu também tentei me convencer, apertei outro cristal entre os dedos.
As runas ainda estavam frias, bastava lançá-lo.
Respirei fundo.
Até os insetos da floresta pareciam ter parado, foi então que percebi. Os gritos haviam parado.
Olhei em volta, nenhum ataque, vulto ou movimentação.
Só o vento.
O líder também percebeu.
O vice-líder estreitou os olhos para a linha das árvores.
— Ele foi embora?
Ninguém respondeu, nem mesmo eu acreditava naquela hipótese. Segurei o cristal com tanta força que minhas mãos começaram a doer.
Foi quando senti uma coisa estranha.
Não medo.
Uma sensação pior, a impressão de que…
Estava esperando que fizéssemos alguma coisa, como um caçador observando um animal preso numa armadilha.
O líder respirou fundo.
Tomou sua decisão.
— Todos para dentro.
Alguns homens hesitaram.
— Mas chefe…
— Agora!
Ninguém discutiu outra vez.
A primeira fileira começou a recuar, devagar. Escudos erguidos, os arqueiros desciam dos telhados sem tirar os olhos da floresta.
Eu fui um dos últimos.
Dei apenas três passos em direção à entrada da cabana.
Foi quando ouvi, uma risada.
Baixa.
Quase um sussurro feminino, tão distante que por um instante pensei ter imaginado. Olhei imediatamente para a mata, não parecia haver nada.
Meu coração disparou, levantei a cabeça observando as copas enquanto recuava.
As folhas ainda estavam balançando lentamente.
Quando tornei a olhar para frente…
O líder já berrava.
— ENTREM! ENTREM AGORA!
A disciplina simplesmente se transformou em instinto.
Escudos bateram uns nos outros. Homens se atropelaram tentando alcançar a escada ao mesmo tempo. Um soldado escorregou no sangue, derrubando outro junto. Saltei por cima dos dois sem pensar, mantendo o vice-líder sempre à minha frente.
Foi então que os gritos recomeçaram.
Um.
Depois outro.
Mais perto.
Seguidos por estalos secos, som de ossos partindo e de carne sendo rasgada.
Cada grito parecia terminar de repente, como se alguém simplesmente apagasse a voz de quem o emitia.
Meu corpo inteiro implorava para olhar para trás mas não olhei.
Se visse o que estava acontecendo…
Eu sabia que minhas pernas parariam.
Continuei correndo.
As tábuas da escada estremeciam sob o peso de dezenas de homens descendo ao mesmo tempo. Ombros se chocavam, cotovelos abriam caminho à força. Alguém caiu atrás de mim. Outro passou por cima dele sem sequer perceber.
Só parei quando atravessei a porta da ala dos escravos.
A pesada porta de ferro fechou com um estrondo capaz de fazer toda a caverna vibrar.
Dois homens praticamente se jogaram sobre a tranca, empurrando a enorme barra metálica até que ela encaixasse com um baque seco.
Outro correu para a parede e pressionou a palma contra as runas gravadas na pedra.
As inscrições despertaram uma após a outra. Linhas azuladas percorreram lentamente toda a moldura da porta, formando uma teia luminosa que pulsava com um brilho frio.
A barreira estava ativa.
Pela primeira vez desde o início daquela noite…
Consegui respirar.
O ar ali embaixo era pesado, úmido e carregado pelo cheiro de ferro, suor velho e pedra molhada. O corredor era estreito, iluminado apenas pelo brilho azulado das runas e por alguns lampiões presos às paredes.
Só então lembrei que não estávamos sozinhos, os escravos permaneciam comprimidos atrás das grades das celas.
Ninguém dizia uma palavra.
Alguns seguravam as barras de ferro com tanta força que os nós dos dedos estavam completamente brancos. Outros recuavam para o fundo das celas, abraçando os próprios joelhos. Havia crianças escondidas atrás das pernas dos adultos e idosos olhando para nós com um medo que parecia ainda maior que o nosso.
Eles não sabiam o que havia acontecido lá fora.
Mas bastava olhar nossos rostos para entender que alguma coisa terrível nos seguira até ali.
À minha volta, os soldados não estavam muito diferentes.
Um deles respirava pela boca, incapaz de controlar o tremor dos ombros. Outro limpava as mãos repetidamente na própria calça, como se ainda tentasse tirar o sangue sobre os dedos. Um arqueiro mantinha o arco esticado sem sequer perceber que já não havia flechas na aljava.
O líder caminhou lentamente até o centro da sala, seu rosto estava pálido. Os cabelos grudavam na testa pelo suor, mesmo assim… Sua voz continuava firme.
— Contagem.
Ninguém respondeu.
Ele inspirou profundamente.
— CONTAGEM!
Dessa vez um dos soldados começou.
A voz saiu rouca.
— Leral…
Silêncio.
— Morak…
Nada.
Outro nome.
Mais silêncio.
Cada resposta que não vinha fazia o corredor parecer ainda mais vazio.
Quase metade da nossa guarnição nunca havia atravessado aquela porta, o homem encarregado da chamada abaixou o tom, sua mão tremia tanto que mal conseguia segurar a espada.
Ninguém teve coragem de continuar.
O líder permaneceu imóvel durante alguns segundos, depois fechou os olhos e respirou fundo.
Quando tornou a abri-los, já havia tomado uma decisão.
— Tragam todos os escravos para a ala interna.
Olhou diretamente para o vice.
— Se essa porta cair…
Não terminou.
“Toc”.
Um único passo.
Metálico.
Vindo de algum lugar acima de nós.
O som atravessou a caverna inteira.
Todos congelaram.
Até os escravos pararam de respirar.
“Toc”.
Outro passo.
Lento.
Pesado.
Como alguém caminhando sem qualquer pressa sobre as grades suspensas das celas. O vice ergueu imediatamente a espada.
Sua voz saiu quase inaudível.
— Não existe acesso por cima.
“Toc”.
Mais um.
Agora estava muito mais perto.
As cabeças começaram a acompanhar o som quase ao mesmo tempo.
Primeiro para cima, depois lentamente para trás. A lanterna do líder percorreu as vigas de madeira.
As grades suspensas, as correntes e as sombras.
Nada, por um instante… Pensei que estivéssemos enlouquecendo.
Então uma voz falou.
Calma.
Educada.
Logo atrás de nós.
— Procurando alguém?
Meu sangue congelou.
Nós três nos viramos no mesmo instante.
Lá em cima…
Sobre a maior das celas…
Havia um homem sentado.
Uma das pernas balançava preguiçosamente para fora da grade. O cotovelo repousava sobre o joelho como alguém esperando o início de uma conversa banal, pequenos arcos azulados percorriam a ponta de seus dedos, iluminando seu rosto em intervalos curtos.
Não havia uma única marca de esforço.
Ele passou os olhos por cada um de nós devagar. Como quem escolhe por onde começar.
Depois inclinou discretamente a cabeça.
— Finalmente.
Seu olhar deslizou até a porta recém-trancada.
O sorriso aumentou um pouco.
— Estava começando a achar que vocês nunca entrariam.