Capítulo 186- Um Nome para Lembrar
Capítulo 186- Um Nome para Lembrar
O silêncio durou tempo demais.
Foi o líder quem quebrou primeiro, a voz saindo mais alta do que ele provavelmente pretendia.
— Quem é você?
Ele sorriu.
— Eu achei que essa seria a primeira pergunta.
Desceu devagar da cela, um pé de cada vez, sem pressa nenhuma. Cada passo dele ecoava pela caverna inteira, um som pequeno, quase banal, que naquele silêncio parecia mais alto que qualquer grito da noite inteira.
Os soldados que ainda restavam ergueram as armas. Eu vi as mãos deles tremendo, as pontas das espadas balançando de leve, incapazes de decidir se aquilo servia pra alguma coisa.
Ele continuou andando na nossa direção mesmo assim, Ele não parecia ter pressa em dar o próximo passo, o que só aumentava a nossa tensão.
O líder tentou de novo, a voz mais firme dessa vez, tentando reconstruir algo que já tinha desmoronado lá fora.
— Você matou meus homens.
— Sim.
Do jeito que alguém diria que o céu é azul. Sem raiva. Sem prazer. Só fato.
Foi então que ele olhou pra além de nós, pra dentro das celas, pros rostos assustados atrás das grades, pras crianças escondidas atrás das pernas dos adultos.
— E quantos deles vocês mataram?
A frase mudou tudo.
Até aquele momento, eu tinha entendido a noite inteira como alguém acertando contas com o Véu, um rival, talvez um agente da Coroa. Aquela frase simples reorganizou tudo que eu tinha visto nas últimas horas em algo com formato diferente.
O líder percebeu, quase ao mesmo tempo que eu, que força não ia resolver aquilo.
Tentou a única outra ferramenta que ainda tinha.
— Quanto?
O homem inclinou levemente a cabeça.
— …Como?
— Você não atravessou metade do continente por meia dúzia de escravos. — O líder abriu um sorriso pequeno. — Então quanto custa?
O silêncio permaneceu.
— Ouro? Gemas? Informações? Posso entregar rotas, nomes, contatos… tudo isso vale muito mais do que essas pessoas.
Não houve resposta.
— Posso entregar outras filiais. Posso fazer você sair daqui mais rico do que qualquer nobre de Elandor.
Ele não discutiu.
Só olhou pra uma das celas, uma mulher encolhida perto da grade, os olhos fundos de quem já tinha desistido de esperar qualquer coisa boa daquela noite.
— Como você se chama?
Ela hesitou. Olhou pro líder, depois pra Thamir, como se não soubesse qual dos dois representava mais perigo.
— Deise.
— De onde você veio, Deise?
— Vila tundra. — A voz saiu fraca, mas firme o suficiente. — Fomos capturados depois que meu pai não conseguiu pagar o imposto da colheita. Ele nunca assinou nada. Ninguém concordou com nada.
Thamir não disse mais nada.
Só olhou de volta pro líder.
O silêncio que se seguiu valia mais que qualquer discurso que eu já tinha ouvido na minha vida. Ele não precisou falar nada para deixar claro que não haveria negociação.
Foi então que a parede tremeu.
Por um instante eu achei que era algo batendo na porta, mas eu estava errado. A pedra ao redor dela tremeu, um estrondo que fez poeira cair do teto da caverna inteira, seguido por uma rachadura que se abriu na rocha como se algo do outro lado a tivesse simplesmente decidido que aquilo não era mais um obstáculo.
Thamir nem se assustou.
Só suspirou, um suspiro quase entediado.
— Eu esperava isso.
Olhou pra porta.
— Já podem entrar.
As runas na moldura, as mesmas que tínhamos ativado com tanto desespero minutos antes se apagaram uma a uma, a luz azulada morrendo devagar até sumir por completo. A porta de metal simplesmente tombou.
Eles não entraram correndo.
Entraram organizados.
Primeiro os que eu reconheci imediatamente como os meio-Rumbra, a pele com textura de casca visível nos braços, os olhos que brilhavam de leve na luz fraca dos lampiões restantes.
Depois, atrás deles, duas Mulheres entraram por último, passos calmos, olhos avaliando cada centímetro da sala antes de decidir onde pisar.
Foi o líder quem reagiu primeiro.
O rosto dele ficou branco. Branco de um jeito que eu nunca tinha visto em ninguém, nem mesmo quando o mestre da organização ameaçou matá-lo.
— Você — sussurrou. — Não. Não é possível.
A mais jovem das duas parou no centro da sala.
— Faz um tempo Felix — Ela respondeu com um sorriso curto no rosto.
— Mas que merda você tá fazendo Alice? — O Lider respondeu quase gritando.
— Alice? — O homem de pele escura ao lado dela perguntou em um tom leve.
— Me chame de Zareph.
Ele olhava pra ela com uma confusão genuína, algo que destoava completamente da calma que tinha mantido a noite inteira.
Ela olhou pra ele. Um sorriso pequeno, discreto, cruzou o rosto dela.
— Alice morreu faz muito tempo. — A voz saiu firme, sem hesitação. — Meu nome é Zareph.
O líder ainda olhava pra ela como se estivesse vendo um fantasma que ele mesmo tinha certeza de ter enterrado.
— Quem são vocês afinal de contas? — perguntou, finalmente, a voz reduzida a quase nada.
Silêncio.
Zareph olhou pra o homem ao seu lado um olhar rápido, quase um convite, como se estivesse deixando a resposta pra ele.
Thamir pensou por um segundo.
— Somos o Pardal.
Felix franziu a testa.
— Pardal?
O rapaz deu de ombros.
— Eu escolhi.
— Por quê?
Ele sorriu.
— Porque todo mundo ignora um pardal… até descobrir a bagunça que ele fez na sua casa. E também é um nome melhor que “Mão negra ou ponta sangrenta”.
Foi estranho. No meio de tudo aquilo, os corpos lá fora, o sangue, o terror da caçada, aquela resposta boba, quase infantil, fez ele parecer, por um instante, como se não tivesse nada a ver com o ataque.
Enquanto conversavam, os meio-Rumbra já tinham começado a trabalhar.
Sem espetáculo ou comando, simplesmente foram de cela em cela, destravando as correntes, abrindo as grades uma por uma. Os escravos não se moviam no início, alguns encolhidos ainda mais fundo, como se aquilo pudesse ser mais uma crueldade nova, um tipo diferente de crueldade que ainda não tinham aprendido.
Foi só quando a primeira criança saiu, hesitante, segurando a mão da mãe, que os outros começaram a se mover também.
Ninguém comemorou em voz alta.
Foi silencioso demais pra isso. Como se ninguém confiasse ainda que aquilo era real.
O vice-líder, que tinha ficado quieto desde que a porta abriu, deu um passo à frente.
— Podemos conversar — disse, as mãos abertas, sem arma nenhuma visível. — Não precisamos que mais ninguém morra aqui.
Zareph olhou pra ele.
— Estou ouvindo.
— Temos dinheiro. Tesouros guardados que nem o resto da guarnição sabe onde ficam. — A voz dele saía rápida agora, tentando aproveitar cada segundo antes que a paciência acabasse. — Posso abrir os cofres. Posso mostrar tudo.
— Cala a boca — rosnou o líder, sem olhar pra ele.
O vice não parou.
— Podemos entregar tudo. Só deixem meus homens viverem.
Eu conhecia aquele homem havia pouco mais de dois anos.
Nunca fomos próximos, mas tempo suficiente para aprender algumas coisas sobre alguém. Sabia que ele gostava de desaparecer na floresta durante os dias de folga para cortar lenha, dizendo que um machado enferrujava se ficasse tempo demais sem trabalho. Também conhecia seu repertório de piadas ruins. As mesmas histórias, contadas tantas vezes que ninguém mais ria, embora isso nunca o impedisse de repeti-las.
Nunca imaginei que, quando tudo desmoronasse, ele seria o único disposto a tentar salvar o restante de nós.
Respirou fundo, ergueu lentamente as mãos vazias e encarou o homem sentado sobre a cela.
— Sei onde fica o cofre. Posso abrir. Levem tudo o que quiserem… só deixem meus homens viverem.
Por um instante, acreditei que talvez existisse uma saída.
Ninguém respondeu.
Então o líder deu um passo à frente.
Nem vi o momento em que puxou a espada, só ouvi o som abafado do aço atravessando carne.
O vice-líder arqueou o corpo e ficou imóvel, olhando lentamente para baixo. A ponta da lâmina surgia alguns centímetros abaixo do próprio peito, escura de sangue.
Dei um salto para trás por puro reflexo.
Ele virou a cabeça devagar, procurando o rosto do homem que acabara de atravessá-lo.
A incredulidade em seus olhos me marcou mais do que o ferimento.
— C-chefe…
A espada foi arrancada num movimento seco, o corpo caiu de joelhos antes de tombar completamente.
— Traidores morrem primeiro.
A voz do líder permaneceu firme enquanto limpava a lâmina no uniforme do próprio vice, como se tivesse acabado de concluir uma tarefa desagradável, mas necessária.
O silêncio que se seguiu pareceu atingir a todos ao mesmo tempo.
Nem os soldados restantes, os escravos ou os invasores, fizeram qualquer movimento. Todos tentávamos compreender a mesma coisa: o próprio líder acabara de matar seu homem de maior confiança apenas para impedir que ele continuasse falando.
Foi ali que entendi.
Não existia negociação possível com aquele homem.
Nunca existira.
— Confesso que essa eu não esperava.
A voz feminina veio da mulher de cabelos castanhos que acompanhava a Zareph. Ela observava o cadáver no chão com os braços cruzados, sem demonstrar qualquer choque.
Depois voltou os olhos para o rapaz.
— Pelo menos encontrou o cofre?
Ele cruzou os braços, fingindo ofensa.
— Tá brincando? Claro que encontrei.
Apontou com o queixo para mim.
— Levem aquele ali também. Ele conhece esse lugar melhor do que qualquer um.
Meu estômago afundou.
Dois meio-Rumbra me agarraram pelos braços enquanto outros empurravam o líder corredor adentro. Seguimos até a antiga sala da contabilidade, onde o grande cofre permanecia embutido na parede de pedra. Mesmo cercado pelo cheiro de sangue e pelo caos daquela noite, ele parecia exatamente igual a todas as vezes que eu o tinha visto: frio, escuro e absolutamente indiferente ao que acontecia ao seu redor.
O rapaz parou diante dele.
— Abra.
O líder permaneceu imóvel, encarando o metal como se aquela fosse a última coisa que ainda lhe pertencesse.
Ninguém precisou ameaçá-lo.
A ameaça já estava ali, mesmo assim, ele não fez um único movimento.
— Prefiro morrer a abrir o cofre.
Foi nesse instante que percebi, aquele desgraçado estava realmente disposto a sacrificar a todos apenas para não abrir o cofre da filial.
Foi o medo que falou antes de mim.
— Eu sei! — gritei, e todo mundo na sala virou pra mim ao mesmo tempo.
Continuei falando rápido, com medo do líder, com medo dos invasores, com medo de tudo naquele momento.
— Não adianta obrigar ele! O cofre não abre assim!
O líder me olhou com um ódio que eu nunca vou esquecer, mas naquele ponto não adiantava mais.
Não parei.
— Cada filial abre o próprio cofre usando duas coisas. A chave do Mestre do Véu de Safira… e sangue do chefe da filial. Sem os dois juntos, o cofre não abre. Não importa quanto você ameace.
— SEU DESGRAÇADO! — Felix ainda tentava avançar, berrando. Um dos meio-Rumbra passou por ele sem sequer diminuir o passo, o soco acertou sua mandíbula.
O líder caiu inconsciente antes de tocar o chão.
Ninguém sequer olhou para ele outra vez.
Zareph se aproximou, os olhos estreitados, avaliando cada palavra que eu dizia com a mesma atenção fria de sempre.
— E se o chefe da filial estiver morto? — perguntou.
Engoli em seco.
— Se conseguir a chave do Mestre e tiver acesso ao sangue ainda funcionaria. Claro tem outro jeito mas exige um Mestre Forjador consiga quebrar o mecanismo. Mas ele destrói o cofre no processo. Tudo lá dentro pode se perder, ouro, registros, tudo.
Silêncio.
Foi o homem de pele escura quem falou, por fim, e a calma na voz dele me fez perceber que ele já sabia de tudo aquilo antes mesmo de eu abrir a boca.
— Já temos a chave do Mestre.
Levei um segundo pra entender o que aquilo significava.
E quando entendi, senti o estômago virar de um jeito diferente de tudo que eu tinha sentido a noite inteira.
Era por isso que as cartas de comunicação nunca respondiam.
Era por isso que os seis líderes regionais tinham simplesmente desaparecido do mapa, um por um, nos últimos dez dias.
Eles não estavam escondidos.
Estavam mortos, e a chave de cada um deles, incluindo a do próprio Mestre, já estava em algum lugar nas mãos das duas pessoas paradas na minha frente.
— Q- Quem é você?
Ele abriu um sorriso e se inclinou levemente para frente ficando proximo.
— E isso importa a essa altura?