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Capítulo 187 – Depois do Silêncio.

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Capítulo 187 – Depois do Silêncio.

A batalha tinha acabado já havia algumas horas, Naira ficou parada no meio da clareira, os braços ainda sujos de terra até os cotovelos, observando os últimos corpos serem carregados pra fora da vila falsa.

Os Rum’brath faziam isso com um cuidado que ela nunca tinha visto em nenhum outro tipo de limpeza pós-combate, não jogavam os corpos em pilha, não tratavam aquilo como trabalho sujo a ser despachado rápido. Cada um era erguido com as duas mãos, carregado até a borda da clareira, deitado no chão com um mínimo de dignidade que os próprios donos daqueles corpos provavelmente nunca tinham oferecido a ninguém, antes que as raízes puxassem os corpos para o subsolo.

Do outro lado da clareira, três lenhadores começavam a desmontar a fachada da fortificação, as vigas que sustentavam a ilusão de vilarejo pacato, os suportes que escondiam a verdadeira entrada do subsolo. Trabalhavam em silêncio coordenado, desde que foram libertados da primeira filial, eles trabalhavam com diligência, como se cada um já soubesse exatamente qual parte lhe cabia.

E então, sentado sobre uma caixa de madeira perto do que restava do poço, estava Thamir.

Duas crianças, uma menina de talvez seis anos, um menino um pouco mais velho estavam agachadas na frente dele, os olhos fixos nas mãos dele enquanto ele girava uma fruta entre os dedos, devagar, mostrando onde a casca cedia mais fácil.

— Tá vendo? tem dificuldade não, é só achar a parte mais mole, geralmente está perto do talo. — disse ele, sério como se estivesse ensinando a manejar uma espada. — Aqui, olha. Sente como afunda um pouquinho? É ali que você começa.

A menina tentou. Errou. A casca rasgou torto e o suco escorreu pelo pulso dela.

— Desculpa ela, Tio. — O maior falou, ainda receoso.

— Tenta de novo — disse Thamir. — Ninguém acerta na primeira.

Naira ficou olhando aquilo por mais tempo do que devia.

Há poucas horas, aquele mesmo homem tinha sido a coisa mais parecida com um assassino psicopata que ela já tinha visto de perto, silencioso, metódico, cortando uma guarnição inteira sem deixar um único corpo inteiro atrás dele quando não precisava. Agora ele explicava, com a paciência de quem tinha o dia inteiro pra isso, como descascar uma fruta pra duas crianças que nem sabiam o nome dele ainda.

Ela não sabia dizer qual das duas versões dele era a mais estranha de reconciliar.

— Sangue Livre.

Naira ergueu a cabeça vendo o Rum’brath a cumprimentar.

— Orof

Os meio-Rum’brath trabalhavam de um jeito que ela nunca tinha visto antes, nem nos anos que passara ao lado dos refugiados no sul.

Não desmontavam a fortificação como quem destrói algo.

Um deles, um homem mais velho, a casca nos braços já cobrindo boa parte da pele até os cotovelos, parou diante do que sobrava da parede externa da cabana principal e passou a mão devagar pela madeira, como se estivesse lendo alguma coisa nela.

— Essa fica — disse, pra ninguém em particular, mas alto o suficiente pra os outros ouvirem. — A raiz gosta de estrutura velha pra subir. Se plantarmos na base agora, em dois anos ninguém mais vê pedra nenhuma.

Um dos mais jovens riu.

— Dois anos é rápido demais pra você, Kador. Pensei que ia querer esperar dez.

— Dez é pra floresta de verdade. — O velho não pareceu se ofender. — Isso aqui só precisa parecer floresta.

Naira entendeu, aos poucos, o que estava acontecendo ali. Eles não estavam limpando os destroços de um combate. Estavam projetando a próxima base, não como fortaleza erguida contra a natureza, mas como algo que a natureza ia terminar de construir sozinha, camada por camada, até que não sobrasse diferença nenhuma entre o que era esconderijo e o que era simplesmente floresta.

Era completamente diferente de tudo que o Véu de Safira tinha construído ali.

O Véu escondia atrás de fachada. Aquilo escondia dentro de crescimento.

Foi enquanto observava os meio-Rum’brath marcando as futuras raízes no chão que Naira viu Zareph se aproximar de Thamir, ainda sentado ao lado das crianças.

Ela parou ao lado dele, olhando para a antiga fortificação sendo desmontada.

— Você já tinha planejado isso?

Thamir acompanhou a menina tentando descascar a fruta pela terceira vez.

— O quê?

— A base. Os Rum’brath transformarem isso aqui.

— Ah… isso.

Deu de ombros.

— Não. Foi ideia da Naira. Eu só faço uma bagunça e depois alguém competente resolve.

Naira arqueou uma sobrancelha à distância.

Zareph desviou o olhar para a clareira.

— E o ataque, quando você tinha analisado a base deles?

— Eu só improvisei.

— Improvisou?

— Claro. — Ele finalmente ergueu os olhos para ela. — Se eu tivesse planejado direito, ia ser chato.

Ela soltou uma risada curta.

Foi pequena.

Mas verdadeira.

Naira nunca tinha ouvido aquele som antes.

O riso de Zareph, quando existia, costumava ser calculado. Uma reação escolhida porque ajudava numa negociação, desarmava alguém ou escondia alguma intenção.

Aquele não.

Escapou.

Thamir ficou olhando para ela por um instante.

Depois inclinou levemente a cabeça.

— Olha só…

Ela franziu a testa.

— O quê?

— Mostrou os dentes.

Ela piscou, confusa.

— Eu sempre sorri.

— Não assim.

Ela cruzou os braços imediatamente.

— Você está imaginando coisas.

— Talvez.

Ele voltou a atenção para a fruta.

— Mas, se eu fosse você, aproveitava. Combina mais do que essa cara de quem ta devendo pro mundo inteiro.

A menina finalmente conseguiu abrir a fruta.

Thamir apontou para ela, satisfeito.

— Tá vendo? Ela aceitou melhor a crítica que você.

A garota deu uma risadinha.

Zareph lançou um olhar atravessado para ele.

— Você fala demais.

— Mal de família.

Pegou um pedaço da fruta e estendeu para ela.

— Quer?

Ela olhou para o pedaço por um segundo.

Pegou.

Sem dizer uma palavra

Foi um momento pequeno e passou depressa. Ninguém além de Naira pareceu notar. Mas ela notou.

Thamir já voltava a ensinar o garoto a segurar a fruta, como se a conversa tivesse acabado.

Zareph também recuperou a postura de sempre. Os ombros voltaram a ficar retos, o rosto perdeu qualquer vestígio daquele sorriso involuntário e a expressão calculada retornou como uma máscara que ela vestia sem esforço.

Mas Naira conhecia Alice.

Conhecia havia tempo suficiente para perceber coisas que ninguém mais enxergaria.

A forma como ela demorou um segundo além do necessário antes de se afastar.

O jeito como, por um instante, continuou olhando para ele mesmo depois que ele já tinha voltado a prestar atenção nas crianças.

O sorriso.

Principalmente o sorriso.

Alice nunca sorria daquele jeito quando estava representando.

Aquilo tinha escapado.

Naira desviou os olhos antes que ela percebesse que estava sendo observada.

“Então é isso…”

Não havia tempo para pensar naquilo agora.

Ainda havia dezenas de pessoas esperando uma resposta.

Zareph reuniu os ex-escravizados no centro da clareira enquanto o sol começava a surgir por trás das árvores.

Eles se aproximaram devagar. Alguns ainda carregavam pedaços das correntes presas aos pulsos. Outros mantinham distância, observando os meio-Rum’brath como se ainda esperassem descobrir qual era o preço daquela liberdade.

Ela esperou até que todos estivessem presentes.

Não subiu em nada.

Ficou diante deles, no mesmo nível.

— Meu nome é Zareph.

Ninguém respondeu.

Ela assentiu levemente.

— A organização que mantinha vocês presos acabou esta noite. A filial foi destruída. O líder morreu. Não existe mais ninguém aqui para dar ordens a vocês.

Fez uma pausa.

— Isso significa que vocês estão livres.

O silêncio permaneceu, Naira percebeu que ninguém parecia feliz, foi como se não soubessem o que aquela palavra significava.

Foi um homem já grisalho quem finalmente perguntou:

— Livres… pra onde?

Outras vozes apareceram quase ao mesmo tempo.

— Minha família ainda está em Darsen…

— Posso voltar pra casa?

— Vocês vão levar a gente?

Uma mulher levantou a mão timidamente.

— Eu sou de Altheria.

Outro fez o mesmo.

— Eu também.

Mais alguns repetiram.

No fim, eram oito adultos e quatro crianças do reino do norte, Zareph permaneceu alguns segundos em silêncio. Ela não tinha uma resposta pronta, na verdade, nem havia pensado naquela possibilidade.

Levá-los até Altheria significava atravessar praticamente metade do continente. Exigia dinheiro, comida, rotas seguras…

Ela fez as contas quase por instinto.

Depois respondeu:

— Não posso prometer isso agora.

Alguns rostos voltaram a baixar, Ela continuou antes que interpretassem aquilo como uma recusa.

— Mas vou verificar se é possível.

Era pouco.

Mas era a única resposta honesta que podia dar.

Ela respirou fundo.

— Existe outra opção.

Agora todos voltaram a olhar para ela.

— Estamos formando uma organização.

Apontou discretamente para os meio-Rum’brath reconstruindo a base.

— Eles fazem parte dela.

Depois apontou para o rapaz sentado perto do poço, cercado pelas duas crianças.

— Ele também.

Fez uma pequena pausa, procurando as palavras certas.

— Não quero que ninguém aceite por gratidão.

Aquilo saiu mais seco do que ela pretendia, Ela tentou novamente.

— Se quiserem voltar para casa, façam isso.

Olhou para cada um deles.

— Mas… vocês sabem melhor do que ninguém que existem outros lugares como este.

Sua voz permaneceu baixa.

— Outras pessoas acorrentadas. Outra criança, pai. Outra família.

Ela respirou devagar.

— Se ficarem… vão aprender a lutar. A sobreviver. E, quando conseguirem… vão ajudar a libertar os próximos.

Um rapaz franzino levantou a mão.

— Então vocês são um exército?

— Não.

— Um reino?

Ela balançou a cabeça.

— Não.

Pensou por um instante.

Depois respondeu simplesmente:

— Somos uma organização.

Uma mulher perguntou:

— E como ela se chama?

Zareph olhou de relance para Thamir.

Ele parecia estar distraído, deitado sobre uma carroça. Mesmo assim, respondeu sem nem levantar a cabeça.

— O Pardal.

As pessoas trocaram olhares.

O nome ainda não significava nada.

Mas Naira teve a estranha impressão de que, um dia, significaria.

Zareph voltou a encará-los.

— Não respondam agora.

Ela cruzou os braços.

— Vocês passaram tempo demais obedecendo ordens para tomarem uma decisão dessas em alguns minutos.

Fez um gesto simples em direção às cabanas.

— Descansem, comam, conversem, amanhã de manhã me deem uma resposta. Quem quiser partir… parte, quem quiser ficar…

Ela hesitou por um instante, procurando uma conclusão, mas acabou desistindo de enfeitá-la.

— …fica.

Virou-se e saiu andando, era exatamente o tipo de encerramento que Naira esperava dela.

Ela nunca foi boa com palavras. Mas sempre foi boa em deixar que as pessoas escolhessem o que fazer com a verdade.

A decisão era deles.